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HORIZONTE DE OPORTUNIDADES
NOVA LISBOA
PAULO CALDAS
25 DE ABRIL - FOI COISA BOA PARA A GENTE DO CAMPO
NA HORA DA MUDANÇA PARA UMA NOVA REALIDADE
POR ESTES RIOS ACIMA
O CASTELO NO SEU TRONO
UM ITALIANO EM LISBOA
JOSÉ AFONSO - A GEOGRAFIA DE UMA VIDA
SANTARÉM
HORIZONTE DE OPORTUNIDADES
António Fonseca Ferreira
No QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional – estão consignados desígnios estratégicos que visam a superação dos constrangimentos que nos têm impedido de alcançar um patamar de desenvolvimento e de competências que nos coloquem a par das áreas europeias mais desenvolvidas.
Na Região de Lisboa e Vale do Tejo, com o apoio dos Fundos Estruturais e do Fundo de Coesão, queremos que no período 2007-2013 se promovam estratégias e projectos que consubstanciem melhorias evidentes em três domínios de intervenção – o potencial humano, os factores de competitividade e a valorização territorial. A promoção das qualificações profissionais, a promoção do emprego, apoio ao empreendedorismo, inclusão e desenvolvimento social, são algumas das vertentes a que a Agenda
Operacional para o Potencial Humano irá dar relevância.
Estimular a qualificação do tecido produtivo, apoiar a inovação tecnológica, apoiar a
renovação do modelo empresarial são rumos traçados na Agenda para os Factores de Competitividade que, para conhecer sucesso na sua implementação, terá de ter em conta um terceiro vector de actuação, e que se prende com a Agenda para a Valorização do Território, que prevê a criação de melhores condições de atractividade para o investimento produtivo, melhores condições de vida para as populações, dotação de equipamentos e infra-estruturas essenciais à qualificação do território.
São estes os instrumentos que nos vão permitir criar condições para que a Região de Lisboa e Vale do Tejo veja reforçada a sua notoriedade e atractividade, por forma a atingir a sua plena integração na economia global e na sociedade do conhecimento. Daí a nossa firme aposta para que em 2013 a Região se encontre mais coesa, e tenha a relevância que merece no contexto europeu, nomeadamente como destino turístico de negócios e de lazer cultural.
A qualificação das orlas costeiras, dos estuários do Tejo e do Sado, do Arco Ribeirinho Sul e os novos projectos ribeirinhos de Lisboa – Pedrouços – Dafundo; a zona de Belém e, por fim, Cais do Sodré – Sta Apolónia.
Este ciclo de desenvolvimento terá uma outra “frente” de grandes mudanças previstas para a Região Oeste e Vale do Tejo, com a construção do novo aeroporto da Ota e dos trabalhos para o TGV. O aeroporto vai criar condições para que na sua envolvente se instalem novas actividades produtivas e plataformas de logística essenciais como suporte ao impulso de novos pólos de inovação e a consequente requalificação dos recursos humanos. A título de exemplo podemos falar na instalação, em Abrantes, do Tagus Valley e de unidades de ID, em Santarém, na área de agropecuária e em Alcobaça, na área da hortifruticultura.
Também esta região irá acolher unidades de produção de energias limpas, tais como a energia eólica, a biomassa e biocombustíveis, enquadradas numa visão de preservação dos recursos naturais, de correcção dos erros que criaram situações inaceitáveis para um desenvolvimento sustentado e para a vida das populações.
Também terão de ser postas em execução novas regras para o desenvolvimento urbanístico desta região, preservando não só a agricultura e a produção dos seus produtos de qualidade, mas apostando também na qualidade dos empreendimentos a construir e nas actividades de lazer, adequados à exigência do mercado turístico que se pretende captar e fidelizar numa perspectiva de desenvolvimento sustentável.
Estas mudanças inadiáveis para o nosso território exigem profundas alterações nos hábitos culturais, de comportamentos e mentalidades que até hoje têm impedido maiores progressos na nossa sociedade e regiões. Mudanças que têm de abranger as responsabilidades cívicas, institucionais, associativas e empresariais. No sentido da “disseminação” de uma cultura e ética da meritocracia e da eficiência organizacional e gestionária.
A criação de melhores condições de governabilidade para o território e as cidades, e o desenvolvimento de modernas modalidades de governança, envolvendo os cidadãos e as instituições são, também, requisitos fundamentais para o desempenho e o sucesso dos desígnios estratégicos definidos.
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NOVA LISBOA
Fernanda Câncio
Fotografia António SacchettiA ideia de que a capital está deserta e que não atrai novos habitantes, continuando a perdê-los para as periferias, é, de tão repetida, uma “verdade indiscutível”. E o que sucede com as verdades indiscutíveis é, precisamente, que ninguém as discute. O que tem várias consequências. Uma é que ninguém parece atentar aos sinais que a podem contraditar. Outra é o tardar no arranque de políticas públicas que acompanhem esses sinais. É tempo de fazer reset: as notícias da morte desta cidade podem ter sido muito exageradas.
Há de cada vez que se fala de Lisboa um estribilho repetido como um mantra, em tom de lamento. Que Lisboa “perdeu muita gente”, que Lisboa sofreu uma sangria de centenas de milhar de habitantes nas últimas décadas. Que o centro de Lisboa é um deserto, que a cidade caminha para a morte.
As estatísticas, supostamente, não mentem. Lisboa perdeu, em vinte anos, centenas de milhar de habitantes. Foram, dizem os estudos, para a periferia, para os círculos concêntricos de urbanizações em cadeia que nas últimas décadas cercaram a cidade e fizeram a “Grande Lisboa”.
Há mesmo projecções que garantem que dentro de escassos quatro anos a capital será substituída por Sintra como o concelho mais populoso de Portugal. Destino que, de resto, o Porto já conheceu em relação a Vila Nova de Gaia.
Ninguém diria tal, é certo, apenas por circular por Lisboa, usar os seus transportes públicos ou calcorrear os seus passeios – para qualquer lisboeta ou visitante, a cidade parece cada vez mais cheia de automóveis e gente, cada vez menos pródiga em “lugares para os carros” e em zonas de tranquilidade para os peões, cada vez mais plena nos seus restaurantes, bares e áreas de lazer. Por outro lado, há, indesmentível, a lenta requalificação do centro – o tal sempre tão lamentosamente desértico centro –, os prédios que reganham cor nas fachadas e luz nas janelas à noite, os andaimes aqui, depois ali, depois acolá, as novas lojas, os novos restaurantes, os novos cafés, os “condomínios privados” que enchem as secções de imobiliário dos jornais e vão surgindo em antigos armazéns, conventos, quartéis, ex-“villas populares”, e cuja oferta sucessiva parece corresponder a uma sólida procura de habitação “com requisitos” (leia-se: segurança, piscina, áreas verdes, cachet) na cidade.
Não se sabe, ou pelo menos não é conhecido publicamente, quem são os compradores desses empreendimentos. Se eram já habitantes da cidade ou se vêm “de fora”. Se são jovens proprietários da primeira habitação ou gente “de meia idade” que largou a sua morada anterior por outra considerada melhor.
Não se sabe quantas novas habitações se ofereceram assim, nos tais novos condomínios, e se requalificaram nas chamadas “zonas nobres”, e se ergueram em novos empreendimentos, nos últimos anos, e quantos novos habitantes as ocuparam. Não se sabe se estremecem os números, se acrescentam na contagem. Talvez sejam poucos, demasiado poucos para fazer diferença na sangria.
Ou talvez seja cedo para aferir o virar da tendência que em Lisboa, como em muitas outras cidades da Europa onde a saída para as periferias foi recentemente contrariada por um repovoar dos centros, deverá começar a ser sensível. Afinal, a contagem faz-se pelo recenseamento, e muitos habitantes das cidades mantêm-se recenseados em antigas moradas, não raro nas localidades onde nasceram ou cresceram, muitas vezes a bastos quilómetros de distância. Razão pela qual é difícil certificar o número exacto de habitantes de metrópoles como Lisboa e Porto, onde muitos lisboetas e portuenses eram há cinco, dez, vinte anos bracarenses, escalabitanos, covilhanenses, ou mesmo suburbanos de Alverca, Vila Franca de Xira, Maia. Porque o caminho inverso da sangria também se faz. Também há quem procure a cidade-cidade para morar, vindo das suas franjas. Para não falar dos que vindos de São Tomé, Angola, Moldávia ou Ucrânia, Xangai ou Caxemira, ocupam pensões, quartos alugados, camaratas ou chãos de loja um pouco por todo o lado – mas esses, sabe-se, nunca são contabilizados como “habitantes” nem acolhidos como indício de repovoamento, mesmo se asseguram, com a sua presença, o cosmopolitismo de uma cidade cuja memória convoca os sete mares e a largueza do mundo.
Todos os inquéritos de opinião são unânimes em certificar que o gosto de viver nos centros, em zonas com história, com personalidade e alma, é assumido por uma crescente quantidade de pessoas, nomeadamente entre as camadas mais jovens e com mais recursos. Que, para além de apreciarem a arquitectura da cidade consolidada, secular, também rejeitam os longos movimentos pendulares que fazem da existência dos que vivendo fora da cidade nela trabalham um martírio de idas e vindas, de horas e horas no trânsito, de gastos exorbitantes em combustíveis, com a decorrente sobrecarga ambiental e empobrecimento pessoal e relacional. Viver no centro é ter mais tempo para viver, para estar. É ter acesso permanente a todas as ofertas de lazer de uma grande cidade – uma oferta sentida como uma vantagem, mesmo que pouco ou nada desfrutada.
E pur si muove
Existe, pois, a apetência para o “regresso” à cidade. E existe também, à vista, uma requalificação e uma repopulação do centro de Lisboa que tem partido sobretudo da inicitativa privada, individual ou empresarial. Em dez anos, prédios, ruas e bairros semidesertos do coração da capital, onde viviam quase só idosos, foram ocupados por jovens. A Baixa, repetidamente apontada como o exemplo mais simbólico da morte do centro, tem sido alvo de um movimento, lento mas assinalável, de recuperação do edificado e de repopulação, com novos habitantes entre os 20 e os 45 anos, um nível cultural e económico médio alto e uma clara paixão pela cidade “velha”. O Chiado é, neste momento, a zona mais cara de Lisboa, disputada pelas imobiliárias. O Bairro Alto anuncia um condomínio privado – mais um – num antigo convento, o dos Inglesinhos (projecto que de resto suscitou celeuma). A zona de São Paulo, de Santos e de Alcântara são objecto de projectos urbanísticos de vários tipos e valências, um dos quais assinado por Norman Foster, todos com uma percentagem importante de habitação. O tempo dos projectos imobiliários exclusivamente terciários para o centro acabou. Os grandes conglomerados de escritórios, as empresas maiores, têm vindo a procurar as zonas de periferia.
É pouco, dir-se-á. Ainda não se assiste à desejável onda inversa. A Lisboa velha ainda não se transformou numa nova Lisboa, que, encenando no nome o eco das velhas migrações e descobrimentos, ressuscite a imagem de uma cidade dada como morta. Será? Da zona design de Santos aos bares da Bica, da repopulação da Sé e da Madragoa à requalificação da Baixa, prédio a prédio, quarteirão a quarteirão, das lojas e hotéis up-scale da Avenida da Liberdade aos quatro mil euros do metro quadrado de habitação no Chiado, Lisboa antiga mexe, renasce, revive. Está decerto por fazer a contagem e caracterização dos lisboetas que adormecem e acordam nessa nova velha Lisboa, mas o sentido da escolha, como a escolha do sentido, são claros.
O que falta, então, não é a vontade de ser lisboeta, de viver em Lisboa, mas a certeza de que Lisboa, a estrutura autárquica, a governação, acolhe e encoraja essa vontade. Que os habitantes do centro não vão continuar a ouvir que não existem e a ser tratados como se não existissem. Que os problemas específicos de um centro sem garagens serão rapidamente tidos em conta no desenho de soluções de estacionamento que não passem por expulsar os peões dos passeios. Que fazer obras num prédio antigo ou construir uma casa de banho num apartamento do século XVIII não seja um massacre de anos em vistorias, papeladas e projectos sobre projectos. Que os cinemas não sobreviverão só nos centros comerciais das avenidas novas, que as escolas não ficarão todas a milhas do centro, que haverá equipamentos para crianças e mercados de frescos no miolo da capital. Que passear um carrinho de bebé na Lisboa velha não seja uma tão grande impossibilidade que Lisboa perca a chance de ser nova a sério, como só uma cidade com bebés pode ser.
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PAULO CALDAS
Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo
Ana Sousa Dias
Fotografia Luísa FerreiraO gabinete é formal, com a decoração típica – a fotografia do Presidente da República, a secretária com móveis clássicos, uma mesa de reuniões, muitos papéis, muitos livros, a maqueta de um grande projecto. Quando se sai para a varanda, o amplo panorama explica o entusiasmo do economista que preside à Câmara Municipal do Cartaxo desde 2001, depois de dois anos na vice-presidência. Paulo Caldas, 34 anos, nascido em Moçambique e radicado na lezíria ribatejana desde os três, com uma interrupção para os estudos universitários em Lisboa, diz “esta é a minha terra” com a mesma segurança que terá para falar – muito e muito depressa – ao longo de toda a entrevista. E a “terra” de Paulo Caldas é um município com 25 mil habitantes que se encontra hoje entre os 36 do país com mais receitas do que cobrança fiscal.
Paulo Caldas, 34 anos, economista
“Gosto do que faço. Gosto das equipas, gosto do mundo autárquico. Ser autarca é ser um político diferente, muito próximo das pessoas. Temos um contacto directo com os problemas, com as necessidades, com as ambições, com as críticas. Não dá para ir ao café sem ouvir as pessoas e isso é bom, não é? Apanhamos o bom e também aquilo que não gostamos de ouvir. É uma forma nobre de estar na política. Costumo dizer que gosto mais de ser autarca do que político. Neste momento, acho que é uma aprendizagem interessante.
Isto permite-nos idealizar, projectar, conceber, fazer, há aqui um encontro das diferentes realidades, não estamos num só plano. É uma máquina pesada, sendo uma máquina do Estado. A Câmara do Cartaxo conta com 360 colaboradores, é uma grande empresa que tem de corresponder aos seus clientes, aos 25 mil munícipes. Tem de haver um encontro entre a capacidade destes trabalhadores gerirem o melhor possível a empresa, para responderem às necessidades, às ambições e até dar mais aos munícipes, dar-lhes qualidade de vida, puxá-los para aí, esse é o grande objectivo. É interessante ser gestor desta empresa. É ser ao mesmo tempo um gestor social, um gestor político, atento aos pequenos pormenores porque as pessoas, felizmente, estão cada vez mais exigentes.
Nós temos de dar respostas muito concretas, no arranjo dos jardins, na limpeza das ruas, na mobilidade, na acessibilidade aos sítios públicos e privados, e também para que as pessoas tenham emprego o mais próximo possível. Há aqui um conjunto de realidades que interagem, e é neste todo que o mundo autárquico vive e convive.”
Quando, em 1998, chegou à Câmara Municipal do Cartaxo, as infra-estruturas básicas já estavam resolvidas ou ainda era preciso a Câmara iniciar algumas?
Sessenta por cento das infra-estruturas básicas estavam consolidadas. Desde o 25 de Abril até aos dias de hoje, temos dois planos de intervenção na vida autárquica, globalmente. O primeiro é o do “hardware”, o período da consolidação e da estabilidade democrática, dos finais da década de setenta até 1986, ao primeiro Quadro Comunitário de Apoio. Nesse período, as pessoas aprenderam a conviver com uma política e um político próximos de si, de uma forma democrática. De então até 2000, deu-se a consolidação das infra-estruturas fundamentais – ainda estamos a falar do tal “hardware” – o saneamento básico, a água, os caminhos, a electricidade, as estradas arranjadas, os caminhos beneficiados. Era essa a expectativa das pessoas.
