<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010</id><updated>2011-04-21T21:34:41.159-07:00</updated><title type='text'>DDLX</title><subtitle type='html'>design de comunicação</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ddlx.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>6</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010.post-436448494551833210</id><published>2008-02-04T08:28:00.000-08:00</published><updated>2008-02-04T10:29:19.182-08:00</updated><title type='text'>LVT 7</title><content type='html'>&lt;a name="Topo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Editorial"&gt;MODERNIZAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: PRESTAR CONTAS E PROSSEGUIR&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Opiniao"&gt;O MISTÉRIO DOS COMERCIANTES QUE NÃO QUEREM VENDER&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Entrevista"&gt;JOSÉ EDUARDO CARVALHO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Reportagem"&gt;DAR VIDA ÀS MARGENS DO TEJO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Destaque"&gt;RECURSOS HÍDRICOS | RIOS DE PROBLEMAS... E DE OPORTUNIDADES&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Territorios"&gt;O RESTO NÃO É PAISAGEM&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Acontecimento"&gt;OPEN DAYS&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Patrimonio"&gt;CAMINHOS DO VINHO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Roteiro"&gt;PÃO, QUEIJO E VINHO, TRILOGIA DE PALMELA&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Editorial"&gt;MODERNIZAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: PRESTAR CONTAS E PROSSEGUIR&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;António Fonseca Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Com décadas de atraso, o actual governo desencadeou, em 2005, a reforma da administração pública, com a designação de PRACE – Programa de Reforma da Administração Central do Estado. Tarefa que tem tanto de prioritária como de ciclópica, pois parte de uma situação profundamente arcaica: organização desconexa, sectorializada e segmentada, com uma realidade herdada do antigo regime à qual se foram sobrepondo admissões sem nexo de qualificações e racionalidade; excesso de ministérios, serviços e funcionários, com uma lógica de emprego e não de necessidades; uma cultura de autocentramento e burocracia que tem ignorado o “utente” ou “cliente” dos serviços; e uma avaliação viciada que tradicionalmente não distinguia o mérito e a competência dos funcionários e chefias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira fase do PRACE foi realizada e traduziu-se numa redução significativa de serviços e chefias: cerca de um terço. A segunda fase da reforma – o novo estatuto de vínculos e carreiras, designadamente a adopção do contrato individual de trabalho em lugar do emprego público vitalício, e a redução de efectivos através da mobilidade – parece estar mais difícil, pois os prazos sucessivamente anunciados pelo Governo têm sido ultrapassados, sem resultados, com excepção do Ministério da Agricultura, no que se refere à mobilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na CCDR-LVT, adoptámos uma Agenda Estratégica, que constitui uma importante inovação como instrumento de gestão na administração pública portuguesa e que traça as prioridades básicas sobre as quais se fundamenta o esforço de modernização, mudança e reforma deste Organismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definiram-se cinco domínios estratégicos de actuação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Reestruturação orgânica – racionalização de recursos e desconcentração dos serviços&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar da lei orgânica das CCDR ter sido aprovada apenas em 2007, com quatro anos de atraso, a partir de 2003 encetámos a integração dos serviços transversais e a desconcentração de competências para os serviços sub-regionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esforço de reorganização dos serviços e racionalização da gestão permitiu, entre 2003 e 2007, reduzir o número de funcionários da CCDR-LVT de 508 para 392, o que representa uma redução de 116 efectivos (23%). Paralelamente, promovemos a desconcentração dos serviços, transferindo competências e recursos dos serviços centrais para as equipas de Setúbal, Oeste e Vale do Tejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre 2003 e 2007 as transferências do Orçamento de Estado (OE) foram reduzidas em cerca de 35%. Definiu-se uma estratégia e con­cretizaram-se as medidas para um forte aumento das receitas próprias, que se traduziu num reforço de 16%. Assim, a CCDR-LVT tem vindo a reforçar, significativamente, a sua autonomia financeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Racionalização de procedimentos e circuitos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Face aos insustentáveis prazos de planeamento e de licenciamento urbanístico e ambiental, em 2005 propusemo-nos uma meta ambiciosa, e estamos certos de que a vamos cumprir. Reduzir para metade, no espaço de três anos, os tempos de aprovação de Planos Directores Municipais, Planos de Urbanização e de Por­menor. A análise estatística feita em 2004 mostrou que os respectivos prazos eram: PDM – 9,9 anos; PU – 7,2 anos e PP – 4,4 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A publicação de um Manual de Gestão, que abrange os domínios do Ordenamento do Território, Ambiente e Administração Local, visou obter maiores objectividade e celeridade nos procedimentos e métodos de gestão, com resultados imediatos na redução dos prazos de aprovação dos instrumentos de planeamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Unidade de Verificação e Triagem permitiu o acompanhamento dos processos desde a sua entrada na CCDR-LVT até à emissão e expedição das decisões, o que se traduziu num encurtamento dos prazos (em média 2 meses). Melhorou-se a informação aos requerentes e libertaram-se as chefias e os técnicos de tarefas puramente administrativas. Da tradicional gestão por recursos, na administração pública, temos passado, progressivamente, para uma gestão por objectivos e projectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Informatização e novas tecnologias&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aprofundámos e intensificámos o uso de novas tecnologias de informação com base num Plano Director de Informática. Um passo fundamental que possibilita a racionalização dos recursos humanos, o rigor e celeridade dos processos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simultaneamente, foram desenvolvidos sistemas de gestão processual e aplicações para licenciamento do Domínio Hídrico, processos do Ordenamento do Território, de Avaliação de Impacto Ambiental, das Contra-ordenações e de Monitorização Ambiental (Ruído, Ar, Resíduos) e Gestão do Caudal Sólido do Tejo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação à vertente física do sistema de informação, saliente-se a implementação de uma rede VoIP nos edifícios dos serviços centrais e sub-regionais e a integral modernização do parque de equipamento informático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Formação profissional&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre 2003 e 2007, multiplicámos por quatro o número de funcionários envolvidos em acções de formação. Contudo, esta é uma área que, em nosso entender, não tem obedecido a uma adequada racionalização estratégica. Só em 2007 foi possível elaborar um Plano Estratégico de Formação, participado por todos os níveis de chefias e trabalhadores, que vai orientar as acções a realizar nos próximos anos, adequando-as às reais necessidades funcionais e humanas da CCDR e das pessoas que aqui trabalham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Sistema de Avaliação – SIADAP&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A CCDR-LVT foi um dos primeiros organismos do Estado a implementar o SIADAP, um importante instrumento de modernização da administração pública, através da contratualização e avaliação de objectivos e parâmetros de medição. A CCDR-LVT aplicou integralmente o novo sistema de avaliação em 2005, 2006 e 2007, com reflexos visíveis na responsabilização e resultados práticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alcance desta medida, criada pelo anterior governo, acaba de ser alargada com a publicação de uma lei (Lei 66-B/2007) que alarga a avaliação a dirigentes e chefias. Só nesta base é possível estabelecer a contratualização de objectivos, por forma a distinguir o mérito, a competência e a dedicação ao serviço público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo que defendemos a necessidade de reformar e modernizar a administração pública, como condição essencial para o progresso económico e social do país. Nos últimos dez anos, expressámos essa posição em diversos artigos publicados na imprensa e procurámos dar-lhe expressão prática na Comissão, desde que assumimos a Presidência, em 1998, com maior intensidade a partir da criação da CCDR-LVT, em 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sociedade não se muda por decreto, mas a intervenção legislativa e impulsionadora dos governos é indispensável para a realização das reformas. Como necessária é a actuação pró-activa dos dirigentes da administração para a concretização das mudanças modernizadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há mudanças fundamentais a fazer, com décadas de atraso, por exemplo a extinção dos Gabinetes de Apoio Técnico (GAT). Estes organismos foram criados nos anos 70, para apoiar o arranque das autarquias locais, então completamente destituídas de quadros técnicos, com excepção das de Lisboa e Porto. Mas o próprio diploma que criou os GAT - D.L. n.º 58/79, de 29 de Março – estipulava que os mesmos deveriam transitar “a curto prazo” para o poder local, à medida que este se fosse reforçando. Tal deveria ter acontecido em meados da década de 80, quando os GAT começaram a ser esvaziados de atribuições, com o apetrechamento técnico dos municípios e o recurso destes ao outsourcing. Ora essa extinção, várias vezes anunciada, ainda não se concretizou. O que implica desperdício de recursos humanos, técnicos e financeiros (mais de 600 funcionários em todo o país) e uma elevada carga salarial).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que o esforço já realizado pelo Governo e por alguns sectores da administração pública, no sentido da modernização, não seja em vão, é necessário que o PRACE prossiga e aprofunde as mudanças. É preciso derrotar as inércias e o marasmo que persistem neste impor­tante sector da vida nacional. O problema dos GAT é só um exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É imperioso reduzir organismos, órgãos e funcionários excedentá­rios. Única via para a necessária redução da despesa, a sustentabilidade das finanças públicas, o incremento da produtividade e a melhoria das remunerações dos que têm trabalho e avaliação de mérito. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Opiniao"&gt;O MISTÉRIO DOS COMERCIANTES QUE NÃO QUEREM VENDER&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Fernanda Câncio&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/opiniao.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Câmara ardente, produções fotográficas&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inox rasca, azulejos de casa de banho, cadeiras de plástico, montras atabalhoadas, remodelações desastrosas, horários de há cinquenta anos. Desculpando-se com «a desertificação», «a crise do consumo» e a alegada «concorrência desleal» dos centros comerciais, muitos – a maioria? – dos estabelecimentos ditos «tradicionais» do centro de Lisboa parece fazer um esforço sincero para afastar clientes . À espera de quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Em tempos, numa das esquinas da baixa, na rua da Prata ou dos Fanqueiros, existia uma loja com uma característica única: tinha montras em vidro abaulado. Montras redondas, portanto, memória de um estilo art-deco e de um tempo em que as lojas se desenhavam para serem diferentes e não iguais. Não sei que tipo de loja teria sido o da original, mas as montras magníficas permaneciam, milagrosamente intocadas décadas fora. Até que, em 2003 ou 2004, o estabelecimento fechou para obras. E, um belo dia, as montras redondas tinham desaparecido, substituídas por vulgaríssimas montras planas. Porque tinha de ser? Porque o vidro abaulado não cumpria a sua função? Porque a instalação do comércio em causa exigia montras planas? Não. A loja que abriu ali nada tem de extraordinário e tudo ficou mais ou menos como era. Mas, quem «desenhou» a transformação quis fazer igual. Uma loja igual às outras, uma esquina igual às outras. Anular a diferença. Destruir, numa palavra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este exemplo é apenas simbólico no seu carácter gratuito. Decerto que nenhum instituto do património arquitectónico classifica montras de vidro dos anos 40 ou 50. Não são propriamente monumentos. São só coisas bonitas e especiais estupidamente estra­gadas para dar lugar a coisas indistintas e banais. E isto passa-se todos os dias, há décadas, no comércio português, sem que, aparentemente, algo (regulamentos, leis, incentivos à conservação) o impeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estética dos estabelecimentos portugueses será aliás e para sempre um irresolúvel mistério para qualquer cidadão que tenha dado umas voltas pelo mundo. Donde virá o fascínio pelas portas de inox, o apego aos brilhantes, brancos (e broncos) azulejos e às luzes fluorescentes? Donde virá a irreprimida vontade de destruição de tudo o que é diferente e único? Do mesmo sítio, decerto, daquilo que faz com que na generalidade dos cafés e pastelarias sejam iguais os bolos, as sandwiches, o pão, o queijo flamengo, o fiambre fiambrino, o presunto ressequido, a manteiga planta, os folhados engordurados e os croquetes endurecidos, como se não houvesse mil outras possibilidades e a gastronomia portuguesa (para não falar das outras) não permitisse outras variações. Como se não houvesse pães e queijos e enchidos nacionais muito mais atractivos que aquilo, e como se não houvesse procura de novidade e qualidade. Não: esforço nenhum, atenção nenhuma. «Não se vende», ou «As pessoas não querem isso», responde o gerente, como se soubesse do que fala, como se tivesse corrido mundo, como se se informasse do que as pessoas querem e do que são «as tendências», para a seguir se queixar «do negócio que está mau». Por causa dos centros comerciais, claro, e da crise, claro, e «da desertificação do centro», claro, mas nunca por causa das opções erradas que o próprio gerente tomou. Não, nunca, por sua culpa. Mas isso é lá possível, a responsabilidade individual. Há-de haver sempre uma conjuntura maléfica para explicar ­a decadência do comércio dito «tradicional» – que não a tradição de imobilismo e burrice da maioria dos comerciantes, a sua fascinante ausência de mundo, a sua impagável falta de sofisticação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou a ser injusta? Olhemos então à volta. Quarteirão a quarteirão, o centro tem sido selvaticamente desfeado. Arcos pombalinos cortados para dar lugar a montras quadradas, pedras originais tapadas com granito ou mármore, mobiliário nobre  substituído por balcões de metal e vidro à dúzia e mesas e cadeiras de plástico num furor de igualizar e banalizar. Quanto mais especial e caracte­rís­tica for a arquitectura da zona, mais certo é que as «adaptações» ou, pior, as «modernizações» queiram transformar o espaço numa espécie de geminação com o café dos pirolitos, em Massamá, ou o pronto-a-vestir homem mulher e criança de Carnaxide. Que ideia, respeitar os materiais e o espírito de um edifício ou de um bairro. Que disparate, manter o mobiliário. O mais extraordinário nisto nem será talvez o mau gosto, mas a estultícia económica: é que se gasta dinheiro, com este tipo de intervenção. A ideia de fazer «novo» e «moderno» parece porém demasiado atractiva para se intrometer na lógica do custo/benefício. É ver então os comerciantes portugueses a deitar fora aquilo por que outros pagam fortunas: relíquias com décadas, ambientes especiais, o charme do antigo. Qual quê. Este extraordinário e obstinado autismo, tão óbvio nas «remodelações» e apropriações de espaços, prolonga-se em todas as etapas da relação com os clientes, a começar pela fixação de horários. Como se fosse a si próprios e não a outros que visassem agradar e atrair, donos de cafés e pastelarias, lojas de roupa e lingerie, imitam os bancos no seu afã igualizador: se um balcão deve ser rigorosamente idêntico a outro, seja numa zona com três séculos ou numa nova urbanização, com horários rigorosa­mente alinhados, por que raio hão-de os comerciantes de pensar diverso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos dias de semana a partir das sete da tarde e aos fins de semana todo o dia, a zona do Marquês de Pombal, em Lisboa, é um deserto. «Ferreira do Alentejo», chamou-lhe numa crónica a jornalista do DN Ana Sá Lopes. Tal qual: no centro da cidade, onde tantas empresas estão sediadas e onde estão situados tantos hotéis – e onde tanta gente vive, apesar do que se diz – encontrar um café ou uma loja abertos (à excepção, obviamente, das «novas» lojas, como a Louis Vuitton, a Dolce &amp; Gabanna, a Trussardi, a Tod’s ou a Timberland e o centro comercial do Tivoli, todos abertos ao sábado à tarde, e nos quais ninguém pensa quando fala de «comércio tradicional», apesar de serem lojas de rua como as outras) fora dos ditos «dias e horas de expediente» é uma tarefa ciclópica. O mesmo se passa nas chamadas avenidas novas: raros são os cafés abertos ao fim de semana, raras as lojas de porta para a rua que ponderaram alterar os horários de há 40 anos para outros mais compatíveis com os «novos» (com pelo menos 15 anos) ritmos urbanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas estão a mudar? Sim, estão: com a pressão do «inimigo», sobretudo – sendo o inimigo declarado aquilo a que se dá o nome de «grandes superfícies», mas, na verdade, correspondendo com mais probabilidade a comércios como a Zara, que com a sua política de horários, preços e trocas esmaga facilmente a concorrência.  Mas também com a lenta substituição dos velhos comerciantes. Não necessariamente por novas lojas – coisa que, de resto, está a acontecer a um ritmo preocupante (o ideal seria que os velhos estabelecimentos, de cafés a retrosarias, fossem capazes de evoluir e de se aguentar) – mas por gerentes frescos. Aqui e ali, um espírito novo aparece, provando que é possível manter o mesmo negó­cio, no mesmo sítio, com outra atitude. Mercearias que fazem obras para recuperar traças antigas, oferecem produtos de qualidade rebuscada, abrem ao sábado à tarde e têm serviço de entrega; lojas de tecidos que criam ateliers de costura para permitir um serviço global; artesanatos antigos que se reciclam em ofertas modernas (como o de sapatos à medida).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A incapacidade de adequação à procura é, de resto, tanto mais difícil de entender quanto a maioria dos comércios mais antigos ocupam espaços nobres, muito bem situados, e pagam rendas miseráveis. Ou seja, competem com os novos comércios com muito melhores condições objectivas: já estão nos bons sítios e por nada, tendo apenas os salários dos empregados e os produtos como despesa base.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por esse motivo ainda mais (sê-lo-ia sempre) incompreensível que os representantes dos comerciantes ameacem juntar-se a uma greve geral convocada pelos sindicatos, imputando ao Estado/governos a responsabilidade pela perda alegada, nos últimos cinco anos, de 250 mil empregos no sector.  Não fazendo ideia de como se chegou a este número, e partindo do princípio de que é fiável, não se pode deixar de concluir que a ser verdadeiro aponta o dedo, antes de mais, aos próprios comerciantes. Que fizeram para evitar isso? Desculpam-se com «a crise» (do consumo, natural­mente) e com a guerra que «as grandes superfícies» lhes fazem? O argumento é contraditório: afinal, as pessoas continuam a comprar, mas noutros lados. Se assim é, não deviam os «pequenos» comerciantes ter mudado a sua atitude, oferecendo aquilo que os grandes não podem oferecer – proximidade, ambiente, produtos especiais ou costumados, e tudo isto em horários compatíveis? Custa dinheiro abrir ao sábado e ao domingo? Decerto. Custa dinheiro ter produtos bons? Com certeza. Dá trabalho mudar de perspectiva e tentar perceber o mercado em vez de esperar que o mercado mude? Não há dúvida. Mas se calhar custa mais fechar. A não ser que, afinal, não custe assim tanto – há sempre uma coisa obscena chamada trespasse, em que o imobilista é compensado à conta de ter ficado imóvel.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Entrevista"&gt;JOSÉ EDUARDO CARVALHO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Presidente da direcção da NERSANT, Associação Empresarial da Região de Santarém&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Amaro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/entrevista.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Licenciado em sociologia e depois de um curto percurso no ensino, decidiu fazer carreira no mundo dos negócios. Tinha 28 anos quando deixou de dar aulas no ISCTE, em Lisboa, para se tornar empresário em Torres Novas. Está há 13 anos à frente da quarta maior associação empresarial do país em número de associados, mas garante que daqui a dois anos, altura em que terminará mais um mandato, «dará» o lugar a outra pessoa. Cansado de «remar contra a maré», José Eduardo Carvalho espera ver desbloqueados os entraves que atrasam a conclusão de projectos importantes para o desenvolvimento e compe­titividade da região: o Parque de Negócios, o Parque Almourol, o Plano de Inovação. E depois de 2013, conseguidas as mais-valias da integração da Lezíria e do Médio Tejo no Programa Operacional Regional do Alentejo (no âmbito do actual quadro comunitário de apoio), sonha com a integração da sua região na zona do litoral Oeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Na altura em que foi aplicado o phasing out  [transição da região da Lisboa e Vale do Tejo do objectivo I para o objectivo II], disse que a Lezíria e o Médio Tejo são os parentes pobres da Área Metropolitana de Lisboa (AML). Mantém essa opinião?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Proferi essa declaração porque estas duas NUTS [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos] foram seriamente prejudicadas no acesso aos fundos comunitários com a aplicação do phasing out e nesse sentido não há dúvidas que a Lezíria e o Médio Tejo foram os parentes pobres da AML. E se porventura as autarquias conseguiram atempadamente encontrar programas e intervenções para compensar as consequências mais nefastas do phasing out, o mesmo não sucedeu com as empresas. Toda a região lutou em vão contra esta medida. Mas com a entrada deste Governo a situação resolveu-se em 15 dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Concretamente, que prejuízos tiveram estas duas NUTS?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde logo, ao nível da captação de investimento, da modernização das empresas, do crescimento da sua competitividade. Durante três anos as empresas desta região foram seriamente afectadas por essa medida que vigorou no quadro comunitário anterior. Não é possível avaliar as consequências que, neste momento, ainda se fazem sentir pelo facto de termos estado tanto tempo com quebras de investimento muito acentuadas na região. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Esta região conseguiu alcançar a meta que definiu nos últimos anos, a de consolidar a marca Ribatejo no mercado. Até que ponto o sucesso de um produto advém da associação que se faz à região onde é produzido?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem diga que com a globalização as marcas pouco significado têm  para o crescimento e para o desenvolvimento das regiões. Em certa medida, concordo com esta tese. A Renova venderá mais papel higiénico se a associarem à marca Ribatejo? Não creio. A Compal venderá mais sumos se a identificarem com a marca Ribatejo? Não creio. Eventualmente, serão dois os sectores que podem beneficiar com a afirmação da identidade territorial: ­o turismo e, eventualmente, o vinho. A necessidade de consolidar a marca Ribatejo surgiu na sequência da integração das NUTS Lezíria do Tejo e Médio Tejo noutra região. Tivemos necessidade de saber qual o sentimento da população sobre a identidade deste distrito. A marca Ribatejo foi a que reuniu maior concenso. Nesta fase, reafirmar esta marca como identidade territorial seria importante, mas não creio que a CCR do Centro e a CCR do Alentejo estejam dispostas a isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Porquê?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque a integração não está a ser fácil. Tanto de um lado como do outro, as pessoas sabem que estão a servir de barriga de aluguer. Os principais actores – as CCR, os autarcas, as associações empresariais –, por um lado, respeitam a nossa integração e têm algum receio da dinâmica e coesão que aqui existe (temos alguma parce­ria público-privada com capital); por outro lado, preferem uma integração dentro dos seus planos de desenvolvimento estratégico.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Preferia a integração na região do Oeste?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prefiro estar incluído ou trabalhar numa parte menos rica de uma região rica do que numa parte mais rica de uma região pobre. A Área Metropolitana de Lisboa e a região de Lisboa e Vale do Tejo, pela sua força e motor de desenvolvimento, têm mais vantagem para nós. Se a sociedade portuguesa evoluir política e administrativamente para a criação de estruturas regionais que alterem por completo o sistema centralizado em que vivemos, será inevitável a integração da Lezíria e do Médio Tejo na região do Oeste. Dificilmente será outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Que mais-valias o Oeste poderá trazer à Lezíria e ao Médio Tejo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, desenvolvimento regional por via do turismo, que será um dos sectores que mais crescerá em Portugal. O potencial é enorme.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;E o que beneficiaria o Oeste?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde já, beneficiaria com o nosso aporte de desenvolvimento nas áreas agro-alimentar e energia (estão aqui os maiores produtores nacionais no domínio energético). Neste distrito existe um conjunto de grandes empresas com um VAB [Valor Acrescentado Bruto] extremamente importante, que o Oeste não tem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Não está satisfeito com a integração no Programa Operacional Regional do Alentejo no actual quadro comunitário de Apoio?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do ponto de vista da optimização dos fundos estruturais julgo que a integração no Alentejo foi uma boa medida, se for experimental. Se for irreversível e se resultar numa divisão deste distrito a partir de 2013, discordo. Acho que se devia implementar o que está previsto: uma entidade que integrasse os três planos estratégicos que estão a ser feitos no Médio Tejo, na Lezíria do Tejo e no Oeste. E que fosse racionalizadora dos investimentos e unificadora da estratégia destas três NUT. Acho que lhe dava coerência e não seria fracturante. É positivo neste momento estarmos no Alentejo porque estamos nas NUT de objectivo I, ou seja, estamos nas regiões plano de objectivo I, o que nos dá acesso a um conjunto de instrumentos financeiros que não teríamos se ficássemos na Área Metropolitana de Lisboa ou ligados à Região de Lisboa e Vale do Tejo. Mas do ponto de vista da estratégia e do desenvolvimento, a partir de 2013 penso que a Lezíria e o Médio Tejo não deviam ficar irreversivelmente integradas em regiões que não fosse a sua região natural: o Oeste. Sou favorável a uma unificação da Lezíria, do Médio Tejo e do Oeste.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Há bocado aflorou a questão da regionalização. Acha que está na altura do país voltar a falar do tema?