ARPAD SZENES
Marina Bairrão Ruivo
Em Novembro de 2004, a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva comemorou o 10º aniversário da abertura ao público do Museu, com uma importante exposição de Vieira da Silva, Vieira da Silva nas colecções internacionais, que deveria ter sido -seguida de idêntica homenagem a Arpad Szenes. Projecto sempre adiado por razões várias, ficou esta “dívida moral” para com Arpad Szenes cuja obra merece uma revisão e um destaque que se impõem. A ideia inicial de uma rigorosa selecção de obras pertencentes a instituições internacionais e colecções particulares foi posta de lado, também pela proxi--midade das exposições comemorativas do cente-nário do seu nascimento (1997) na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – desenho e na Fundação -Calouste Gulbenkian – pintura.
Ao contrário do que acontece com a obra de Vieira da Silva, a Fundação tem um sólido núcleo de obras de Arpad Szenes. Nestas cerca de 2000 peças em diferentes técnicas e suportes que cobrem toda a sua produção, encontramos os seus vários temas recorrentes, os estudos e as obras finais que ilustram o seu poder criativo, numa evolução sempre aliada à qualidade.
A ideia base desta exposição é mostrar um percurso possível, o processo criativo do artista, agrupando por temas obras de diferentes técnicas mas de correspondências -óbvias, independentemente das datas – muito variáveis – em que -foram rea-lizadas, já que Arpad Szenes reto-mou e reformulou temá-ticas em vários momentos temporais. É um olhar diferente da clássica retrospectiva, que revela a sensível qualidade da obra de Arpad Szenes, a riqueza e varie-dade da colecção da Fundação e a apresentação de várias obras inéditas.
Inseparáveis no nosso pensamento como o foram na vida e na pintura, as obras de Arpad Szenes e de Vieira da Silva, ainda que muito independentes e diferentes, são indissociáveis, alimentadas nas mesmas fontes, num convívio diário – durante 55 anos – estimulante e enriquecedor. Arpad Szenes foi o mestre erudito e atento de Vieira da Silva e por ela, voluntariamente, se retirou para segundo plano. Apesar deste retiro, este exemplo de união, marcada pela duração e intensidade, terá o seu desfecho no destino pictórico notável de cada um. A corres-pondência entre pinturas situa-se talvez para lá do ponto de vista formal, residindo num entendimento partilhado da arte, na atitude exigente e nas interrogações plásticas que cada um resolveu à sua maneira. Foi talvez nos anos 30 que as obras de ambos apresentaram mais em comum como a economia de meios ou a mesma gama cromática. Os retratos que um fez do outro são outro importante elo de ligação.
Desde 1930 que Arpad Szenes desenhou e pintou exaustivamente a sua mulher, mas os melhores retratos datam seguramente do período de exílio no Brasil (1940-1947). Calma e silenciosa, concentrada no seu trabalho, Maria Helena foi o modelo ideal, o tema perfeito, conjugando o amor pela arte e o amor pelo objecto. Vieira não posa, é surpreendida, absorta no seu trabalho, envolvida no mistério que seduz -Arpad. Dessa época datam também os desenhos e óleos retratando o casal (Le Couple) que é talvez o primeiro de uma série de temas de eleição que servem de pretexto para investigações plásticas e variações estéticas posteriores (Conversations, a partir de 1945 e Banquets, a partir de 1948). A influência do surrealismo é evidente nas séries temáticas que se seguiram como Cerfs-volants (papagaios de papel), Caparica ou Hommes-Trompettes. A este surrealismo inquieto associa-se a apre--ensão provocada pela sombra da II Grande Guerra que Arpad tenta exorcizar através da ironia.
A estadia no Brasil, de 1940 a 1947, marcou de forma clara a pintura de Arpad Szenes, que se tornou mais íntima e familiar. Para além do retorno à figuração, Arpad alimenta a sua investigação plástica em ilustrações de obras literárias, actividade que lhe garantiu o sustento e que se revelou particularmente adaptada à sua sensibilidade.