Por volta de 2002, entrou-se num plano em que já não importava somente a construção infra-estrutural. As pessoas começaram a pretender e a exigir o seu bem-estar – os parques infantis, os parques municipais, as zonas verdes, instalações para o desporto, o pavilhão desportivo, um centro cultural, escolas modernas, dotadas de novas tecnologias, equipamentos para os mais idosos.
Esta Câmara estava preparada para reagir a essas novas exigências?
Batalhámos bastante, houve um quadro preparatório que permitiu que o Cartaxo agarrasse esses desafios. No meu primeiro mandato, conseguimos fazer o Centro Cultural [projecto do arquitecto Diogo Burnay], o estádio municipal, os acessos à auto‑estrada, começar a projectar as áreas empresariais. Quando vêm para cá morar, as pessoas pretendem ter essa panóplia de serviços.
Em grande parte do país o mundo autárquico foi-se adaptando a esta realidade. Ao contrário do que por vezes as pessoas pensam, ser autarca não é ser simplesmente um fazedor de rotundas.
E fez alguma?
Fiz muitas rotundas, incluindo as dos acessos da auto-estrada, e estamos a tematizá-las: numa delas pusemos uma oliveira, noutra plantámos uma videira – o Cartaxo é a Capital do Vinho. Com cinco mil euros, conseguimos fazer rotundas bonitas e baratas, que têm que ver com a terra, ligam as pessoas à terra, fortalecem e valorizam a sua identidade.
Nós não podemos vender qualidade de vida só com equipamentos sociais. Há uma ligação afectiva que se estabelece, a pessoa sente‑se integrada e por isso sente-se bem, assim como se sente bem quando vê as ruas limpas, os jardins arranjados, os loteamentos ordenados. E é daqui para a frente que temos de começar a construir as nossas terras.
As estações de tratamento têm de existir, as linhas de água têm de estar valorizadas, tem de haver os equipamentos sociais. O que nos resta fazer? O autarca tem de ser um fazedor de ambições, de concretizações de bem-estar.
As orientações do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) vêm nesse sentido?
Vêm. Desde o FEDER tradicional [1986], as necessidades de financiamento para a construção das infra-estruturas básicas e, depois, dos equipamentos sociais, chega agora aquilo a que eu chamo o “software”. Os quadros comunitários de apoio e, agora, o QREN, têm vindo a ser uma adaptação inteligente das necessidades para cada um dos tempos.
Uma autarquia que não tenha apostado nas infra-estruturas básicas vai ter muita dificuldade em financiar-se pelo QREN. Esta será a última oportunidade, porque hoje o que importa é criar centros escolares de “know-how”, de valor acrescentado, apostar na formação, na empregabilidade, e ainda bem. É aí que temos de nos situar. Hoje o que importa é dotar as terras de eixos de inovação e de competitividade, de áreas empresariais modernas. Não são as antigas áreas industriais, hoje isso não faz sentido.
Porquê?
Porque nos deslocam para as indústrias pesadas, para as logísticas. Precisamos de ter mais: áreas da inovação, parques de ciência e tecnologia, empresas modernas de mão-de-obra qualificada e tecnologia avançada.
Hoje em dia, tal como o próprio QREN configura, um município não pode funcionar sozinho, funciona em intermunicipal. A região é um todo. As acessibilidades colocam-nos hoje a 30 minutos de Lisboa. Daqui a cerca de dez anos, estaremos a 15 minutos do aeroporto internacional da Ota.
Temos de pugnar por essa especialização, essa capacidade de os municípios se entenderem entre si para criarem esses vectores de valor acrescentado.
Com que municípios tem esse entendimento?
Nós temos um entendimento básico, nuclear, com os onze municípios da Lezíria do Tejo, esse é o nosso eixo de entendimento fundamental. O município do Cartaxo – tenho de puxar a brasa à minha sardinha… – está situado no centro de um mundo de três milhões de habitantes, englobando a Grande Lisboa, a península de Setúbal, o pinhal litoral, o Oeste, o Médio Tejo e a Lezíria.
Qual é a vantagem que as pessoas têm em viver aqui?
Qualidade de vida. E vão ter cada vez mais vantagem porque vamos pugnar por um conjunto de dinâmicas sociais, pela valorização ambiental, pela qualificação territorial, por um ordenamento. Vamos lutar por um aproveitamento da lezíria, reforçar a identidade por exemplo através do turismo rural das casas agrícolas, de actividades ligadas à Rota do Vinho. Há aqui uma panóplia de actividades a reforçar, umas ligadas ao turismo activo, outras ligadas à cultura. No centro cultural temos espectáculos de tanta qualidade como se vê em Lisboa, ligados à Artemrede.
Quantos lugares tem o auditório do Centro Cultural?
São 345 lugares, com uma média de 220 por espectáculo, todos os fins-de-semana. Temos uma grande diversidade de públicos porque apostámos uma oferta cultural variada: desde o jazz à ópera, à dança, à música, à cultura popular, às crianças, aos ateliers de formação de jovens, exposições, ao cinema alternativo.
Cada vez mais os autarcas têm de apostar seriamente em afirmar as suas terras como centros de bem-estar, de qualidade de vida. É por aí o caminho. Felizmente, estas apostas vão existindo pelo país fora, independentemente dos partidos: valorização patrimonial como em Óbidos, qualificação e ordenamento territorial e ambiental, como no Médio Tejo, em Abrantes, valorização das margens ribeirinhas, como em Salvaterra, Constância, Vila Nova da Barquinha. Aqui no Cartaxo, com Santarém e a Azambuja estamos a apostar nisso, com a criação do ciclodique – 30 quilómetros de circuito de bicicleta por cima do dique, a ver de um lado o rio e do outro lado o campo.
E estas opções podem ser financiadas através do QREN?
As autarquias convivem com a opção de aproveitar o QREN para fazer o que os três eixos temáticos configuram, e têm de fazê-lo em rede. Os planos estratégicos das NUTS III [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos] estão todos a adaptar-se a isso. Os projectos têm de ser exigentes, porque vai haver uma grande selectividade e vão ter de encaixar-se ou na coesão territorial/valorização ambiental, ou na inovação e competitividade, ou na qualificação e empregabilidade.
Na minha opinião, para se prepararem para a existência do aeroporto da Ota e para se adaptarem à influência de uma Lisboa tão próxima, o Oeste, a Lezíria, o Médio Tejo e toda a zona da península de Setúbal e o pinhal litoral, têm de apostar num aspecto fundamental: diferenciação.
Diferenciação em relação a quê? Entre elas?
Em relação a Lisboa. E entre elas pela diversidade, por aquilo que de complemento podem oferecer – turismo, lazer, qualidade de vida, golfe, cavalos, vinho, gastronomia, hotelaria, património, mobilidade, aquilo que cada uma delas puder oferecer de melhor. Com a Ota, vai existir uma cidade aeroportuária que envolve três milhões de habitantes, um terço da população do país.
A Ota vai permitir puxar o desenvolvimento para norte. Lisboa vai ter dias melhores do que vive hoje, em termos de estabilidade, e tem potencialidades para se configurar como uma boa cidade europeia. Mas pode viver e conviver com toda uma estrutura que a rodeia e que permite complementaridades. Que italiano, que francês, que espanhol não gosta de passear por Lisboa e dar um salto ao Algarve, mas também de ir a Óbidos ou ao Cartaxo visitar a margem ribeirinha do Tejo, ou ir a Scalabis e visitar o património gótico? Há que favorecer este eixo de complementaridades. É assim que uma grande cidade aeroportuária se consubstancia e se valoriza.
O QREN é a base do financiamento de uma estratégia mobilizadora desta natureza, se apostarmos num puzzle feito de diversidade.
Nesse sentido, as questões que dizem respeito à educação e à formação profissional que importância assumem?
Todos os municípios da Lezíria têm a carta educativa devidamente homologada e consolidada. Cada um dos autarcas tem uma noção muito responsável e muito concreta do que vai ser o desafio a 15 anos neste campo, envolvendo creche, pré-escolar, ensino básico e alguns com ensino superior ou profissional.
O Cartaxo tem, em parceria com a NERSANT [Associação Empresarial da Região de Santarém], um projecto para lançar o empreendedorismo no concelho, com a criação de uma escola de pós‑graduação, em parceria também com o Instituto Superior de Economia e Gestão.
Temos também parcerias com a Escola Profissional de Salvaterra de Magos e com a Escola Superior de Gestão de Santarém. Não descuramos a hipótese, de vir a ter um núcleo de um instituto de ensino superior, no futuro parque de ciência e tecnologia.
Estamos a trabalhar nesta área em ligação com as empresas. Por exemplo a Tagusgás vai localizar-se junto ao nó directo de acesso à A1 e estamos a trabalhar para que, conjuntamente com a EDP e com o ISEG, se faça uma parceria para a criação de formação na área das energias, das fontes energéticas.
Isso corresponde a grandes investimentos?
Temos uma pequena grande ambição: até 2020, concretizamos 165 milhões de euros de investimento público, neste concelho. E este valor é multiplicado por cinco se considerarmos o investimento privado. São números que parecem exorbitantes mas que são concretizáveis quando tivermos duas áreas empresariais, uma junto ao nó de acesso directo à A1 e outra junto à outra acessibilidade a sul. Há grupos económicos que estão a procurar-nos, graças à nossa centralidade geográfica. Mas esta filosofia exige sustentabilidade. Não queremos empresa poluentes, queremos empresas que apostem nas novas tecnologias, na educação e na qualificação, e temos também o factor educativo a ser potenciado.
No fundo, as linhas do QREN adaptam-se às vossas próprias linhas de orientação?
O caminho que as autarquias têm de tomar é esse. E lanço um apelo ao Governo para que aposte numa estratégia de diferenciação da nossa zona, não exaurindo recursos daqui para potenciar o desenvolvimento de Lisboa.
Abraçar um desenvolvimento complementar é uma atitude inteligente. A capital ganha muito com esta diferenciação e o país também. Porque são três milhões de habitantes servidos com qualidade de vida, e temos condições para isso. Lisboa é uma cidade muito bonita, precisa aliás de ser mais acarinhada, e tem um património notável, a nível europeu. Com a Ota, há a possibilidade de concretizarmos, como poucas cidades na Europa têm, uma cidade aeroportuária, estruturada, com um bom ordenamento das actividades, com coesão territorial, com qualificação, com inovação. E isto é o QREN. Se o QREN, até 2013, nos levar e conduzir esta nossa região grande a este objectivo, devemos congratular-nos. Se não conseguirmos complementar os nossos projectos e criar esta rede regional forte e coesa, aí temos de admitir que não aproveitámos esta oportunidade. O QREN vai por aí. Agora há que decidir, há que trabalhar em conjunto.
Se a Ota não se concretizasse, isso seria negativo para a região, do seu ponto de vista?
Muito. Não acredito que houvesse sustentabilidade numa cidade europeia apenas com o Aeroporto da Portela. A prazo, tinha de ser feita uma estrutura com peso internacional, na área dos aeroportos. E coloco a questão ao contrário: a Ota vai ser muito positiva, se for bem aproveitada, para criar uma nova realidade de ordenamento de actividades e de factores de competitividade que têm de ser explorados e potenciados com o que já existe. A massa crítica pode transformar em oportunidade aquilo que podia ser uma ameaça.
Seria muito negativo não fazer a Ota, a região tinha a perder com isso. Nós temos exemplos – França, Espanha, Alemanha, Suíça – em que a existência de uma obra pública notável desta natureza, que neste caso até aparece conjugada com o TGV, cria um impacto de desenvolvimento de décadas, com um enorme efeito catalizador.
Infelizmente, os portugueses têm um grande mal que é a inveja, a mediocridade. Mas têm um segundo grande mal, a forma de pensar. Antes de tomarmos uma decisão, temos dúvidas. Com a decisão tomada, temos dúvidas. E depois, quando a decisão está assumida, quando já se investiram centenas ou milhares de contos, infelizmente nós continuamos a pôr em dúvida. Esta mentalidade tem de deixar de existir. Chegou a altura de começarmos a fazer apostas sérias, responsáveis e avançar, fazer.
Neste caso em concreto, não percebo como é que altas figuras da nação, dirigentes partidários e pessoas com grande nível de responsabilidade no nosso país continuam a duvidar da Ota.
Há uma alteração substancial da composição social do Cartaxo? Nos últimos 20 anos, tornou-se menos rural e mais terciário. Isso pode ser uma preocupação?
Está a acontecer. Naturalmente que se for mal trabalhado é uma ameaça e pode ser grave, do ponto de vista do tecido social e dos impactos que isso tem. Mas o Cartaxo está a conseguir, pelo menos por enquanto e espero que também no futuro, conviver bem nesse misto rural urbano.
O Cartaxo hoje tem uma urbanidade maior, há um rejuvenescimento claro, temos mais de 30 por cento de população jovem. Isso nota-se na comunidade, nas freguesias, é visível a atracção de casais jovens que não são de cá mas que vêm para cá morar atraídos por vários factores.
Quero que o meu concelho seja um centro de qualidade de vida e que tenha duas coisas: áreas empresariais modernas junto aos acessos, e um desenvolvimento urbanístico de qualidade, em que cada loteamento tenha parque infantil, zona verde, zona de serviços com aquilo que a pessoa gosta de ter quando acorda de manhã, beber o café, ir buscar o pão. E ao mesmo tempo garantir uma cércea dominante baixa. Nós temos condições para não estragar isto, porque estivemos até agora fechados, não tínhamos os acessos à auto-estrada, e agora temos de potenciar a qualidade urbanística, para atrair empresas modernas e capazes, com sustentabilidade. Se conseguirmos fazer isto, estamos no bom caminho e isso significa que também aproveitámos o QREN.
Consegue equilibrar isso com a parte rural? Apesar de tudo, esta é, como lhe chama, a Capital do Vinho.
Isso vai acontecendo naturalmente. Não tocamos na lezíria. Da EN3 para lá, o nosso concelho é verde. Não vou desafectar uma única zona de REN [Reserva Ecológica Nacional]. Ninguém tem autorização para fazer no concelho do Cartaxo um loteamento numa zona que não seja servida por água, luz, rede viária, saneamento e recolha de lixo.
Com uma maior escolaridade, com acesso a mais meios de cultura, com modernidade, as pessoas continuam a querer trabalhar no campo?
De uma forma muito objectiva, 40 por cento dessa ruralidade desaparece. E os outros 60 por cento vão qualificar-se, uma vez que , felizmente, vamos tendo essa capacidade e há massa crítica na nossa terra para isso. São exemplos o aparecimento de casas agrícolas com turismo rural, de quintas que exploram o turismo activo para as crianças, os campos de férias. E também a qualificação da vinha: hoje temos menos vinho mas de muito melhor qualidade. Hoje já se bebe um excelente tinto do Cartaxo. Costumo dizer que o vinho do Cartaxo é sexy, porque é um vinho que tem um corpo fantástico, tem 14 graus a 14,5 graus e no entanto é um vinho suave, de qualidade, as senhoras gostam de beber, não sentem que tem 14 graus.
A maqueta que tem aqui em exposição representa o quê?