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que faz todo o sentido. Sempre fui a favor da regionalização. Existem bons e maus exemplos de regionalização em toda a Europa, mas acredito que se houver o cuidado de racionalizar os custos do Estado, evitando que ganhe maior expressão do que a que tem, a regionalização seria benéfica para o país. O que é preciso é reduzir o défice orçamental. 60% do eleitorado português (cinco milhões de pessoas) vive do orçamento geral do Estado. A situação é de tal maneira grave que é impossível que continue por muito mais tempo.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Mas Portugal é pequeno. Fragmentá-lo em regiões administrativas tornaria mais célere o «andamento» dos processos?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal é pequeno, mas está muito centralizado. O excesso de cen­tralização não funciona e é prejudicial para o desenvol­vimento. Veja o que acontece na áreas da inovação e da competitividade, ferramentas importantes para o sucesso de qualquer empresa. Nos países descentralizados, os grandes grupos económicos não necessitam de ter estruturas de desenvolvimento tecno­lógico porque eles próprios fazem as investigações. Mas isso é impensável no caso das PME [Pequenas e Médias Empresas]. Em Portugal é preciso criar estruturas (centros tecnológicos, centros de competências, por exemplo) que façam a intermediação entre as necessidades de desenvolvimento e inovação das pequenas e médias empresas e as universidade ou centros de saber. Nos países onde existe uma maior descentralização político-administrativa, os orçamentos regionais financiam os centros de investigação através de apoios muito grandes às empresas. Aqui não temos nada disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Mas projectos não faltam. Um dos mais ambiciosos é a construção nesta região de cinco áreas de localização empresarial. Em que fase estão os Parques de Negócios?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos a perder investimentos para as regiões de Cáceres e de Badajoz devido aos apoios que os governos regionais espanhóis estão a dar às sociedades que gerem áreas idênticas às nossas. Apoios directos à venda de terrenos. A competitividade, o desenvol­vimento das regiões consegue-se através da captação de investimentos, que passa por medidas como as criação de isenções fiscais, de incentivos, e, neste aspecto, os governos regionais em Espanha estão a dar cartas de como se pode correlacionar positivamente a descentralização com o aumento da competitividade pela atracção de investimento. O Estado português chegou a um ponto que para sobreviver e para se manter suga por completo todas as mais-valias e riquezas criadas na economia. Precisamos de alterar tudo isto. Neste momento vivemos num dilema: ou o milagre ou a falência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O que impede esta região de captar investimento? Não é essa a ideia subjacente ao projecto dos Parques de Negócios?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse é o objectivo, mas é normal que os investimentos acabem por fluir para regiões onde existem valorização e qualificação da mão-de-obra e uma política fiscal mais competitiva, como é o caso em Espanha. O Parque de Negócios é um investimento importante, só as infraestruturas implicam um gasto de 100 milhões de euros. Ou seja, temos 100 milhões de euros para investir há cinco anos e  não conseguimos porque existem entraves aos licenciamentos. As tramitações processuais dos planos de pormenor, em que é necessário fazer pequenas alterações a dois ou três artigos do PDM [Plano Director Municipal], demoram, em média, cinco ou seis anos. Estes entraves têm prejudicado mais o desenvolvimento do país do que a própria legislação laboral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quer dizer que o projecto está parado?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parado não está e vai ser concluído. Mas vai demorar. Temos que esperar cinco ou seis anos para  fazermos investimentos que ultrapassam os 400 milhões de euros, porque primeiro é preciso, por exemplo, naturalizar uma linha de água quase inexistente mas que está protegida há 15 ou 20 anos pela carta de RAN [Reserva Agrícola Nacional, integra um conjunto de áreas que, pelas suas características morfológicas, climatéricas e sociais, maiores potencialidades apresentam para a produção de bens agrí­colas]. Isto só em Portugal. São estes obstáculos que atrasam tudo.&lt;br /&gt;A área em Rio Maior, por ser mais pequena, vendeu-se em seis meses. E há mais um lote que está neste momento a ser instalado.Todos os outros aguardam. O que me revolta mais é saber que para investimentos semelhantes, dentro da mesma área e para o mesmo tipo de equipamentos, o Governo desbloqueia cem hectares de RAN e REN [Reserva Ecológica Nacional], em leite de cheia, para a plataforma logística da Castanheira. Aqui, demora cinco anos a encontrar forma de alterar o uso do solo para dar andamento aos projectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quantos postos de trabalhos vão ser criados com os Parques de Negócios? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À volta de 6994 postos de trabalho, num prazo de 10 anos, que é o tempo previsto para a concretização do projecto. Vamos ter parques extremamente competitivos. O de Torres Novas tem uma localização privilegiada, basta colocarmos um lote à venda que em poucos dias vende-se, é impressionante. No Parque de Rio Maior, a possível deslocação do aeroporto poderá comprometer um pouco as expectativas. Essa é outra questão: não consigo conceber que não se leve em linha de conta todos os investimentos que foram projectados a contar com essa infraestrutura. As acessibilidades que foram prometidas deviam ser respeitadas, nomea­damente o traçado desde a Castanheira até Rio Maior, porque deram expectativas a agentes económicos. São acessos fundamentais para segurar e atrair investimentos. De resto, não vejo como é possível alguém fugir neste momento a essas responsa­bi­lidades. Demoramos seis anos a implementar este projecto inovador de parques, que agora se começa a desenvolver em todo o país, e é bom que se saiba que surgiu aqui. Infelizmente, os obstáculos aos licenciamentos e o excesso de questões ambientais laterais estão a atrasar os processos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O projecto Parque Almourol não lhe causa tantas dores de cabeça...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Parque Almourol resulta de uma parceria público-privada entre uma associação empresarial (NERSANT) e três autarquias (Constância, Vila Nova da Barquinha e Chamusca), cujos orçamentos eram os mais frágeis da região. Trata-se de um projecto intermunicipal que tem como objectivo transformar 12 quilómetros de margem de rio no principal parque de aventura e turismo activo no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Que actividades estão previstas?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível optimizar naquele espaço um conjunto de investimentos se se conseguir conjugar três factores: água, ar e terra. A água não é problema, porque temos os rios Zêzere e Tejo, este na sua parte mais estreita. No âmbito do Programa Vale Tejo, que tencionava recuperar e dinamizar as margens ribeirinhas do Tejo, andamos a ver qual seria a parte do rio mais interessante, pedimos a opinião de consultores... Assumido o objectivo de construir um parque de aventura e turismo, havia que decidir quais os equipamentos, como é que podíamos compatibilizá-los com a valori­zação urbana e ambiental e como é que iriam ser distribuídos e geridos. Outro aspecto relevante foi a constituição da Sociedade Parque Almourol, uma empresa mista que continua a gerir, com base no planea­mento inicial, este puzzle de equipamentos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Que peças faltam para completar o puzzle?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos investimentos importantes pensados na primeira fase do projecto, faltam algumas peças. Falta a limpeza da ilha, que está cheia de caniço. Falta fazer o percurso pedonal ribeirinho de 12 quilómetros, desde Constância até Vila Nova da Barquinha. Falta construir o parque de aventura e turismo. E falta a conversão do Castelo de Almourol em museu. O ideal é que tivesse sido feita desde o início, mas negociar com o IPPAR [Instituto Português do Património Arquitectónico] é complicado. E mais difícil ainda é juntar o IPPAR a militares [o castelo é propriedade do Exército Português]. Depois de muita luta, de muitos problemas, de muitas propostas, chegou-se a uma fase em que o próprio Museu Militar, em Lisboa, fez o projecto e o IPPAR finalmente aceitou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Em que consiste a intervenção no castelo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essencialmente, na reprodução da vida medieval no interior do castelo. Na principal torre, os visitantes terão oportunidade de ver como viviam, como dormiam, o que faziam os habitantes do castelo durante a Idade Média. É uma coisa aparentemente fácil, mas, na verdade, tão difícil de concretizar. Andamos há sete anos para realizar uma ideia que não necessita de mais de um milhão de euros. É também preciso definir em que termos se vai fazer a exploração e a gestão do museu. Estas questões estão todas por tratar e espero que não demorem mais sete anos. Penso que devia haver mais dinâmica por parte da instituição militar para acelerar o processo. É inacreditável que se possa levar 12 ou 13 anos para criar um museu como este. Não percebo esta apatia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Ainda está de pé a intenção de construir um hotel?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, temos esse grande investimento turístico privado na calha, um hotel de quatro estrelas, em Vila Nova da Barquinha, na margem do rio Zêzere. Já devia estar numa fase mais avançada, mas também aguarda pelo processo de alteração do uso do solo. E os militares deram um parecer negativo à sua construção.&lt;br /&gt;A recuperação urbana dos prédios devolutos existentes ao longo do rio, em Vila Nova da Barquinha e Constância, será feita na segunda fase do Parque Almourol? &lt;br /&gt;Sim, através de parcerias público-privadas. Os privados constróiem, as câmaras cedem os terrenos e depois haverá uma repartição das mais-valias que serão criadas com a venda das construções para fins comerciais e residenciais. Até agora foram autorizadas duas ou três habitações com pouca densidade. Neste momento ainda existe muita degradação nalguns prédios, mas se visse o estado daquela zona antes da intervenção... parecia o Iraque bombardeado. A construção na Barquinha já foi anunciada, ao abrigo desta parceria público-privada, e agora vai a concurso.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Outra grande aposta da associação que dirige é o Plano de Inovação. Em que fase se encontra?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da definição do projecto, da negociação das parcerias com as universidades e da negociação  com as autarquias quanto à sua localização, encontramo-nos na fase de pré-apresentação de ­candidaturas ao QREN [Quadro de Referência Estratégico Nacional]. Em termos de investimento físico na área da inovação, já foi construído em Abrantes o edifício onde funcionará um centro tecnológico alimentar, que irá ocupar-se de quatro produtos: pimento, marmelo, azeite e enchidos e prestará apoio ao nível da informação aos produtores e empresas que trabalham com estes alimentos. Pretendemos também construir um Centro Tecno­lógico de Materiais de Construção em Fátima, desenvolvido pelo departamento de materiais de construção do Instituto Superior Técnico de Lisboa. Na Carregueira, Chamusca, surgirá um Centro de Competência na área dos Resíduos e Ambiente, pela proximidade a infra­‑estruturas de tratamento como os CIRVER [Centros Integrados de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos Perigosos]. Em Ferreira do Zêzere está prevista a construção de um Centro de Competências de Recursos Florestais e em Almeirim será criado um Centro Tecnológico Agro-Alimentar vocacionado para produtos frescos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Tudo isto até 2013?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É perfeitamente viável. Não são estruturas muito grandes, cada uma implica um investimento que ronda um milhão de euros ou um milhão e cem mil euros. De resto, o objectivo vale bem o investi­mento: criar desenvolvimento, know-how e competências próprias na região, porque o grande problema é que está tudo muito centrado em Lisboa, é trazer bons quadros técnicos para cá. As pessoas que vivem a 100 quilómetros daqui preferem fazer a viagem de carro a instalarem-se cá. Porque os bons colégios para os filhos estudarem estão em Lisboa. Até lhe digo mais: hoje, um bom pai diz aos filhos para irem estudar para o estrangeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Acusa as associações empresariais nacionais de não se empenharem num modelo de competitividade que as faça progredir. Esse empenho passa pela adopção de que medidas?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, pela unificação do movimento empresarial. Foi por os empresários não terem uma voz única que falhou a tentativa de criação da Confederação Empresarial de Portugal. &lt;br /&gt;Há neste momento necessidade de resolver três ou quatro questões para melhorar a situação das empresas. A legislação laboral deve ser revista em alguns aspectos. Mais do que o défice orçamental, o desafio actual é a competitividade e nesse sentido deviam criar-se programas de apoio directo às empresas para que pudessem fazer aquisições, fusões, exportar, internacionali­zarem­‑se (existem instrumentos para isso: titularizações das dívidas, investimentos grupados, fundos de investimento imobiliário, capital de risco, garantias mútuas...). As dívidas do Estado aos priva­dos devem ser saldadas (não consigo admitir que haja arbitrariedade fiscal para a cobrança de impostos se o próprio Estado não é célere no pagamento do que deve às empresas).&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;E que debilidades diagnostica na estrutura empresarial portuguesa?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falta de capacidade empresarial, falta de qualidade de gestão, estruturas empresariais de pouca dimensão, pequenas e sem capa­cidade financeira. Neste país há duas economias: há a economia da banca, da distribuição, da energia e das telecomuni­cações, que ganham bom dinheiro e remuneram bem os seus accionistas; e há a economia das indústrias transformadoras, que criam mais emprego na estrutura empresarial, que estão mais vocacionadas para o mercado interno, que estão mais expostas à concorrência do mercado internacional, que têm problemas dia­bólicos devido à contracção do investimento no mercado interno. Estas são as duas economias existentes em Portugal. Enquanto uma cresce, outra definha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Reportagem"&gt;DAR VIDA ÀS MARGENS DO TEJO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Amaro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/reportagem.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Guto Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Requalificar as zonas ribeirinhas tem sido, em todo o mundo, a melhor forma de aproveitar as mais-valias de um rio  que atravessa uma cidade. Lisboa não é excepção, Almada e Seixal também não. Na margem sul do Tejo estão previstos projectos que prometem mudar radicalmente as zonas da Margueira, da Siderurgia Nacional e da Quimiparque, onde se espera que surjam espaços de lazer, de comércio e de habitação. Na margem norte também haverá intervenções de requalificação, em especial na baixa pombalina, na Ajuda­‑Belém e em  Pedrouços. Para que a água comece também a ser falada não apenas como um bem escasso, que começará a faltar daqui a 20 anos em muitas regiões do mundo, mas como um factor de competitividade poderoso, capaz de alterar a imagem e o modus vivendi de uma cidade. As Docas de Alcântara e o Parque das Nações surgem exemplares no aproveitamento do potencial do Tejo: de zonas  deprimidas transformaram-se em importantes pólos turísticos e económicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Imagem estranha a de um marceneiro num local onde não existe quase nada além de edifícios velhos com fachadas que ameaçam ruir a todo o momento. Os avisos afixados nas paredes tornam mais real o risco que até os menos atentos adivinham. O Cais do Ginjal, na margem sul do Tejo, ficará reduzido a escombros mais dia menos dia. E é no meio deste iminente cenário que Ramiro Gonçalves finaliza um móvel de cozinha. «Podem entrar. Aqui não há cão». Esclarecemos que «não somos clientes», que «não queremos encomendar nada». Que o que nos levou à espreitadela foi «a curiosidade de saber  o que faz aqui no meio do nada». A resposta é pronta: «Trabalho. Estou a acabar um serviço que fiquei de entregar hoje à tarde». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesa onde Ramiro corta a matéria-prima vê-se «o lado de lá», Lisboa. Mas não é por «esta vista» que o artesão mantém a porta da marcenaria aberta. É pelo rio.  Por ele permanece neste local, isolado. «É um privilégio estar a dois metros da água». Não há exagero na medição. O Tejo fica mesmo a dois metros da porta da marcenaria de Ramiro. Lisboa surge ao longe, iluminada pelo sol que nesta altura do ano é fugidio neste pedaço de marginal. Aqui é tempo de sombra e de muito vento. «Aparecem uns raio­zitos à hora do almoço e vão-se logo embora, não ficam o suficiente para aquecer a gente».  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A marcenaria de Ramiro fica a meio do Cais do Ginjal, onde o aban­dono é mais evidente. Quem sai dos barcos da Transtejo e vira para o lado direito, percorrendo o cais até ao fim – talvez por isso o último restaurante se chame Ponto Final,  tem a sensação de entrar num cenário fantasmagórico produzido de propósito para um filme. Aqui se encontram as infraestruturas associadas à pesca do bacalhau: a antiga fábrica do bacalhau, a antiga fábrica de gelo, a antiga fábrica dos arrastões e as casas dos pescadores que partiam para a Terra Nova e por lá ficavam durante semanas enquanto não enchessem o barco de peixe – as casas estão em fase de degradação avançada, mas algumas, se não se engana quem passa e avança a informação, dão abrigo a «emigrantes do Leste». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este enquadramento resulta mais esquisito quando ficamos ­a saber que foi Ramiro que fez os cenários do filme Afirma Pereira, de António Tabucci, com Marcello Mastroianni no papel principal e onde entram também Mário Viegas, Joaquim de Almeida,  Daniel Auteuil. «Às cinco da manhã eu já andava na rua Augusta a preparar o cenário para as gravações», a tirar todas as referências publicitárias que sugerem esta época e a substituí-los pelos placards de 1938. «Não pode falhar nada», porque um pequeno pormenor fora de época pode estragar tudo. Os móveis e o chão dos interiores onde eram gravadas as cenas «foram feitos por estas mãos ou conforme as minhas instruções». E quem não acredita no que Ramiro diz pode confirmar na ficha técnica de Afirma Pereira, onde o nome «Ramiro Golçalves» aparece como «Chefe de construção». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da sua arte, Ramiro também colocou à disposição da produção algumas velharias da sua colecção: «O relógio que Mastroianni usa no filme é meu, assim como outros objectos: a máquina do café, a máquina registadora, a pedra do lava-louça...». Depois desta experiência cinematográfica, outros convites surgiram para construir os cenários de outros filmes, um espanhol e outro francês. E enquanto a ribalta não se lembrar outra vez dele, continuará a preencher os dias a fazer móveis a sério, que os dos filmes eram só a fingir, com a porta sempre aberta para não perder o Tejo de vista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramiro gosta deste sítio e não percebe como é que depois de ­tantos anos abandonado à sua sorte «ainda ninguém resolveu mexer nesta zona para tirar o maior proveito dela». O Cais do Ginjal tem potencialidades. A «colagem» ao rio torna-o um local apetecível a quem o associa a momentos de lazer e bem-estar. Tanto investidores como consumidores só têm a ganhar com a recu­peração e qualificação de zonas ribeirinhas como esta.  O Parque das Nações e as Docas são exemplos do que a devolução da vida a uma marginal abandonada pode trazer às pessoas, às empresas e ao próprio local. Espaços, usados como depósitos de conten­tores, transformaram-se nuns dos mais aprazíveis locais em Lisboa para passear, tomar um café, jantar... O pólo de atracção é, sem sombra de dúvidas, a água. Que o diga João, empregado de mesa do Doca Peixe, nas Docas. «Se o restaurante estivesse noutro sítio não tinhamos tantos clientes. As pessoas vêm aqui porque servimos comida de qualidade, é claro, mas o rio, a marina, é a razão principal. Estamos quase sempre cheios durante toda a sema­na, sobretudo ao jantar. Ao fim de semana então, não paramos. Chegamos a servir 150 refeições. É bastante bom neste negócio». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto repõe o gelo no tanque do peixe – «olhe para isto, fresquinho que não há, acabadinho de chegar da lota» –, João lembra a utilização no passado de um espaço privilegiado como este. «Isto existe assim há uns 12 anos. Antes só havia aqui contentores. Os navios que chegam de África aportavam além no porto e largavam aqui as mercadorias.  Foi uma coisa positiva terem feito isto. É bonito, é agradável. Traz clientes. E acho que estão a pensar fazer o mesmo até Pedrouços, na antiga Doca Pesca, em Algés. Se for verdade vai ser muito bom para toda a gente». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Parque das Nações os testemunhos também não menos­prezam a proximidade da água como uma mais-valia: «É óbvio que o facto de estarmos à beira-rio nos faz ter mais clientela. Aos fins-de-semana é um corropio de gente», garante Francisco enquanto tira um café atrás do outro no Bar Esplanada Azul Profundo, no Passeio das Tágides. O rio está a dois passos e apesar de ser ainda cedo para uma manhã de Outono fria, muita gente se levantou cedo e já passeia, anda de bicicleta, senta-se nas esplanadas a apanhar um pouco de sol, lê um livro, brinca com os filhos. Uma margem de rio vivida é geradora de vida, de saúde e de bem­‑estar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A própria Organização Mundial de Saúde, através do Projecto das Cidades Saudáveis, não se cansa de enaltecer a recuperação de áreas industriais deprimidas e inquinadas como forma de devolver a qualidade de vida às populações. Na área de Lisboa  e Vale do Tejo, uma das zonas que encaixa na perfeição, como peças num puzzle, nesta caracterização é a dos terrenos da antiga Lisnave, na Margueira, do lado oposto do Cais do Ginjal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fábrica, que em 33 anos de funcionamento reparou mais de cinco mil navios, encerrou as portas em 2000 e, desde então, esses terrenos ficaram abandonados. Não houve uma única intervenção com vista à sua requalificação. Neste local, apenas os vestígios – ferro e mais ferro – de uma indústria que chegou a empregar 6100 pessoas.  Mas o projecto para esta zona ribeirinha existe. Aliás, para esta e para outras na margem sul e na margem norte. Projectos que apresentam o mesmo denomidador comum: a água. Poten­ciar o rio, devolvê-lo às populações, permitir-lhes que usufruam as duas margens do Tejo, tornar o Tejo como um factor de aproximação e não de separação entre a margem norte e a margem sul... é a ideia base subjacente em cada um desses projectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Potenciar as frentes ribeirinhas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresentados pela Parque Expo no âmbito do Open Days, que se realizou em Outubro passado em Bruxelas, contemplam as zonas da Baixa Pombalina, Ajuda-Belém, Pedrouços (na margem norte), Margueira, Quimiparque e Siderurgia (na margem sul). Com conclusão prevista para daqui a cinco anos (no caso da Frente Ribei­rinha Ajuda-Belém) e 10 a 15 anos (os da margem sul), os projectos de requalificação destas zonas ribeirinhas pretendem valorizar o papel da água como agente de mudança das cidades. De resto, esta foi uma das questões inerentes ao tema em debate no evento em Bruxelas – «A água como factor de competitividade» –, e que foi apresentado pelo grupo de trabalho liderado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo o presidente do conselho de administração da Parque Expo, entidade que presta assessoria técnica nos domínios do ordenamento do território e do urbanismo a estes seis projectos, em declarações ao semanário Expresso na altura em que decorria o Open Days, o objectivo «é passar a encarar o Tejo como uma grande praça de água e uma cidade a duas margens com capacidade para desenvolver projectos num território pensado a uma escala metropolitana». Para Rolando Borges Martins, «o potencial do Tejo é imenso» e os seis projectos previstos para os próximos anos irão devolver o rio e a paisagem aquática às populações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isolado na sua marcenaria, Ramiro não faz ideia do que está ­planeado para o Cais do Ginjal, mas diz que se ouvem «coisas». Para os terrenos do antigo estaleiro naval «ouvi dizer que vão fazer daquilo uma coisa parecida com o Parque das Nações sem o Oceanário, é claro. Agora, aqui para o Cais do Ginjal, fala-se numa marginal com esplanadas e restaurantes até à Trafaria». Um percurso que a concretizar-se implicaria quase de certeza a demolição do seu estabelecimento. Ramiro garante não se importar, mesmo que isso lhe sacrificasse «a vista para o rio», o estar «a dois metros do Tejo» e fosse obrigado a deslocar-se com as ferramentas e as máquinas para um espaço reduzido e sem a água tão perto. Não se importa porque a requalificação desta zona vai beneficar a comunidade local, através a criação de postos de trabalho e a vinda de mais pessoas da outra banda. Isto tem condições para ser uma atracção turística muito forte. Olhe-me para este rio, não o vê assim em lado nenhum». Assim como? «Assim, tão perto, a pontos de lhe conseguirmos chegar. A senhora ajoelhe-se, estenda a mão e veja se não fica com ela molhada. Aqui o rio agarra-se com as mãos».  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma opinião tem António, empregado do Farol, o primeiro restaurante com que se deparam os passageiros dos cacilheiros da Transtejo assim que colocam os pés em terra firme. E, tal como Ramiro, António tem bem fresca na memória a vida em Cacilhas, não faz muitos anos. A fábrica do gelo para conservar o bacalhau capturado na longínqua Terra Nova, as casas dos pescadores, a fábri­ca de bacalhau, a fábrica de arrastões, o movimento na Lisnave. «Isto tinha vida. Agora é um sítio de passagem, as pessoas chegam no barco para irem para casa, apressadas, e no dia seguinte voltam a apanhar o barco para irem para o emprego em Lisboa, apressadas». Continua: «Se quisessem fazer disto uma zona como ali as Docas, em Lisboa, isto desenvolvia-se. Assim não há maneira». António fala «de barriga cheia» pois se aqui há estabelecimento que vai «tendo boa clientela» é o Farol, onde trabalha desde 1968. Um cliente de todos os dias é João Carlos, antigo pescador e actual­mente marinheiro da Transtejo que acabou de aportar em Cacilhas. E também ele se lembra e tem saudades de Cacilhas de outros tempos, dos «barcos com 40, 60 homens que andavam ao bacalhau», da «fila enorme de arrastões que ancoravam ao longo do Cais do Ginjal», «dos navios gigantes a serem  consertados  no esta­leiro naval». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Cacilhas, a nova Barcelona &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a estratégia para esta zona tiver pernas para andar, a Cacilhas da indústria naval ficará para sempre registada nos documentos em arquivo, mas nas gerações futuras a sua imagem estará associada ao lazer. Renovada, será uma zona de muito comércio mas também com gente a viver. O projecto, de nome «Almada Nas­cente», ou «A cidade da água», prevê a recuperação do antigo estaleiro naval na Margueira e o preenchimento do tecido urbano envolvente, numa área de intervenção contígua ao rio de 115 hectares. Tudo indica que o «Almada Nascente» vingará, pois  foi relançado na Waterfront Expo 2007, a mais importante conferência e exposição internacional sobre planeamento, concepção e desenvol­vimento de frentes ribeirinhas, que ocorreu de 2 a 4 de Outubro, em Lisboa, e onde o conceituado Richard Rogers, arquitecto inglês que lidera o consórcio internacional que está a desenvolver o projecto, admitiu tratar-se de uma obra para «durar 15 anos e que poderá assumir semelhanças com a recuperação da frente ribeirinha de Barcelona». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os 850 mil metros quadrados de construção previstos no plano irão albergar cerca de «9500 novos residentes» e gerar «13500 postos de trabalho» – a informação foi adiantada na Waterfront Expo pelo presidente do conselho de administração da sociedade que controla o fundo de investimento imobiliário Margueira Capital, Mário Donas. Mas para isso é necessário arrecadar junto de investidores nacionais e estrangeiros mil milhões de euros, quantia que Mário Donas não considera impossivel de conseguir, até porque o «Almada Nascente»,  «não é para ficar na gaveta». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda para a margem sul estão previstos outros projectos de revitalização de outras áreas industriais, que irão abranger os terrenos ocupados pela antiga Siderurgia Nacional e pela Quimiparque, no Seixal/Barreiro. Um novo cais e uma nova estação ferroviária, uma praça central com a imponência do Terreiro do Paço e a criação de espaços verdes, de lazer e de cultura são algumas das propostas incluídas no dossier da Quimiparque. Para a Siderurgia, o plano de reconconversão prevê não só a manutenção da indústria pesada mas também as componentes habitacional e de lazer, além da construção de uma ETAR (Estação de Tratamento de Águas Resi­duais) que irá servir dois terços da população do Seixal (do ponto de vista ambiental, esta medida apenas peca por tardia uma vez que os resíduos são actualmente despejados no rio Coina sem o tratamento devido).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contemplados para a margem Norte do Tejo, os projectos Pedrou­ços-Dafundo, Ajuda-Belém e Frente Ribeirinha da Baixa Pombalina consistem na reconversão e requalificação urbanís­tica dos respec­tivos locais. Segundo informações da Parque Expo, o objectivo da intervenção em Pedrouços-Dafundo é a sua transformação «num grande espaço de fruição pública dotado de equipamentos, que amplie e reforce a ligação dos cidadãos ao rio, que projecte a sua vocação marítima». Entre as estruturas a construir, de destacar «a instalação de um pólo de conhecimento avançado e de inovação, constituído por áreas de investigação básica e clínica da Fundação Champalimaud, bem como de um pólo náutico, de um pólo de turismo, de negócios e comércio, e de um pólo cultural». Com uma área de 47 hectares, esta zona de intervenção constitui, ainda de acordo com a Parque Expo, «um território singular, apresentando-se como uma porta Atlântica da capital portuguesa, quer pela relação com o rio/oceano, quer pela proximidade ao conjunto Torre de Belém/Mosteiro dos Jerónimos/Centro Cultural de Belém». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Ajuda-Belém, pretende-se construir o novo Museu dos Coches, requalificar o espaço público da Calçada da Ajuda e outras praças, valorizar as áreas verdes inseridas na zona de intervenção, como o Jardim Botânico, o Jardim Tropical e outros jardins, praças e vias. Para promover a aproximação e a fruição do rio, estão previstas infra-estruturas e novos atravessamentos pedonais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projecto traçado para a Frente Ribeirinha da Baixa Pombalina tem como objectivos «reforçar a complementaridade entre a frente ribeirinha e o conjunto da Baixa Pombalina» (Baixa-Chiado), con­tri­buir para uma «nova apropriação do Tejo» pelas pessoas, «conso­lidar a centralidade da Praça do Comércio, captando novas formas de utilização», «promover uma vivência multifuncional» entre administração, serviços, comércio e equipamentos de recreio e lazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, o que subjaz a estes projectos é a vontade de atrair para as margens do Tejo as pessoas. Seja pelo lazer, seja pelo negócio, seja pela habitação. Quem se lembra dos contentores junto ao rio nos terrenos hoje ocupados pelo Parque das Nações não adivinharia a cidade que aí viria a ser construída. Uma cidade onde se reside, se trabalha, se faz negócio, se visita. Como a pequena Francisca, que às dez da manhã de um sábado já se encontra nas bilheteiras do Oceanário para  ir ver os tubarões e os pinguins, «os animais que mais gosto», são muitos os que nove anos depois da Expo 98 se sentem atraídos por esta zona ribeirinha. Francisca tinha dois meses quando a última grande exposição do século xx foi inaugurada e desde que os avós lhe deram como presente do seu  4º aniversário um bilhete do Oceanário não deixa passar um ano sem voltar a este espaço para rever os oito mil animais que habitam o Pacífico, o Árctico, o Antáctico e o Atlântico. Tal como Francisca, onze milhões de pessoas já se deslocaram ao Parque das Nações para visitarem o Oceanário (40% são estrangeiros e, destes, 15% são espanhóis). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Francisca se maravilha com as espécies que «vivem na água», na outra margem, na marcenaria rodeada por fábricas desactivadas que ameaçam ruir a qualquer momento, Ramiro vai trabalhando a madeira e alimentando esperanças de que um dia também o Cais do Ginjal possa recuperar o movimento de pessoas. Não o de outrora, industrial, mas o do futuro, que torne Cacilhas um importante pólo turístico, económico, residencial e de lazer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Destaque"&gt;RECURSOS HÍDRICOS | RIOS DE PROBLEMAS... E DE OPORTUNIDADES&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Pedro Almeida Vieira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/destaque.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não andam cristalinas as águas que atravessam as regiões do Oeste e Vale do Tejo. Os atrasos no saneamento urbano e a poluição causada pelas indústrias e agricultura continuam, exigindo uma nova abordagem, sobretudo tendo em conta que grande parte da população vive em pequenos aglomerados. Mas não é apenas a qualidade que é alvo de atenção do PROT desta região. Uma equipa do Centro de Estudos Geográficos inventariou cerca de 450 zonas críticas e 745 quilómetros quadrados de território que está sujeita a cheias. O novo regulamento irá, no futuro, evitar que haja problemas quando chover em demasia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Lá diz o provérbio que a água corre para o mar e as coisas para o seu natural. Mas em Portugal, para alguma nossa infelicidade, quase sempre corre conspurcada, o que sendo «natural» – porque assim é há muitos anos – não deveria ser aceitável. Nesse aspecto, a região do Oeste e Vale do Tejo não foge à regra. No diagnóstico do Plano Regional de Ordenamento do Território desta região (PROT-OVT), o quadro traçado é bastante claro na forma como mostra que as águas correm sujas. Quer as que se vêem quer as que estão longe da vista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com efeito, nas várias ribeiras do Oeste – por regra pequenos cursos de água, grande parte dos quais de carácter intermitente – não há nenhuma que se possa mostrar cristalina. «Todas se apre­sen­tam extremamente poluídas ou poluídas, de acordo com a classi­ficação do Instituto da Água», refere Amílcar Ambrósio, responsável pela empresa de consultoria Ambio e coordenador da área de saneamento básico do PROT-OVT. No caso dos cursos de água da bacia do Tejo – em que se destacam, para além desse rio, o Zêzere, o Alviela, o Almonda, o Trancão e o Sorraia –, o cenário não é também muito lisonjeiro. «De uma forma geral, mostram má qualidade física, química e microbiológica, sobretudo na região entre a foz do Zêzere e o Trancão», salienta Amílcar Ambrósio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo a principal origem de água do país – a albufeira de Castelo de Bode, no Zêzere –, que abastece cerca de dois milhões de por­tugueses, não se encontra nas melhores condições. «Não está em risco de deixar de ser uma origem de água, porque é sempre tecni­camente possível tratá-la, mas exigirá maiores custos», refere este técnico. E ainda bem que sim, até porque, malgrado os custos, as águas subterrâneas desta região apresentam também problemas. Na grande maioria das zonas, a sua qualidade é medíocre, incluindo num dos maiores aquíferos do país que se prolonga até à península de Setúbal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas situações devem-se, em grande medida, às actividades agrícolas – sobretudo na Lezíria do Tejo –, às pecuárias – com maior incidência no Oeste e Lezíria do Tejo, onde, por exemplo, estão localizados um terço dos suínos do país – e à poluição urbana. Neste último caso, diga-se, o problema é quase generalizado. De facto, apenas entre 50% e 65% da população residente no Oeste e Vale do Tejo tem a sua residência ligada a uma rede de esgotos, mas destas nem todas têm acopladas uma estação de tratamento (ETAR). E aqui está um problema que pode ser complicado de resolver nos próximos anos. Com quase 60% da sua população vivendo dispersa e em aglomerados com menos de dois mil habitantes, não se encontra nas prioridades do segundo Plano Estratégico de Abastecimento de Água e de Saneamento de Águas Residuais. «Para estas zonas ter-se-á de aplicar soluções integradas», advoga Amílcar Ambrósio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta medida, este responsável destaca a necessidade de integrar as componentes «em alta» e «em baixa» quer dos sistemas de abastecimento de água quer dos de saneamento de águas residuais, diminuindo, consequentemente, o número de entidades gestoras. E isso implicará também melhorar o serviço de distribui­ção de água – que atinge ainda pouco mais de 90% da população –, reduzir drasticamente as perdas de água – que rondam os 60% em alguns concelhos –, começar a aplicar taxas que possam financiar os sistemas e modificar a estrutura de gestão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, conforme salienta Amílcar Ambrósio, a avaliação de indicadores de desempenho da qualidade do serviço prestado aos utentes dos sistemas de abastecimento de água e de saneamento de águas residuais, realizada pelo Instituto Regulador de Águas e Resíduos, «permite concluir, sem controvérsia, que nos concelhos do Oeste a Vale do Tejo, por regra, os serviços prestados directamente pelas Câmaras Municipais e pelos Serviços Municipalizados denotam fragilidades e eficiências reduzidas»». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Amílcar Ambrósio deseja também que se aposte na eficiência do uso da água, sobretudo aproveitando as águas residuais depuradas. No Oeste estão já em curso alguns projectos municipais com uso destas águas para regas e lavagens, bem como para descargas em instalações sanitárias. A par desta origem de água não convencional, Amílcar Ambrósio é adepto da dessalinização. «Em algumas zonas, como no litoral e junto aos estuários, deveria ser avaliada, em termos de análise técnico-económica, em zonas costeiras e estuarinas, apresentando exemplos do que tem sido feito em Espanha, Reino Unido ou mesmo em África», defende este especialista que já realizou um estudo nesta vertente para as Águas do Algarve. «Nesse estudo mostra-se que o custo da água neste processo atinge cerca de 0,45 euros, o que torna competitivo, nem que seja em situações de seca», acrescenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se por vezes ocorrem secas, as cheias e inundações acabam por ser até mais frequentes nesta região. Por isso, para permitir criar instrumentos e estratégias para fazer face a estes fenómenos, uma equipa do Centro de Estudos Geográficos (CEG) da Univer­si­dade de Lisboa está também a elaborar uma carta de riscos para inserir no PROT-OVT. «Pretende-se com isto elaborar normas que permitam compatibilizar usos e impedir que outros se mantenham em zonas de risco», salienta Catarina Ramos, investigadora do CEG. Neste âmbito, a caracterização abrange quer as zonas sujeitas a cheias lentas quer a cheias rápidas ou repentinas. As primeiras atingem sobretudo as zonas da Lezíria do Tejo, mas que tendem a ser pouco perigosas. «Estas cheias, que provocam inundações por vezes por simples subida da toalha freática, são agora mais raras, por via do controlo que existe com Espanha», diz Catarina Ramos. «A regularização dos rios tem melhorado nos últimos anos, pelo que só por descuido podem provocar danos pessoais», acrescenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com efeito, a descarga de um grande volume de água a partir da barragem de Alcântara, junto à fronteira com Espanha, demora cerca de 11 horas a chegar à zona da Lezíria, o que permite evitar qualquer catástrofe humana. Somente quando não há articulação com a barragem portuguesa de Castelo de Bode podem existir cheias graves. Como, por exemplo, em 1979, quando aconteceu aquela que é considerada a mais grave cheia de que se tem registo. O nível alcançado por essa cheia foi, porém, o critério usado para estabelecer zonas de maior risco. Assim, o concelho da Golegã ficaria com 78% da sua área submersa, enquanto os concelhos de Azambuja, Cartaxo, Almeirim, Alpiarça, Salvaterra de Magos e Benavente sofreriam numa extensão entre 18% e 38% do respec­tivo território. No total, de acordo com o levantamento do CEG, cerca de 745 quilómetros quadrados da região do Oeste e Vale do Tejo estão em risco de sofrer inundações provocadas por cheias lentas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, é certo que, mesmo com uma correcta regularização, haverá sempre regiões que, periodicamente, não ficam livres de ser inundadas ou isoladas pelas águas no Inverno, como são os casos das povoações de Reguengo do Alviela, Vale de Santarém ou as partes mais baixas de Almeirim ou mesmo de Alenquer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já as cheias rápidas, mais perigosas e destrutivas, são mais frequentes nas ribeiras do Oeste. Associadas a precipitações repentinas e concentradas, o maior risco reside em zonas urbanas onde a impermeabilização do solo, causado pelas urbanizações ou alte­rações do curso das ribeiras, pode implicar deslizamentos de terras ou arrastamento de bens e pessoas. «Os leitos de cheia deveriam apenas zonas de lazer, mas infelizmente durante anos assim não aconteceu», refere Catarina Ramos. Além disso, com os encanamentos das pequenas linhas de água – ou mesmo dificuldades no escoamento das redes de águas pluviais –, as inundações acontecem muitas vezes às primeiras chuvadas. Na região do Oeste, de acordo com o levantamento feito pelo CEG, existem várias centenas de «pontos negros» – que totalizam uma extensão de mais de mil quilómetros de linhas de água –, salientando-se, pela densidade populacional, as que se localizam em Alcobaça, Arruda dos Vinhos e Torres Vedras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contas feitas, a equipa do CEG inventariou 450 pontos críticos onde existem construções, designadamente zonas residenciais e industriais. Mas, neste processo, houve também um trabalho suplementar de correcção de informação. «Nem sempre a cartografia das áreas de Reserva Ecológica Nacional e dos leitos de cheia estava correcta quer nos planos directores municipais quer na informação da Administração Central», diz Catarina Ramos, recordando o caso da delimitação na zona de Santarém onde não existia rigor nos dados do Instituto da Água. «Referia que as cheias podiam ir até às Portas do Sol que fica a 90 metros de altura, quando o máximo atingido por uma cheia são os nove metros», refere esta investigadora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia agora será, a partir desta inventariação, estabelecer normas no regulamento do futuro PROT para evitar que as cheias causem mais estragos. Assim, quando for aprovado, de entre várias medidas, ficará interditada a construção em leito de cheia de novos equipamentos hospitalares e de saúde, escolares, de reclusão e de gestão de emergência e de socorro. Além disso, será proibida a construção de novas edificações em leitos de cheia nas áreas urbanas consolidadas ou em consolidação, excepto se corresponderem à substituição de edifícios a demolir. «Nesses casos, a cota do piso inferior da edificação terá de ser superior à da maior cheia conhecida do local e será preferível a construção tipo palafita», destaca Catarina Ramos. Por fim, também deixará de ser autorizada a construção de novas edificações em leitos de cheia fora dos aglomerados urbanos, excepto os edifícios indispensáveis à actividade agrícola. No entanto, somente nas situações em que fique demonstrado não existir localização alterna­tiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra medida, esta mais no âmbito da protecção civil, é o desenvolvimento ou criação de sistema de alerta de cheia no rio Tejo e  nos principais afluentes da sua bacia hidrográfica, designa­damente rios Zêzere, Nabão e Sorraia. E, por fim, prevê-se também melhorar a articulação do sistema de previsão meteorológica do Instituto de Meteorologia com as redes de monitorização do Instituto da Água, sobretudo precioso para prever as cheias rápidas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/destaque_mapa.jpg" border="0" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Territorios"&gt;O RESTO NÃO É PAISAGEM&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Maia de Almeida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/territorios.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demasiado longe de Lisboa para se tornar um subúrbio, suficientemente perto para atrair novos residentes, o concelho de Palmela procura o equilíbrio ideal entre a cidade e o campo. Cerca de 53 mil pessoas escolheram o maior território da Área Metropolitana de Lisboa para viver, quase todos estarão perto de uma área de paisagem protegida. Ou então de uma indústria, de uma quinta agrícola ou de um campo de vinha. Ana Teresa Vicente preside à Câmara Municipal de Palmela desde 2002 e, no seu segundo mandato, insiste em conciliar modernidade com tradição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;É difícil gerir a identidade do concelho mais extenso da Área Metropolitana de Lisboa?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguramente, não é fácil. Cada território tem as suas características: as concentrações urbanas têm determinado tipo de problemas, a dispersão dos espaços rurais tem outros. O desafio é manter alguma harmonia entre a diversidade que se vive nestes cerca de 460 quilómetros quadrados. É mesmo o maior desafio de qualquer gestão, julgo eu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Quais são as características dessa diversidade?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos praticamente um pouco de tudo o que caracteriza a Área Metropolitana de Lisboa (AML), exceptuando, enfim, a grande den­sidade urbana. Os nossos maiores aglomerados, caso do Pinhal Novo, não têm uma excessiva concentração, mas já têm exigências muito próprias. Por outro lado, temos espaços de convi­vência entre o rural e o urbano, e espaços claramente rurais onde a dispersão é enorme. Por exemplo, no Poceirão, a freguesia mais agrícola do concelho, a população é bastante diminuta em relação ao conjunto do território. E aí temos outro tipo de problemas ligados às acessibilidades. Se se juntar a isto o grande desenvol­vimento industrial dos últimos anos, em torno da A2 e da ­Autoeuropa, é outra característica do concelho. E, pelo meio, temos paisagens protegidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Paisagens que sofrem pressões demográficas e urbanísticas. São interesses antagónicos?&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuramos respeitar a legislação dessas áreas, por um lado, e por outro definir perímetros urbanos com alguma contenção. Permiti­mos também um outro tipo de ocupação do território: pequenos aglomerados nas zonas rurais, em vez de uma maior concentração urbana. Porquê? Para que as pessoas ocupem as suas propriedades, façam aí a sua casa ou a casa dos filhos. É agradável para quem lá vive, mas é uma opção obviamente cara do ponto de vista da gestão das infraestruturas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;E enfrentam também o problema da construção clandestina.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos construção e ocupação clandestina que data, em alguns casos, da década de 1960. Eu diria que é a maior luta que temos neste território, com vista à declaração de nulidade desses negócios junto dos tribunais e com processos de demolição. Esse é o maior atentado do ponto de vista ambiental e de ordenamento do ter­ritório. Se fossemos permissivos e viabilizássemos a ocupação e divisão clandestina do território, estaríamos a cometer um crime e a criar condições para que a população duplicasse.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Este é ainda um concelho predominantemente rural, mas a agricultura não gera muito emprego. Vemos crescer freguesias com outro tipo de população, pessoas que trabalham em Setúbal ou Lisboa. Palmela corre o risco de «suburbanizar-se»? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgo que não. Estamos claramente num território de transição entre o urbano da AML e o rural do Alentejo, com o qual fazemos fronteira. Mas este concelho não é um dormitório. Tem a sua identi­dade. Embora tenha muita população proveniente de outras zonas do país, a convivência com as características urbanas e uma certa modernidade em termos de equipamentos – e, por outro lado, com algumas tradições muito arreigadas –, faz deste um espaço onde as pessoas se integram facilmente. Percebemos isso pelo registo de inscrições nos clubes locais e desportivos, nas associações, nas sociedades tradicionais como as filarmónicas… Curiosamente, assistimos a um revitalizar das associações de moradores. Conhecer os vizinhos é um bom sinal e um bom indica­dor de integração e participação social. Há uma estratégia municipal que teve influên­cia e que hoje é uma marca deste território: julgo que Palmela é o único concelho da AML onde o limite para a constru­ção em altura corresponde a um terceiro andar. Foi uma regra do nosso Plano Director Municipal. Fizemo-lo com base numa convic­ção de ordem sociológica, a de que a altura dos edifícios tende a afastar as pessoas, em vez de favorecer uma lógica de proximidade.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;E a economia do concelho, em que fase está agora?&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu diria que não se afasta muito da situação do país. Não podemos falar de crescimento, de desenvolvimento, de uma grande dinâmica económica… Contudo, é verdade que o concelho de Palmela foi um dos que mais cresceu nos últimos anos; esse é um dado concreto e objectivo que se manifesta na instalação de novas empresas em torno da fileira automóvel, mas não só. O que vemos nos últimos anos, apesar de haver mais empresas – e isso nota-se nos impostos que pagam –, é uma diminuição dos lucros, das receitas. Mas, do ponto de vista da dinâmica, apesar da recessão económica geral, o concelho de Palmela continua a ser apetecível para a instalação de novas empresas. A nossa preocupação maior é a diversificação.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Para que tipo de investimento?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo. Gostaríamos de atrair um centro de investigação na fileira da indústria automóvel. Ou seja, garantir que os carros e os compo­nentes aqui produzidos servem para a Autoeuropa, mas também para muitas outras empresas do ramo automóvel. Isso tornaria esta região mais competitiva na Europa e no mundo. Fazer aqui um pólo de conhecimento, um centro de excelência para a investigação científica na área da tecnologia automóvel e da metalomecânica em geral. Penso que a Plataforma Logística que está aprovada para o nosso território, a maior de Portugal, e que deverá iniciar-se em 2008, pode contribuir também para essa diversificação da actividade económica. No entanto, o maior desafio é equilibrar e manter alguma vitalidade no sector agrícola, acentuando sectores como o do vinho e da vinha. Este concelho já teve aqui a maior vinha da Europa e uma das maiores do mundo. Não sendo possível reabilitar essa realidade, julgo que podemos continuar a ter excelentes vinhos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Já vamos falar do vinho. Mas ainda a economia: há 12 anos que uma das melhores fábricas da VW opera em Palmela. Qual é o lugar da Autoeuropa no que toca à captação de empregos?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Autoeuropa é seguramente um grande contribuinte para o desen­volvimento do concelho e da região, mas é essencialmente um grande contribuinte para o país. Tem expressão significativa no nosso PIB e nas exportações, gera um número muito importante de postos de trabalho – a Autoeuropa propriamente dita e os forne­cedores – que no total ascende a uns sete mil postos. Mas estes são provenientes, em primeiro lugar, da AML, do distrito de Setúbal e só depois do concelho de Palmela. Tem que ver, naturalmente, com as características da própria mão-de-obra. Admito que esta realidade se vá invertendo, na medida em que a população do concelho de Palmela se for qualificando. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Autoeuropa vive, ao que se sabe, uma situação saudável, mas o fantasma da Opel da Azambuja está sempre próximo…&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós mantemos uma atitude observadora e optimista. É claro que toda a história da indústria automóvel é feita desses fantasmas; faz parte das suas características, em muitas partes do mundo, ter uma vida de curta/média duração. Recorde-se o caso da Renault, nos anos 80, como um dos factores que levou ao clima de grande empobrecimento do distrito de Setúbal. Como diz, o fantasma está próximo, mas acho que hoje as empresas têm a preocupação de estar no mercado com condições para enfrentar quaisquer transformações que aconteçam no sector-mãe. Não me parece credível, se por qualquer razão a Autoeuropa deixasse de produzir em Palmela, que todos os fornecedores se «deslocalizassem» atrás dela. Acho mais natural e desejável – e essa é uma das nossas preo­cupações – criar na região alternativas que possam beneficiar deste investimento no automóvel. Daí que fale da importância do centro de excelência, para conseguirmos produzir para toda uma fileira que pode estar na região e pode estar no país e no mundo.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Foi criado pela Câmara um Sector de Promoção e Apoio à Economia Local. Em que consiste?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz parte de uma aposta de valorizar aquilo que é nosso. A tal estra­té­gia de diversificação do tecido económico passa por aí: por um lado, ter empresas e sectores de grande competitividade; por outro, ter pequenos nichos que permitam afirmar aquilo que é nosso. Ou seja, o nosso vinho, com as nossas características, ­produz-se aqui. O queijo de Azeitão produz-se aqui. O que nós procuramos nesta unidade orgânica da Câmara e na estratégia de intervenção junto dos agentes locais é apoiá-los e incentivá‑los, constituindo parcerias, investigando sobre pontos de apoio ou iniciativas a que se podem candidatar, de modo a melhorar o seu desempenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;É o caso do projecto PROVE, que vende cabazes de produtos hortícolas por encomenda?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exactamente. É a valorização do mundo rural junto dos nossos moradores e, ao mesmo tempo, uma forma de incentivo e de apoio directo aos pequenos produtores. Como é que eles têm condi­ções de pôr o seu produto à venda, de chegar a um grande hipermercado? Nunca na vida terão condições para isso… Mas têm condições para satisfazer um certo número de consumidores, ávidos de produtos vindos directamente da terra e desta zona.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Têm tido bons resultados?