Após o regresso a Paris, Arpad Szenes executa inúmeras variações em torno das séries Conversations e Banquets. Depois de uma geometrização e da tendência para a abstração, as formas tendem a aligeirar, a cor a desvanecer. A composição vai dar lugar a uma evocação, numa espécie de suspensão temporal. Num contexto mais abstracto, Arpad Szenes concentra-se nas paisagens imaginadas, metafóricas, nas sensações de luz e na exploração da atmosfera.
Os anos 60-80 são de intensa produção em que a organização lumínica e rítmica rege a sua pintura, lentamente elaborada em longos formatos horizontais ou verticais que revelam uma delicadeza espacial sugerida pela arte japonesa. Os guaches e as temperas tornam-se importantes, sendo as técnicas que melhor traduzem a pesquisa da luminosidade e da sugestão. Estas paisagens imagi-nadas evocam um espaço infinito, estratificado, um espaço sem limites. A cor contribui para a sensação de espaço espiritual, explorando a lumi-nosidade que a pintura evoca: o branco e as suas variações de cinzentos, azuis, ocres ou amarelos.
A obra de Arpad Szenes foi várias vezes referida como silenciosa, evo-cativa, obedecendo a um ritmo interior. Alusivos a sítios ou espaços, os títulos têm um valor sugestivo e reme-tem para sensações de lugares visitados num tempo indeterminado. A pesquisa paciente e solitária deste pintor notável, que cresceu em depuramento e despojamento, revela uma visão do mundo extremamente subtil. Apesar do percurso marginal, da modéstia e discrição que o carac-terizaram, Arpad Szenes não ignorou as vias contemporâneas do seu tempo. Foi por opção e temperamento que se centrou numa via silen-ciosa e interiorizada. Vieira da Silva alcançou maior protagonismo, sem rivalidades – porque Arpad foi também autor de uma obra notável. A relação destas duas pinturas é fundamentada na unidade, numa extrema espiritualidade, cada uma iluminando a outra.
Em Novembro de 2004, a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva comemorou o 10º aniversário da abertura ao público do Museu, com uma importante exposição de Vieira da Silva, Vieira da Silva nas colecções internacionais, que deveria ter sido -seguida de idêntica homenagem a Arpad Szenes. Projecto sempre adiado por razões várias, ficou esta “dívida moral” para com Arpad Szenes cuja obra merece uma revisão e um destaque que se impõem. A ideia inicial de uma rigorosa selecção de obras pertencentes a instituições internacionais e colecções particulares foi posta de lado, também pela proxi--midade das exposições comemorativas do cente-nário do seu nascimento (1997) na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – desenho e na Fundação -Calouste Gulbenkian – pintura.
Ao contrário do que acontece com a obra de Vieira da Silva, a Fundação tem um sólido núcleo de obras de Arpad Szenes. Nestas cerca de 2000 peças em diferentes técnicas e suportes que cobrem toda a sua produção, encontramos os seus vários temas recorrentes, os estudos e as obras finais que ilustram o seu poder criativo, numa evolução sempre aliada à qualidade.
A ideia base desta exposição é mostrar um percurso possível, o processo criativo do artista, agrupando por temas obras de diferentes técnicas mas de correspondências -óbvias, independentemente das datas – muito variáveis – em que -foram rea-lizadas, já que Arpad Szenes reto-mou e reformulou temá-ticas em vários momentos temporais. É um olhar diferente da clássica retrospectiva, que revela a sensível qualidade da obra de Arpad Szenes, a riqueza e varie-dade da colecção da Fundação e a apresentação de várias obras inéditas.