É o Plano de Requalificação do Parque Central, feito pelo arquitecto Manuel Salgado [Atelier Risco] que está a trabalhar connosco no sentido de converter isto num centro cívico. Temos aqui serviços institucionais – a Câmara, as Finanças, a Polícia, os Correios, o Tribunal – e no mesmo espaço uma área comercial, incluindo o mercado e uma rua de grande comércio que vai ser encerrada ao trânsito, e ainda lugares de lazer como o Centro Cultural, a Praça de Touros e o Ateneu, centro de associativismo. Temos uma panóplia de serviços que é verdadeiramente um centro cívico. Corta-se a estrada nacional, fica uma grande alameda que, tal como todo o centro, fica apenas pedonal, à volta haverá estacionamento à superfície que não conflitua com a via, um parque de estacionamento subterrâneo. Um lugar para andar de bicicleta, com esplanadas na zona central. Este projecto, avaliado em 10 milhões de euros, vai ser concretizado até 2009, no quadro do QREN, se Deus quiser.
Acha que a sua gestão mudou alguma coisa no Cartaxo?
Sim, acho que trouxe uma visão nova. Um conjunto de factores contribuiu para que o projecto do Cartaxo moderno fosse possível de gerir no meu tempo e da minha equipa. Os quadros comunitários ajudaram, o QREN também.
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25 DE ABRIL - FOI COISA BOA PARA A GENTE DO CAMPO
Carla Amaro
Fotografia António SacchettiAlém da conquista de direitos fundamentais, um dos mais importantes impactos da Revolução de Abril de 1974 verificou-se no Poder Local e na sua capacidade de organização para melhorar as condições de vida das pessoas. Foi graças a um Poder Local Democrático que infra-estruturas básicas como a água canalizada, a electricidade e o saneamento chegaram às habitações; que as localidades com menos de 200 crianças puderam ter creches e jardins de infância e outros equipamentos socais. E porque não há “bela sem senão”, ao mesmo tempo acentuava-se nas periferias de Lisboa um fenómeno nascido nos anos 40, 50: a construção clandestina. O poder vivia na rua, não havia casas para todos, o Estado foi incapaz de reprimir um movimento tão alargado. E foi fechando os olhos. Trinta e três anos depois, os habitantes dos bairros que cresceram à margem da lei ainda estão à espera da licença.
Aidade não sabe, mas da revolução que lhe mudou a vida lembra-se como se tivesse sido ontem. “Isso que fizeram lá em Lisboa foi coisa boa para a gente do campo. Foi coisa boa para as mulheres. Foi coisa boa sim.” Maria Luísa Mendes tem 61 anos, se à irmã não falham as contas, e sem registo na memória parece que só mesmo o ano em que nasceu. Como poderia esquecer que o trabalho era o que calhava numa região condenada às oportunidades sazonais? Consoante a época do ano, o pão era ganho a plantar arroz, a apanhar tomate, a desmoitar... No que calhava, mas sempre no campo. Como poderia esquecer que tinha de andar com os filhos atrás e os vigiava à distância, com as costas vergadas e os joelhos enterrados na água lamacenta e debaixo do olhar ameaçador do capataz? “Se alguém ficava para trás um metro, no dia seguinte já não tinha trabalho.” Como poderia esquecer que muitas vezes saía para trabalhar com o coração estrangulado porque não tinha a quem deixar os filhos, e já eram cinco, senão ao cuidado da filha mais velha, quase tão criança como os irmãos?
Creches e jardins de infância só em localidades com 200 ou mais crianças. Uma terra como esta, a única que Maria Luísa conhece, tão bem como a palma das suas mãos, não preenchia os critérios exigidos em tempo de Estado Novo. De resto, não era mal exclusivo de Casebres; todo o país vivia carente destes e de outros equipamentos sociais, em especial nos espaços rurais onde a concentração da população era menor que nas cidades. Em 1973, havia em Portugal apenas 16 creches oficiais, sendo que a totalidade, incluindo as particulares, abrangia somente 0,8% das crianças até aos três anos de idade. Não existiam escolas pré-primárias públicas e as privadas cobriam apenas 35% das crianças dos três aos seis anos. Era este o Portugal do Estado Novo, um país que além de “conservador” e “paternalista” era, como o próprio Salazar o caracterizava, “atrasado”, termo que o ditador considerava “mais lisonjeiro que pejorativo”.
Maria Luísa usufruiu das vantagens de um jardim de infância apenas com o mais novo dos seus filhos. “Já é um homem. Quando ele começou a vir para aqui foi quando eu comecei a ir descansada para a jorna.” De repente, vozes de crianças enchem o salão onde todos os dias da semana, a esta hora, Maria Luísa e outros sessenta homens e mulheres se distribuem pelas mesas para almoçar. No grupo de crianças que em fila indiana atravessa o salão e segue em direcção a uma sala ao fundo encontra-se a neta. “Agora é ela que anda aqui. Está nos tempos livres.” Onde há 30 anos se podia ver dezenas de crianças a brincar e a correr de um lado para o outro, agora são os avós de muitas dessas crianças que enchem este espaço, transformado em centro de dia, creche e jardim de infância, e também ATL para os do ensino básico.
A criação de equipamentos sociais teve repercussões imediatas. Por isso e muito mais é que Maria Luísa não se cansa de dizer que a Revolução dos Cravos “só trouxe coisas boas”. Além de liberdade, e não apenas de expressão, da formação de partidos políticos, da realização de eleições livres, de uma nova Constituição, do direito das mulheres ao voto e da conquista de outros direitos fundamentais, pode-se dizer que um dos mais importantes impactos do 25 de Abril de 1974 verificou-se ao nível do poder local. Foi graças a um poder local democrático – as autarquias foram constitucionalmente consagradas em 1976 e a democracia local foi inaugurada no ano seguinte, com a realização das primeiras eleições autárquicas – que se dotou o país não só de equipamentos sociais, como também de infra-estruturas básicas: rede de água, saneamento, tratamento de lixo, electricidade. Naquela altura quase 50% das casas não tinha água canalizada e em mais de metade não havia electricidade; em 1970, apenas 58% dispunha de esgotos.
Nunca o país em regime democrático terá vivido num “estado de graça” como o que se verificava então. Nenhuma outra questão gerou tanto consenso como esta. Todos os partidos entretanto formados estavam de acordo que fazer chegar a água às torneiras das casas era uma necessidade. A melhoria das condições de vida das pessoas, acabadas de sair de um regime repressivo que durou 48 anos, não era susceptível de conflitos. Já a instalação de equipamentos sociais, por exemplo, embora igualmente necessária, não reuniu tanta concordância como as infra-estruturas básicas. Inclusive, entre a própria população. Nas zonas onde era mais gritante a ignorância e o analfabetismo – quatro anos antes da mudança de regime, 33,6% da população era analfabeta –, a resistência era mais acentuada.
Salete Moura é a educadora de infância que na altura seguiu este processo em Casebres e nas localidades de Alcácer do Sal e Sesimbra e lembra-se das dificuldades que encontrou, por exemplo, em Santa Susana, onde as pessoas foram levadas a Lisboa, à C. Miranda, para escolherem os materiais de alguns equipamentos escolares. “Queriam materiais de gente rica, que pobres já eles eram e estavam fartos. Escolheram tudo em plástico: baloiços, escorregas, mesas, cadeiras. Havia coisas tão bonitas e adequadas para as crianças em madeira e em verga, mas isso era coisa de pobre, diziam, isso já eles tinham.”
Em Casebres, o processo foi mais pacífico. Maria Luísa, antes de se render aos evidentes benefícios, também desconfiou. “A gente na altura tinha outro pensar. Não estava acostumada a deixar os meus filhos com raparigas novas. Levava-os comigo, ou ficavam com a minha mais velha... Também calhava deixá-los numa vizinha mais velhota... ”. Era habitual as crianças ficarem à guarda de mulheres mais velhas ou doentes, mesmo que do ponto de vista pedagógico e à luz dos conhecimentos já de então não fosse o mais adequado. Só que a ignorância reinava em muitas localidades, tornando fértil a ideia de que as crianças “não precisavam de educação, precisavam era de quem mandasse nelas”.
Na terra, todos queriam creche e jardim de infância para colocar as suas crianças, mas não foi com facilidade que aceitaram as “modernices” pedagógicas das “doutoras” que aqui se deslocavam ao serviço da Segurança Social. Como não havia educadoras de infância suficientes, as “doutoras” davam formação às raparigas. Augusta e Odete ainda hoje são auxiliares de educação nesta creche e jardim de infância, que na altura em que aqui começaram a trabalhar tinha 80 crianças e hoje esse número está reduzido a apenas 13, das quais três até aos três anos e dez dos três aos cinco anos. Augusta tinha a seu cargo as da creche e não consegue falar dos seus bebés sem saudade. Muitos abalaram de Casebres, “estudaram, foram para Lisboa, para Setúbal, tiraram cursos, ficaram por lá. A vida do campo não interessa aos jovens”. Ao seu filho, o que tem o nome numa folha de papel amarelada e dobrada em quatro que Augusta tira de uma gaveta e de que não consegue desfazer-se por ser o único registo com os nomes dos primeiros bebés que teve a seu cargo, pelos vistos interessa. Ainda não tem 30 anos e escolheu viver do que a terra cria. “Está com o pai na agricultura.” Antes de guardar o papel escrito à mão a tinta de lapiseira, aponta: “Este é o do meu filho.” Pedro Miguel, o último de uma lista de 20.
Quem vê hoje Augusta e Odete em actividade – é hora de almoço também para as crianças; comem o mesmo que os idosos: carne de porco assada com puré ou arroz e salada de alface – custa visualizar como era há 30 anos. As crianças hoje estão confinadas a duas pequenas salas, uma para os miúdos da creche, outra para as do jardim de infância e aqui fazem tudo, actividades, refeições, sesta... “São os tempos, menina. Já não há muitas crianças por aqui porque também não há muitos casais jovens que tenham cá ficado. Partiram. Mas isso não é coisa de agora.”
Odete refere-se ao movimento migratório “por volta dos anos oitenta”, quando as terras “voltaram para as mãos dos patrões e foram abandonadas e deixou de haver trabalho na agricultura”. “Antes não, continua Odete, “a seguir ao 25 de Abril e até ao princípio dos anos oitenta, o povo agarrou-se mais à terra, cultivava os campos... As pessoas estavam animadas, era como se trabalhassem para elas.” A Reforma Agrária e a Lei de António Barreto tiveram expressão apenas no Alentejo, mas quem vivia nas localidades vizinhas “ou nasceu lá ou descende de alentejanos” e por isso não é estranho que as implicações da Reforma Agrária estejam presentes na memória de quem habita em Casebres ou em outras zonas rurais um pouco mais acima. O investigador em sociologia rural, Joaquim Gil Naves, do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), confirma que “houve de facto uma intensificação do trabalho da terra por parte dos assalariados rurais, que passaram a trabalhar num sistema de cooperativas organizadas. Com a modernização tecnológica e a substituição da mão-de-obra por máquinas, que se acentua na década de oitenta, deixa de haver salários na agricultura e torna-se impossível viver com pequenas parcelas agrícolas”. Isto no Alentejo. No resto do país eram outras as mudanças.
A construção clandestina não foi consequência directa da Revolução de 25 de Abril de 1974 – “o loteamento ilegal constituiu uma das principais formas de crescimento urbano em Portugal a partir dos anos sessenta” -, mas ganhou maior expressão na década de setenta. Num artigo publicado em 1985 no 3.º número da Sociedade e Território, revista de estudos urbanos e regionais, os investigadores Luis Bruno Soares, António Fonseca Ferreira e Isabel Guerra apontam como factores principais na origem do fenómeno a “centralização do planeamento urbanístico e a rigidez do processo de licenciamento, a escassez e elevado custo da promoção legal o desfasamento, em termos de modelo de habitat, relativamente às necessidades e aspirações da população”.
Entre a lei e a moral, prevalecia a moral. A moral era mais forte e não tão susceptível de contornar como a lei. José vive há 34 anos em Fernão Ferro, um dos maiores bairros clandestinos da Área Metropolitana de Lisboa (AML), numa rua ainda por alcatroar e numa casa ainda sem licença. Sabe que não vive situação única em Fernão Ferro, mas porque não esqueceu o dia em que “a GNR veio cá e me deitou tudo abaixo”, o medo da retaliação continua presente e por isso não quer ser fotografado. No entanto, como Josés há muitos, o nome não se importa de dizer.
A lei não o deixava construir, mas a sua moral estava acima de tudo. Proteger os filhos do frio, dar-lhes um tecto para dormir era mais forte do que qualquer documento legal. Se preciso fosse comprar uns tijolos e um bocado de madeira para acrescentar um quarto, nada o impediria, mesmo que depois a obra fosse derrubada pelos homens de farda e a cavalo. Era jovem quando se instalou com mulher e três filhos, o mais novo com cinco meses, no bairro. Fernão Ferro porque sim, “podia ser outro lugar qualquer”. É dos que fugiram da falta de trabalho no campo e da clausura das grandes herdades alentejanas, pouco antes da Revolução dos Capitães, para procurar um emprego na construção civil e um salário fixo no fim do mês.
A casa “levou” acrescentos. Da construção inicial, térrea, com uma sala pequena, cozinha, dois quartos e casa de banho exterior – onde hoje guarda algumas ferramentas que utiliza na horta –, resta quase tudo, menos o “WC”, que quando a poupança chegou tratou de a gastar numa casa de banho dentro de casa. “Abri paredes, roubei terra ao quintal e fiz esta. Está completa, tem banheira e bidé.” Para os lados não podia crescer para além do tamanho de uma casa de banho, por isso foi aumentando os metros quadrados em altura. O piso de cima ainda é da cor do cimento e destoa da do rés-do-chão, branca, a precisar de segunda demão. Atrás, uma horta com um limoeiro carregado de frutos, uma laranjeira, uma parte de terra onde daqui a 20 dias rebentarão plantas e daqui a três meses se tirarão batatas. A um canto, salsa e coentros, que alentejano que se preze gosta da comida bem aromática.
José é exemplo dos casos retatrados pela socióloga e professora do ISCTE, Isabel Guerra, nos seus estudos sobre o fenómeno da construção clandestina. Para a investigadora, “o modelo clandestino adequa-se ao perfil da população rural”, apontando como principal indicador “o desejo de ter uma casa térrea com jardim à frente e horta atrás”. É o “modelo de ruralização” expresso pela posse da propriedade, por um lado, e pelo investimento de património para os filhos, por outro, o que “permite uma segurança que o arrendamento não dá”. “Há um perfil rural na construção clandestina, que é aquilo a que chamo ruralização da cidade, pelo menos em algumas zonas.”
Habitações ilegais ou “formas marginais de implantação urbana” (bairros de barracas e construções precárias, sobretudo) já existiam nos anos 40 e 50, e na década de sessenta já eram pagas à multa, o que “significa que era possível subornar um GNR ou o fiscal da câmara”, mas foi no pós-25 de Abril que começaram a surgir como cogumelos os edifícios e as moradias sem licença, por razões que Isabel Guerra identifica como circunstanciais: “O poder estava na rua e o Estado não teve capacidade de desencadear acções repressivas contra um movimento tão alargado.”
No Estado Novo, a repressão era real: “Sei de imensos casos em que os bulldozers da câmara chegavam lá e sem dó nem piedade demoliam as casas. Entre a população havia a ideia de que se se pusessem lá dentro com os filhos ninguém se atreveria a mexer num tijolo, mas não era verdade, eles tiravam as pessoas e destruiam.” Acresce que a repressão tinha sustentado um regime de 48 anos e talvez por isso as câmaras municipais não tenham tido “coragem” de reprimir a “anarquia” que se instalava no parque habitacional. “As autarquias acabaram por fechar os olhos.”