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida, tem tido imensa procura. O problema coloca-se ao contrário: chegamos a um ponto em que não temos produtores em número suficiente para abastecer o número de cestos encomen­dados. Mas esta teia pode alargar-se. É um projecto-piloto que mostrou grandes potencialidades e no qual vamos continuar a apostar. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A cultura também é um factor decisivo para o desenvolvimento de uma região. As propostas da Câmara vão no sentido de dar espaço aos artistas e criadores da região ou, por outro lado, atrair o público de Lisboa para eventos de interesse mais abrangente?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos as duas preocupações. Em primeiro lugar, temos uma política de apoio ao que se faz nesta terra. Por exemplo, ao movimento associativo, que é rico e diversificado. Temos entre nós colectivi­dades centenárias, temos grupos de teatro de qualidade, temos uma companhia de dança residente, temos uma excelente escola de danças de salão… Depois, há outra linha de trabalho que consiste em apoiar projectos de outra natureza e de outra dimensão, e que também procuramos trazer para Palmela; caso do Festival Internacional de Artes de Rua (FIAR) ou do Festival Internacional dos Gigantes (FIG). Mas, sempre que possível, há nestes eventos uma integração dos nossos artistas e grupos locais.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Os equipamentos culturais que têm são suficientes?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos um equipamento clássico de grande valor, com algumas limi­tações técnicas que vamos resolver, o Cine-Teatro S. João. Temos a nova Biblioteca de Palmela, equipada com um auditório onde se podem realizar determinados espectáculos e iniciativas culturais. Temos um bom auditório em Pinhal Novo onde também se rea­lizam espectáculos, cinema, etc. Temos um pequeno Centro Cultu­ral na freguesia mais rural do concelho, Poceirão. Temos também um forte associativismo: mais de 200 associações e colectividades de todo o tipo, que, ligadas a esta política de descentralização de equipamentos e de iniciativas faz de Palmela um concelho ­culturalmente muito dinâmico.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Foi ideia desta câmara a criação da Rota de Vinhos da Península de Setúbal, em 2000. Em que é que consiste e qual é o papel da Casa-Mãe, aqui em Palmela?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um projecto que tem como objectivo promover as nossas adegas e os nossos vinhos. Para além das visitas organizadas, faz-se neste projecto uma partilha de experiências que julgo ser útil a cada um dos produtores. Quanto a este espaço, a Casa-Mãe da Rota dos Vinhos, é um espaço bonito que serve para realizar pequenos eventos e serve também de apoio à mostra de cada uma das marcas. As pessoas podem comprar aqui os vinhos da região, ao mesmo preço que compram nas adegas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Também na Rota de Vinhos se nota o associativismo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O agricultor, em geral, é uma pessoa solitária na sua actividade. Provavelmente, vê os que estão ao seu lado como concorrentes e não parceiros. Daí a necessidade de participação das entidades públicas. Acho que ainda é preciso algum apoio e estímulo de terceiros, que não consegue acontecer só entre produtores, para estimu­lar a ideia de que as pessoas têm de se associar, têm de concorrer juntas, e só ganham dimensão se se unirem. A concorrência saudável não é inimiga da parceria. Dou-lhe um exemplo: há dez anos, quando iniciámos a rota, a localidade de Fernando Pó tinha apenas um vinho engarrafado e com rótulo; neste momento, tem dezenas de produtores e dezenas de vinhos engarrafados, o que só está a aumentar a identidade da zona. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Além do enoturismo, que outros produtos turísticos vão merecer atenção em 2008?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queremos um turismo que possa ter como valor as questões ambientais, as paisagens protegidas, o património. Não temos praia e mar, mas temos algumas das maiores lagoas da região, e os projectos turísticos em desenvolvimento cativam também turistas que valorizam o descanso, a saúde, o contacto com a natu­reza, o golfe... Estão neste momento a ser apreciados projectos com estas características para zonas de grande valor no território. Rio Frio e Zambujal são duas das antigas herdades deste concelho com um valor patrimonial muito grande, com paisagens prote­gidas no seu interior, e todos os projectos que ali possam acontecer têm de respeitar intransigentemente questões ambientais de grande exigência. Este tipo de investimento pode fechar o leque da diversidade económica neste concelho. De facto, o turismo, no sentido da oferta, é o que falta concretizar neste território.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Fale-nos do que gostaria de mudar no concelho e ainda não teve tempo para fazer. Três ideias.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostava muito de recuperar e requalificar o castelo e o centro histórico de Palmela, é um dos elementos mais fortes da nossa identidade patrimonial. Gostava muito de atrair pólos de conhecimento a este território; acho que a proximidade de Lisboa não é suficiente e não podemos esperar que os nossos jovens tenham todos como caminho as universidades tradicionais. Encontrar aqui pólos de desenvolvimento do saber noutras áreas pode ser um caminho para fixar e qualificar populações: escolas profissionais, academias, centros de investigação, tudo isso seria muito útil. Finalmente, gostava de concretizar um conjunto de equipamentos relacionados com a prática do desporto. Temos um único pavilhão municipal e muitas carências nesta matéria. Acho que o trabalho já feito no domínio dos equipamentos educativos é um bom exemplo daquilo que eu gostava de exportar para outras áreas, nomeadamente esta dos equipamentos desportivos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PERFIL SÓCIO-ECONÓMICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O concelho de Palmela contabiliza 53.350 habitantes (Censo 2001) e é formado por cinco freguesias – Palmela, Pinhal Novo, Quinta do Anjo, Poceirão e Marateca. Estas duas últimas compõem o perfil mais agrícola do concelho, sem prejuízo do grande desenvolvimento industrial, que tem na fábrica VW Autoeuropa o seu grande motor. Entre 1991 e 2001, Palmela registou um crescimento populacional de 21,6 %.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HISTÓRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Habitado pelo menos desde o Paleolítico Médio, o território foi alvo de ocupação romana e árabe. Em 1147, D. Afonso Henriques tomou o Castelo de Palmela e, após um período de conquistas e reconquistas, este foi entregue à Ordem de Santiago em 1186, que ali estabeleceu a sua sede durante os sete séculos seguintes. Palmela foi elevada a vila por D. Dinis, em 1323. O concelho chegou a ser extinto e integrado em Setúbal, no século xix, situação que foi restaurada a 8 de Novembro de 1926.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CULTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Antes do Festival Internacional de Artes de Rua e do Festival Internacional de Gigantes, em Julho, o programa cultural do município inclui as comemorações do Dia Mundial do Teatro (27 de Março), Dia Mundial da Dança (29 de Abril) e Dia do Sapateado (25 de Maio), entre muitos outros eventos culturais. As Festas das Vindimas, as Janeiras, o Enterro do Bacalhau e a Queima do Judas são outras tradições de cariz mais popular do concelho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NATUREZA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;As áreas de paisagem protegida correspondem a 212 k2, cerca de metade do território do concelho. Incluem valores ecológicos, paisa­gísticos, científicos e culturais sujeitos a regimes de protecção específicos, a saber: Parque Natural da Arrábida, Reserva Natural do Estuário do Sado, Reserva Ecológica Nacional, Reserva Agrícola Nacional e Espaços Florestais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRODUTOS REGIONAIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Além de vinhos de qualidade certificada – branco, tinto e mos­catel – e do famoso Queijo de Azeitão, produzido sobretudo na freguesia de Quinta do Anjo, o concelho é rico em doçaria tradicional. Podemos citar a fogaça de Palmela, o bolinho de amêndoa, o pudim de abóbora, os suspiros e o bolo de família. Outro produto certificado é a saborosa maçã riscadinha, sempre muito procurada nos meses de Verão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Acontecimento"&gt;OPEN DAYS&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luís de Carvalho&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/acontecimento.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;SDI-CMA&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante três dias, em Bruxelas, responsáveis e decisores de politicas regionais reuniram-se para debater e encontrar novos modelos de desenvolvimento regional. A água, um dos bens inestimáveis para a sobrevivência humana, foi um dos temas discutidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Entre os dias 8 e 11 de Outubro decorreu em Bruxelas a Semana Europeia das Regiões e Cidades – Open Days –, organizada pela Comissão Europeia e pelo Comité das Regiões.Esta iniciativa, que contou com a presença de cinco mil peritos e decisores em politicas regionais, teve a presença da CCDR de Lisboa e Vale do Tejo, que liderou um consórcio de cinco regiões – Canárias, Sicília, Veneza, Algarve e Lisboa e Vale do Tejo. E, pela primeira vez, todos os Estados – Membros da UE estiveram presentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram quatro dias preenchidos com seminários, workshops e exposições com o intuito de explorar novas ideias para o desenvol­vimento regional e de melhorar os programas de politica de coesão, com a participação de organizações internacionais no sentido de reforçar, com outras regiões do mundo, a competitividade, a troca de experiências e informação em áreas como políticas de desenvolvimento e boas práticas de governação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A água como factor de competitividade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tema do consórcio liderado pela CCDR de Lisboa e Vale do Tejo intitulou-se The Water-Based Competitiveness Network, com o objectivo de promover um olhar diferente sobre os recursos hídricos, de modo a geri-lo no seio de estratégias territoriais integradas. As políticas desenvolvidas neste âmbito propõem o desen­vol­vi­mento sustentável das actividades ligadas à água, com vista ao crescimento económico, à qualificação do território e à criação de emprego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seminário que decorreu no dia 9, e que teve como moderador o Prof. Tiago Pitta e Cunha, o tema posto a debate foi a utilização da água como base da competitividade regional em áreas fundamentais como a energia, a biotecnologia, a economia do conhecimento, o lazer, entre outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pretendeu-se neste seminário dar relevância a politicas públicas que promovam a água como factor de  crescimento, e que se dirigiu sobretudo a técnicos oriundos de áreas costeiras, ou de territórios onde a água tem desempenhado um papel fulcral no crescimento das comunidades. Neste painel temático participaram como orado­res António Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, Artur Ribeiro, administrador das Águas do Norte, Juan Carlos Pereira, chefe de planificação, projectos e obras da Direcção-Geral de Águas do Go­verno das Canárias, Felice Crosta, director-geral da Agência Regio­nal  para a Água, da Sicília, Cristiana Scarpa, assessora para o Ambiente da cidade de Veneza e Rui Godinho, administrador da EPAL.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Cipriano, assessor do Secretário de Estado do Desenvol­vimento Regional, foi o moderador da sessão, que decorreu nas instalações do Governo das Ilhas Canárias, sob o tema Enhacing Tourism Clusters: public bodies face the challenge of water and coastal preservation.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste seminário debateu-se a ligação entre a preservação ambiental e o desenvolvimento económico, na sua forte ligação com a gestão da água e do ordenamento costeiro e da sua interacção com o turismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As regiões onde as questões do turismo representam uma importância capital, nomeadamente na sua ligação com os valores esté­ti­cos, históricos e culturais, foram desafiadas a abrir novos caminhos para a gestão e modelos de desenvolvimento que exprimam um novo paradigma  na governação desses clusters. Este tema teve como interessados responsáveis, peritos e académicos interessados em politicas ambientais, territoriais e de turismo, incluindo os opera­dores turísticos. Esta sessão teve como oradores José Félix Ribeiro, assessor DPP, Rolando Borges Martins, presidente do CA da Parque Expo 98, SA, José Miguel Caetano, CEO Mapa – Investi­mentos Turísticos, SA;  Faustino Garcia Marquez, do Governo das Canárias, Giovanni Arnone, da Sicília e Maria Aigner, da Comissão Europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Café dos Investidores&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos núcleos mais animados destes encontros foi o  Investor’s Café, zona dedicada aos encontros temáticos com o seu próprio ciclo de seminários. Nestes encontros, onde a informalidade das conversas é acompanhada por um café ou chá, juntaram-se parcei­ros públicos e privados em sete núcleos temáticos, cobrindo temas como os transportes, a energia, ambiente, sociedade do conhe­cimento, saúde, investigação e inovação e engenharia financeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes encontros destinam-se a promover contactos, no sentido de construir redes de relacionamentos e parcerias, com o objectivo de explorar, juntamente com as autoridades regionais e locais, modos de colaboração e estratégias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ano, o Comité das Regiões programou mais de 50 conferências, seminários e workshops para os três dias em que decorreram estes encontros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este pequeno fórum é também um canal privilegiado para partilha de informação, e contou com a presença de directores-gerais da Comissão Europeia que ali prestaram esclarecimentos sobre as políticas da Comunidade ligadas ao crescimento e criação de empregos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Empresas, bancos e instituições financeiras também ali estiveram a prestar esclarecimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ano o Café dos Investidores contou com a presença do Presi­dente do Comité das Regiões, Michel Delebarre e a responsável pela Política Regional da Comissão Europeia, Danuta Hubner. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Patrimonio"&gt;CAMINHOS DO VINHO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Maia de Almeida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/patrimonio.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Guto Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rota de Vinhos da Península de Setúbal/ Costa Azul surgiu em 2000, para promover as adegas e os vinhos de uma região com identidade própria. Projecto conjunto da Câmara Municipal de Palmela, Região de Turismo de Setúbal e Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, é a prova de que a união faz a força. Conheça os itinerários deste fascinante património.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O moinho desengaçador ficou conhecido por «mata­‑homens», tal era o fôlego e o músculo que exigia. À força de braços, os cachos de uvas eram mexidos e triturados sem clemência, até que deles se desprendesse a parte sólida, o engaço. Trabalho pesado, repetitivo. Hoje há máquinas que cumprem a mesma tarefa desta relíquia centenária; máquinas que não se cansam nem se queixam, mas que continuam a impor respeito por trás da fiada de dentes de aço. É assim a história da casa Venâncio da Costa Lima: um passar de testemunho dos objectos, o velho a dar lugar ao novo, o novo a dar lugar ao futuro. A era dos tonéis, por exemplo, está praticamente extinta. Os gigantes de madeira que aqui vemos, com estômago para guardar quase quatro mil litros de vinho, vão desaparecendo das terras do Sado à medida que desaparecem os seus tutores. Ainda há três tanoeiros na freguesia de Quinta do Anjo, mas já nenhum exerce a profissão. Foi um imigrante romeno de 44 anos quem ocupou o posto, depois de ter mostrado saber do ofício. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa Venâncio da Costa Lima encontra-se no número 139 da rua com o mesmo nome que atravessa a aldeia de Quinta do Anjo. Pertence aos sucessores do empresário que em 1914 se lançou na produção e comercialização de vinhos, azeites e cereais, acabando por deixar uma herança próspera aos seis sobrinhos, filhos da única irmã. Com o tempo, os vinhos tornaram-se o produto exclusivo da Venâncio da Costa Lima, uma das adegas associadas da Rota de Vinhos da Península de Setúbal/ Costa Azul. No total, são dez adegas, distribuídas pelos concelhos de Palmela, Montijo e Setúbal. Junto com a Casa-Mãe, também uma antiga adega, ­formam um circuito promocional que pode ser um excelente ponto de partida para a descoberta dos vinhos da região, já mencionados por D. Afonso Henriques no primeiro foral atribuído a Palmela, em 1185.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os solos arenosos e argilo-calcários predominam na península de Setúbal, emprestando características particulares aos vinhos – sobretudo no caso dos tintos, aqui em larga maioria. Se a casta tinta dominante é a Castelão (Periquita), nos brancos recorre-se principalmente à Fernão Pires e à Moscatel de Setúbal. A intro­dução de castas internacionais é outra das características da produção vitivinícola da região. A Cabernet Sauvignon, uma das mais plantadas em todo o mundo, é bem acolhida nas encostas calcárias da Arrábida; Chardonnay, Merlot, Syrah, Pinot Noir, Pinot Blanc e Cabernet Blanc são outras variedades que têm sido introduzidas com sucesso. Com a casta Moscatel, originária do Egipto (Moscatel de Alexandria é outra das suas designações), faz-se o generoso Moscatel de Setúbal e o especialíssimo Moscatel Roxo, elaborado com uvas tintas. Esta é, sem dúvida, a bebida mais simbólica das terras do Sado. A área foi geograficamente delimitada em 1907, mas há referências à exportação de 350 barricas de Moscatel de Setúbal no ano de 1675, tão apreciada era aquela doçura aromática nas cortes europeias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O «Moscatel de Setúbal Superior 2000», que este ano conquistou a medalha de prestígio no Concurso Nacional de Vinhos Engar­rafados, é a jóia da coroa da adega Venâncio da Costa Lima, onde trabalham os enólogos Fausto Lourenço e Joana Vida. Destaca-se também o premiado «Palmela D.O.C. Escolha 1995», apresentado como um vinho de «cor granada intenso, aroma de fruta madura, compota e especiarias, sabor macio, taninos presentes e correctos, final muito equilibrado». Para outro segmento de consumo, daqui sai também o popular Serrinha, que já conheceu diversas fases de vida. Se dantes era o garrafão de cinco litros (vulgo «palhinhas») a mandar no mercado, agora, o que está na moda é o Bag in Box. Corta-se o cartão picotado, puxa-se a torneira do saco e já está: vinho para o dia-a-dia, numa embalagem que oferece melhor conservação depois de aberta, em relação à tradicional garrafa de vidro. Nestas coisas, o mercado é que manda; e se o mercado gostou do Bag in Box – contra os prognósticos de todos os produtores, diga-se – haverá que o manter satisfeito. Para os mais conservadores, a Venâncio da Costa Lima tem ainda cerca de nove mil barris de madeira a circular por restaurantes e tabernas, desde a margem sul do Tejo à partilha do Algarve. Também estes, um dia, serão total e friamente substituídos pelas vasilhas inoxidáveis. Já se sabe: o mercado é que manda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Quinta do Anjo encontra-se mais uma adega integrante do circuito da Rota dos Vinhos: a Casa Agrícola Horácio Simões. Fundada em 1910, também ali se produz Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo, várias vezes premiados. E, porque estamos em terra de «pão, queijo e vinho», vale a pena referir outras especia­lidades da casa: o queijo amanteigado e a manteiga de ovelha, duas carismáticas iguarias. Em Palmela, situa-se a Casa-Mãe da Rota dos Vinhos – o pólo dinamizador da rede, aberto ao público, que funciona como uma montra para os associados – e ainda a Adega Cooperativa de Palmela e a SIVIPA – Sociedade Vinícola de Palmela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando a Quinta do Anjo e seguindo para a zona de Azeitão, deparamo-nos com mais três adegas associadas: a Quinta de Alcube, a Bacalhôa Vinhos de Portugal e a José Maria da Fonseca. Esta é a empresa mais antiga de todas, pioneira em Portugal na afirmação de marcas, numa época em que os vinhos de mesa só se vendiam a granel. Depois do «Moscatel de Setúbal», em 1849, José Maria da Fonseca criou no ano seguinte o «Periquita», um vinho encorpado feito a partir da casta Castelão, que ele próprio trouxe para estas paragens. Cedo o «Periquita» se revelou um caso de sucesso, em especial no Brasil, para onde é exportado desde 1881. O rótulo, desenhado por um artista francês, não sofreu grandes alterações; agora um pouco mais estilizado, mantém a modernidade da concepção original. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um dos objectivos da Rota de Vinhos da Península de Setúbal é sublinhar a identidade dos seus vinhos e adegas, a José Maria da Fonseca tem para mostrar um património notável. As visitas começam pela sala-museu, onde se podem ver rótulos antigos, medalhas, cálices, cerâmicas e tomboladeiras, entre outras peças carregadas de história. Nas paredes, encontram-se emoldurados os certificados de participação nas exposições universais do século XIX, entre as quais Barcelona (1888) e Paris (1889). A um canto, está uma das primeiras máquinas de engarrafar vinho, que atingia a velocidade estonteante de 200 garrafas por hora; hoje, no mesmo tempo, as quatro linhas da empresa têm capacidade para libertar 30 mil garrafas… Dos 18 milhões de litros produzidos anualmente, 75 por cento é destinado à exportação, estando o Brasil, a Suécia, a Itália, a Holanda e os Estados Unidos entre os principais mercados consumidores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a «Periquita» à frente das 33 marcas comercializadas, a pro­du­­ção da José Maria da Fonseca divide-se em vinhos tintos, brancos, rosés, espumantes e generosos. Neste último segmento, o «Moscatel de Setúbal José Maria da Fonseca» é também uma das marcas mais vendidas da casa, mérito da equipa de enólogos liderada por Domingos Soares Franco. Na Adega dos Teares Velhos repousam em cascos de carvalho os moscatéis mais antigos: vinte anos de estágio é a idade mínima exigida para se pertencer a este «clube» onde mal entra a luz do dia, e os frequentadores habituais são os morcegos, os ratos e as aranhas… Ah, e também alguma cobra ocasional, à procura do fresco no chão de terra batida. Mas não se assuste o leitor com a descrição, porque, embora o lugar inspire respeito, toda esta fauna está controlada e vive em sereno equilíbrio, praticamente invisível. Ainda que as teias de aranha possam impressionar – algumas parecem panos, de tão densas – também elas fazem parte do ecossistema. Mais: contribuem para a boa con­servação dos moscatéis, na medida em que protegem a madeira de outra bicharada destrutiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No projecto da Rota de Vinhos da Península de Setúbal há lugar para adegas históricas como a José Maria da Fonseca e para outras que começaram recentemente a fazer o seu percurso, enquanto produtoras de vinhos com marca própria. É o caso da Herdade da Comporta, que se lançou no mercado com o homónimo «Herdade da Comporta Branco», no Verão de 2004; e também da Casa Ermelinda Freitas, produtora e engarrafadora na localidade de Fernando Pó. Embora tradicionalmente ligada aos vinhos, foi na quarta geração que esta empresa familiar inflectiu num novo rumo, investindo na qualidade e na inovação. Em 1997, Leonor Freitas assumiu o legado de Ermelinda Freitas e encetou um processo de modernização que passou pela compra de mais 70 hecta­res de vinha e pela construção de uma nova adega, apetrechada com cubas-lagares de inox com temperatura controlada. Numa época em que o clima se mostra cada vez mais imprevisível, afectando as colheitas e o método de vinificação, só a evolução da tecno­logia permite obter alguma garantia sobre os resultados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os frutos deste investimento tornaram-se notórios nos últimos anos, com a atribuição de uma série de prémios nacionais e internacionais, em especial para as colheitas de 2003 e 2004. «Terras do Pó», um vinho tinto regional elaborado a partir da casta Castelão, foi o primeiro a receber rótulo próprio, iniciando a segunda vida da Casa Ermelinda Freitas. Junto com o seu equivalente branco, um vinho aromático e frutado, como é apanágio da casta Fernão Pires, constitui um dos cartões de visita do trabalho desenvolvido pelo enólogo Jaime Quendera. Do portefólio, sugerem-se também o «Dona Ermelinda», «Quinta da Mimosa» e «Leo d’Honor»; este último, pisado a pé no lagar, à maneira tradicional, depois estagiado em barrica nova e engarrafado em pequenas quantidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aposta no apuramento faz parte da ideologia da empresa. De três em três anos, renovam uma parte das 1100 barricas de carvalho, como forma de garantir a melhor qualidade dos vinhos de gama superior. Fundamental, para o reconhecimento de uma marca, é ir ao encontro do mercado, ter uma boa relação quali­dade/preço e não descurar o marketing e a divulgação. Confiante nas potencialidades do enoturismo, Leonor Freitas considera essencial dar a conhecer as suas marcas ao público. Nas novas instalações, há lugar para uma sala de provas e para um salão onde se organizam festas e acontecimentos, em associação com uma empresa de catering. Naturalmente, pontificam aqui os vinhos da casa. Com outro tipo de abordagem, as visitas das escolas são também uma das preocupações de Leonor Freitas, que criou junto à plantação um pequeno espaço a que chamou «vinha pedagó­gica», onde se cultivam dez castas diferentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poucos quilómetros da Casa Ermelinda Freitas e também sob a orientação do enólogo Jaime Quendera – sinal de uma concorrência salutar –, a Adega Cooperativa Stº Isidro de Pegões é mais um caso da diversidade existente na Rota dos Vinhos. Aqui, produz-se a uma grande escala, tirando partido de uma área vinícola de quase mil hectares. Novamente, Castelão é a casta tinta predominante, representando mais de noventa por cento do encepamento. Cerca de cento e cinquenta produtores entregam aqui as suas uvas e todos os anos surgem pedidos de novos associados, o que é prova da fase ascendente que a cooperativa atravessa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fundada em 1958, por iniciativa da antiga Junta de Colonização Interna, a Cooperativa de Pegões fez parte de um projecto estatal que trouxe para a região duas centenas de famílias vindas de todo o país. Cada uma teve direito a casa de habitação e a cerca de vinte hectares de terra, cultivando não só vinha como culturas de sequeiro e regadio. Em troca, cediam à cooperativa uma parte da produção. O projecto passou por diversas épocas e situações (incluindo a da ocupação popular, quando as reuniões da assembleia-geral se faziam com militares de G3 à porta…), até que no início da década de 1990 vingou a possibilidade de os casais serem adquiridos pelos agricultores, os chamados «colonos». Seguiu-se um período de forte renovação, ainda não concluído, durante o qual a Adega Cooperativa Stº Isidro de Pegões modernizou as instalações e inves­tiu nas suas marcas, criando, por exemplo, o apreciado «Fontanário de Pegões», branco e tinto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ano, o «Adega de Pegões Syrah 2005» arrecadou boa parte das medalhas atribuídas em vários concursos internacionais, sendo sintoma da aposta numa imagem e consumo mais sofisticados. Hoje, pouco ou nada sobra daqueles 200 casais, que se mantêm perfilados à volta da cooperativa no seu estilo típico de casa portuguesa. Ao abandono, uns; convertidos em segunda habitação, outros; quase todos já foram vendidos pelos antigos colonos e são raros aqueles que ainda levam as suas uvas à adega. A história merece ser contada com mais vagar, sendo apenas uma das muitas curiosidades que a Rota dos Vinhos guarda. Quem quiser conhecê­‑la de perto, pode dirigir-se à Casa-Mãe, onde será bem recebido e melhor encaminhado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa-Mãe da Rota de Vinhos da Península de Setúbal/ Costa Azul&lt;br /&gt;Largo de São João – Palmela&lt;br /&gt;De segunda a sábado, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h30.