Inseparáveis no nosso pensamento como o foram na vida e na pintura, as obras de Arpad Szenes e de Vieira da Silva, ainda que muito independentes e diferentes, são indissociáveis, alimentadas nas mesmas fontes, num convívio diário – durante 55 anos – estimulante e enriquecedor. Arpad Szenes foi o mestre erudito e atento de Vieira da Silva e por ela, voluntariamente, se retirou para segundo plano. Apesar deste retiro, este exemplo de união, marcada pela duração e intensidade, terá o seu desfecho no destino pictórico notável de cada um. A corres-pondência entre pinturas situa-se talvez para lá do ponto de vista formal, residindo num entendimento partilhado da arte, na atitude exigente e nas interrogações plásticas que cada um resolveu à sua maneira. Foi talvez nos anos 30 que as obras de ambos apresentaram mais em comum como a economia de meios ou a mesma gama cromática. Os retratos que um fez do outro são outro importante elo de ligação.
Desde 1930 que Arpad Szenes desenhou e pintou exaustivamente a sua mulher, mas os melhores retratos datam seguramente do período de exílio no Brasil (1940-1947). Calma e silenciosa, concentrada no seu trabalho, Maria Helena foi o modelo ideal, o tema perfeito, conjugando o amor pela arte e o amor pelo objecto. Vieira não posa, é surpreendida, absorta no seu trabalho, envolvida no mistério que seduz -Arpad. Dessa época datam também os desenhos e óleos retratando o casal (Le Couple) que é talvez o primeiro de uma série de temas de eleição que servem de pretexto para investigações plásticas e variações estéticas posteriores (Conversations, a partir de 1945 e Banquets, a partir de 1948). A influência do surrealismo é evidente nas séries temáticas que se seguiram como Cerfs-volants (papagaios de papel), Caparica ou Hommes-Trompettes. A este surrealismo inquieto associa-se a apre--ensão provocada pela sombra da II Grande Guerra que Arpad tenta exorcizar através da ironia.
A estadia no Brasil, de 1940 a 1947, marcou de forma clara a pintura de Arpad Szenes, que se tornou mais íntima e familiar. Para além do retorno à figuração, Arpad alimenta a sua investigação plástica em ilustrações de obras literárias, actividade que lhe garantiu o sustento e que se revelou particularmente adaptada à sua sensibilidade.
Após o regresso a Paris, Arpad Szenes executa inúmeras variações em torno das séries Conversations e Banquets. Depois de uma geometrização e da tendência para a abstração, as formas tendem a aligeirar, a cor a desvanecer. A composição vai dar lugar a uma evocação, numa espécie de suspensão temporal. Num contexto mais abstracto, Arpad Szenes concentra-se nas paisagens imaginadas, metafóricas, nas sensações de luz e na exploração da atmosfera.
Os anos 60-80 são de intensa produção em que a organização lumínica e rítmica rege a sua pintura, lentamente elaborada em longos formatos horizontais ou verticais que revelam uma delicadeza espacial sugerida pela arte japonesa. Os guaches e as temperas tornam-se importantes, sendo as técnicas que melhor traduzem a pesquisa da luminosidade e da sugestão. Estas paisagens imagi-nadas evocam um espaço infinito, estratificado, um espaço sem limites. A cor contribui para a sensação de espaço espiritual, explorando a lumi-nosidade que a pintura evoca: o branco e as suas variações de cinzentos, azuis, ocres ou amarelos.
A obra de Arpad Szenes foi várias vezes referida como silenciosa, evo-cativa, obedecendo a um ritmo interior. Alusivos a sítios ou espaços, os títulos têm um valor sugestivo e reme-tem para sensações de lugares visitados num tempo indeterminado. A pesquisa paciente e solitária deste pintor notável, que cresceu em depuramento e despojamento, revela uma visão do mundo extremamente subtil. Apesar do percurso marginal, da modéstia e discrição que o carac-terizaram, Arpad Szenes não ignorou as vias contemporâneas do seu tempo. Foi por opção e temperamento que se centrou numa via silen-ciosa e interiorizada. Vieira da Silva alcançou maior protagonismo, sem rivalidades – porque Arpad foi também autor de uma obra notável. A relação destas duas pinturas é fundamentada na unidade, numa extrema espiritualidade, cada uma iluminando a outra.

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