Os primeiros bairros clandestinos surgiram “não só na periferia de Lisboa mas também na de áreas industriais como Barreiro e Setúbal, ou de cidades do interior, como Évora”, predominantemente como habitações de aluguer (lê-se no artigo “Urbanização Clandestina na Área Metropolitana de Lisboa”, publicado na revista Sociedade e Território, de Julho de 1985). De 1974 a 1976, houve uma forte intervenção estatal e promoção cooperativa (nas áreas urbanas, através do Programa SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local). Acresce que o problema da falta de habitação e o crescimento dos bairros de barracas agravou-se na AML a partir de 1975, e Oeiras é exemplo disso, com o aumento do fluxo migratório proveniente da descolonização das ex-colónias. Durou anos a instalação em condições precárias de novas famílias.
A partir de 1978, a construção clandestina ganha um novo impulso. No mesmo artigo da Sociedade e Território, os autores apontam estimativas: “No período de 1970/81 terão sido construídos, em Portugal, cerca de 270 mil fogos não licenciados, a um ritmo médio anual de 25 mil habitações, representando 42% do total da construção habitacional.” No caso da AML, nos concelhos de maior pressão urbanística, “estima-se que nos últimos anos” – refira-se que o artigo é de 1985 – “a construção marginal represente mais de 50% da construção total”.
Fernão Ferro é um desses bairros. José construiu aqui casa para “fugir do fim de mundo” alentejano. Outros habitantes do bairro, curiosamente, vieram para Fernão Ferro para fugir da “confusão de Lisboa”. Foi o caso de Alfacinha, Etelvino, Jorge e Raposo. Encontrei‑os na sede da Associação de Reformados Pensionistas Idosos de Fernão Ferro, em animada conversa acompanhada de um guloso atum com salsa e pão. O lanche acabou primeiro que a conversa, prolongada quase ate à “janta”. O primeiro do grupo a levantar moradia no bairro foi o mais velho, Alfacinha, hoje com 84 anos e uma agilidade “de fazer inveja à malta nova”. Tinha 40 anos quando se mudou com a mulher e a filha para cá e nessa altura, lembra, “não havia casas ao redor”; estava afastado do centro e parecia ter encontrado o sossego que procurava quando se foi embora de Lisboa. “Só ouvia os passarinhos e o vento que abanava o pinhal”. A vizinhança começou a surgir, e com ela outros sons, depois da Revolução de Abril de 1974, que deu nome a uma das ruas com que a casa faz esquina. Está alcatroada mas a outra, a Rua da Liberdade, é de terra e cascalho, como muitas em Fernão Ferro. A população acusa a anterior direcção da Associação de Moradores, que “recebeu o dinheiro” e não fez a obra. De Alfacinha “meteu ao bolso quatro mil contos na moeda antiga e, oh, onde está o alcatrão?” Nos dias de muita chuva “é para aí uma enchurrada de lama. Dinheiro meu não tornam eles a ver”.
Para este ex-mestre dos barcos da Transtejo, onde esteve “42 anos ao serviço”, o 25 de Abril não foi uma Caixa de Pandora. “Há gente que se queixa mas é de barriga cheia. Não tenha dúvidas de que a vida melhorou. Dantes era uma desgraça, não se podia dizer nada porque não se sabia se a pessoa do lado era bufo. Tinhamos que ter muito cuidado. E mesmo em relação ao dinheiro, há mais do que naquele tempo. Era uma miséria, menina, nem queira saber.” O amigo Raposo reconhece benefícios, mas gosta é de falar dos “pontos fracos”, que para ele foi a “facilidade com que os patrões passaram a despedir os funcionários”. Alfacinha interrompe o vizinho: “Este bairro só começou a crescer a partir daí. Quando se deu o 25 de Abril, isto era só mato e pinheiros.”
Alfacinha tem hoje duas casas no bairro e nenhuma está licenciada. A burocracia talvez seja o único “senão” que não compreende que exista depois de “um acontecimento tão importante como o 25 de Abril”. “É só papelada. Mandei os papéis todos para a Câmara, tenho tudo pago, tudo em ordem e nada... a minha situação continua na mesma.” Da Câmara Municipal do Seixal, o vereador responsável pelo Urbanismo, Jorge Silva, tenta justificar: “Muitos dos munícipes, por dificuldades económicas, mantêm as suas construções por licenciar, usufruindo do Estatuto de Manutenção Temporária e Usufruto das Infra-estruturas.” A atribuição deste estatuto pela autarquia tem como principal objectivo “dar oportunidade aos munícipes de reunirem condições para procederem à regularização da sua habitação”.
Mas, afinal, quantas habitações tem Fernão Ferro? E quantas por licenciar? A resposta, o vereador não tem onde a ir buscar. A razão está na “complexidade de uma zona de reconversão urbanística” como esta. “É uma freguesia caracterizada por uma multiplicidade de situações em constante mutação, que implicariam uma actualização diária e controlo minucioso da tramitação de milhares de processos para se ter conhecimento de qual o número de habitações existentes e o número de habitações que se encontram por licenciar, situação que tecnicamente é impossível de sustentar.” Com 84 anos, Alfacinha ainda não perdeu a esperança de morrer numa casa legalizada, “com tudo conforme a lei”. E no seu caso, garante, não se pode apontar como motivo as “dificuldades económicas”.
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NA HORA DA MUDANÇA PARA UMA NOVA REALIDADE
Pedro Almeida Vieira
Fotografia Maurício AbreuA região do Oeste e Vale do Tejo é uma das principais regiões agrícolas de Portugal, mas a maior competitividade e liberalização deste sector a nível internacional colocam agora a necessidade de reconversões e maior aposta na inovação. Se isso não acontecer quase cem mil hectares de solos agrícolas estão em risco de abandono, provocando o desemprego de cerca de vinte mil pessoas.
As estatísticas teimam em mostrar um cenário sombrio para a agricultura nacional. O embate no sector agrícola português decorrente da entrada do nosso país na União Europeia tem sido particularmente danoso, e isso mesmo se constata na quase generalizada regressão da área agrícola e das produções nas principais culturas.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, entre 1990 e 2005 apenas se registaram, a nível nacional, aumentos nas produções de azeite, tomate e beterraba. De resto, o cenário é de diminuição generalizada – por vezes superiores a 50% –, designadamente na superfície cultivada e das produções no trigo, milho, centeio, arroz, aveia, cevada, feijão, grão-de-bico, batata e tabaco. Eis uma consequência das políticas agrícolas comunitárias que “obrigaram” o país a abandonar muitas zonas agrícolas, por via da perda de competitividade sobretudo das pequenas explorações. O país, que até aos anos 70 do século passado ainda era maioritariamente rural – quer a nível populacional quer de mão‑de-obra –, está agora a alimentar-se sobretudo de produtos vindos do estrangeiro.
As regiões do Oeste, da Lezíria do Tejo e do Médio Tejo não fogem a este quadro, embora em muitos casos estejam a sofrer em menor grau os efeitos da regressão da agricultura em Portugal. Em todo o caso, em alguns indicadores é evidente a sangria, sobretudo nas regiões do Oeste e Médio Tejo. No primeiro caso, durante os anos 90, verificou-se uma redução de 42% e 23% no número de explorações agrícolas e na área cultivada, respectivamente. No segundo caso, as diminuições cifraram-se nos 41% e 23%. Em relação à Lezíria do Tejo, a evolução foi mista: a área agrícola aumentou quase 20%, mas verificou-se, em simultâneo, uma redução de cerca de nove mil explorações, indicando assim que foram os pequenos e médios agricultores que acabaram por ser os mais afectados.
As consequências deste fenómeno de regressão também se fizeram sentir, obviamente, no emprego agrícola. No Médio Tejo apenas cerca de 2,5% da população activa vive agora do trabalho da terra. Na Lezíria do Tejo – uma das regiões mais tradicionalmente agrícolas do país – já pouco ultrapassa os 10%, pouco superior àquela que se dedica à construção civil. Na região do Oeste, a redução nas culturas vegetais tem sido compensada por uma maior aposta na pecuária, sobretudo ao nível da suinicultura e da avicultura, bem como em toda a pujante indústria de rações. Nesta pequena zona do país existem, actualmente, 36% das aves e 33% dos suínos do país.
Porém, o reverso da medalha faz-se sentir a nível ambiental. Por exemplo, nos municípios do Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Sobral de Monte Agraço e Alcobaça existem mais porcos do que pessoas. E face à grande carga orgânica dos esgotos das suiniculturas, só os porquinhos de Alcobaça representam uma poluição equivalente à população humana de Lisboa! A degradação de algumas das linhas de água da região Oeste é, aliás, uma evidência que, a ser resolvida, implicará necessariamente o encerramento de algumas destas suiniculturas, sobretudo as de menores dimensões.
Francisco Avillez, professor do Instituto Superior de Agronomia e coordenador da componente agrícola do Plano de Ordenamento do Oeste e Vale do Tejo (PROT-OVT), refere que a nova realidade desta vasta região não mostra necessariamente uma estagnação. “Existe, em certa medida, uma redução das culturas de carácter mais extensivo, que se transformaram em prados, mas as produtividades melhoraram e intensificaram-se algumas culturas”, salienta.
Neste aspecto, Francisco Avillez salienta como factos positivos, no Oeste, a componente pecuária, a par dos pomares de pêra‑rocha, dos produtos hortícolas em estufas e do vinho. No caso da Lezíria, com culturas de carácter mais extensivo – por via também da maior dimensão das propriedades – de milho, beterraba, hortícolas, vinha e também a produção de gado, neste último caso em complemento com o montado, sobretudo na zona de Coruche e Chamusca. Já em relação à zona do Médio Tejo, o cenário parece ser menos atractivo, salientando-se sobretudo a pequena policultura e a floresta, se bem que os fogos dos últimos anos tenham retirado importância económica neste sector.
Na opinião de Francisco Avillez, o grande desafio para os próximos anos na agricultura desta região é encontrar estratégias para acompanhar as necessidades de um mercado cada vez mais liberalizado. Por isso mesmo, o principal objectivo da sua colaboração no PROT-OVT tem sido traçar cenários possíveis para o futuro. Mas tendo sempre em consideração as especificidades de cada zona agrária.
Assim, face à conjugação de vários critérios, foram já criadas sete zonas homogéneas, a saber: concelhos agrícolas do Oeste Litoral (Bombarral, Caldas da Rainha, Lourinhã, Óbidos, Peniche e Torres Vedras); e do Oeste Interior (Alenquer, Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço); concelhos florestais do Oeste (Alcobaça, Cadaval, Nazaré e Rio Maior); concelhos agrícolas da Lezíria (Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Cartaxo, Golegã e Salvaterra de Magos); concelhos agrícolas do Bairro (Alcanena, Entroncamento, Torres Novas e Santarém); e concelhos agro-florestais da Charneca (Benavente, Chamusca e Coruche). Em cada uma destas sub-regiões serão definidas estratégias articuladas.
Para este responsável, nestas sub-regiões, a evolução futura da agricultura, e o seu sucesso, vai depender fortemente da dimensão económica das explorações e da dependência que cada um dos sistemas agrícolas em relação às políticas agrícolas em vigor, quer ao nível da União Europeia quer ao nível da Organização Mundial do Comércio. E a palavra de ordem será adaptar para sobreviver e aumentar a competitividade. Com efeito, o progressivo desmantelamento das medidas de suporte de preços de mercado, implicou que a nível comunitário os preços – que até há pouco tempo eram “protegidos”, através de subsídios à produção – passassem progressivamente a aproximar-se dos preços mundiais. Ou seja, a competitividade tornou-se mais feroz. Em suma, deixou de ser rentável produzir apenas para receber o subsídio. De acordo com os estudos no âmbito do PROT-OVT estima-se mesmo que cerca de 22 mil explorações ocupando quase 100 mil hectares – e que empregam um pouco mais de 20 mil pessoas – têm a sua sustentabilidade económica ameaçada por via destas novas políticas agrícolas.
Neste novo cenário, a única escapatória para as unidades de exploração com menores produtividades, por via de condicionalismos da própria fertilidade dos solos, passa a ser aproveitar os apoios ambientais. “Muitas zonas, sobretudo na charneca, têm uma valia importante ao nível da conservação, com a componente agrícola, pelo que será interessante apostar nesse sector”, salienta, acrescentando que “isso não significa um abandono agrícola, pelo contrário”. Outra solução será a agricultura biológica, um nicho que se torna cada vez mais atractivo, se bem que com regras muito exigentes.
Quanto às culturas tradicionais, aquele responsável considera que existem boas condições de sobreviver num mercado internacional competitivo para as culturas hortícolas, frutos, vinho, azeite e a pecuária agregada à componente ambiental. Porém, em alguns casos, haverá necessidade de reformular processos. “Por exemplo, o vinho da zona do Oeste tem dificuldades de se livrar de um ‘rótulo’ de má qualidade, porque até agora a sua qualidade tem-se genericamente vindo a degradar e a sua produção é sobretudo para exportação em mercados pouco atractivos, como Angola.” Por isso, poderá haver necessidade de reconversões de castas ou, simplesmente, a alteração de culturas em zonas actualmente ocupadas pela vinha.
Em todo o caso, os estudos do PROT-OVT estimam que, no futuro, a viabilidade está assegurada em 257 mil hectares distribuídos por 27 mil explorações, que empregam cerca de 39 mil pessoas. Porém, num mercado bastante instável – ou melhor, em que as leis da oferta e da procura se modificam rapidamente –, uma cultura desfavorável economicamente pode passar a ser favorável nos anos seguintes. Exemplo disso passa-se com o milho. “Estava a atravessar uma fase complicada, com os preços baixos que implicavam uma paulatina redução da área de cultivo, mas isso modificou-se com a possibilidade que se abriu com a produção de bioetanol”, salienta Francisco Avillez. Esta nova forma de combustível automóvel – que será obrigatório introduzir em 10% na gasolina e gasóleo dentro de poucos anos – acabará por ser a tábua de salvação para esta cultura. “Não só mantém, em princípio, os preços mais elevados do que anteriormente, como pode garantir um abastecimento de matéria-prima nacional no caso de se optar por criar unidades de produção de bioetanol em Portugal”, advoga Francisco Avillez, referindo que, nessa situação, se poderia destinar 25 mil hectares de cultura de milho por ano nesta região.
Outro sector agrícola que também atravessa agora um melhor momento é o arroz, sobretudo cultivado no vale do Sorraia, que tem estado a beneficiar de um aumento dos preços da ordem dos 50% em relação aos anos anteriores. “Esta foi uma agradável surpresa, derivada da redução da oferta a nível internacional, caso contrário estar-se-ia a atravessar problemas”, diz Francisco Avillez.
No entanto, nem tudo serão rosas, pois existem culturas que poderão, com a recente liberalização do sector agrícola e a redução dos subsídios comunitários, atravessar por problemas de sustentabilidade económica. O caso mais evidente passa-se com o tomate, cuja indústria de processamento de concentrado está sobretudo situado na zona do Ribatejo. Como oito das 11 fábricas nacionais de tomate se situam na região do Ribatejo, Francisco Avillez teme que, perante as actuais condições impostas pela União Europeia, apenas duas possam ser competitivas. Com efeito, se é certo que agora existe terreno disponível para aumentar a produção de tomate – o que antes não era possível aproveitar, por via das quotas impostas pela União Europeia –, o fim dos subsídios implicará um agravamento dos custos de produção. E as indústrias não terão possibilidades de receber o tomate de zonas com menor rentabilidade.