&lt;br /&gt;Encerra domingos e feriados&lt;br /&gt;Informações e marcações de visitas pelo telefone 212 334 398.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.rotavinhospsetubal.com"&gt;www.rotavinhospsetubal.com&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Roteiro"&gt;PÃO, QUEIJO E VINHO, TRILOGIA DE PALMELA&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;David Lopes Ramos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/roteiro.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Câmara ardente, produções fotográficas&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pão com olhos, queijo sem olhos e vinho que salte aos olhos», é tudo o que muito «bico fino» considera necessário para que uma refeição seja memorável. Ora Palmela está em condições de nos oferecer o trio. O seu pão artesanal, cozido em fornos de lenha, é famoso, e com razão. Segundo informação da Câmara Municipal de Palmela, o Centro de Moinhos Vivos, situado na Serra do Louro, confecciona e comercializa pão de farinha de trigo proveniente dos seus moinhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A autarquia sublinha o facto de «o valor patrimonial e cénico dos Moinhos de Vento da Serra do Louro» traduzir «a necessidade de se preservar uma tradição. Desta forma, com o apoio do Parque Natural da Arrábida, alguns dos seus proprietários têm vindo a recuperá-los. É o caso do Centro “Moinhos Vivos” que mantém dois moinhos de vento em plena actividade, que produzem e comer­cializam pão a partir de farinha de trigo». Ao mesmo tempo, o Centro desenvolve uma actividade de Educação Ambiental, recebendo visitas de escolas e grupos organizados, com marcação prévia. Ora cá está uma iniciativa exemplar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao queijo, ele é o famoso e saboroso queijo de Azeitão, elaborado com leite cru de ovelha, o qual é maioritariamente produzido na freguesia da Quinta do Anjo, remontando a sua origem ao século xix. Com o Serra e o Serpa, todos de leite de ovelha, o que constitui uma originalidade portuguesa a nível mundial, o Azeitão faz parte do terceto dos melhores queijos pátrios. Originalidade, pois, nos outros países, os queijos mais prezados são sobretudo os confeccionados com os leites de cabra e de vaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O queijo de Azeitão continua a ser produzido segundo regras tradicionais e artesanais, sendo a respectiva qualidade assegurada por um rigoroso controlo de qualidade e certificação. O queijo do leite das ovelhas que pastam nas terras de Palmela, e também de Setúbal e Sesimbra, remete-nos para as Beiras e para o final do século xix (1830), quando Gaspar Henriques de Paiva chegou a Azeitão para se dedicar à actividade agrícola. Trouxe consigo ovelhas leitei­ras e todos os anos mandava vir um queijeiro para lhe fazer queijos com o leite das ovelhas, tal como se fazia na Serra da Estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que as condições edafo-climáticas da Arrábida são diferentes das da Serra da Estrela. Apesar de, como acontece com o seu inspi­rador, o de Azeitão também ser feito com leite cru de ovelha, sal e cardo, o seu aroma, textura e sabor são diferentes, embora igualmente deliciosas. É que, a flora das pastagens da Arrábida é diferente da Estrela e o clima também. O queijo de Azeitão, salvo os do final da época (Abril/Maio) que chegam a ter um quilo e mais, mas são só para consumo caseiro, não têm mais de 250 gramas. Actual­mente também se fazem uns de 100 gramas. A forma ­é cilindríca achatada, sem bordos vincados e de crosta amarelada. A pasta, de cor entre o amarelo desmaiado e o marfim, é amanteigada, untuosa, praticamente sem olhos e com uma zona de corte facilmente deformável. De aroma e sabor muito delicados e caracterís­ticos, transmitem sensações moderadamente acídulas e salga­das, com notas ligeiras de amargo e picante. Este último acentua-se com o tempo, embora a maioria dos aprecidores goste de comer o Azeitão numa fase de meia cura. Façam-no sempre à fatia. Não lhe façam a desfeita de o comer à colher. O pão e um vinho da região são boas companhias. Há quem se incline para um tinto com alguma evolução. Eu prefiro um branco com alguma complexidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Periquita e Moscatel&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, o vinho. Melhor, os vinhos. Palmela e toda a Península de Setúbal, no conjunto «terra mãe de vinhos», podem orgulhar­‑se de os ter todos: espumantes, brancos, rosés, tintos e generosos. Uma parte importante da história de Palmela está ligada à sua faceta de região vitivinícola. O solo e o clima são propícios, por isso desde a mais alta Antiguidade que têm fama os vinhos palmelenses. As suas castas de uvas também são bem conhecidas. Nos tintos, domi­na a Periquita, agora de nome mudado para Castelão, depois de já ter sido Castelão Francês; nos brancos, a Fernão Pires e a Moscatel, esta também matéria-prima de um grande generoso português. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os historiadores admitem que a cultura da vinha foi introduzida no Vale do Tejo e Sado pelos tartésios (2000 anos antes de Cristo (a.C.). Mais tarde, os fenícios (século x a.C.) estabeleceram feitorias comerciais por aqui e assenhorearam-se do comércio do vinho. Mas foi com a chegada dos gregos à Penínsila Ibérica no século vi a.C. que a viticultura se desenvolveu, ganhando relevo a arte de fazer vinho. Um século depois, os celtas trouxeram novas variedades de videira e conhecimentos na área da tanoaria. Com a romani­zação da Península (15 a.C.), a cultura da vinha, a elaboração e o consumo de vinhos deu um salto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vila de Palmela recebeu o seu primeiro foral em 1185, outorgado pelo nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, e nele se mencionam a vinha e o vinho da região. Desde o final do século xix afluí­ram à região pessoas que ficaram na história pelo contributo dado à agricultura com um enfoque particular na vinha e no vinho. A mais importante foi José Maria dos Santos, o qual, a partir dos finais de oitocentos marcou a paisagem agrícola do concelho de Palmela. Em Pinhal Novo, no Poceirão, plantou a maior vinha contínua do mundo, a qual chegou a ocupar 2400 hectares, com seis milhões de cepas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Região Vitivinícola da Península de Setúbal desdobra-se em três denominações distintas: D.O.C. [denominação de origem controlada] Palmela; D.O.C. Setúbal; e Vinho Regional Terras do Sado. As castas tintas, com cerca de 80 por cento do total, são as predominantes e, entre estas, distingue-se a Castelão, mais conhecida como Periquita, que ocupa 95 por cento da área das tintas. Dá origem a vinhos com boa cor, aromas limpos, frescos e atraentes, muito macios e gulosos, sobretudo se as vinhas estão implantadas em terras pobres e arenosas. Nos últimos anos, há outras castas tintas a chegar à região: Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah... Quanto aos brancos, as dominantes são Fernão Pires e Moscatel de Setúbal, destacando-se ainda a minoritária Moscatel Roxo, que dá origem a um vinho generoso do outro mundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora o pão, o queijo e o vinho sejam produtos palmelenses que podem atingir um altíssimo nível qualitativo, não devem passar sem referência outras especialidades gastronómicas regionais. Nas sopas, a caramela e a de favas, que prestam vassalagem aos produtos hortícolas regionais. Nos pratos de resistência, têm que se citar o coelho guisado com feijão à camponesa, o frango à moda de Palmela, a cabidela de galinha do campo, o pato com arroz de forno, o ensopado de borrego, o cabrito assado no forno, o bucho de porco com feijão. Os que forem mais adeptos de mariscos e peixes também não ficarão desiludidos, pois o mar e a foz do Sado não ficam longe. Na fruta, sem esquecer as laranjas e os pêssegos, dê-se a primazia à bonita, perfumada e deliciosa maçã risca­dinha. Por meados de Julho lá a vemos nas macieiras à nossa espera. Quanto à doçaria, abram-se alas para a chegada das fogaças, do pudim de abóbora, dos carolinos, dos suspiros, dos bolinhos de amêndoa e das pêras cozidas em Moscatel. Bom apetite!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2098131296795889010-436448494551833210?l=ddlx.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/436448494551833210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/436448494551833210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/2008/02/lvt-7.html' title='LVT 7'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010.post-86098508004810169</id><published>2007-10-15T11:39:00.000-07:00</published><updated>2007-10-17T12:56:56.817-07:00</updated><title type='text'>LVT 6</title><content type='html'>&lt;a name="Topo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Editorial"&gt;NOVOS DESAFIOS PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Opiniao"&gt;LISBOA A GOSTO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Entrevista"&gt;CARLOS HUMBERTO CARVALHO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Reportagem"&gt;ENERGIAS RENOVÁVEIS | LISBOA SERÁ UMA DAS CAPITAIS MAIS SUSTENTÁVEIS&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Destaque"&gt;ENERGIA PRECISA-SE!&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Territorios"&gt;A COSTA DAS MIL EMOÇÕES&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Patrimonio"&gt;MORADAS DE LUZ&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Cultura"&gt;A ESTRATÉGIA DE LISBOA 2020&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Acontecimento"&gt;ABRANTES | UMA CIDADE PARA AS PESSOAS&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Roteiro"&gt;COMER E BEBER ENTRE OS ENCANTOS DA SERRA E DO MAR&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Editorial"&gt;NOVOS DESAFIOS PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;António Fonseca Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Com a passagem da região de Lisboa para o  objectivo comunitário «Competitividade Regional e Emprego» e a consequente redução de fundos estruturais, colocam-se novos desafios ao desenvolvimento sustentado da Região de Lisboa para vencermos os atrasos diagnosticados e atingirmos níveis de competitividade e internacionalização  que nos aproximem da média europeia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabemos como lá chegar – as estratégias de investimento público, afectação de recursos, politicas de qualificação de recursos humanos, inovação empresarial, está plasmada no documento LISBOA 2020 - Uma Estratégia de Lisboa para a Região de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prevê-se que 75% dos fundos europeus serão destinados às áreas da competitividade e inovação, num esforço de convergência para modelos europeus, aumentando em 2015, de 1,2% para 3% do PIB  o investimento em ciência, tecnologia e inovação, com a meta dos 3,5% em 2020. Apostar no ensino de qualidade e em parcerias com empresas que terão um papel crucial na sociedade de conhecimento, em domínios como a engenharia, ciências exactas, ciências da vida, biotecnologia ou nanotecnologia. Para a transferência de conhecimento científico e tecnológico é imprescindível desenvolver infra-estruturas e equipamentos, criar vantagem competitiva, criar massa crítica. As empresas e os empresários terão de apostar na inovação e serão protagonistas destas mudanças qualitativas para a regeneração do tecido empresarial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também a Administração Pública, cuja reforma se iniciou já com o PRACE, terá de saber agilizar os seus procedimentos e pôr em prática as reformas que lhe permitam modernizar os seus serviços, nomeadamente a administração desconcentrada, parceiros e co-responsáveis pela execução  da Estratégia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este esforço requer estratégias de cooperação e parceria entre agentes públicos e privados, e neste quadro é fundamental a criação do Fórum Metropolitano, um órgão que apreciará e acompanhará a execução da Estratégia, no sentido de recomendar as medidas e proposições que a tornem mais eficaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Região de Lisboa para ganhar projecção e competitividade no mercado global terá de se projectar internacionalmente como região atractiva,  através da inovação e qualificação das actividades produtivas e a concertação de investimentos privados ao nível da indústria, do turismo, e a captação de investimentos e capacidades estratégicas em sectores concorrenciais, mas também nas áreas do Ambiente e da Cultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para isso teremos de apostar em novos segmentos, nomeadamente no reforço da oferta para o turismo de negócios, no turismo residencial, em  sectores qualificados de lazer,  e no desenvolvimento de serviços em áreas tão fulcrais como a saúde  e a tecnologia, sem esquecer as plataformas logísticas ao nível dos produtos e dos processos inovadores que representem, no contexto internacional, ganhos na cadeia do valor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos de saber aproveitar os excelentes recursos da região e tirar o melhor benefício das oportunidades que se nos deparam para alcançar os objectivos que nos propusemos com visão, ambição e determinação. E como disse Pessoa, poeta de Lisboa, «O Homem sonha e a Obra nasce».&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Opiniao"&gt;LISBOA A GOSTO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Fernanda Câncio&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/lisboa.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o resto dos portugueses, os lisboetas escolhem o meio do Verão para partir, em manada automobilística, para a praia. Lisboa fica quase deserta (e que bem fica). É o melhor mês para circular na cidade, e seria perfeito não fosse tanta coisa fechar: restaurantes, piscinas, lojas. É também o melhor mês para começar a apanhar os bocados da cidade. E oferecê-la, recomposta, aos veraneantes reentrados. Um roteiro de desejos, à atenção de António Costa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Meio mês após a eleição, ainda não era visível qualquer alteração na cidade. Cedo,  decerto. Mas, como diz o outro, «não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão». E causar boa impressão aos munícipes de uma capital abandonada até à caricatura é muito fácil. Basta começarem a ver coisas a mudar. E, melhor ainda, voltarem de férias e constatarem que as coisas já mudaram. Que alguns das seus mais renitentes motivos de irritação desapareceram. Que ao fim de anos e anos de desmandos e descalabro, a cidade está a ser mimada.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Claro que é preciso fazer planos, pensar o modo e o critério de desenvolvimento, as prioridades. Claro que é preciso projectar, pensar grande. Mas é nas pequenas coisas – que, na verdade, de pequenas nada têm – que se reconstrói a auto-estima de Lisboa ou, o que é dizer o mesmo, dos lisboetas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O «problema do estacionamento», por exemplo. De cada vez que se fala dele, ouve-se clamar por mais parques em Lisboa. &lt;br /&gt;Ora alguns parques fazem decerto falta. Para moradores de zonas sem lugares legais suficientes na rua, por exemplo. Mas não se pense que se tiram os carros de cima dos passeios com parques espalhados por todo o lado. Não raro se vêem dezenas de automóveis em contravenção em zonas bem servidas de parques – e com eles quase vazios. O problema do estacionamento não é apenas o de entrarem mais carros no centro de Lisboa que os lugares legais disponíveis. É que mesmo quando há lugares legais disponíveis, sendo grande parte deles a pagar, a pessoas preferem arriscar e estacionar mal (a zona do Martim Moniz, onde existe um grande parque subterrâneo que nunca está cheio, mas há sempre carros mal estacionados em todo o lado é disso exemplo), porque sabem que a probabilidade de serem multadas e verem o carro rebocado ou bloqueado é mínima. E isto porque é mais que conhecida e propagandeada a proverbial falta de zelo das polícias para fazer cumprir as regras na cidade. De outra forma não se compreende que a Avenida da Liberdade se transforme, sempre que há espectáculos no Coliseu ou no Politeama e nas noites de fim-de-semana, num gigantesco parque de estacionamento, com automóveis em espinha sobre os enormes passeios do nosso único boulevard, numa demonstração deprimente do absoluto laxismo policial. Como todos os habitantes e frequentadores de todos os centros de cidade do mundo civilizado aprenderam à respectiva custa, os carros não se podem arrumar em qualquer lado «só porque vou ali ver o La Féria». Um presidente de Câmara que ama a sua cidade e que se orgulha dela não pode admitir que a sua artéria mais nobre se transforme num paraíso de arrumadores e automobilistas selvagens, que fazem manobras no meio de uma via rápida como se fosse a coisa mais natural e aconselhável do mundo. Que os seus munícipes se vejam impossibiltados de percorrer os passeios sem contornar carros ou ter de correr risco de atropelamento. E um presidente da Câmara que até há pouco tempo era ministro das polícias deve ter facilidade acrescida em identificar os problemas relacionados com o défice de actuação policial e encontrar uma solução – nem que passe por contratualizar toda a fiscalização do estacionamento com empresas. Fazer passar a mensagem de «tolerância zero» para o estacionamento sobre passeios seria um dos melhores presentes de reentrée que o novo executivo camarário poderia dar aos munícipes – um presente que certamente contribuiria também para reduzir o fluxo de tráfego na cidade, já que, se perceberem que vão ter impreterivelmente de pagar para estacionar, muitos dos automobilistas que demandam a cidade passarão a encarar com outro interesse os transportes públicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois – quer dizer, antes – é necessário reparar o piso. Os passeios e as faixas de rodagem. Mais outra tolerância zero - para os buracos. Inadmissível que zonas tão emblemáticas como a Baixa – onde, recorde-se, se situam os Paços do Concelho – apresentem passeios esburacados e ondulantes e zonas de trânsito automóvel dignas de uma urbe bombardeada, com o alcatrão em patchwork de texturas e densidades e desníveis dignos de qualquer honesto caminho de cabras (impressionante como a autarquia não está inundada de processos por danos em automóveis e por ofensas corporais às pessoas que todos os dias caem ou torcem os pés). Quando chove, toda a Baixa (que como o nome indica fica num baixio) se transforma numa sucessão de poças de água. Na Rua Augusta (fechada ao trânsito), dezenas de metros quadrados ficam intransitáveis para quem não calçar galochas. É normal que a rua mais nobre da zona mais nobre da cidade, uma zona que é património nacional e que se deseja candidatar a património mundial, seja, no Inverno, uma espécie de lago baixinho? &lt;br /&gt;É justificável que ninguém tenha reparado que é necessário nivelar os pavimentos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma tolerância zero: para as pichagens. Depois de nos últimos anos, perante a passividade incompreensível das autoridades e do governo da cidade, o Bairro Alto ter sido garatujado de alto a baixo, a doença tem vindo a espalhar-se. Desce o Chiado, atravessa a Baixa, chega à Sé. Prédios pombalinos pintados de fresco, a pedra porosa das fachadas, as portadas de madeira, nada é sagrado para os selvagens do spray.  Pouco a pouco, o centro da cidade adquire o aspecto de um bairro suburbano degradado. Não será fácil dar resposta a esta «tendência» mas não é possível baixar os braços, como tem acontecido. É preciso fazer passar a mensagem de que se trata de um atentado ao património comum, e que não será admitido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro tipo inadmissível de selvajaria: a ocupação desregrada e descontraída da via pública. Deve ser estabelecido sem sombra de dúvida que as obras, sejam elas de que natureza forem, devem ocupar o mínimo de espaço da via pública e causar o mínimo de transtorno. O modo inadmissível como qualquer estaleiro, seja de um prédio, do metro ou de um túnel ou de uma daquelas reparações cíclicas da EDP, EPAL, Gás ou PT, se acha no direito de deixar montes de entulho durante meses no mesmo sítio, esburacar passeios e deixá-los por arranjar, fazer os peões andar pela estrada, caminhar em lama, terra ou cascalho, ou andar o triplo do caminho normal para chegar ao destino deveria há muito ter desencadeado um conjunto de medidas para acabar com o regabofe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem passou a pé na zona do Saldanha, do Marquês e da Fontes Pereira de Melo, no último ano, não pode ter deixado de espumar com o absoluto desprezo a que foi votado pelos responsáveis das obras (metro e túnel do Marquês). Houve alturas em que nem se conseguia perceber por onde era suposto ir. Viam-se transeuntes parados, a olhar em volta, hesitando, à procura da sinalização inexistente. Sendo impossível atravessar a Fontes Pereira de Melo ao longo de centenas de metros, tinha de se andar o triplo. No Saldanha, a brutalidade de espaço (vazio em grande parte, sem sinal de operários ou máquinas) ocupado pela obra do metro obrigou, durante pelo menos meio ano, a autênticas gincanas. Que departamento camarário autoriza estes abusos imperiais? Será que alguém na autarquia leva em conta as necessidades de quem anda a pé, ou só há preocupação com o chamado «escoamento de tráfego»? Será que é impossível pôr ordem nas obras? Claro que não. Basta percepcionar o problema, ter vontade de o resolver e usar os bastos instrumentos existentes na estrutura camarária para assegurar a resolução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra inadmissibilidade é a do claro abandono a que são votados tantos edifícios devolutos. Em todas as zonas da cidade há prédios vazios de janelas escancaradas à chuva e aos bichos, à espera da derrocada. Há até casos de imóveis que foram entaipados nos primeiros tempos do reinado de Santana Lopes e, cinco anos depois, assim permanecem. Um dos exemplos mais extraordinários é o de um edifício de esquina da rua da Madalena – fechada ao trânsito em 2002 «para ficar mais bonita» - que, estando em risco de derrocada, foi escorado com vigas e entaipado, sendo feita uma passagem de madeira para peões. Em 2007, o edifício permanece assim, com a passagem de peões já completamente podre e esburacada, obrigando quem o quer contornar a caminhar pela estrada ou a passar para o outro lado da rua. Como explicar este tipo de situação? Como perceber que o departamento camarário responsável pelo processo do edifício permita isto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A limpeza da cidade é outra das prioridades óbvias de uma Câmara que queira realmente fazer a diferença e tornar claro que assim é. Devem ser efectivamente proibidos os sacos de lixo à porta de casa. Os ecopontos têm de deixar de ser um ponto de nojo e mau cheiro (em tempos, os responsáveis pelo departamento de resíduos sólidos certificaram-me de que os receptáculos só são limpos duas vezes por ano – o que explica a camada de porcaria que os cobre), quase sempre repletos e rodeados de todo o género de detritos e assegurar uma cobertura efectiva da cidade – há zonas em que é preciso andar 500 metros para chegar ao ecoponto mais próximo. A reciclagem é uma necessidade e uma obrigação – mas não pode ser um martírio. Se a Câmara de Lisboa não tem condições para dotar a cidade de uma rede de recolha de recicláveis digna e eficaz, talvez deva assumi-lo. Talvez deva passar a responsabilidade dessa tarefa a outra ou outras entidades. Talvez haja empresas interessadas no negócio – se há negócio na reciclagem.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito há a fazer por uma cidade abandonada, desprezada, humilhada. As ideias de intervenção rápida não se esgotam decerto nesta meia dúzia de desejos. Mas corresponder-lhes seria um bom princípio. O princípio da esperança.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Entrevista"&gt;CARLOS HUMBERTO CARVALHO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Presidente da Junta Metropolitana de Lisboa&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ana Sousa Dias&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/carlos.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Presidente da Junta Metropolitana de Lisboa espera que o Governo modifique a proposta avançada em Maio último para o regime jurídico das áreas metropolitanas, aproximando-a do modelo defendido pelas juntas de Lisboa e do Porto. Carlos Humberto Carvalho volta a afirmar que gostaria de ser o último presidente não eleito, e insiste em três pontos que considera fundamentais: o órgão metropolitano deve ser eleito por voto directo, as suas competências têm de ser claras e deve ser dotado de meios financeiros para cumpri-las, num sistema em que esteja sempre salvaguardada a autonomia das autarquias.&lt;br /&gt;Eleito em 2005 para a presidência da Câmara Municipal do Barreiro, que recuperou para a CDU depois de um mandato em que fora ganha pelo PS, Carlos Humberto prepara projectos estruturantes para o concelho, entre os quais uma estratégia integrada para a recuperação do território da Quimiparque e a revitalização da zona ribeirinha e do centro histórico – onde nasceu e passou a infância. Numa autarquia a braços com dificuldades financeiras, diz que vive na angústia de não ter tempo para tudo o que gostaria de fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;As juntas metropolitanas [de Lisboa e do Porto] existem desde 1991 mas o papel delas tem sido pouco relevante. O que é que impede a sua acção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta solução de Junta Metropolitana está esgotada. É indispensável um órgão na área metropolitana com consistência democrática, isto é, proveniente de eleições directas. Os membros da Junta Metropolitana deviam ser eleitos directamente pela população.&lt;br /&gt;Esta é a minha opinião pessoal mas é também fruto de reflexão colectiva, e é consensual entre os 18 presidentes de câmara que hoje integram a Junta Metropolitana de Lisboa. Ninguém despe o casaco de presidente em nenhuma circunstância. Eu próprio sou, acima de tudo, presidente de Câmara do Barreiro e, cumulativamente, sou presidente da Junta Metropolitana de Lisboa. Tenho dito que gostaria de ser o último presidente não eleito. Dificilmente há uma visão metropolitana, há o somatório de 18 visões concelhias. Precisamos de um órgão metropolitano eleito para gerir com uma visão integrada, supra-municipal.&lt;br /&gt;Vivemos um vazio institucional. Existe a estrutura de poder nacional e há depois a estrutura local. Mas está prevista na Constituição uma estrutura relativa às áreas metropolitanas que é indispensável. Há questões de carácter metropolitano – se quisermos, podemos dizer de carácter regional, numa perspectiva de regionalização – que umas vezes são tratadas pelo governo, outras vezes pelos municípios.