Paralelamente a estas questões, um dos aspectos que o PROT-OVT também terá de equacionar relativamente à componente agrícola é a forma como se fará a gestão das zonas actualmente classificadas como Reserva Agrícola Nacional (RAN). Ou seja, saber se haverá “flexibilidade” para desanexar algumas destas áreas alocando-as a usos não agrícolas – como, por exemplo, turismo ou mesmo construção de habitações em espaço rural – ou se se manterão inalteradas independentemente de possuírem, actualmente, uso agrícola. Esta é, aliás, porventura a questão mais polémica a ser dirimida na fase de aprovação deste plano.
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POR ESTES RIOS ACIMA
Carla Maia de Almeida
Fotografia Maurício AbreuA Região de Turismo do Ribatejo é atravessada por essa grande artéria fluvial chamada “Tejo”, ponto nevrálgico de um território pulsante de água. Barragens, rios, ribeiras, valas e açudes dão vida a uma paisagem que concilia o verde do Norte com a planura do Sul, onde a elegância das grandes casas agrícolas ainda impressiona. O Tejo já não é estrada para varinos e fragatas, mas faz crescer a oferta de propostas de turismo de lazer e de aventura. São alguns dos novos interesses da Região de Turismo do Ribatejo, assim os entende o seu presidente, Carlos Abreu.
Há 22 anos que está à frente da Região de Turismo do Ribatejo. Que peso tem hoje aqui o turismo, em relação aos outros sectores económicos?
O turismo é extremamente importante e poderá vir a ter um papel preponderante no desenvolvimento integrado da região. O que acontecia, dantes, é que havia um potencial estagnado ao nível das infra-estruturas e do aproveitamento dos recursos existentes. Não nos podemos esquecer de que o Ribatejo é uma região predominantemente agrícola e vinícola, e era nestas áreas que se apostava. Ora, o turismo tem que abrir portas, é uma actividade global e interactiva com outros sectores… Aqui, isso não acontecia muito. Quando nós quisemos avançar com as Rotas da Vinha e do Vinho tivemos alguns problemas. As pessoas consideravam que iam abrir a sua quinta a estranhos, e essa mentalidade caracterizava todo o Ribatejo…
E ainda é assim. O programa das Rotas do Vinho é um caso claro de uma boa ideia subaproveitada, não é?
Não funciona. Pelo menos, não funciona na totalidade. Funciona bem em meia dúzia das vinte e tal ou trinta casas. Há uma falta de associativismo muito grande.
Mas as pessoas não sabem disso. Só sabem que vêem as indicações na estrada, chegam aos sítios e estão fechados, têm que fazer meia volta para trás…
É isso mesmo que acontece. Nós, no início, demos as condições todas, tivemos até cursos de guias para acompanharem as visitas, mas realmente não serviu de nada. Há uma falta de associativismo e de interesse dos próprios produtores, de uma forma geral. É uma pena, porque era um projecto válido e que podia ser muito abrangente, chamando à volta do vinho toda a vertente cultural, paisagística, arquitectónica, gastronómica… Infelizmente, não funciona assim.
Voltando atrás. Estava a falar desse “potencial estagnado” que encontrou no Ribatejo…
Sim. E aqui também é preciso entender que as autarquias, cujo papel é fundamental no desenvolvimento da actividade turística, estiveram essencialmente preocupadas com a satisfação das suas necessidades primárias. Até ao 25 de Abril, estávamos carenciados das estruturas básicas – a água, a luz, os arruamentos, os esgotos… – e as câmaras gastavam todos os seus parcos orçamentos aí. A partir da década de 1980, com a admissão à CEE e os vários projectos que daí resultaram, as câmaras começaram a sentir que a actividade turística era extremamente importante. Apesar de ainda hoje quererem tudo para a sua terrinha, houve uma vontade muito grande e um espaço mais amplo, com uma massa crítica maior, e apareceram as regiões de turismo. Hoje, no Ribatejo, o turismo já não é um parente pobre dos outros sectores económicos. Há todo um potencial para o mercado interno. Não nos podemos esquecer de que estamos às portas de Lisboa, o maior mercado emissor de turistas. Eu sempre defendi esta tese: temos que ser alternativa às zonas de Cascais, do Estoril, de Sintra, que já estão bastante saturadas. Como? Através das actividades de lazer, do património, da gastronomia, dos vinhos…
Justamente. Gostava que sintetizasse os pontos fortes da Região de Turismo do Ribatejo. O que é que define e diferencia a sua identidade?
Para já, é uma região que peca por não ter o grande produto nacional, que é o mar e a praia… Depois, associa-se muito o Ribatejo à lezíria, ao campino, ao cavalo e ao touro. Isso faz parte da nossa identidade, mas não é só o que nos interessa. Temos todo um património muito rico, e cito apenas dois centros históricos que foram muito bem recuperados: Abrantes e Santarém. Mas temos outros pontos muito importantes, desde a Igreja da Golegã ao Museu dos Patudos, em Alpiarça. Outro produto que nos diferencia é o cavalo lusitano, um grande atractivo para uma classe média‑alta. Toda a experiência da Golegã, com as infra-estruturas que criou para o turista, ou a da Companhia das Lezírias, só para falar nos dois pólos mais forte, são fundamentais. Temos a gastronomia ribatejana, sobretudo a gastronomia ligada ao rio. Começamos a ter muito o turismo de lazer: os desportos radicais e de aventura, que começam a aparecer em focos muito importantes. No turismo religioso, apesar de sermos esmagados por Fátima, não podemos esquecer o Santuário do Santíssimo Milagre, que traz milhares de turistas a Santarém: italianos, polacos, irlandeses, americanos… Se conseguíssemos trabalhar o turismo religioso em ligação com Fátima seria bom, mas, por enquanto, ainda não acontece isso.
Parece-lhe que a recente criação do PROT – OVT (Plano Regional de Ordenamento do Território do Oeste e Vale do Tejo) vai ser favorável para o Ribatejo?
Desculpe começar por aqui, mas, realmente, todos os governos que entram dizem que há regiões a mais. Eu nunca disse que havia a mais ou a menos, acho é que temos que saber entender‑nos e falarmos uns com os outros. Infelizmente, isso às vezes não acontece, por questões político-partidárias, o que é uma estupidez. Neste momento, o governo está a encetar todo um conjunto de reformas ao nível da Administração Pública. Falando do PROT: nós estamos neste momento à beira da saída da lei-quadro das regiões de turismo e de uma nova reformulação do mapa. Se me perguntarem se concordo que haja a fusão, ao nível do PROT, perfeitamente de acordo. Mas julgo que, se vamos dar um passo em frente, temos que pensar nesse passo em função de uma futura regionalização, a nível nacional. Mais tarde ou mais cedo, teremos de ir por aí. E, se vamos fazer reformas, porque não fazemos já tudo? Na agricultura, no turismo, na saúde… Porque o que não se admite é que ao nível do PROT fiquemos nesta região e ao nível de outro serviço fiquemos noutra região qualquer. Mas não quero ir muito por aí…
Esta é uma região também muito sensível à pressão demográfica e económica: há agricultura intensiva, há poluição dos rios, há especulação imobiliária… Todo um conjunto de interesses que por vezes colide com a ideia de preservação do património, natural ou construído. Essa questão preocupa-o?
Preocupa-me, claro, tanto mais que temos aqui uma série de reservas naturais: o estuário do Tejo, a serra de Aire e Candeeiros, o Paul do Boquilobo, os açudes de Coruche… Mas a preocupação e a preservação não podem ser só sobre essas áreas, tem que ser como um todo. Para haver um turismo de qualidade tem de haver um bom ambiente. Qualquer promoção de qualquer cidade ou de qualquer área tem de ter como suporte uma boa promoção da questão ambiental. Temos aqui o exemplo de Constância, que fez um trabalho excepcional junto às margens do rio. Tal como Vila Nova da Barquinha.
Pode dizer-se que o ano de 2006 foi bom para a actividade turística no Ribatejo?
Foi um bocadinho superior a 2005, mas, para o crescimento que pretendemos, continua a haver a necessidade de fortes investimentos na região. Um dos nossos produtos novos foi o golfe. Temos três campos de golfe, mas houve problemas com as autorizações do corte dos pinheiros e as infra-estruturas de apoio ainda estão paradas. Estamos a fazer promoção do golfe em conjunto com a Costa Azul – Região de Turismo porque não temos nenhum hotel na zona para os nossos três campos de golfe. Esse é um factor que inviabiliza bastante o aumento do turismo aqui na região.
A procura turística é mais ou menos constante ou gira em torno de acontecimentos pontuais, como a Feira do Cavalo da Golegã ou o Festival de Gastronomia de Santarém?
Os eventos são extremamente importantes, são os picos de afluência nos concelhos. Mas não temos assim grandes quebras, ao longo do ano. Talvez o mês de Dezembro seja o mais fraco, já que é aquele que tem o menor número de acções, de eventos…
Esses acontecimentos são o cartão‑de‑visita da região há muito tempo. E quanto a novos produtos turísticos, além do golfe, quais têm sido os últimos investimentos?
Há um outro evento pontual que não mencionou: a Feira do Touro, em Santarém. É muito importante, atrai muita gente aqui, quase se fala mais espanhol do que português… Depois, há o cavalo. Já era um produto natural, mas tem tido uma aposta muito forte, em termos de organização de concursos hípicos, de criação de zonas de lazer específicas… O turismo de aventura e o turismo náutico também têm tido um grande incremento. Ainda são focos pequenos, mas têm vindo a ajudar a diversificar a oferta na região.
O Festival de Gastronomia, uma ideia que lançou quando era ainda vereador na Câmara de Santarém, tem chamado milhares de pessoas, mas nos últimos anos trouxe também alguma polémica. A ideia de juntar a gastronomia tradicional com a contemporânea parece que desagradou a muita gente…
Primeiro que tudo, muito rapidamente: quando se avançou com o Festival de Gastronomia, em 1980, a minha grande preocupação era a preservação do receituário tradicional português, que então se estava a perder para os bitoques, os bifes, os hambúrgueres, etc. Ao fim de 25 anos, muito já se tinha contribuído para a preservação da cozinha tradicional. Por isso, entendi que havia novos rumos. E, porque se estava a criar um movimento mundial ao nível de grandes profissionais de cozinha – e aqui em Santarém já havia um rastilho – lembrei-me de fazer a mudança nesse congresso. Vamos dizer que somos defensores da cozinha tradicional, mas que também estamos abertos à modernidade, à cozinha de autor, contemporânea. A receptividade foi “de tareia”, no início, mas a adesão e as conclusões mostraram-me que podia continuar. O ano passado foi pior, porque quisemos também trazer os profissionais dessa cozinha de autor. Convidámos um grande chef catalão, Santi Santamaria. E aí já tive mais entraves do que há dois anos. Houve boicotes por todos os lados…
Porquê?
Eu fiz uma comparação: se eu quero um excelente quadro de pintura, eu tenho primeiro que ter o artista, depois é que tenho o quadro. Se eu quero uma boa gastronomia, primeiro tenho que ter o cozinheiro. Mas não gostaram que eu chamasse artista ao cozinheiro e a contestação partiu daí… De qualquer modo, eu penso que tanto a cozinha tradicional como a de autor têm o seu campo. Podem juntar-se uma à outra e não é preciso haver brigas. Até porque, pela experiência que temos em Portugal, os grandes cozinheiros estão a trabalhar produtos tradicionais portugueses, só as técnicas é que são outras.
Insiste nesse rumo para a 27.ª edição?
Sim, vai continuar. E como este ano o país convidado vai ser o Brasil, vamos ter como cozinheiro o chef brasileiro Alex Atala, que tem um restaurante excepcional em São Paulo.
Esse foi o ponto de viragem mais importante na história do festival ou já tinha havido outros?
Fizemos algumas viragens, porque foi necessário criar parcerias. A área da formação, por exemplo, foi extremamente importante, logo no segundo ano. Temos um acordo com o Instituto Nacional de Formação Turística, que se responsabiliza pela formação: primeiro, para jovens de Santarém, em cursos de mês e meio, e agora através das escolas de hotelaria. O ano passado, todo o serviço aqui do festival foi feito pelas escolas de hotelaria do país. Outra parceria importante é com as confrarias, que têm consigo a grande bandeira da cozinha regional e tradicional. Mas sem dúvida que, ao fim de 25 anos, a inclusão do tradicional/contemporâneo foi o grande choque… que eu penso estar ganho.
Porque não um festival nacional que casasse a gastronomia com uma montra de vinhos de igual expressão?
Temos tentado isso, mas só com os vinhos da nossa região. Depois, cada região traz uma amostra dos seus melhores vinhos. Não há uma exposição mais organizada. Penso que, mais cedo ou mais tarde, o festival terá tendência para ir por aí.
Em que ponto estão novas propostas como o Museu Nacional de Gastronomia, em Santarém, ou o Museu Rural, na Golegã?
Pergunte às câmaras… Eu só quero dizer que a ideia para o Museu de Gastronomia saiu do congresso que assinalou os 25 anos do festival. A Câmara Municipal de Santarém assumiu essa ideia. Agora, quanto ao resto, não me quero pronunciar.
Quais são então os principais investimentos e orientações para 2007, em termos de iniciativas privada e pública?
As nossas linhas de orientação estratégica passam por desencadear uma ampla intervenção dos agentes económicos da região, sobre a marca “Ribatejo”. Em termos de promoção externa, vamos prosseguir a política de parcerias com a Agência Regional de Promoção Turística. Vamos investir na produção de novos folhetos promocionais e de outros suportes informativos que permitam a divulgação de produtos como o turismo de natureza, a gastronomia, os percursos fluviais, o turismo equestre, a caça turística e a pesca desportiva. E vamos contribuir para a implementação de um Observatório Turístico para a Região, ou inter-regional, para que o sector possa detectar tendências, oportunidades de negócio e efectuar avaliações de performances internas e externas. Das principais intenções de investimento, dou como exemplos a aposta em cinco campos de golfe, em cinco concelhos diferentes, e a ampliação de várias unidades hoteleiras, assim como a construção de vários hotéis rurais.
A Região de Turismo do Ribatejo é constituída por 14 concelhos: Abrantes, Constância, Vila Nova da Barquinha, Golegã, Chamusca, Alcanena, Alpiarça, Almeirim, Santarém, Cartaxo, Azambuja, Salvaterra de Magos, Benavente e Coruche. Em todos se descobrem facilmente exemplos de uma história ascendente a tempos muitos antigos, deixados quer pela mão humana, quer pelas marcas da própria natureza. Estas são apenas algumas pistas para um possível itinerário de surpresas.
ABRANTES
Cidade desde 1916, Abrantes foi fundada em meados do século XII e recebeu foral de D. Afonso Henriques em 1173. Da sua importância estratégica na defesa da linha do Tejo ficaram o castelo e a torre de menagem, talvez o melhor local para se ter uma vista panorâmica da região, já na confluência entre o Ribatejo, o Alentejo e a Beira Baixa.
Detentora de um património construído de grande valor, especialmente representativo da arte sacra, a cidade guarda vários monumentos nacionais: a Igreja de Santa Maria do Castelo, a Igreja de São Vicente e a Igreja de S. João Baptista. Todo o centro histórico foi objecto de recuperação cuidadosa e merece, por isso, um passeio atento.
O concelho também é rico no que toca a património natural, com destaque para a paisagem da albufeira de Castelo de Bode, em pleno rio Zêzere, abastecedora da região de Lisboa. O Parque Náutico de Recreio e Lazer e o Ecomuseu, em Martinchel, são duas das atracções da zona.
Por fim, uma última referência para o lado mais doce da gastronomia local: tigeladas, broas de mel, limas, mulatos, castanhas, rebuçados de ovos, lampreia de ovos e, claro, a palha de Abrantes. De 1 a 4 de Novembro, a Feira Nacional de Doçaria Tradicional promove a maior concentração destas e de outras delícias.
CONSTÂNCIA/VILA NOVA DA BARQUINHA
De Vila Nova da Barquinha a Constância, passando por Tancos, Praia do Ribatejo e o Arripiado, esta extensão ribeirinha do Tejo e Zêzere tem sido alvo de um grande esforço de recuperação, com óptimos resultados. A ideia é criar aqui o maior espaço de lazer e aventura do país, tirando partido das condições naturais para a prática de desportos náuticos e outros, já organizados por bastantes empresas.
A revalorização destes dois concelhos fez-se também nos respectivos núcleos urbanos. Os amplos relvados e equipamentos lúdicos do Barquinha Parque, em Vila Nova da Barquinha, transformaram-no rapidamente numa concorrida área de recreio. Constância é, actualmente, uma das terras mais turísticas do Ribatejo, graças à sua pitoresca localização – no encontro entre os dois rios – e ao aprimoramento das ruas e do casario, sendo conhecida por “vila‑poema”. Crê-se que aqui terá vivido Luís de Camões, uma referência evocada em vários lugares, embora não haja certezas rigorosas sobre o assunto.
O turismo de lazer e a gastronomia são o remanescente desta região que viveu praticamente dos rios e dos seus recursos, desde a pesca ao transporte de mercadorias e pessoas, passando pela construção e reparação de barcos. Em Constância, o Museu dos Rios e das Artes Marítimas guarda a memória dessa herança não tão longínqua assim. A poucos quilómetros de distância da vila encontra-se um dos mais cénicos monumentos nacionais: o Castelo de Almourol, de vigia ao Tejo desde o século XII.
GOLEGÃ
Por todo o Ribatejo, a existência de coudelarias e ganadarias provam a importância dada à criação do cavalo lusitano. Porém, em nenhuma outra terra este culto atinge maiores proporções. Ponto de charneira entre o norte e o sul do Tejo, em plena lezíria, tornou‑se um local privilegiado para a troca de cavalos e reabastecimento dos viajantes de outros tempos. Em Novembro, a Feira Nacional do Cavalo é o ponto alto de uma tradição de séculos que explica a própria história da Golegã.
Do património da vila, que ganhou foral de D. Manuel I no século XV, destaca-se a Igreja Matriz, dotada de um belo pórtico manuelino e de um interior rico numa das mais expressivas artes decorativas em todo o Ribatejo: a azulejaria.
Encontra-se nos limites do concelho a Reserva Natural do Paul do Boquilobo, uma vasta zona húmida atravessada pelo rio Almonda, fértil em vegetação e adequada a percursos pedestres. Entre os exemplares da avifauna, ali encontra refúgio uma colónia numerosa de garças, entre outras espécies raramente avistáveis.
ALPIARÇA/ALMEIRIM
Vizinhos da margem esquerda do Tejo, ambos com povoamento remontante à Pré-História, são concelhos essencialmente agrícolas, núcleos de elevada produção de vinho, melão e tomate. De Almeirim vem a tradicional Sopa da Pedra, um chamariz quase sempre presente nas dezenas de restaurantes do município.
Almeirim distinguiu-se nos séculos XV e XVI como estância de veraneio da corte, desde o momento em que D. João I ali fez erguer um palácio, em 1411. Gil Vicente, Garcia de Resende e a Marquesa de Alorna contaram-se entre os notáveis que acorriam à região, gozando a prodigalidade da natureza e o clima ameno, o que lhe valeu o epíteto de “Sintra de Inverno”. Desse passado distinto pouco ou nada sobra, uma vez que o que restava do palácio foi demolido em 1890.
Inaugurado em 2003, o Parque Zona Norte de Almeirim é o principal espaço de recreio da população, que desfruta ainda da paisagem natural da Barragem dos Gagos. Já no concelho de Alpiarça, é a Barragem dos Patudos e a Reserva Natural do Cavalo Sorraia (considerado o “cavalo primitivo” da Península Ibérica, hoje criado sob especial protecção) o que mais sobressai das benesses da natureza.
No que toca ao património construído, é imprescindível mencionar a Casa-Museu dos Patudos, projecto do início do século XX, da autoria do arquitecto Raul Lino. Guarda um espólio magnífico que abarca todas as artes, desde a pintura à escultura, da tapeçaria ao mobiliário, da azulejaria à cerâmica, sendo local de visita obrigatória para quem passe por Alpiarça.
SANTARÉM
A Scalabis romana foi tomada pelos mouros no século VIII e reconquistada em 1147, tendo recebido novo foral de D. Afonso Henriques em 1179. Palco de reunião das cortes por 17 vezes, Santarém notabilizou-se como residência real, sobretudo nos séculos XIV e XV. As Invasões Francesas saquearam-na e destruíram parte de um património de valor incalculável, que já tinha sido severamente arruinado com o terramoto de 1755.
Sede de concelho e capital de distrito, Santarém é conhecida como “capital do gótico”, tendência que se desenvolve em Portugal entre os séculos XIII e XV, sensivelmente. A sua influência detecta-se, sobretudo, na arquitectura religiosa, de que são exemplos a Igreja de Santa Clara, a Igreja de Santa Cruz e a Igreja da Graça, onde está o túmulo de Pedro Álvares Cabral. No entanto, o mais estimulante deste legado histórico verifica-se no cruzamento de estilos – mourisco, românico, manuelino, renascentista, barroco e neoclássico –, muitas vezes identificáveis na mesma obra, civil ou religiosa.
Outros locais de interesse em Santarém incluem o Mercado Municipal, com os seus belíssimos painéis de azulejos, e o Jardim das Portas do Sol, sem dúvida o melhor miradouro para a paisagem tipicamente ribatejana. Se quiser combinar uma visita à cidade com algum dos eventos que esta acolhe, tome nota da Feira Nacional de Agricultura e do Festival Nacional do Vinho (Junho), do Festival do Tomate, Azeite e Alho (Agosto) e do Festival Nacional de Gastronomia (Outubro).
Mais informações em www.rtribatejo.org
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O CASTELO NO SEU TRONO
Carla Maia de Almeida
Fotografia Guto FerreiraA meio caminho entre Constância e Vila Nova da Barquinha, uma pequena ilha sustenta o Castelo de Almourol desde o século XII. Doado por D. Afonso Henriques aos Templários, serviu mais para a vigilância do Tejo do que como estrutura defensiva, o que o preservou de maiores assaltos e delapidações. Classificado como monumento nacional em 1910, concorre ao título das 7 Maravilhas de Portugal. São as vagas de turistas que agora o dominam, para o melhor e para o pior.
Entre os anos de 1853-1854, Alexandre Herculano andou em périplo de reconhecimento pelo país, como comissário da Academia Real das Ciências. No início do percurso que o levou até às Beiras e ao Minho, fez-se à grande estrada que era então o rio Tejo, num dos barcos a vapor abastecidos a carvão que se arrastavam, pachorrentos, até à vila da Barquinha. A meio da viagem, parou para ver o Castelo de Almourol, cuja aparência lhe deixou a impressão da “proa d’um navio”. Mais de perto, notou “a inscripção da porta da cerca interior”, a “cruz do Templo sobre uma janela da torre de menagem”, “os cactos gigantes” e “as pelles de cobra supostas”, pormenores que não devem escapar a qualquer visitante actual e razoavelmente atento… Excepção feita às “pelles de cobra”, das quais não há vestígios. Em compensação, é frequente encontrar cascas de banana, pacotes de batatas fritas, caixas de pastilhas elásticas, garrafas vazias e outros sinais da incontornável presença humana, qual deles o mais indigesto aos sentidos.
Um século e meio depois da passagem do autor de Eurico, o Presbítero não foi só o estilo arrevesado da linguagem que mudou. Ao castelo que ainda se eleva “n’um breve horisonte do seio de um cesto de verdura” chegam agora dezenas, centenas, milhares de pessoas. Está por fazer uma contabilidade rigorosa: podem ser 60 ou 70 mil por ano, podem ser mais de 100 mil. Aos pares, em família ou aos magotes, desembarcando de autocarros de dois pisos e ar condicionado, equipados com bonés ou t-shirts que promovem o que nem supúnhamos existir, aqui se exibe a democracia turística em todo o seu esplendor... O lixo não é o único reverso da popularidade de Almourol. No alto da torre de menagem sobram testemunhos escritos do apego dos portugueses ao património nacional. Num relance, ficamos a saber que “os fofinhos e os tchutchukinhos estiveram cá”, assim como a Catarina de Braga, a Joana de Leiria e o Manuel de São Teotónio. “Quando estive aqui pensei em ti”, escreveu a Carla Marisa; enquanto a Cris, mais dotada de poder de síntese, gravou a tinta branca “tadoro e tamo”, assinando por baixo. Pérolas epigráficas para os arqueólogos do futuro.
A afluência de visitantes aumentou consideravelmente desde que o Castelo de Almourol entrou no rol dos 21 finalistas para a corrida às 7 Maravilhas de Portugal. É o pretexto para excursões temáticas promovidas por câmaras, juntas de freguesia, associações, grupos desportivos, empresas privadas de turismo ou quem quer que se lembre de tirar partido da ideia. Aos fins-de-semana, há filas compactas de gente a aguardar lugar nos pequenos barcos a motor que efectuam a travessia mais barata para a ilha, e que nem com boa vontade levam mais do que 12 ou 13 pessoas. Outras embarcações com maior capacidade fazem o passeio a partir do cais de Tancos, situado poucos quilómetros a jusante. Apesar do ritmo imparável dos barqueiros, os aglomerados são inevitáveis e o compasso de espera consegue transformar uma viagem de ida e volta num desespero. Estamos na Primavera e é o que se vê. Se Almourol tiver a felicidade (ou infelicidade) de ficar eleito entre “os sete magníficos”, a época alta que se avizinha promete entusiasmo de fazer inveja às invasões bárbaras.
Apesar de Alexandre Herculano ter usufruído de um sossego incomparável, hoje limitado aos dias de semana, e não em qualquer altura do ano, também terá encontrado o castelo bem mais maltratado pelo tempo. Não tanto pelas guerras, como sucedeu a outras fortificações medievais, mas pelo abandono e desgaste resultantes de quase setecentos anos de história, com os efeitos de um violento terramoto pelo meio. A invulgar situação geográfica – um ilhéu granítico em pleno Tejo – dificultou o acesso e salvou-o da ruína anunciada, como aconteceu com os seus vizinhos mais próximos, os castelos da Cardiga e de Ozêzere (Zêzere ou Santa Maria do Zêzere), também edificados pelos Templários. Comandados por Gualdim Pais, os monges-cavaleiros assumiram a reconstrução de Almourol depois da conquista por D. Afonso Henriques aos árabes. Sobre a porta que dá acesso ao recinto interior encontra-se o testemunho, inscrito em latim: “Na era de 1209 [correspondente ao ano de 1171], o mestre Gualdim, de Braga, que é cabeça da Galiza, edificou o Castelo de Almourol com os freires seus irmãos.”
Achados arqueológicos certificaram a prévia ocupação romana; e é possível que outros povos habitantes da Península tenham ali feito o seu castro, aproveitando as condições naturais do terreno. Mas as origens recuadas de Almourol não obscurecem o essencial da obra dos Templários, incrustada na parte mais elevada do afloramento granítico. No total, a ilha mede pouco mais de 300 metros de comprimento e 75 de largura máxima. Além dos “cactos gigantes” já mencionados por Herculano, cresceram oliveiras, zambujeiros, aroeiras, freixos, choupos e salgueiros, além de vegetação rasteira e um canavial que serve de barreira de protecção contra as enchentes do Tejo. Entre as margens, nadam dezenas de patos bravos e alguns gansos, alimentados por um barqueiro dedicado aos animais que chegou a ter ali cabras-anãs e porcos do Vietname, até ser submetido a leis mais impositivas do que as da natureza.
Visto de cima, o castelo tem a forma irregular de um diamante, com dois panos de muralhas exteriores dotados de ameias e adarves, os caminhos de ronda por onde agora os mais afoitos circulam. Adossados às muralhas, dez torreões redondos, diferentes entre si, compõem um jogo de volumetrias que a ligação aos materiais rochosos torna ainda mais interessante. Outro elemento curioso é uma terceira muralha que divide o recinto em dois, ligando-se à torre de menagem. Sobem-se os três pisos por escadas de madeira, alcançando o terraço sem grande dificuldade. Só a descida do primeiro lance, que deve ser feita “às arrecuas”, tende a baralhar os visitantes sensíveis a vertigens. Lá em cima, abarca‑se a paisagem do rio entre as duas margens, com a linha do comboio da Beira Baixa e as povoações de Praia do Ribatejo e Tancos, a montante e a jusante. Compensa o esforço? Sem dúvida.
Alexandre Herculano, para quem Almourol só rivalizava com o seu congénere de Santa Maria da Feira, não conheceu o castelo nos seus melhores dias. Tão pouco viveu o suficiente para ver o restauro executado no fim do século XIX, à luz de um romantismo tardio em que a exaltação dos valores da nacionalidade não escapou a alguns efeitos de cosmética espúria. No Inventário Artístico de Portugal, Gustavo de Matos Sequeira acusou as obras de afectarem “a seriedade arquitectural” do castelo, alegando: “O abuso dos chistos, material apenas empregue antigamente nas enchelharias, a preocupação de completar que não satisfaz o arqueólogo e perturba a poesia, alteraram em muitos pontos a fisionomia do monumento.” Não seria a primeira nem a última das alterações. Nos anos 40 e 50 do século XX “outros reparos se lhe fizeram”, dessa vez, e ainda segundo Matos Sequeira, “com um plano melhor estudado e concebido”. Foi a época em que Salazar o exibiu como sala de visitas da Nação, jogando, num só trunfo, os pergaminhos e o pitoresco.
Decidir os limites da intervenção no património edificado é uma questão que tende a gerar polémica, sendo o atraso e o adiamento alguns dos efeitos colaterais. Recentemente, o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) chumbou o projecto de musealização elaborado pelo Museu Militar de Lisboa, em colaboração com a Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e a Escola Prática de Engenharia, entidade que tutela o castelo, também conhecido por Prédio Militar n.º6. O segundo projecto, revisto, aguarda resposta do IPPAR há mais de um ano. Essencialmente, visa “melhorar o monumento sem interferir muito na sua estrutura, isto é, sem derrubar paredes ou fazer qualquer tipo de construção”, explica Pérsio Basso, do Gabinete de Informação e Relações Públicas da Câmara da Barquinha. Significa melhorar os acessos, dotar o espaço de sinaléctica e instalações sanitárias, por um lado; e, por outro, criar condições no interior para a interpretação histórica. Por exemplo, construindo “uma estrutura em madeira, removível, para a recriação de ambientes medievais”, e “colocando figuras em fibra de vidro representativas da época: o taberneiro, o padeiro, o cavaleiro templário…”. Mais informação ao dispor do público, não só em texto, mas através de valências multimédia interactivas, é outro dos aspectos constantes no novo projecto.