&lt;br /&gt;A futura estrutura metropolitana tem de ter atribuições claras, não podem ser apenas competências de coordenação, de cooperação. Defendo que tenha competências ao nível do ordenamento do território, da mobilidade e dos transportes, algumas de carácter ambiental, entre outras. E tem de ter meios para executar essas competências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa estrutura não colide com as atribuições das comissões de coordenação e desenvolvimento regional (CCDR)?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, na medida em que as CCDR são estruturas da administração central e como tal têm competências claras. O próprio presidente da CCDR defende que a junta metropolitana tenha áreas de intervenção claras.&lt;br /&gt;Fui eleito pela CDU e não estou a defender isto numa perspectiva partidária, porque provavelmente nem sequer é a CDU que ganha, apesar de ter a maioria em oito dos 18 municípios. Não se trata de uma questão de interesse partidário, trata-se daquilo que serve melhor a região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Actualmente o que faz a Junta Metropolitana de Lisboa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Discutimos questões de carácter regional, procuramos articular e afinar posições sobre essas matérias, mas depois ficamos por aqui.&lt;br /&gt;No âmbito do Quadro Comunitário de Apoio (QCA/III), tivemos a gestão de uma parte dos fundos comunitários e essa é uma intervenção interessante. Mas Lisboa deixou de ser Objectivo I e as verbas diminuíram significativamente. O mais provável é que a Junta não seja chamada a essa função, ainda que eu discorde, pois penso que as autarquias e a Junta Metropolitana deviam ter uma maior intervenção nesse mecanismo.&lt;br /&gt;Claro que temos intervenções interessantes, é justo reflectir sobre o Portal da Junta e sobre alguns trabalhos informáticos, como as compras electrónicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compras de quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um processo que está no início, com uma experiência pequeníssima mas com resultados entusiasmantes. Depois de um levantamento das necessidades dos municípios e das condições de compra de cada um, faz-se um concurso público para o seu fornecimento em conjunto. Até agora, temos este sistema para material informático, papel, pneus. As câmaras depois compram directamente por via electrónica a quem ganha o concurso, e há prazos para a resposta e para os pagamentos. Isto desburocratiza, facilita e permite poupanças.&lt;br /&gt;Outra função da Junta são as representações internacionais, fazemos parte de cinco ou seis redes a nível dos portos, dos estuários, por exemplo, e aí trocamos experiências, aprofundamos reflexão sobre estas matérias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas considera que isso é pouco?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claramente insuficiente. Nos problemas com dimensão claramente metropolitana, como os transportes, qual é o papel da Junta? Faz comentários, apreciações. A região metropolitana precisa de uma intervenção distinta, e por isso defendemos com muito ênfase a criação da Autoridade Metropolitana de Transportes. É um projecto ambicioso, necessariamente complexo, com posições diferentes dos parceiros, dos municípios e do Governo, mas indispensável para darmos um contributo para a atenuação – já nem digo a resolução – dos problemas de transportes e mobilidade. Cada vez mais é preciso ter uma visão global e integrada porque os transportes têm muito a ver com a qualidade de vida, o emprego, o urbanismo, a ocupação do território, a vida de cada um de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O facto de o executivo da Junta Metropolitana ser constituído a partir de um acordo partidário não inviabiliza a tomada de grandes decisões, não as torna  enviesadas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está a falar da Comissão Permanente, que tem um papel de representação e de preparação das discussões da Junta mas não tem muita capacidade de decisão. As grandes decisões são do conjunto dos 18 municípios. A Comissão Permanente não é um órgão executivo, a Junta é que é um órgão executivo da Área Metropolitana.&lt;br /&gt;Apesar de diferenças políticas e até ideológicas muito acentuadas entre nós, que cada um assume com um certo à-vontade, há uma grande experiência de saber os momentos em que é preciso afirmar as diferenças e os momentos em que é preciso sublinhar o que nos une. Não tem sido difícil gerar consenso alargado sobre a esmagadora maioria das matérias. E também temos o bom senso de retirar quando vemos que as coisas não são consensuais. &lt;br /&gt;Não me lembro de haver uma votação na Junta que não fosse por unanimidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso não seria assim se a Junta tivesse competências executivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É evidente. Todos percebemos o patamar em que estamos. Se tivéssemos de decidir se se constrói isto ou aquilo, ou se se investe mais nesta ou naquela área, seria diferente. Mesmo assim, temos consensos em questões políticas muito importantes, como a Autoridade Metropolitana de Transportes ou a definição do futuro da área metropolitana. Cada um de nós percebe o seu papel e distingue o essencial do secundário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que é que não está de acordo com a proposta do Governo sobre as áreas metropolitanas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As competências que estão na proposta do Governo são insuficientes e pouco claras. Esperamos que o Governo tenha em conta a posição da Junta Metropolitana de Lisboa quanto à eleição directa. Penso que o Governo menoriza o papel dos municípios e dos presidentes, já que cria um órgão executivo a que chama «Junta», constituído por cinco pessoas não eleitas directamente – eleitas pela Assembleia Metropolitana a partir de proposta do Conselho Metropolitano, isto é, dos 18 presidentes. É inaceitável e não resolve nada, nem do ponto de vista institucional nem do ponto de vista da solução metropolitana. Estes cinco técnicos da chamada “Junta” passavam a ser os interlocutores do Governo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esses nomes eram propostos pelos eleitos, o perfil deles dependeria da vossa proposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Independentemente do perfil pessoal, técnico, político, de qualquer um deles, claramente não eram eleitos. E essa é a questão: ser ou não ser eleito. Um técnico pode ser um político, um político pode ser um técnico, não se trata disso. Neste modelo, formalmente tinha funções técnicas mas de facto assumia, quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista político, as opções fundamentais. Algumas decisões deste órgão eram obrigatórias para as autarquias. Não é aceitável. Do ponto de vista constitucional, o poder local tem autonomia, tem competências próprias. A construção da democracia portuguesa fez-se na base de princípios e um deles é a autonomia entre o poder local e o poder central. Estou em frontal desacordo com tudo o que ponha em causa esse princípio. A não ser que cheguemos à conclusão de que isto é para mudar, e eu admito-o. Mas então discutamos abertamente, conclua-se que é para mudar e altere-se a legislação. Vir com pezinhos de lã alterar um dos elementos estruturantes da democracia portuguesa é inaceitável.&lt;br /&gt;Na vida, nada é indiscutível. Há maiorias e minorias, não temos de estar de acordo em tudo. Estou disponível para aceitar as decisões da maioria, até porque sou comunista. Mas tudo o que ponha em causa a autonomia do poder local, mesmo que seja para um poder regional ou metropolitano, estou em desacordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas admite-o se o poder intermédio – metropolitano, regional – for eleito?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só não admito que se ponha em causa a autonomia, mesmo com a criação da região. Há competências que hoje são das autarquias e passarão a ser de carácter regional, mas as autarquias continuam a ser autónomas nas matérias que lhes dizem respeito.&lt;br /&gt;Interrogo-me se as áreas metropolitanas não deviam ser regiões. Também admito que dentro de uma grande região haja uma área metropolitana, ou concretamente que dentro da região Lisboa e Vale do Tejo haja uma área metropolitana de Lisboa. Não vejo incompatibilidade em que ambos esses órgãos sejam eleitos, quanto mais aprofundada for a democracia, melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que as competências sejam claras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso que as áreas de intervenção estejam claras. Não pode haver áreas cinzentas, em que não se sabe bem de quem são as competências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Junta defende uma autoridade metropolitana de transportes. É uma matéria que deixaria de passar pelo Governo central?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Governo tem de ser chamado a intervir nessa matéria mas é claramente uma questão que deveria ser resolvida a nível regional. É preciso definir as áreas de intervenção, a composição dos vários órgãos, mas é muito importante a questão do financiamento desta Autoridade. Não podem dizer-nos, por exemplo: «toma lá o Metro, com não sei quantos milhões de défice/ano, resolve isso». Tínhamos de parar as câmaras todas, não fazer mais nada, passar o dinheiro todo para a autoridade metropolitana e se calhar não chegava.&lt;br /&gt;Os transportes são um elemento estruturante. A autoridade tem de ter articulação com outras entidades ao nível regional e, com certeza, nacional, são problemas de dimensão que ultrapassa a região. Admito que, pelo menos nesta fase, não seja dispensável a participação dos órgãos da administração central. O que é diferente de eles terem um papel preponderante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As opções da Estratégia Lisboa 2020 são coincidentes com a opinião da Junta Metropolitana?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaríamos de que a Estratégia Lisboa 2020 tivesse sido construída pela Junta Metropolitana. Claro que não foi porque as competências da Junta são o que são e o Governo optou por definir a estratégia através da CCDR. Mas podia ter pedido à Área Metropolitana uma articulação, ou podia ter desafiado a Junta a participar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estão de acordo com a Estratégia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Globalmente, não se pode dizer que tenhamos discordâncias de fundo, até há coisas que consideramos muito interessantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visão global da região e a ideia do Tejo como centro da Área Metropolitana. Vai estando esgotada a expressão que vou utilizar mas gosto dela: a cidade das duas margens, o Tejo como elemento aglutinador desta cidade-região. Até diria: o Tejo como grande praça da Área Metropolitana, a maior praça do País. É nesse sentido que temos de caminhar.&lt;br /&gt;Outro aspecto positivo: valorizar muito as pessoas, apostar nos cidadãos, na sua formação. E ainda a ideia de Lisboa desempenhar um papel de grande metrópole internacional, sem uma visão localista ou regionalista. O País precisa, com naturalidade, de máquinas que puxem as carruagens. Tudo isto é muito importante, mas precisamos de associar à Estratégia mecanismos de concretização. E esses não estão garantidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há meios financeiros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não há, e sublinho o «ainda» porque quero dar uma margem de confiança. O QREN pode dar um contributo mas Lisboa saiu do Objectivo I e portanto os meios disponibilizados para a região vão reduzir talvez em um sétimo ou um oitavo daquilo que foram no QCA, e não sabemos o que acontece depois. Como é que se concretiza uma estratégia quando há menos fundos comunitários e o Estado tem poucas disponibilidades financeiras? Pode recorrer-se a privados e articular o seu papel com a intervenção pública, é justo fazê-lo, mas é necessário ter meios financeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há três grandes obras – o Aeroporto da Ota, o comboio de alta velocidade e a terceira travessia do Tejo – previstas para os próximos anos na região. Qual é a sua opinião sobre estes empreendimentos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Junta Metropolitana não discutiu nenhuma das três matérias. Sabemos que dificilmente vamos chegar a consenso, tem sido isso que nos tem levado a não discutir uma coisa que só nos vai partir. Sou do município do Barreiro e tenho posição clara sobre estas três matérias mas, como presidente da Junta Metropolitana, não tendo havido discussão, não vou pronunciar-me.&lt;br /&gt;O aeroporto tem uma importância muitíssimo grande para a Região Metropolitana de Lisboa, mas é claramente uma questão nacional. A posição dos presidentes de Câmara e do conjunto dos eleitos autárquicos da península de Setúbal – nove dos 18 municípios da Área Metropolitana – foi muito equilibrada relativamente a esta matéria e sinto-me muito satisfeito pela posição que tomaram: nunca defenderam o aeroporto na península de Setúbal. A única coisa que exigiram foi que se estudasse as localizações, incluindo as da península de Setúbal. A solução tem de ser a que serve o País e não a que serve a península de Setúbal. O pior que pode acontecer, e já aconteceu, é os concelhos e as regiões discutirem se é importante para si ou não. Porque então não há aeroporto em lado nenhum. O mesmo se passa com o comboio de alta velocidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já a terceira travessia do Tejo não é o mesmo caso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira travessia do Tejo pode ser importante se não se limitar à alta velocidade, porque a alta velocidade é só para passar, não resolve nenhum problema local. Mas se tiver, como está previsto, o comboio tradicional, então traz maior mobilidade, melhores acessibilidades.&lt;br /&gt;A ponte deve ter também a vertente rodoviária. Não é para servir o Barreiro nem para a população do Barreiro chegar mais depressa a Lisboa, porque isso não resolve problemas da região, pelo contrário. Se for uma ponte rodoviária com a perspectiva de crescimento a sul, de localização a sul de equipamentos-âncora, particularmente ao nível do emprego, mas também do ensino, da cultura, do lazer, então vale a pena. Mas não quero que o Barreiro se desenvolva à custa da região.&lt;br /&gt;No quadro da Estratégia Lisboa 2020, a ideia da cidade-região é útil, para a região e para o País. Mas é uma cidade de duas margens e portanto só se consolida se crescer para sul de forma sustentada. Só assim Lisboa pode assumir o papel de metrópole internacional que ajuda o país a desenvolver-se. É preciso que cresça para sul, com mais gente e mais desenvolvimento económico e emprego, para se reequilibrar, para que o Tejo seja de facto o centro. Paralelamente ao desenvolvimento sustentável que pressupõe questões ambientais, sociais, desportivas, de lazer, de equipamentos-âncora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão do emprego continua a ser central na península de Setúbal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o principal problema não só da margem sul mas de toda a Área Metropolitana de Lisboa. Estou convencido de que Lisboa é a zona do País onde se vive pior. É aqui que estão, quantitativa e qualitativamente, os maiores dramas sociais. Aquela ideia, justa, da desertificação do interior, da litoralização, que é verdadeira e que é preciso combater, leva a esquecer quais são as zonas de maior desemprego, e não só em taxas mas em número de pessoas concretas, dramas de vida. Lisboa é onde há mais sem-abrigo, onde estão os imigrantes sem condições de vida, onde há maior número de pessoas sem médico de família.&lt;br /&gt;A Estratégia fala muito bem sobre o «arco ribeirinho sul» que é, no fundo, toda a margem sul do Tejo, de Almada a Alcochete passando por Seixal, Barreiro, Moita e Montijo, e que tem espaços extraordinários que é possível requalificar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A antiga Lisnave, a antiga Siderurgia, a antiga CUF que hoje é a Quimiparque. Precisamente aqui no Barreiro.&lt;br /&gt;São 300 quilómetros quadrados, com uma margem do Tejo de três quilómetros. É uma área desqualificada, na antiga zona industrial e ainda com algumas indústrias, onde chegaram a trabalhar onze mil pessoas. É um território excepcional e não tenho dúvidas de que vai dar um contributo essencial, tal como a antiga Siderurgia e a antiga Lisnave da Margueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando foi eleito presidente da Câmara do Barreiro, em 2005, nunca tinha sido autarca, vinha de responsabilidades relacionadas com as autarquias dentro do PCP. O facto de estar na autarquia trouxe-lhe uma visão diferente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dificilmente percebemos as situações por que os outros passam sem as viver, sem estar nelas. Em relação aos grandes problemas, às grandes estratégias, não sinto diferenças. Mas a pressão quotidiana de um eleito autárquico não me passava pela cabeça. Entro na Câmara todos os dias às sete de manhã e saio à meia-noite, à uma ou duas da manhã, às dez, quando calha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias há trabalho que justifique tantas horas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias. Simplificando, o maior problema do Barreiro é o desenvolvimento económico e o emprego; o maior problema da Câmara é a situação financeira; o maior problema do presidente é não ter tempo.&lt;br /&gt;A pressão do quotidiano, a incapacidade de responder ao dia-a­-dia das pessoas, a angústia de as pessoas quererem todas falar comigo e ter de dizer que não, é materialmente impossível. Nas autarquias, acabamos por intervir em tudo, não temos condições para voltar as costas. Todos os dias vêm pedir-me emprego, casas, dizem-me que é preciso tapar buracos nas ruas ou que a rua não está limpa, que as ervas estão a nascer no passeio, ou que a casa está a cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A população do Barreiro passou de 100 mil para 80 mil. O que se passou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso deu-se com a desindustrialização, o encerramento das empresas. Muitos trabalhadores eram imigrantes internos e regressaram às origens. Há também um certo envelhecimento e os mais jovens procuram emprego fora, particularmente os que têm maior formação académica e profissional. Há cerca de 15 anos, com o encerramento das fábricas, o Barreiro começou a atravessar uma crise de desenvolvimento económico e de emprego que se tem vindo a acentuar, depois veio a perda de população, os problemas de carácter social. E hoje há uma situação do ponto de vista emocional que não é boa. Fomos da crise económica à crise social e agora à crise emocional. Isto é simplista mas reflecte a situação actual. As duas pontes deixaram o Barreiro no centro geográfico mas o crescimento deu-se onde há acessibilidades. O Barreiro era o principal pólo ferroviário a sul e perdeu valências ferroviárias. Talvez estes sejam os dois factores principais: o emprego e a mobilidade. O Barreiro é o único concelho da área metropolitana, tirando Lisboa por outras razões, que perde sempre população nos últimos 20 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é possível fazer para inverter essa tendência?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas situações geram oportunidades e desafios, podemos estar a atravessar o momento mais interessante das últimas décadas. &lt;br /&gt;O Barreiro está a discutir as questões que vão marcar o concelho no século xxi. Estamos a trabalhar para levar a bom porto grandes projectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quais são os projectos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quatro ou cinco questões essenciais. Vamos intervir no território da Quimiparque, estamos a preparar a estratégia e a forma de sustentá-la. Penso que deve ser um pólo de desenvolvimento económico e de emprego, para que tenha no século xxi o papel que teve no século xx, e paralelamente deve alargar e fechar a malha urbana do centro da cidade, com alguma habitação. Estamos a trabalhar com a Administração do Porto de Lisboa e com a Quimiparque, com a CCDR também a cooperar.&lt;br /&gt;Temos de aproveitar as margens do Tejo e do Coina, com equipamentos lúdicos, desportivos, recreativos, administrativos, se possível associar alguma coisa à educação, às novas tecnologias. &lt;br /&gt;É preciso recolocar os rios como elemento central do desenvolvimento não só do ponto de vista económico, e esta é uma segunda linha da estratégia.&lt;br /&gt;Outra é relativa às acessibilidades e à mobilidade. A terceira travessia do Tejo pode ter aqui um papel determinante, particularmente se tiver a vertente rodoviária e se for associada ao Metro a Sul do Tejo, que está previsto vir de Almada e passar pelo Barreiro. Outro investimento importante é a construção de uma ponte para o Seixal, no quadro de uma estratégia de requalificar as acessibilidades intra-regionais que inclui ainda a Circular Regional Interna da Península de Setúbal (CRIPS).&lt;br /&gt;Estamos a discutir uma estratégia para o centro do Barreiro com o professor Joan Busquets, urbanista catalão. Ele vai projectar um edifício, uma praça e um parque no centro do Barreiro, e vai estudar as três principais ruas para alargar e requalificar o centro. &lt;br /&gt;Gostaria de intervir também o Barreiro velho, o nosso centro histórico, onde nasci e vivi a minha infância, que está completamente desertificado. É uma zona com personalidade, de frente para o rio, tem um bom movimento associativo, mas está em tal estado que exige uma intervenção para a qual não temos condições. Se recuperarmos o centro do Barreiro, a Quimiparque e a zona ribeirinha, estou convencido de que acabamos por mexer também no Barreiro velho.&lt;br /&gt;Temos um presente difícil mas temos perspectivas favoráveis. &lt;br /&gt;E não são mudanças para daqui a 20 anos, podem concretizar-se dentro de dois ou três.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Reportagem"&gt;ENERGIAS RENOVÁVEIS | LISBOA SERÁ UMA DAS CAPITAIS MAIS SUSTENTÁVEIS&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Amaro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/renovaveis.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Guto Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Região de Lisboa e Vale do Tejo (RLVT) tem um elevado potencial renovável capaz de tornar a capital uma das cidades do mundo energeticamente mais sustentáveis.  As renováveis não são a “galinha dos ovos de ouro” do país, mas são, seguramente, um sector que poderá trazer muitas mais valias para Portugal, que apesar de já ter algum trabalho feito nesta área, ainda não soube ou não quis tirar o máximo partido de fontes de energia gratuitas e fartas. é que portugal não dá cartas só no sol (o algarve é das zonas do mediterrâneo com mais radiação solar) e vento (a RLVT tem duas mil horas por ano), tem também as melhores ondas do mundo para aproveitamento energético. Mas enquanto a energia dos oceanos estiver numa fase de desenvolvimento tecnológico, o mais provável é que a eólica offshore assuma protagonismo. Sabia que em uma hora de electricidade gasta em sua casa, cinco minutos provêem do vento? Electricidade é maravilha recente para Laurinda da Cunha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A primeira vez que viu luz surgir numa pequena bola de vidro não terá sido há mais 15 anos, e só porque a senhoria da casa que habita, num bairro antigo e degradado construído há cem anos, foi obrigada, pela autarquia, a proceder à instalação do contador. Até então, Laurinda não sabia o bem que sabe ler as histórias que se contam em livro do herói da terra, D. Nuno Álvares Pereira, muito para lá das horas de sol. «Sou velhinha e sou mulher e felizmente tive a sorte de aprender as letras e os números». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever é exercício que as artroses nas mãos já não lhe permitem há muito. Ler, «graças a Deus», tem olhos que ainda lhe concedem essa generosidade. «É das poucas capacidades que tenho, o meu corpo já não funciona. As pernas já quase não andam. Sou uma mulher doente...». Foi apoiada aos móveis que conseguiu arrastar os pés até à porta para ver «quem é?». E, a custo, alcançou a cadeira de plástico branca, junto à soleira, onde se senta sempre que a temperatura no interior da habitação exige que sinta a frescura da brisa que vem de um fio do Tejo, aqui mesmo ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laurinda sabia que a electricidade existia antes de ter em casa lâmpadas alimentadas a energia eléctrica, que lhe rolongaram os momentos de prazer - «ler é o que mais gosto» - e atenuaram a sensação de solidão – «sou viúva há 50 anos, tenho um filho que é muito seco para mim».  Mas do potencial da energia só conhecia o do sol,  através da secagem de roupa no estendal, e o da água, tendo como referência o moinho de maré da terra que trabalhava dia e noite e mesmo assim «não chegava para as encomendas de farinha».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem 82 anos e lembra-se como se ontem fosse. «Quando era garota, tinha seis, sete, dez anos, andava aos caranguejos acolá ao pé do moinho e aquilo era um corropio de barcos a chegar e a partir. Vinham buscar a farinha de trigo com que antigamente se fazia o pão». O cereal, «não sei se vinha de fora ou se daqui da nação.» Aqui de Corróios não, que isto dantes era um deserto em gente mas muito povoado em «mato». Laurinda sabe bem do que fala, porque é das «raras pessoas de Corroios» que permanece na terra onde nasceu e de onde nunca saiu. E por isso tem presente na memória o movimento de outrora do moinho de maré.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa altura, e nesta de resto, energia renovável é termo estranho para Laurinda. Mas já antes da sua meninice houve alguém, português, visionário, que percebeu que o país e o mundo deviam tirar partido de fontes de energia como o sol e o vento. Era padre, chamava-se Manuel António Gomes (nasceu em 1869) e a sua estatura, alta, fez com que os amigos lhe chamassem Himalaya, que acabou por adoptar. Este homem foi o primeiro a defender o desenvolvimento de um país através do aproveitamento das suas forças naturais e, para fazer valer a sua tese, inventou a primeira máquina solar: um forno para transformar o azoto da atmosfera em azotatos, com os quais pretendia produzir fertilizantes para a agricultura. A revista Scientific American noticiou o invento, que ficou credibilizado junto da comunidade técnico-científica da época. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pioneirismo deste sacerdote no investimento em energias renováveis inspirou o actual «Concurso Solar Padre Himalaya», &lt;br /&gt;de âmbito nacional, organizado em seis escalões de competição e abordando os diferentes ciclos do ensino básico, secundário, profissional ou superior. Dirigido a equipas de professores e alunos de todas as escolas nacionais, a ideia do concurso, segundo o seu coordenador, David Loureiro, é contrariar «o atraso da sociedade portuguesa em despertar para as energias renováveis», por um lado, e «estimular os gosto pela actividade experimental», por outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laurinda nunca ouviu falar do padre Himalaya, que «não deve ter sido homem importante», seguramente não tanto como o seu conterrâneo D. Nuno Álvares Pereira, «esse sim, homem de primeira e de grande coragem», que com meia dúzia de pessoas venceu o inimigo mouro que queria tirar-lhe esta terra e as outras à volta. Isto tudo conta Laurinda com a lágrima a querer formar-se, tal a emoção quando fala do herói de Corroios. Herói, porque herói é quem luta para defender até à morte a sua propriedade, e não alguém que tem a coragem de falar ao mundo de um conceito futurista chamado sustentabilidade e que passa pela aposta nas energias renováveis. Mas o padre Himalaya tem mais em comum com D. Nuno Álvares Pereira do que Laurinda imagina, pois também ele tirou proveito de uma fonte energética renovável como a água: mandou construir o moinho de Corroios, o primeiro naquela região (D. Nuno Álvares Pereira era proprietário de quase todos os terrenos banhados pelo braço do rio Tejo que entra no Seixal).  