A falta de informação in loco é acusada pelos visitantes mais atentos. À parte um painel metálico mal posicionado na margem direita, onde se lê uma breve resenha histórica, nada contribui para o conhecimento do Castelo de Almourol e das suas circunstâncias. Sem folhetos explicativos, sem visitas guiadas, a maior parte das pessoas dedica-se a uma espécie de pára-quedismo interpretativo, especulando sobre se “ali eram os quartos e ali eram as piscinas”, entre outras ilações imaginativas. Enquanto não chega a resposta do IPPAR, esta questão poderá ser minimizada a curto prazo, com a colocação de painéis informativos junto ao castelo. “Estamos a trabalhar nisso agora”, garante Pérsio Basso, sem querer adiantar datas concretas. A ideia faz parte do Parque Almourol, um projecto de valorização ambiental e cultural das zonas ribeirinhas, em parte já concretizado, que envolve as câmaras da Barquinha, Constância e Chamusca. “O projecto de musealização do castelo está também integrado no programa do Parque Almourol”, conclui.
As lendas e fantasias preenchem o que falta apurar de uma história fragmentada e cheia de hiatos no tempo. O Castelo de Almourol e o espírito do amor cortês figuram nas narrativas do Palmeirim de Inglaterra, um dos mais importantes romances de cavalaria do século XVI, escrito por Francisco de Morais, ele próprio cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo (“herdeira” da Ordem do Templo, quando esta foi extinta). Outras tradições inscritas no imaginário popular reportam à época da Reconquista, e falam de amores proibidos entre mouros e cristãos, formosíssimas donzelas e alcaides cruéis, terminando quase sempre em tragédia. Como é natural, sobraram relatos de visões assombradas, incluindo a de um certo pescador que, à noite, se disfarçava com um lençol branco para afastar a concorrência. Não dos fantasmas, mas da pescaria… Isso, claro, foi noutra época mais ingénua. Quando nem todos os autocarros tinham ar condicionado e se passava uma vida inteira sem conhecer as Maravilhas de Portugal, e logo todas de uma vez.
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UM ITALIANO EM LISBOA
Luís de Carvalho
Fotografia On Shot EstúdioApós seis anos à frente dos destinos do Teatro de São Carlos, Paolo Pinamonti faz um balanço da sua direcção. Das dificuldades que encontrou à obra realizada, Pinamonti conseguiu, apesar dos constrangimentos, colocar de novo o São Carlos na rede dos principais teatros europeus de ópera.
Quando chegou ao São Carlos, que casa é que encontrou?
Fui convidado no Verão de 2000, quase há sete anos, pelo então ministro da Cultura José Sasportes. Senti-me muito honrado com o convite porque o Teatro de São Carlos era, e é, no panorama lírico europeu uma das grandes casas de ópera, pela sua história, pela regular troca que teve ao longo de dois séculos com a Itália. Foi o primeiro teatro lírico da Península Ibérica. Vim cá visitá-lo em Outubro de 2000 e vi um teatro vivo, e com uma equipa de trabalho de altíssima qualidade. Percebi, depois da visita, que era um teatro onde se podia construir um projecto.
Que projecto é que trazia, ou foi moldando ao longo do tempo, para o Teatro de São Carlos ?
Creio que o meu projecto, no qual eu acredito, foi sendo desenvolvido desde os tempos em que fui director artístico do Teatro La Fenice, de Veneza, que terminou em Dezembro de 2000. Eu considero que o teatro lírico, apesar da concorrência dos DVD, do cinema, etc., está mais vivo que nunca. O espectáculo operático continua a ter uma procura grande por parte do público porque tem uma força comunicativa notável. Mas para que este se realize, considero que é importante que o teatro lírico ofereça ao público momentos de emoção e reflexão verdadeiros. E acho que só se pode chegar aí com trabalho relativamente àquilo a que eu chamo o “teatro de encenação”. Não é verdade que na história do século XX a ópera esteja morta, apesar de na literatura musicológica se tenha falado muito da morte e da crise da ópera. Há obras‑primas que foram criadas no século XX fundamentais. E como é que este produto cultural se manteve vivo ao longo destes anos? Inicialmente, pelos cantores, ou seja, um cantor queria interpretar um determinado papel, e pela qualidade da sua interpretação vocal conseguia alargar o repertório. Depois apareceram os directores de orquestra. Os cantores e os directores de orquestra justificavam a permanência de um certo tipo de repertório.
Nos finais dos anos 50, princípios dos 60, houve um fenómeno em que a encenação começou a ter a devida importância. Em Itália, isso aconteceu com pessoas como Luchino Visconti, por exemplo. Se no início do século passado a ópera foi considerada bafienta, hoje, pelo contrário, a ópera sabe que tem de falar para o público de hoje.
Eu então tentei alargar o repertório, introduzindo obras que tinham sido injustamente esquecidas. Quando se diz que os séculos XVIII e XIX foram momentos de grande fôlego operático, esquece-se que noventa por cento dessas obras desapareceram – estiveram em cena apenas três, cinco, ou seis dias.... – é uma ignorância histórica pensar os velhos tempos como os melhores de sempre e que agora não é assim.
Por isso apostei nessa ideia de “teatro de encenação”, no verdadeiro sentido da palavra, convidando encenadores como Herbert Wernicke, com o qual colaborei desde que cheguei cá, Graham Vick, Paul Curran, Luís Miguel Cintra, entre outros, para realizar espectáculos nos quais o aspecto visual e cénico soubessem “falar” ao público de hoje.
Ao mesmo tempo que apostava na renovação do repertório, estabeleceu uma rede com outros teatros, nomeadamente da Europa?
Claro, esse foi um aspecto muito importante, pois achei que o teatro tinha que se abrir à cidade. Quando cheguei, para além da história desta casa, achei que a implantação urbanística do São Carlos era muito particular – estava um pouco escondido, parecia que tinha sido posto num canto, apesar da sua grande história. Tive a sorte de a anterior direcção ter solicitado a qualificação do largo e a minha chegada coincidiu com a abertura deste espaço, possibilitando a abertura do teatro à vida da cidade. Eu considero que um teatro lírico não é só o lugar onde se mantém viva uma tradição, que tem agora mais de 400 anos de existência, mas também um lugar de convívio, um lugar onde nos sentimos bem. Com a colaboração de várias instituições da cidade, como a Gulbenkian, a Culturgest, o CCB, o Teatro São Luiz, com quem fizemos muitas coisas ao longo destes anos. Mas também, e isso era essencial, repor o teatro na rede dos grandes teatros europeus. Construímos uma rede de co-produções e colaborações significativa. Ou seja, quando propomos algo a outros teatros, estamos num patamar de igualdade, pelo menos artística. Estivemos agora em Paris, nos dias 16, 17 e 18 de Fevereiro, dedicados aos Dias Europeus da Ópera, e a apresentação do nosso Rheingold marcou este encontro entre as grandes casas de ópera da Europa e Estados Unidos.
As co-produções que tem realizado garantem a circulação das obras pelos outros teatros?
Há uma premissa que é importante perceber. Na Europa há dois grandes modelos de teatro – há o teatro de repertório, como o alemão, que oferece ao público cerca de 200 noites de ópera por ano, com uma mudança constante das obras em cena, e que se caracteriza por ter um tipo “industrial” de produção. Há um sistema bem rodado com as orquestras, não é sempre a mesma a tocar. Mas isto precisa de uma estrutura sólida: sala de ensaio, palco tecnologicamente bem apetrechado, que permita a mudança de cenários de um dia para o outro. Depois, há um outro modelo, sobretudo nos teatros italianos, da Península Ibérica e em França, que são teatros de temporada – concentram-se as atenções na montagem de um dado espectáculo que estará em cena por um período de tempo. Neste sistema as co-produções permitem partilhar os custos de produção. O custo dos cenários, adereços, guarda‑roupas é partilhado pelas entidades envolvidas, que depois acolhem a produção, mas que a realizam de maneira autónoma.
São diferentes os modos de produção entre os teatros de temporada e os de repertório.
Qual tem sido a receptividade do público? E acha que o São Carlos conquistou novos públicos?
Nós triplicámos os assinantes.Desde que cheguei e até hoje, os assinantes triplicaram. Isso significa que fidelizamos público de modo muito significativo. Claro, há sempre qualquer coisa que fica para trás, nomeadamente na captação de público mais novo. Mas esse é um problema europeu. Em toda a Europa o público estabilizou na faixa etária 45-50 anos. Eu gostaria de baixar essa faixa etária. Seria necessário apostar mais nos serviços educativos, mas para isso seria necessário mais financiamento e outras estruturas que o teatro não tem. Não temos espaço físico, o teatro pouco se alterou desde a sua fundação. Repare, a única orquestra sinfónica da capital não tem um espaço de ensaio. Em seis anos não se encontrou uma sala de ensaio. O que faço aqui com os meus colaboradores, porque sem eles não faria nada, são milagres!
Então que pode o teatro fazer para conquistar ainda mais público? Em que áreas deve investir?
O teatro tem uma estrutura arquitectónica frágil, com uma sala de 850 lugares. Não se pode pedir a uma estrutura assim que seja tudo e mais alguma coisa. Eu quando cheguei tinha vários projectos. Percebi que tinha que investir num patamar – dado o passado deste teatro lírico. Ficam muitas coisas por fazer. Por estes dias (Dias Europeus da Ópera) abrimos as portas do teatro e o público acorreu. Encheu os concertos, a exposição. Significa que se nós pudéssemos fazer mais, o público acorreria às nossas iniciativas. Mas para isso precisaríamos de três condições. A primeira, um orçamento adequado a uma casa de ópera – o orçamento desta casa está muito longe da maioria das óperas da Europa. Se quisermos comparar o São Carlos, em dimensão e número de técnicos, coralistas, etc., podemos fazê-lo com o Teatro Comunalle de Bolonha, ao Teatro de Toulouse, a esse tipo de teatros. Mas em termos orçamentais, estamos muito longe deles, embora estejamos a produzir, em termos qualitativos, quase ao mesmo nível, se não mesmo superior, dado o reconhecimento do público e da imprensa internacional.
Segunda condição (e isto teria de ser assumido por qualquer Ministério da Cultura), fazer obras a sério no teatro. Não é preciso um novo teatro. Precisa de uma intervenção para criar uma sala de ensaio, sala para concertos de câmara, equipamentos de apoio à estrutura que já existe. Apresentámos ao longo destes anos várias hipóteses reais, concretas. Seria restaurar uma das jóias arquitectónicas do país. Sei que cá não se podia fazer o que se fez com o La Scala de Milão, que foi fechado para obras de restauro e foi construído um novo teatro. Mas há maneira de contornar esses problemas. Apresentámos alternativas reais, exequíveis, para criar as tais condições de apoio ao teatro.
Um teatro lírico não pode acolher tudo e todos. Daí eu ter privilegiado a apresentação de espectáculos líricos ao público e não desvirtuar o nome e a história desta casa.
Aqui chegados, uma última pergunta. Qual é o sonho que tem para o Teatro de São Carlos?
Para o São Carlos tenho um sonho, isso sim! É ter condições de trabalho para todas as pessoas que cá estão. Após estes seis anos, quero tornar público os meus agradecimentos a todos os que trabalharam comigo. Eu, enquanto director do teatro, não fui capaz de dar aos meus colaboradores condições dignas de trabalho. Têm todos um alto nível de profissionalismo. A orquestra conseguiu realizar concertos e produções líricas de altíssima qualidade, sem ter uma sala de ensaio. O coro trabalha numa sala pouco maior que o meu gabinete! Os técnicos estão sempre disponíveis para trabalhar em condições difíceis, num palco sem renovação tecnológica, que os teatros que estão a ser construídos em Portugal já possuem. Como o Teatro de Almada, por exemplo, que tem condições magníficas. A rede de cine-teatros, também. Aqui, eu não consegui oferecer aos meus colaboradores condições dignas. Por isso, quero deixar um agradecimento público que é profundo. Apesar de tudo isso, conseguimos realizar grandes projectos como A Valquíria, O Anel (que está a caminho) ou a Charodeika, que foi um momento alto, em co-produção com o Teatro Marinsky de São Petersburgo. Ou os ciclos de música contemporânea, que colocou o São Carlos no centro do interesse do público de Lisboa mas também da imprensa internacional. O sonho é poder continuar a trabalhar com esta equipa, mas conseguindo criar as condições práticas num modelo de grande teatro aberto à colectividade. Criar as condições estruturais para continuar a trabalhar, como até aqui foi demonstrado que se é capaz.
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JOSÉ AFONSO - A GEOGRAFIA DE UMA VIDA
Luciano Rocha
Ilustração José Teófilo DuarteTítulo nenhum das obras que assinou – singles, álbuns, CD – reflecte como Cantares do Andarilho a vida de José Afonso, tantos os sítios por onde andou, desde, praticamente, a nascença, em Aveiro, até quase à morte, em Setúbal.
Este andarilhar, cadinho de experiências acumuladas, moldou‑lhe a forma de estar no mundo, olhar os outros, escolher barricadas, recusando, sempre, bandeiras partidárias, optando, acima de tudo, por ser homem de causas, atitude, não raro, reflectida nas cantigas que fez e cantou.
O deambular na vida de Zeca Afonso começou cedo. Com apenas um ano foi viver, ainda em Aveiro, com um tio – “republicano anticlerical e anti-sidonista” – por o pai, juiz, ter sido colocado em Angola.
Nem três anos passados, saudades de mãe fizeram-no ir ter com os pais. Viajou, de navio, entregue a um primo, em lua-de-mel, mais interessado nos prazeres nupciais do que na guarda do puto. Sozinho no navio grande, Zeca “adoptou” um padre – “esse homem era quase para mim um absoluto” – que transformou em “espécie de parente vitalício”, a quem chamava o “homem das barbas”.
Nunca mais esqueceu a experiência, considerando-a a fase “mais marcante da infância”. Mas outra, que se lhe gravou, também, na memória, esperava-o, a mostrar-lhe um mundo novo, que ia além de Aveiro e do “homem das barbas”. No Bié, onde os pais viviam, conheceu África – “coisa imensa, uma natureza inacessível, que não tinha fim” – com as “grandes trovoadas, gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças”. O fascínio dessa liberdade foi, porém, cortado ao fim de três anos. Voltou a Aveiro, embora por pouco tempo.
A etapa seguinte do andarilho que começava a nascer tornou a ser em África, mas dessa feita Moçambique – de “novo o paraíso” – onde estavam os pais e os dois irmãos. Zeca tinha 8 anos e “sonhava nunca mais abandonar aquela terra”. Afinal, o pesadelo não demorou a chegar, abrindo-lhe as portas do inferno. No ano seguinte, 1938, regressou a Portugal. Destino: Belmonte – uma “terra horrível” – onde sentiu pela primeira vez os costumes da ditadura. Ficou em casa de um tio, presidente da Câmara, comandante da Legião, que o proibia de dar-se com outros meninos e lhe vestia a farda da Mocidade Portuguesa.
Neste ambiente – “o ano mais desgraçado da minha vida” – tão diferente do que vivera em África, fez a 4.ª classe, o que lhe valeu escapar-se da “terra horrível”, do tio legionário, da farda da Mocidade e ir para Coimbra, para o liceu. Instalou-se em casa de uma tia. O cenário familiar era conservador, mas a cidade, apesar de tudo, dava-lhe liberdade. Foi por essa altura que começou a cantar em serenatas. Ainda era “bicho”– nome dado aos estudantes liceais – mas a voz livrou-o de praxes académicas. Mais ocupado com cantigas e boémia do que com deveres de estudante, perdeu dois anos lectivos. Resultado: entrou para a universidade só em 1949, já casado. Matriculou-se na Faculdade de Letras, em Histórico-Filosóficas. Concluiu o curso – feito de forma faseada, como aluno voluntário – 14 anos depois.
Pelo meio, fez a tropa em Mafra, gravou discos, voltou a África integrado no Orfeão e na Tuna Académica, encantou-se e desencantou-se, nasceram-lhe dois filhos. Este último facto fez com que a boémia minguasse proporcionalmente ao dinheiro no bolso. Para se sustentar e à família, deu explicações, fez revisões no Diário de Coimbra e foi professor, ainda de capa e batina, num colégio em Mangualde, outra terra e vivência que o marcaram.
O ambiente no colégio – onde a “repressão era feita a pedido dos pais” (“José Afonso – o Rosto da Utopia”, de José Salvador, Ed. Terramar) – oposto à forma como via o ensino, não o fez desistir de ser professor. Essa paixão, que disso se tratava, levou-o a Aljustrel, Alcobaça, Algarve, Moçambique, Setúbal.
A experiência algarvia, a par da moçambicana, foi, porventura, a mais proveitosa. Como professor, músico e homem. Em Faro deu aulas a adultos, muitos deles de Olhão – que “vieram a constituir a guarda avançada da LUAR”, organização armada anti-salazarista – de quem se tornou amigo e companheiro na luta contra a ditadura.
Do Algarve, disse, ficou-lhe o “convívio com os alunos da noite”, o “antídoto ao que tinha vivido em Coimbra”, e a “frescura das aulas” com crianças dos primeiros anos – os “seus improvisos, os seus desenhos animistas” – “altamente estimulante” para o trabalho musical. Em simultâneo, a constatação de dois mundos opostos: Faro, da pequena-burguesia; Olhão, dos trabalhadores. O primeiro, dizia, dos engravatados, o segundo, dos pescadores.
O Algarve marcou-o, ainda, por outro motivo: na Fuzeta conheceu Zélia, companheira para o resto da vida. Viveu, então, uma “fase de euforia extremamente gratificante” e das “coisas mais felizes” da vida, com reflexos na criação musical. São desse tempo, entre outras canções, “Ó Vila de Olhão”, “Tenho Barcos, Tenho Remos”, “Ronda dos Paisanos” e “Grândola, Vila Morena”.
Mas, os filhos – mandados, anos antes, por razões económicas, para junto dos avós – estavam longe. Por eles partiu, em 1964, para Moçambique, mesmo sabendo que o esperava um meio que não lhe “dizia nada, o do branco colonizador”. Não se enganou: “se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial”. Ao fim de três anos, “por razões morais e políticas”, voltou para Portugal. “Apostado em ser professor”, disse, à chegada, a Adelino Gomes.
A nova experiência africana amadureceu-o – “o meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido” – mas abalou-lhe a saúde. Colocado em Setúbal, no liceu, quase não deu aulas. Um esgotamento levou-o a uma cura de sono. Ao ter alta, vinte dias depois, soube que fora expulso do ensino oficial. Para sobreviver voltou às explicações. O reverso da medalha deu‑lhe mais tempo para compor e agitar consciências, numa altura em que a PIDE, polícia política, lhe proibia e interrompia espectáculos e a censura lhe cortava o nome. Os jornais que o queriam mencionar, escreviam José Afonso às avessas: Esoj Osnofa.
O baladeiro de Coimbra dera já lugar ao cantor politicamente empenhado. Os palcos foram os mais diversos: Igreja do Rato, colectividades, fábricas. Muitas das actuações – “Nunca recusei convites e nunca perguntei que organização política estava por trás” – eram clandestinas. Como companheiros em algumas dessas andanças, entre outros, o galego Benedito, Camilo Mortágua – “um marco na minha vida política” – que conhecera em França, e José Jorge Letria, que nesta edição assina um texto a recordá-lo. Pelo meio, distribuiu “largamente o manual de guerrilha urbana”.
O cantor militante não se confinou às fronteiras portuguesas. Na companhia de Benedito estendeu, em pleno franquismo, a agitação à Galiza e às Astúrias, onde fez a música do “Venham Mais Cinco”. França e Inglaterra, além de Espanha, países onde gravou, são, também, pontos de referência na geografia de Zeca.
Depois do 25 de Abril, enquanto a saúde permitiu, continuou a cantar e a agitar consciências, alargando o mapa geográfico do andarilho. A Angola, que o fascinara em criança, voltou uma vez mais para cantar num país em guerra. Como sempre, escolheu a barricada. A José Salvador (“José Afonso – O Rosto da Utopia”, já citado), revelou: “Não estou em condições de analisar as contradições no MPLA, mas sou inequivocamente pró-MPLA.”
Ao deixar-nos há vinte anos – 23 de Fevereiro de 1987 –, José Afonso legou‑nos, mais do que a geografia de um andarilho, o exemplo de uma Vida.
ZECA AFONSO NO ‘AI-PODE’
Jacinto Lucas Pires*
Vivemos no tempo em que os números falam e, desta vez, o que eles dizem é que o disco José Afonso chegou ao número um da tabela nacional de vendas.
É sabido que os “números um”, como a tradição, já não são o que eram – ainda assim, não deixa de ser uma boa surpresa que o álbum mais vendido em Portugal seja uma antologia do autor de Grândola Vila Morena.
Nasci em 1974 e talvez por isso esteja mais à vontade para dizer o óbvio sobre a obra de Zeca Afonso: é indispensável retornar uma e outra vez a esta música e a esta voz.
A música e a voz de Canção de Embalar, Cantigas do Maio, A Morte Saiu à Rua, Senhor Arcanjo. Retornar sempre ou, no caso das novas gerações e dos mais-que- -distraídos, escutar pela primeira vez, pela primeira vez arriscar o espanto destas palavras-melodias tão solitárias e tão populares, tão modernas e tão tradicionais, tão revolucionárias e tão de todos.
Neste canto acha-se a qualidade do que é para lá do tempo sem ser pesadão de “intemporal”.
O silêncio, a certeza, a ousadia simples e despida destas composições/interpretações.
É difícil dizer ao certo o que é. Um mistério não matemático, que reage à análise. Uma coisa no centro que segura a emoção, e prende‑a, prende-a até ao ponto óptimo. Uma voz que, sempre que acontece, “caem os anjos no alguidar”.
Ao contrário do que parece ser a opinião dominante sobre o “legado do Zeca”, não vejo vantagem em separar o “génio musical” do “cantor militante”. Antes o oposto, talvez. Nesta época de tantos “jogos criativos” sem espessura nem pensamento, a seriedade do seu caminho – num contexto completamente diferente, já se sabe – deve servir como excelente aviso.
São canções tão portuguesas, que ouvi--las é como nos ouvirmos ao espelho. Canções em que a “poética” do todo (palavra, música, voz) se organiza com tal justeza e generosidade que cada termo - mesmo os que, fora dali, surgiriam como tristemente “datados” - traz consigo uma hipótese de reinvenção.
Com Zeca Afonso no “ai-pode”, vê-se melhor a cidade, garanto. Os outros, a diferença, o lado de lá deste mundo.
*Originalmente publicado no Diário de Notícias, de 09/03/2007
ZECA, MAIOR QUE O PENSAMENTO
José Jorge Letria
O Zeca foi-se embora há vinte anos, no mês de Fevereiro. Era um dia chuvoso e triste e a cidade de Setúbal veio à rua para lhe dizer adeus. Ele era da casa, de certa maneira era da terra, pois vivera ali uma parte dos anos mais criativos e também dos mais árduos da sua vida, magoado por proibições humilhantes, mas animado pelo fulgor da utopia que lhe punha nos olhos a alegria cintilante das grandes certezas.
O Zeca era um de nós, mas era, de longe, o melhor de todos nós, por ser o mais inventivo, o mais original, o mais rebelde, o mais apto para as grandes sínteses da memória que lhe permitiram fundir a dolência da música coimbrã com a vivacidade dos ritmos ouvidos e aprendidos em África, desde os anos longínquos da infância com um pai juiz em terras angolanas.
Nunca o Zeca, contrariando uma tendência portuguesa e ancestral, se gabou do que quer que fosse, muito menos do talento que sabia ter, mas de que não queria nem sabia fazer alarde. Tal como Carlos Paredes, seu contemporâneo e, como ele, grande inovador estético e ético, Zeca Afonso achava que havia sempre alguém que tocava melhor que ele, que compunha melhor que ele, que cantava melhor que ele. E essa humildade chegava a ser comovente, por ser única e rara, e porque correspondia à grandeza moral e intelectual de alguém que acreditava estar ao serviço de uma causa, de uma ideia, de um povo e da sua memória.
Por isso, o Zeca não aceitava que dissessem que fazia espectáculos. Preferia chamar-lhes sessões populares, porque, com uma generosidade romântica, acreditava estar a servir o povo, ajudando-o a trilhar os caminhos da liberdade, que são sempre os mais agrestes e exaltantes. E que ninguém lhe dissesse que estava errado e que era preciso corrigir o rumo da bússola das suas convicções.
Porque fui seu amigo e companheiro de cantigas, antes e depois do 25 de Abril, nas precárias condições em que nos pediam que cantássemos, testemunhei a sua capacidade de dádiva e de entrega plena, sem nada pedir em troca, nem dinheiro, nem honras ou pedestais. Ele era assim e assim foi até ao derradeiro instante.
Que a sua orgulhosa condição de cantautor não leve ninguém a esquecer, a esta distância no tempo, que foi também poeta e grande leitor de poetas, desde os clássicos portugueses até aos surrealistas franceses, e também homem de muitas leituras e múltiplas meditações. Também disso nunca se gabou, que não era esse o seu estilo.
Vinte anos volvidos sobre a hora do adeus, recordo, saudoso, o seu fino humor, o seu desprezo pelos acomodados e pelos resignados, a sua imensa criatividade, a sua paixão pela liberdade, e, relendo um poema que me dedicou na prisão de Caxias, em 1973, dou-me conta de como ficámos mais pobres e abandonados quando ele se foi embora, porque, com ele vivo e a cantar, todos nos sentíamos mais fortes para seguir em frente, fosse para onde fosse, ao som da sua voz andarilha e límpida.
Continuo a vê-lo à proa de um refrão cantado em coro, boina descaída sobre a nuca, avesso a elogios e consagrações, homem de palavra e de palavras, campeão dos valores que não têm preço, amigo maior que o pensamento. E por isso me apetece perguntar: acaso não estará doente um país que ainda não aprendeu de cor a liberdade do seu canto?
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SANTARÉM - Terra-mãe do festival nacional de gastronomia
David Lopes Ramos
Fotografia Maurício AbreuComeçou, em 1981, o Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, que colocou a capital do Ribatejo no centro de um movimento que, passados 27 anos, se estendeu a todo o país. É curioso verificar que, ao fim destes anos todos, o Festival Nacional de Gastronomia de Santarém não só não perdeu a sua importância, como a viu crescer: as Regiões de Turismo esperam pela sua realização para concretizar a sua acção promocional mais significativa dirigida ao mercado interno; não há, actualmente, em Portugal, aldeia, vila ou cidade que não organize certames inspirados no que, todos os Outonos, faz da cidade escalabitana um lugar de peregrinação dos apreciadores da “santa trincadeira”.
Embora sejamos um país em que se acredita muito em milagres, no caso do êxito do Festival Nacional de Gastronomia, ele é devido ao trabalho sério e persistente de um conjunto de pessoas que percebeu que tinha chegado o momento da cozinha tradicional portuguesa. Certamente não por acaso, é de Janeiro de 1982, na Editorial Verbo, a primeira edição do livro de Maria de Lourdes Modesto denominado Cozinha Tradiconal Portuguesa, uma recolha de muitos dos mais significativos pratos, sopas, petiscos e doces das nossas cozinhas regionais.
Este movimento com matriz em Santarém teve também influência decisiva na proclamação, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 94/2000, de 26/07, da gastronomia portuguesa como “bem imaterial integrante do património cultural de Portugal”. Mesmo que tenha havido alguma precipitação, como penso que houve, na decisão, uma vez que não estava feito um levantamento e fixação escrita do nosso património gastronómico regional, percebe-se a pressa do Governo da altura, do Partido Socialista, e do respectivo secretário de Estado do Turismo, Víctor Neto, na concretização da medida. Eles queriam deixar uma decisão para a história. Na mesma época, em França, o ministro da Cultura Jack Lang preparava os dossiers para candidatar a gastronomia francesa a património da Humanidade. E, deve dizer-se, que, atendendo à riqueza e requinte das cozinhas francesas, com destaque para as do “terroir” e da “alta culinária”, Jack Lang não exagerava.
Os três mosqueteiros, que são quatro
Nada se faz sem o contributo de pessoas concretas e o Festival Nacional de Gastronomia de Santarém é um bom exemplo disso. Há um trio ligado à fundação do certame, constituído por Ladislau Botas, então presidente da Câmara Municipal de Santarém, Carlos Abreu, vereador, e Nuno Domingos, funcionário da autarquia, que criou as bases para a realização ter alcançado a dimensão e importância que tem hoje. Há uma quarta personagem, Eduardo Leonardo, um ribatejano de todos os costados, uma espécie de relações públicas informal, de que muitos se lembrarão na RT como comentador de touradas, outros como colaborador de jornais da região ou do Jornal de Notícias e do Correio da Manhã, que foi fundamental para a popularização da iniciativa
Carlos Abreu mantém-se, após estes anos todos, à frente do Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, e deve dizer-se que não adormeceu à sombra dos louros conquistados. Embora perante a incompreensão de muitos, que têm uma visão pouco dinâmica e evolutiva quer do certame, quer da cozinha tradicional portuguesa, Carlos Abreu tenta, de há dois anos para cá, levar a Santarém, durante os dias do festival, alguns dos nomes mais conhecidos da cozinha contemporânea portuguesa ou que trabalham entre nós, como Vitor Sobral, Fausto Airoldi, José Avilez, Luís Baena, Vítor Claro, Henrique Sá Pessoa, Ljubomir Stanisic, Joaquim de Sousa, Dieter Koschina, Augusto Gemelli, João Paulo Vieira e Luís Suspiro, por exemplo, e também chefes de cozinha de fama mundial, como foi o caso, em 2006, do catalão três estrelas Michelin no seu restaurante Racó de Can Fabes, em Saint Celoni, Santi Santamaria, estando anunciada para este ano a presença do brasileiro Alex Atala do conhecidíssimo restaurante D.O.M., de São Paulo. Todos estes chefes de cozinha, que têm a particularidade de, muitas vezes a partir de receitas das respectivas cozinhas tradicionais, partirem para a criação de novos pratos, são grandes defensores de uma culinária que sublinhe as melhores qualidades dos melhores produtos. E também chamou à participação duas cientistas, Paulina Mata e Margarida Guerreiro, ligadas ao projecto Ciência Viva, e que têm feito um trabalho meritório designadamente na divulgação dos princípios da chamada cozinha molecular.
Carlos Abreu que também já teve, há uns anos, de ouvir José Quitério, o nosso mais influente crítico gastronómico, acusar o festival de ser um mero “encontro de comilões e beberrões”, está atento aos sinais dos tempos e, embora mantendo a matriz original da realização, em que se destacam os almoços regionais e pantagruélicos no Salão da Casa do Campino, patrocinados pelas regiões de turismo, abre novas veredas, criando condições para a evolução sensata do Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, dando‑lhe uma dimensão internacional que, até agora, não alcançou. Há uma entidade cujo papel se tornou, ao longo dos anos, cada vez mais importante na dinamização do festival. Trata-se da Região de Turismo do Ribatejo, que tem uma boa ligação às autarquias regionais. Neste âmbito, destacou-se a acção desenvolvida em Coruche por José Labaredas, que, infelizmente, nos deixou cedo demais, que, desde sempre, associou aos concursos gastronómicos anuais da sua autarquia, a realização de colóquios sobre temas da especialidade.
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