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laurinda sabe de cor e salteado a história deste engenho, que desde 1984 é um Edifício Classificado de Interesse Público. Dessa história fazem parte as obras «que nunca mais acabam» e que impõem um interregno forçado na sua função actual: a de satisfazer a curiosidade de turistas que querem saber como é que dos cereais se fazia farinha -  a figura do moleiro era aqui representada por um funcionário da câmara, «o senhor Vítor», antes do moinho fechar para recuperação. Aproveitado ao longo dos últimos anos como atracção de cartaz turístico,  integrando o núcleo museológico da Câmara Municipal do Seixal, está em obras há «seis anos, pelo menos», se não se engana o povo, representado por uma ínfima amostra constituída por Maria Filomena Mateus, Ana Maria Duarte, Felismina Veiguinha e Joaquim Esteves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os moinhos de maré representam uma utilização precursora de um recurso renovável: a energia das marés. No passado, &lt;br /&gt;os estuários dos principais rios portugueses estavam cheios destas tecnologias seculares, simples mas eficazes. Já no século xvi existiam cerca  de 60 engenhos entre Almada e o Montijo, mas desses nem sequer restam ruínas. Só o de Corroios se mantém em bom estado e capaz de funcionar, apesar das obras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Portugal, país de sol e vento &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveitar o pontencial da água como fonte energética faz parte da agenda política nacional em matéria de energia. Portugal apresenta excelentes condições. As zonas costeiras, em especial a costa ocidental do continente e as ilhas dos Açores, têm condições naturais, garantem os especialistas, «entre as mais favoráveis em qualquer parte do mundo para o aproveitamento &lt;br /&gt;da energia das ondas.» De resto, em matéria de investigação e desenvolvimento, Portugal é um dos países pioneiros e com maior impacto em termos de participação e coordenação de projectos europeus. Liderou, por exemplo, um projecto na Ilha do Pico e a elaboração do Atlas Europeu de Energia das Ondas. O problema é que este recurso exige tecnologia complexa e por isso o seu desenvolvimento no país está bastante aquém das potencialidades, em comparação com a utilização que se faz de outras fontes energéticas como o vento, o sol e a biomassa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Região de Lisboa e Vale do Tejo, em particular, é uma zona de elevado potencial renovável, sobretudo solar e eólico, que, &lt;br /&gt;na opinião de Ana Estanqueiro, directora da Unidade de Energia Eólica e dos Oceanos, do INETI (Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação), «podem contribuir para tornar a cidade de Lisboa uma das capitais do mundo energeticamente mais sustentáveis».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem já mais de 200 MW instalados, só no distrito de Lisboa, pelo que a situação na região de LVT «é claramente positiva». A fonte de energia renovável com desenvolvimento mais marcante é a eólica, facto explicável pelo interesse que esta forma de energia renovável gera no tecido empresarial nacional em todo o país,  aqui reforçado pelo elevado recurso eólico da região, e, por sinal, um dos mais elevados do país. Na região de LVT existem também condições naturais para o desenvolvimento de aproveitamentos offshore, cuja viabilidade técnico-financeira importa caracterizar com detalhe. «O potencial eólico offshore da região pode não ser inteiramente aproveitável, tendo em conta os condicionamentos impostos pelos corredores de navegação de um porto com a dimensão do de Lisboa, ou, se pensarmos na região do estuário do Tejo - por exemplo nos mouchões do Tejo pode ser muito rentável, já que há uma subestação para interligação de um &lt;br /&gt;parque offshore a cerca de 500 m, os impactos ambientais devem ser cuidadosamente caracterizados». Ainda assim, atente-se ao exemplo de Copenhaga, onde existem turbinas offshore na zona urbana da cidade, que tem uma densidade de avifauna muito superior à de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Estanqueiro considera que «o nosso país tem a obrigação moral histórica de apoiar o desenvolvimento da energia dos &lt;br /&gt;oceanos e eólica offshore», tanto mais que «o mar foi sempre um aliado no nosso percurso como nação». Há que investir com visão de médio e longo prazo e não esperar resultados imediatos: «Temos normalmente pouca paciência para esperar por resultados que tardam em aparecer. Devíamos pensar que o período da nossa história de que mais nos orgulhamos, os Descobrimentos, são fruto da visão, da motivação e da persistência que hoje em dia tanto nos falta. Contudo, dado que a energia dos Oceanos está ainda numa fase de definição tecnológica - existem muitas tecnologias concorrentes, nenhuma inteiramente de eficácia e sobrevivência testadas, assemelhando-se ao que se passava na área da eólica há 30 anos –, é muito provável que venha a ser o aproveitamento da energia eólica offshore, bem como a hídrica (que LVT não tem), a fazer a maior contribuição para os objectivos europeus de 2020».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nos cinco distritos das zona Centro - Coimbra, Viseu, Aveiro, Castelo Branco e Guarda - que se encontra, em números redondos, praticamente metade da potência eólica  instalada no país. LVT e o Norte contam com 25% cada. E dentro da Região de Lisboa e Vale do Tejo, a maior concentração de turbinas está na zona &lt;br /&gt;de Torres Vedras. Quem passa pela A8, não tem dificuldade em ver as gigantescas ventoinhas que já começam a marcar a paisagem do Oeste português. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo os cálculos da Associação de Energias Renováveis (AER), a capacidade instalada em Lisboa e Vale do Tejo - 40 parques eólicos, com uma potência à volta de 480 MW -,  dará para «abastecer o consumo doméstico de um milhão e cem mil pessoas». António Sá da Costa, que preside a esta associação, avança o resultado de outras equações: «Portugal está a produzir cerca de dois mil MW de electricidade a partir da energia eólica. Feitas as contas, por cada hora de electricidade gasta nas casas, fábricas, escritórios e iluminação pública, cerca de cinco minutos provém da energia &lt;br /&gt;do vento». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nada sabe dessa matemática é o pastor José Armando Esteves, 52 anos, que já ouviu falar «dessas coisas da eólica» mas que prefere o nome que sempre utilizou: «Está a falar do vento, não está? Ele há cada uma que inventam. Eólica! Por que não dizem vento? Isso toda a gente sabe o que é. Já ouvi, sim senhora, e não tenho nada contra. Se não fizerem mal à saúde da gente, não tenho perturbações com isso».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Armando guarda um rebanho de 120 ovelhas com a ajuda da pequena Canita, aparentemente inofensiva com estranhos, mas o dono garante  estarmos «com sorte», pois o «diacho da cadela não é de confiança». Canita está de olho nos animais, &lt;br /&gt;que pastam a erva quase seca, num monte de Sisandros, em Sapataria (Loures). Uns metros acima, bem no cimo do monte, um moinho de vento muito bem recuperado e que hoje não tem outra função que não a de sevir de habitação de fim-de-semana e de férias do actual proprietário. «Aquilo sim, era uma verdadeira máquina que funcionava a vento. A menina não deve saber, que é muito nova, mas ali, quando eu era assim um cachopo desta altura» (estende o braço e distancia-o do chão um metro) «moia-se muita farinha». Entusiasma-se: «Era a força do vento que fazia rodar aquela roda grande, a roda accionava um engenho lá dentro que fazia girar as mós. Umas mós de pedra, muito pesadas, que esmagavam os cereais e os transformavam em farinha. Aquilo sim, era uma máquina e a gente sabia para que servia e tinhamos a certeza que não faziam mal à saúde. Aquilo acolá» (olha novamente para as turbinas ao longe) «deixa-nos um bocado apreensivos... Eles fartam-se de andar por aí, é um sobe e desce de gente que vem até cá acima ao monte, o povo diz que andam a ver se põem aqui mais algumas ventoinhas».  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Turbinas no rio Tejo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém tem visão capaz para imaginar que daqui a dez anos, dentro do Tejo, veremos turbinas gigantes como as que se vêm &lt;br /&gt;ao longo da A8? Pois é o que irá acontecer, caso vingue o projecto da Lisboa E-Nova, Agência Municipal de Energia e Ambiente Lisboa E-Nova. A proposta consiste na inslatalação de vinte aerogeradores entre a Ponte Vasco da Gama e Vila Franca de Xira, um trajecto que, segundo um estudo do INETI, tem duas mil horas de vento por ano. «Propusemos vinte, mas se nos concederem autorização para instalar apenas duas, já não será mau, pois essa quantidade irá satisfazer as necessidades da população da EXPO». As vinte turbinas, imagine-se, dariam para abastecer «360 mil habitações, aproximadamente», garante a administradora delegada da Lisboa E-Nova, Livia Tirone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os aerogeradores gigantes não são a única forma de aproveitar o vento para produção de energia. No futuro, que tudo indica ser mais próximo do que imaginamos, os aerogeradores em tamanho mini serão parte integrante do telhado de um prédio. &lt;br /&gt;E a cidade de Lisboa, pelos vistos, tem óptimas condições. A presidente do departamento de energia eólica do INETI acredita mesmo que as pequenas turbinas eólicas para ambientes urbanos, construídos a par dos sistemas fotovoltaicos, «podem contribuir com uma percentagem não desprezável dos consumos de cidades como Lisboa». Para estas aplicações, Ana Estanqueiro adianta que o INETI está a  desenvolver a turbina TURBan, «a primeira turbina eólica de concepção, projecto e fabrico inteiramente nacional». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instalar eólicas urbanas exige, no entanto, cuidados ao nível da segurança, pois, como alerta a arquitecta Livia Tirone, poderá haver edifícios sem condições estruturais: «A força do vento nos mini-aerogeradores pode partir a estrutura que está por baixo e, por isso, há que garantir, primeiro, que a estrutura do edifício é resistente». Uma questão que, para Ana Estanqueiro, não será problema, pois Lisboa, sendo uma cidade aonde os sismos se fazem sentir, tem construções à altura desses abalos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de um país com muito vento, Portugal é também um país cheio de sol, mas este enorme potencial ainda está muito subaproveitado, apesar de ser em Brinches, Serpa, que está instalada uma das maiores centrais fotovoltaicas do mundo. Foi inaugurada em Março deste ano e já produz electricidade para oito mil casas. Na região de Lisboa e Vale de Tejo, os exemplos do aproveitamento solar são pouco expressivos e os que existem estão associados a outra tecnologia: painéis ou colectores solares térmicos. Um dos casos mais relevantes situa-se na zona da EXPO, na Torre Verde. &lt;br /&gt;O edifício, projectado  pelo atelier de arquitectura de Livia Tirone, está equipado com 56 painéis solares térmicos que abastecem os 41 apartamentos, onde vivem 150 pessoas. Livia vive no último andar, um 12º com vista desafogada para o rio e para as urbanizações do Parque das Nações. «Com a instalação dos painéis solares, conseguimos reduzir em 70% a necessidade energética para o aquecimento das águas sanitárias». Nunca poderá ser 100% por uma razão muito simples: nos dias sem sol, que acontecem sobretudo no Inverno, há necessidade de recorrer à fonte de energia convencional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se, actualmente, exemplos como a Torre Verde escasseiam no país, no futuro iremos estar para as energias renováveis como um país como  a Grécia já está nos dias de hoje. Se se pedir a uma criança grega que desenhe a sua casa, os painéis estão lá, tal como as janelas e a porta. De resto, com o Sistema de Certificação Energética finalmente em vigor, tudo indica que não tardaremos a assistir à instalação de painéis solares nos prédios com orientação a Sul - os novos são obrigados a ter, os velhos têm um prazo para cumprirem a legislação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas afinal, por que razão Portugal deve apostar nas energias renováveis? Porque, além de os combustíveis fósseis terem &lt;br /&gt;um fim à vista - as previsões mais optimistas indicam que o petróleo estará esgotado dentro de 45 anos; o mesmo irá suceder daqui a 60 anos com o gás natural; teremos carvão para mais 206 anos; e 35 a 100 anos é o tempo de duração do urânio disponível -, temos compromissos europeus a cumprir, estabelecidos no âmbito do Protocolo de Quioto. Acresce que as fontes de energia renováveis são menos poluentes. Este factor não é de desprezar, sobretudo agora que os alertas sobre o aquecimento global e as alterações climáticas começam a assustar. Se  aproveitarmos mais a energia do sol, do vento, das ondas, da biomassa, etc., estaremos a reduzir a nossa dependência energética dos combustíveis fósseis e a contribuir para diminuir as transferências de GEE (gases de efeito de estufa) para a atmosfera, que, como já estamos cansados de saber, são os principais responsáveis pelo aumento do efeito de estufa, que por sua vez provoca aquecimento global, que por vez causa alterações no clima. A mudança climática global já está a alterar ecossistemas e a causar cerca de 150 mil mortes por ano. Um aquecimento global médio de 2ºC, como o que se prevê, irá afectar milhões de pessoas com o aumento da fome, a malária, as inundações e a escassez de água. A Península Ibérica é das regiões que em 2025 mais sofrerá com a falta de água. Razões não faltam para investir cada vez mais nas fontes renováveis de energia. Portugal, e em particular a região &lt;br /&gt;de Lisboa e Vale do Tejo, têm condições naturais para esse aproveitamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;As renováveis&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Solar fotovoltaica:&lt;/span&gt; utiliza uma tecnologia capaz de absorver os raios solares e convertê-los em energia eléctrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Solar térmica:&lt;/span&gt; capta os raios solares e transforma-os em energia para aquecer as águas sanitárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Eólica:&lt;/span&gt; energia do vento. É captada através de aerogeradores gigantes ou de mini-turbinas urbanas que se instalam nos telhados dos edifícios para consumo doméstico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Biomassa:&lt;/span&gt; Os restos de madeira, as folhas e os ramos das árvores caídos no chão podem ser queimados em incineradores para produzir vapor e electricidade. Esses resíduos florestais, e outros de origem vegetal, são biomassa.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Ondas:&lt;/span&gt; num país com quase dois mil quilómetros de costa, incluindo Açores e Madeira, e com uma ondulação das mais favoráveis do mundo para o aproveitamento de energia dos oceanos, é lamentável a falta de investimentos à altura deste potencial. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Geotérmica:&lt;/span&gt; é sobretudo nas ilhas dos Açores que se gera energia a partir desta fonte. Quem já não provou o cozido, cozinhado no interior da terra? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Microgeração:&lt;/span&gt; é a geração de electriciade ou calor em pequena escala, associada a tecnologias renováveis (solar térmica, eólica, fotovoltaica, mini-hídrica...) e a uma menor emissão de gases de efeito de estufa. Permite que as empresas e as famílias satisfaçam as suas necessidades de consumo de energia e vendam os excedentes à rede eléctrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Renováveis criam emprego&lt;/span&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Em todo o mundo, são 14 milhões os postos de trabalho criados pelas empresas ambientalmente sustentáveis. E as previsões apontam para um aumento significativo nos próximos anos. A estimativa é de um estudo norte-americano, da autoria de Michael Renner para o Instituto Worldwatch. Só na área da energia, o número de empregos duplicou entre 1999 e 2001, situando-se em mais de 172 mil. Em 2020, altura em que esta fonte representará 10% do total da electricidade consumida, este sector empregará 1,7 milhões de pessoas. O autor do estudo acredita que «o investimento nas energias renováveis e o uso mais eficiente de energia criarão mais postos de trabalho do que a indústria extractiva e combustíveis fósseis». &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Nuclear e Hidrogénio: o Futuro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A energia nuclear continua a levantar desconfianças e a ser alvo de  polémica. Associações ambientalistas e cientistas da área têm posições opostas. O catedrático do Instituto Superior Técnico, Carlos Varandas, presidente do Centro de Fusão Nuclear, não esconde os riscos da energia que tanto assusta, mas não é indiferente às vantagens económicas e ambientais. Para este investigador, recentemente eleito presidente do Conselho de Administração do European Joint Undertaking - Empresa Comum Europeia para o projecto internacional ITER, que vai ser a maior experiência mundial de fusão nuclear e visa demonstrar científica e tecnicamente a viabilidade da energia de fusão e testar a operação simultânea das tecnologias necessárias para a operação de um reator de fusão nuclear, agregando sete parceiros: EUA, China, Índia, Japão, Coreia &lt;br /&gt;e Rússia - «trata-se de uma energia extremamente barata, limpa, potente e, actualmente,garante níveis de segurança incomparavelmente maiores que os da primeira geração». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É barata, porque mesmo que se contabilizem os custos do desmantelamento das centrais, o preço do quilowatt.hora gerado numa central nuclear é altamente competitivo se comparado ao custo das centrais térmicas que usam combustíveis fósseis». &lt;br /&gt;É limpa, no sentido em que «não há queima de combustíveis fósseis; e, não havendo esta queima, não há libertação de gases de efeito de estufa para a atmosfera». Segura, porque, ao contrário das centrais nucleares convencionais - infelizmente ainda operacionais em alguns países de Leste, o que constitui um problema grave, pois já passaram o prazo de validade e são uma fonte permanente de risco -, as novas centrais têm os chamados reactores de segunda geração, construídos de maneira a que «as radiações e os resíduos radioactivos ficam circunscritos no interior do edifício da central, impedindo a sua propagação para o exterior».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Potente, porque «produz grandes quantidades de energia com pequenas quantidades de massa (combustível)». Os cálculos já foram feitos: para produzir um megawatt (MW) de energia eléctrica durante um ano são precisas 2500 toneladas de carvão, 1500 toneladas de fuelóleo, 700 toneladas de gás natural, 25 quilos de urânio (isto no caso da energia nuclear de fissão) e apenas 250 gramas de deutério (se for energia nuclear de fusão). Só para distinguir fissão e fusão, é importante saber que a energia nuclear pode materializar-se de duas formas: por fissão/cisão ou por fusão. A segunda é um sonho, a primeira é a que existe e consiste na «desintegração de um átomo de um elemento pesado; ao desintegrar-se, os fragmentos vêm com energia que vai ser usada para aquecer a água, transformá-la em vapor de água, que por sua vez vai fazer mover a turbina e assim produzir a energia eléctrica». Este é o processo que está hoje comercializado e que se encontra em alguns países da Europa, sendo responsável pela produção de 12% da energia eléctrica mundial. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seja, enquanto crescem os protestos à construção de uma central de fissão nuclear em Portugal, cá e noutros lados do mundo já se anseia pela energia nuclear do futuro: a de fusão, que, se por enquanto é um sonho, não tarda a ser real. Segundo Carlos Varandas, a energia de fusão nuclear apresenta três grandes vantagens em relação à de fissão. «É inesgotável, é amiga do ambiente e é ainda mais segura». Inesgotável, porque os combustíveis de base - o deutério e o trítio - existem em quantidades abundantes na Terra. Amiga do ambiente, na medida em que «não produz lixos radioactivos e não implica  o transporte de elementos radioactivos fora da central» (a explicação está no facto de o único elemento que em toda a produção é radioactivo é o trítio, o qual é produzido no interior do reactor). Segura, porque «o combustível só entra para o reactor à medida que vai sendo consumido». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma das questões que nos últimos meses tem estado na ordem do dia é se é mesmo nuclear uma central em Portugal. E neste aspecto, alguns investigadores têm dificuldade em responder tão prontamente a favor ou contra. Para Carlos Varandas, para se poder decidir a favor do Sim ou do Não, é preciso que se verifiquem alguns pressupostos. Primeiro, «um plano energético português, onde se demonstre a necessidade de construir uma central em Portugal». E isto porque pode ser mais vantajoso e mais barato para o país comprar energia nuclear a França ou a Espanha. Segundo, «um organismo regulador do nuclear, independente dos poderes económico e político». Esta é, de resto, uma das condições exigidas pela Agência Internacional de Energia Atómica a cada país no licenciamento de uma central nuclear. Terceiro, «técnicos portugueses especializados em energia nuclear». E por último, «um levantamento geológico do país», sem o qual não se sabe se o local onde se poderia construir a central apresenta fragilidades sísmicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto às energias renováveis, este especialista defende que o país deve investir mais, mas avisa que «não podem ser o único veículo para obter energia, já que não conseguem responder às necessidades mundiais».  Nos próximos 50 anos a população mundial crescerá de 6 para cerca de 10 mil milhões de pessoas, sendo que, no mesmo período, a procura de energia duplicará ou mesmo triplicará. A concentração do aumento da população nas cidades fará aumentar a necessidade de sistemas de produção de electricidade em grande escala. Este cientista crê que a fusão nuclear e o hidrogénio são as energias do futuro capazes de satisfazer o aumento da necessidade energética mundial.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Destaque"&gt;ENERGIA PRECISA-SE!&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Pedro Almeida Vieira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/energia.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A região do Oeste e Vale do Tejo consome mais do que devia e produz menos do que necessita. O diagnóstico da equipa que se encontra  a elaborar as medidas a implementar no âmbito do Plano Regional de Ordenamento traçou um diagnóstico que detectou muitas maleitas, mas também caminhos para inverter o rumo. Haja energia para tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Portugal, já se sabia, não pode orgulhar-se do seu desempenho energético: tem elevada dependência externa de combustíveis, aumenta de forma galopante as emissões carbónicas associadas ao consumo energético e, pior ainda, agravou o seu índice de eficiência energética na última década. Ou seja, para aumentar a sua riqueza, gasta mais do que devia e polui mais do que é admissível. Mas se a situação nacional é embaraçosa, a região do Oeste e Vale do Tejo tem vastos motivos para corar de vergonha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A equipa da Universidade do Porto responsável pelo sector energético do plano de ordenamento desta região (PROT-OVT), cuja coordenação é de Eduardo Oliveira Fernandes – antigo secretário de Estado da Energia –, traçou um diagnóstico que é pouco abonatório. Com efeito, a região do Oeste e Vale do Tejo consome cerca de 55% mais energia final (sob a forma, por exemplo, de electricidade ou combustíveis para veículos) do que a média nacional, enquanto as emissões per capita de dióxido de carbono, responsável pelo aquecimento global, superam em cerca de 40% a média do país. Se cada português é responsável pela emissão anual de 6,4 toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera, na região do Oeste e Vale do Tejo atinge-se as 9,0 toneladas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, para agravar ainda mais, a intensidade energética é bastante sofrível: para produzir um milhão de euros de riqueza, esta região necessita de gastar aproximadamente 280 toneladas-equivalente de petróleo contra as cerca de 200 toneladas que o país necessita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com os autores do diagnóstico energético, as causas para esta situação são sobretudo o peso significativo da actividade logística, a existência de uma actividade industrial significativa (que, convém destacar, é superior à média nacional), a dispersão urbana (que aumenta a necessidade de transportes e o consequente consumo de combustíveis), a grande expressão de edifícios isolados (vivendas), que são mais susceptíveis ao consumo energético, bem como a desarticulação dos transportes colectivos e a fraca optimização das redes de transportes. Neste último aspecto, &lt;br /&gt;a região do Oeste e Vale do Tejo gasta mesmo mais 61% de energia do que a média nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também no consumo de electricidade, a região destaca-se do país, sobretudo no eixo de desenvolvimento do Vale do Tejo (Alenquer, Azambuja, Cartaxo e Golegã) – por via do aumento do consumo doméstico, do comércio, dos serviços e das indústrias-, na zona no concelho de Coruche, essencialmente associado à modernização do sector agrícola, e na zona do Oeste Litoral (Peniche, Óbidos, Caldas da Rainha e Alcobaça), neste caso sobretudo por causa do consumo doméstico. Aliás, os sectores domésticos, de iluminação e serviços públicos são responsáveis por quase metade do aumento do consumo de electricidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma situação que os responsáveis pelo diagnóstico dizem «mostrar claramente uma despreocupação com aspectos de eficiência energética em sectores em que praticamente não há produção de riqueza».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cenário ainda se mostra mais preocupante sabendo-se que, até agora, a capacidade de produção energética desta região, recorrendo a meios próprios, é bastante fraca. «Se excluirmos as centrais térmicas do Pego e do Ribatejo, que necessitam de combustível fóssil importado, a electricidade produzida nesta região por recursos endógenos (água e vento) apenas se situa nos 26%», destaca Vítor Leal, professor da Universidade do Porto, que integra a equipa do PROT. Ou seja, para consumos de electricidade da ordem dos 4000 GWh por ano, a região apenas produz, através das barragens (sobretudo de Castelo de Bode) e dos parques eólicos, um pouco mais de 1000 GWh. Se se considerar a energia primária, o balanço ainda se agrava mais: em 2006 estimou-se que a região consumiu cerca de 2,6 milhões de toneladas-equivalente de petróleo, tendo apenas produzido, com recursos endógenos, 300 mil toneladas.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mudar este panorama é, por isso, o objectivo fundamental dos autores do capítulo energético do PROT-OVT. Porém, não numa perspectiva clássica, de apenas aumentar a produção energética. «Em qualquer mercado é tão importante a oferta como a procura», destaca Oliveira Fernandes, para quem «não se deve persistir na leitura da problemática energética apenas sob a óptica da oferta, mas sim compatibilizá-la com a vertente da procura». Assim, a equipa da Universidade do Porto propõe a realização, para cada região NUT III (Oeste, Médio Tejo e Lezíria do Tejo), de um Plano Local de Acção para a Energia que procurará optimizar as utilizações e conjugá-las com o potencial endógeno. Para a execução, e posterior monitorização, sugere-se que sejam criadas três Agências de Energia, uma por cada sub-região. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dos aspectos que estão a ser equacionados passam pela melhoria da eficiência energética dos novos edifícios – algo que está previsto já com a legislação recentemente criada –, mas também pela adopção de medidas em equipamentos públicos. Neste âmbito, prevê-se uma forte aposta na energia solar. Durante a próxima década espera-se que sejam instalados cerca de 100 MW de sistemas fotovoltaicos, dos quais 30% em edifícios, bem como a implantação de 100 mil metros quadrados de painéis solares para aquecimento. Neste último caso, representará uma poupança de 5,4 mil toneladas de petróleo por ano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas será no sector dos transportes que se espera – e deseja – maiores melhorias, tanto mais que é essencial para fazer diminuir os consumos energéticos. «Existem muitas carências em transportes públicos nesta região, induzindo a um grande uso do automóvel», destaca Vítor Leal. Mas nem é por falta de infra-estruturas. Por exemplo, na ferrovia até existem quatro linhas a atravessar a região, embora actualmente apenas três estejam activas (Norte, Oeste e Beira Baixa). Porém, com excepção da Linha do Norte, o serviço disponibilizado é fraco e, sobretudo no caso da Linha do Oeste, exasperantemente lento. Por exemplo, uma ligação entre Cacém e Figueira da Foz, pela Linha do Oeste, demora entre três e cinco horas, consoante a escolha que se fizer entre os (apenas) sete comboios diários que fazem esta viagem de um ponto ao outro. Na Linha da Beira Baixa, a CP apenas consegue oferecer uma dúzia de comboios por dia. Vítor Leal salienta que existem algumas dificuldades orográficas que impedem uma modernização em alguns troços da Linha do Oeste, mas que poderia existir uma melhoria caso se avançasse com uma interligação com a Linha do Norte, entre a zona de Santarém e Caldas da Rainha. Aliás, nada mais do que já se fez na rodovia, ligando-se as auto-estradas do Norte e do Oeste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora se note uma preocupação especial em fazer com que a região do Oeste e Vale do Tejo consuma melhor (a) energia, o PROT está a dar uma especial atenção ao aumento da produção energética usando os seus próprios recursos naturais. Para além de se ter esperança no bom sucesso das prospecções de petróleo ao largo de Peniche – mas que não convém serem exageradas –, a maior aposta dirige-se para as fontes renováveis. E de entre estas, a eólica parece merecer especial destaque. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fruto dos fortes incentivos do actual Governo, nos últimos anos têm crescido os parques eólicos nesta região, bastante patente numa viagem ao longo da auto-estrada do Oeste. Neste momento estão já em funcionamento, ou aprovados, cerca de 300 MW de potência eólica, mas prevêem-se muitos mais. «Os levantamentos que se fizeram apontaram para a possibilidade de se instalar até quase 4.000 MW de potência eólica», salienta Vítor Leal. Porém, tendo em consideração vários factores técnicos limitativos e, sobretudo, condicionantes ambientais, as projecções para a próxima década apontam para cerca de 1.000 MW. «A decisão de avançar para mais terá de ser uma opção política», refere Vítor Leal, sabendo que grande parte dos melhores locais se situa em zonas protegidas, como a cordilheira de Aire e Candeeiros (Parque Natural) e a serra de Montejunto (Rede Natura).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar para as energias renováveis também se volta para o mar. Em 2004, um estudo do Instituto Superior Técnico e do INETI já tinha destacado que duas das sete zonas com bom potencial para a produção de electricidade através das ondas se localizavam no litoral da sub-região Oeste: uma de 22 quilómetros ao largo de Nazaré e Peniche, e outra, mais a sul, que se estendia até à zona de Cascais. Entretanto, a equipa da Universidade do Porto responsável pelo sector energético do PROT-OVT já identificou, com maior pormenor, quatro locais onde se poderá avançar com centrais maremotrizes. &lt;br /&gt;Outra grande aposta energética passará pela agricultura. Para cumprir a obrigatoriedade de uso de biocombustíveis nos transportes, a região do Oeste e Vale do Tejo coloca-se como uma das zonas preferenciais de produção. Assim, o objectivo estabelecido no PROT-OVT é conseguir-se que 17,5% e 25%, respectivamente, da matéria-prima para a produção de biodiesel e de etanol necessária para Portugal provenha das terras agrícolas desta região. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se todas estas medidas, e mais algumas, se conseguirem implantar com sucesso, cumprir-se-á então um dos desígnios da parte energética do PROT-OVT: a região tornar-se menos dependente energeticamente do exterior, pois passaria a ter uma taxa de cobertura endógena de 84% nos consumos de electricidade e de 42% no consumo global de energia. Veremos se há energia, e vontade, para tanto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Mapa de Potencial de Recursos Endógeneos na OVT*&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/mapa.jpg" border="0" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Territorios"&gt;A COSTA DAS MIL EMOÇÕES&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Maia de Almeida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/costa.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Rui Cunha &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1870, D. Luís mandou transformar a Cidadela de Cascais em residência balnear para a família real, ditando o futuro da aldeia de pescadores. Cinquenta anos depois, Fausto de Figueiredo fez do Estoril a primeira zona de turismo de nível internacional. É este o legado da Junta de Turismo da Costa do Estoril e do seu actual presidente, Duarte Nobre Guedes. «Um lugar. Mil sensações» eis o slogan de uma região privilegiada no que toca à natureza, cultura, lazer e património.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A Costa do Estoril é talvez a região mais antiga de Portugal que integra as rotas turísticas mundiais. O que representa isso, para este organismo a que preside?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mesmo a mais antiga, e claro que isso representa uma responsabilidade enorme. A tradição de turismo na Costa do Estoril nasce com o rei D. Luís, que pela primeira vez vem para aqui veranear em 1870, e atrás dele vem a corte e nobreza. Depois, entre o final do século xix e o início do século xx, desenvolve-se a zona de Cascais e Monte Estoril. Em 1918, vem Fausto de Figueiredo, com o projecto da Sociedade do Estoril. As pessoas não sabem, mas já nos anos trinta havia um comboio directo de Paris ao Tamariz. Há cinco anos, a Secretaria de Estado do Turismo definiu quais são as marcas turísticas internacionais em Portugal e considerou claramente o Estoril entre elas. O que quer dizer que a marca Estoril tem notoriedade, tem visibilidade, tem economia, tem história, tem dimensão, tem produtos turísticos, tem tudo isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais são exactamente os limites geográficos abrangidos pela Junta de Turismo da Costa do Estoril?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é muito claro. Temos aqui duas situações: a nível de obras e de infra-estruturas, toda essa parte diz respeito ao concelho de Cascais, que começa em Carcavelos e vai até ao Guincho. Depois, a nível de promoção para o mercado externo, se bem que debaixo do umbrella Costa do Estoril, temos os concelhos de Cascais, Sintra, Mafra e Oeiras.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estão situados entre Sintra e Lisboa, dois grandes pólos de atracção turística. Como gere essa concorrência? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que é mais uma relação de complementaridade, mas diferencio ambos os casos. Sintra é um pólo de atracção turística, enquanto Lisboa é um destino turístico. A nossa posição é tirar partido da proximidade de ambas. Aos turistas que vêm para a costa do Estoril nós aconselhamos que visitem tanto Sintra como Lisboa. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nos últimos anos, tem detectado transformações no perfil do turista que procura esta zona? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claramente. E para isso trabalhámos. Nos últimos 30 anos, a Costa do Estoril foi muito esquecida como destino turístico, internacionalmente falando. E acho que isso aconteceu por falta de uma estratégia de posicionamento. Até aos anos sessenta, o Estoril era tido como uma estância balnear, mas agora o turismo evoluiu. &lt;br /&gt;O Estoril já não é exclusivamente um destino de sol e praia. Para isso, as pessoas vão para o México, vão para a Grécia, vão para as Caraíbas, etc. O Estoril tem que se actualizar em relação aos novos produtos turísticos como o golfe, o MICE [Meetings, Incentives, Congresses and Events], o turismo náutico, o turismo cultural, o turismo de natureza, a gastronomia, a saúde e bem estar… Cada vez mais, o turismo está compartimentado nessas especializações. Em função dessa evolução, os nossos turistas têm-se modificado muito. Agora temos turistas de golfe, turistas de negócios, turistas de desportos náuticos, começamos a ter turismo de natureza… Isso faz uma clara diferença entre o Estoril ser um destino de “sol e praia” – embora, no nosso caso, eu acho que é mais correcto dizer “sol e mar” – e ter uma oferta muito diversificada que aposta em produtos específicos, como acontece agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levaram a cabo uma acção de promoção interessante: anunciar o Estoril nos táxis de Londres. Mas esse não é um público já conquistado à partida? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, antes pelo contrário. Quando eu dizia que o Estoril estava muito esquecido, queria dizer que perdeu muita da notoriedade que tinha lá fora. Essa foi uma acção muito dirigida ao consumidor inglês, em função de uma quebra que vínhamos a sentir. Considerámos que era preciso fazer uma acção de rua para inverter essa tendência e já conseguimos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual é neste momento, o produto turístico a que estão a dar maior atenção? Os desportos náuticos? O golfe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há vários. Há alguns que já estão mais maduros, outros que estão a nascer agora, outros que ainda estão para nascer... Dou-lhe um caso concreto: o golfe e o turismo de negócios Esses já estão suficientemente maduros. E a sua promoção está a cargo de parcerias publico privadas criadas para o efeito Onde estamos agora a investir é no sector náutico e, sobretudo, no turismo de natureza. Estamos a trabalhar muito com o Parque Natural de Sintra-Cascais, à volta do qual estamos a desenvolver uma série de acções, assim como no turismo náutico e na gastronomia, também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criaram há quatro anos um Prémio de Qualidade para a restauração. Que retorno têm tido dessa iniciativa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito bom. Começou timidamente, os restaurantes não aderiram logo, mas depois começámos a prosperar. Ainda a semana passada atribuímos 70 prémios de qualidade. Isso é fruto da Junta estar sempre em contacto com os diversos restaurantes, com a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, com a ARESP [Associação da Restauração e Similares de Portugal]... Esse contacto permanente tem dado os seus frutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação à oferta hoteleira, têm razões para estar satisfeitos. Os resultados dos três primeiros meses de 2007 revelam uma tendência de crescimento na ocupação hoteleira de cerca de 8% em relação ao mesmo período do ano passado. É correcto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu penso em relação à oferta hoteleira e não só, e isso é que é gratificante, é que há seis anos nós delineámos um plano estratégico para a Costa do Estoril. Esse plano estratégico assentava em três vertentes: melhoria do destino, melhoria da gestão e melhoria do marketing e promoção. Para concretizar esse plano era fundamental a aceitação e a colaboração de todos os actores intervenientes na região, desde públicos a privados. Só com uma estreita colaboração entre todos os players se consegue alcançar os objectivos. O aumento da performance hoteleira deve-se ao conjunto das acções que foram desenvolvidas e considero mais importante o acréscimo das performances qualitativas do que quantitativas. Infelizmente, só ouvimos falar no aumento das dormidas, mas penso que mais importante do que esse factor é o facto de termos aumentado as receitas. Esse sim, é um factor determinante para o desenvolvimento do destino turístico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A afirmação de um turismo de qualidade passa também por uma grande aposta na cultura. Produtos como o Estoril Jazz ou o Festival de Música do Estoril são facilmente integrados na promoção turística da Costa do Estoril, junto dos operadores? Ou seja, a cultura vende?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acho que é exactamente isso que se vende: a diferenciação cultural. Cultura é muito genérico, mas vamos ver, por exemplo, a Feira do Artesanato. Até há cinco anos, era uma feira que tinha lá tudo, desde os tapetes marroquinos aos chinelos da Tunísia. Nós acabámos com isso e passámos a ter só artesanato português. É a nossa cultura – temos lá o folclore, temos lá o fado, temos lá os nossos artesãos a trabalhar ao vivo… Muito sinceramente, eu acho que a cultura é a base de desenvolvimento do turismo, é a nossa personalidade. O próprio turista, sente-se isso muito claramente, quer ver e quer viver as coisas próprias do país que visita. Nós temos aqui unidades culturais muito boas e estamos a requalificar uma série delas. Também temos a oferta complementar quer de Sintra quer de Lisboa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer dar alguns exemplos dessa requalificação? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em termos culturais, o projecto de recuperação e requalificação da Cidadela de Cascais é sem dúvida o exemplo mais importante de todos. Os oito fortes que a autarquia adquiriu ao longo da costa para requalificar, também. Referiria ainda o Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril, e a Casa das Histórias e Desenhos Paula Rego, em Cascais, que já tem pronto o projecto do arquitecto Souto Moura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E outros investimentos mais consentâneos com as preocupações actuais, como o ecoturismo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos a desenvolver. Com Sintra e com Mafra, estamos a começar a explorar turisticamente o Parque Natural de Sintra-Cascais. Abrimos recentemente dezenas de trilhos para andar a pé e de bicicleta, com zonas de interpretação, tudo devidamente identificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que esta região tem tudo: praia, bons hotéis, tradição desportiva, golfe, gastronomia, arte e cultura, vinhos… &lt;br /&gt;O que é que a Costa do Estoril não tem e gostava de ter?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinceramente, eu acho que tem tudo. A personalidade e o posicionamento da Costa do Estoril é ter uma grande oferta muito diversificada e muito concentrada num espaço reduzido. E isso, no enquadramento da natureza e do património histórico, é fantástico. E com Lisboa ao lado, o que é uma grande vantagem. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reflectindo as tendências da procura internacional, o Plano Estratégico Nacional do Turismo (PENT) enunciou dez produtos que devem merecer a atenção dos investidores e das políticas de desenvolvimento nesta área. A saber: sol &lt;br /&gt;e mar, turismo de natureza, turismo náutico, conjuntos turísticos integrados (resorts) e turismo residencial, turismo &lt;br /&gt;de negócios, golfe, gastronomia e vinhos, saúde e bem-estar, circuitos (touring) cultural e paisagístico, e estadias de curta duração em cidade (city breaks). Conseguir juntar toda esta oferta numa pequena área é a grande vantagem da Junta de Turismo da Costa do Estoril. Eis algumas das principais apostas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GOLFE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Portugal tem sido aclamado como um dos melhores destinos da Europa para a prática do golfe e, como é natural, este é um dos produtos alvo de maior investimento por parte da Junta de Turismo da Costa do Estoril. Criada em 2007, a Associação de Golfe de Cascais, Sintra, Oeiras e Mafra afirma-se como a entidade responsável pela promoção do produto na região, tendo o Reino Unido como principal mercado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A costa do Estoril e Sintra conta com um total de sete campos com 18 buracos: Belas Clube de Campo, Golf do Estoril, Lisbon Sports Club, Penha Longa, Quinta da Beloura, Quinta da Marinha e Quinta da Marinha Oitavos Golf.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refira-se ainda que o golfe representa 1,25 por cento do PIB nacional e 14 por cento do PIB turístico, para um total de 70 campos espalhados pelo continente e ilhas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRAIA E DESPORTOS NÁUTICOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Oferecendo dezenas de praias que atraem não só os turistas como muita da população da Grande Lisboa, é como lugar privilegiado para a prática de desportos náuticos que a Costa do Estoril tem demonstrado a sua vitalidade e capacidade de renovação. Prova-o a realização dos Campeonatos do Mundo de Vela Olímpica, que entre Junho e Julho trouxeram mais de 1 700 velejadores de todos os continentes à baía de Cascais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças às condições do vento e ondulação, a costa sul e a costa oeste são também ideais para a prática do surf, windsurf, bodyboard e kitesurf. Nas praias do Guincho, Grande e Ribeira d’Ilhas realizam-se importantes campeonatos destas modalidades de desportos radicais. No final de Agosto, ainda no âmbito da vela, Cascais recebe o Troféu Quebra-Mar Chrysler, onde pela primeira vez vão estar as principais unidades da nova frota de veleiros da classe cruzeiro. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OUTROS DESPORTOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Tanto a proximidade do mar e da montanha como o clima ameno fazem da Costa do Estoril um pólo de atracção desportiva, seja num regime amador ou profissional. Se os adeptos do jogging dispõem de vários circuitos integrados na natureza, quem prefere o ténis encontra numerosos clubes e courts de ténis de qualidade, a começar pelo Clube de Ténis do Estoril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas modalidades possuem infraestruturas de referência; caso do Autódromo do Estoril, onde se realizam várias provas de competição em automobilismo e motociclismo. Caso, também, da equitação e hipismo, que tem no Hipódromo de Cascais &lt;br /&gt;o palco do Global Champions Tour - Concurso de Saltos Internacional.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NATUREZA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Entre as benesses da praia e da montanha, o Parque Natural Sintra-Cascais é a jóia da coroa no que respeita à diversidade natural. Inclui dunas, florestas, lagoas, uma acidentada linha costeira em que as arribas dão lugar às praias, o imponente Cabo da Roca e, no centro, a Serra de Sintra e toda a área classificada pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menos conhecido é o Centro de Interpretação Ambiental da Ponta do Sal, em São Pedro do Estoril. Neste espaço virado ao mar, o visitante é convidado a observar as características da orla costeira, a experimentar um percurso pedonal com cerca de 800 metros e a visitar a arriba para descobrir as espécies de fauna e flora aí existentes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARTE E CULTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A Costa do Estoril é palco habitual de um grande leque de eventos culturais, alguns deles emblemáticos. É o caso do Estoril Jazz, o mais antigo festival de jazz em Portugal, ou da Feira de Artesanato do Estoril, que goza de idêntico estatuto. Ainda na área da música, refira-se o Cool Jazz Fest e os festivais de Música do Estoril e Rota dos Monumentos, ambos na área da música clássica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito do património edificado tem sido objecto de requalificação nos últimos anos, permitindo a renovação de espaços para acolher esta vasta oferta cultural. Destaque para o Centro Cultural de Cascais, no antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade; o Espaço Memória dos Exílios, na estação de Correios do Estoril; e o Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, no Monte Estoril. Entretanto, está aberto o concurso público para reabilitação e concessão para fins turístico-culturais da Cidadela de Cascais, que prevê transformar este monumento num pólo dinamizador que incluirá o Museu de Arqueologia de Cascais e vários equipamentos de interesse turístico: hotel, restaurantes, galerias de arte, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros equipamentos museológicos de relevo são o Museu do Mar Rei D. Carlos, o Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães e o Forte de S. Jorge de Oitavos, todos em Cascais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANIMAÇÃO E LAZER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Com ambientes para todos os gostos e idades, não faltam na Costa do Estoril lugares para usufruir do tempo livre. Desde as esplanadas e bares de praia até aos sítios de diversão nocturna, difícil é escolher. Escusado será dizer que também aqui se encontra o Casino Estoril, o maior da Europa e o mais antigo em Portugal. Além de uma grande variedade de modalidades de jogo, há espectáculos diários de música, cabaret ou music-hall, sempre numa atmosfera de elegante sofisticação.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Patrimonio"&gt;MORADAS DE LUZ&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Maia de Almeida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/moradas.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Guto Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma casa virada ao mar onde o sol nunca foi impedido por cortinas. Um farol que ganha uma segunda vida, brilhando agora à luz do dia. A Casa de Santa Maria e o recém-inaugurado Farol-Museu de Santa Marta são dois exemplos de recuperação do património no concelho de Cascais. Situados num dos lugares mais cénicos da vila, quem vê um não pode esquecer o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A Casa de Santa Maria e o Farol de Santa Marta são vizinhos na mesma enseada, tão vizinhos que às vezes há quem lhes troque os nomes. Uma antiga casa de família ao lado de um farol solitário – até hoje activo – é um parentesco curioso, para não dizer insólito. Diferentes na origem e nas funções, a única explicação para tão grande proximidade remete-nos directamente para a visão do arquitecto Raul Lino, que idealizou a casa em harmonia com o cenário à sua volta. Estávamos em 1902, numa época em que os constrangimentos da construção à beira-mar não &lt;br /&gt;se faziam sentir, e importa dizer que o farol era bastante mais pequeno do que é agora. A enseada pertencia ao mar e às rochas, e só o palacete mandado erguer ali perto por Jorge O’Neill, dez anos antes, marcava distintamente a paisagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O’Neill, descendente da Casa Soberana da Irlanda, estabeleceu-se como homem de negócios em Portugal, demonstrando especial apreço pela vila de Cascais, ponto crescente de veraneio da nobreza e burguesia. A Casa de Santa Maria foi encomendada como presente para a filha, Maria Teresa. Não há registos documentais que expliquem o porquê do nome, nem se Maria Teresa influenciou a escolha, directa ou indirectamente. Mais relevante, é o facto de ter sido construída em três fases, como uma espécie de work-in-progress, sempre sob a alçada de Raul Lino: a primeira em 1902, a segunda em 1914 e a terceira em 1918. No final, a casa tinha sido aumentada em mais de o dobro, tomando a aparência que hoje se lhe conhece. Projectada em comprimento, começou por um corpo com rés-do-chão e primeiro andar, crescendo depois em todas as direcções excepto para oeste, o lado da fachada posterior onde se encontra a porta de entrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de encomendada pelo mesmo proprietário, a Casa de Santa Maria não podia contrastar mais com o exuberante palacete de reminiscências gótica e manuelina imediatamente oposto, a que O’Neill chamou Torre de São Sebastião (o actual Museu-Biblioteca do Conde de Castro Guimarães). Enquanto este sugere um imaginário mítico, cruzado por estilos arquitectónicos e povoado de elementos cenográficos (um pouco como sucede na Quinta da Regaleira, em Sintra), o projecto de Raul Lino assumiu a tradição da arquitectura mediterrânica e da «casa portuguesa» em particular. Esta influência haveria de transformar-se em questão e daí em polémica, opondo-o frontalmente aos modernistas no decurso das décadas seguintes. Mas, em 1902, a discussão ainda estava longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raul Lino é então um jovem arquitecto de 23 anos, sem diploma oficial, para o que teria de esperar outro tanto. A sua formação faz-se em Inglaterra e, sobretudo, na Alemanha, onde é decisiva a aprendizagem no atelier de arquitectura de Albrecht Haupt («a ele devo o grande amor que passei a nutrir pela minha terra», escreve). Regressado a Portugal, viaja pelo país recolhendo ideias e executa os primeiros trabalhos, entre os quais o projecto do pavilhão português para a Exposição Universal de Paris de 1900, que perde para Ventura Terra. Estas viagens de reconhecimento contribuem para consolidar uma linguagem em que assume os valores nacionais e uma certa cultura natural da vivência do espaço de habitação. Não se limita ao território português. Também em 1902, deslocar-se-á a Marrocos, «um país desconhecido que parecia recuado pelo menos três séculos no tempo». Ali passa um mês, imbuído do espírito romântico da aventura, para depois regressar com a convicção de ter recebido influências que extravasam os limites do exercício da profissão: «Creio ter aprendido a encarar a vida com mais compreensão e placidez», diz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Casa de Santa Maria é a segunda das chamadas «casas mar­roquinas» que Raul Lino desenhou entre 1901 e 1903, e uma das dezenas que assinou no concelho de Cascais. O ascendente surgiu através do pianista e amigo Alexandre Rey Colaço, cujo irmão vivia em Tânger. Para Rey Colaço, Raul Lino projectou a Casa Monsalvat, no Monte Estoril. Seguiu-se a Casa de Santa Maria e, pouco depois, a Casa Silva Gomes e Vila Tânger, ambas também no Monte Estoril. Diferentes entre si, todas reflectem a experiência do Alentejo e de Marrocos, como resume Manuel Rio-Carvalho na História da Arte em Portugal: «Pela via marroquino-alentejana, Raul Lino adquire um particular gosto pelos valores matéricos das paredes expostas à luz crua meridional, pelas moldurações que adoçam e jogam com os efeitos de sombra, pelos ambientes de frescura dos espaços-transição, quer interiorizando varandas e alpendres, quer exteriorizando salas e átrios, jogando com aquilo que chama “almofadas de penumbra”.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A importância da luz, que o crítico sublinha ter para Raul Lino o papel de um «material arquitectónico», é notória para quem visite a casa e possa aperceber-se do percurso do sol ao longo do dia. «Luz em toda a parte», era um dos princípios do autor de Casas Portuguesas: «Feliz disposição da planta, conveniente orientação, boas qualidades construtivas, isolamento desejado, o bom ar e luz em toda a parte», eis os elementos essenciais da sua noção material de «comodidade». A ligação à natureza, um valor de outra ordem, mas não menos relevante para Lino, também encontrou eco em Santa Maria. Das quatro «casas marroquinas», é sem dúvida aquela que melhor usufrui deste privilégio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preocupação de criar espaços de interiorização e vivência familiar, aproveitando o cenário circundante, tem exemplo no terraço alpendrado que dá para o exterior. Uma pequena zona ajardinada faz fronteira com o mar, quase trazendo as ondas à porta de casa. Como que prolongando essas texturas naturais, tanto o alpendre como grande parte da fachada principal se cobriram de vinha virgem, planta trepadeira que surpreende com as cores rubras e ocres do Outono, e no Verão empresta frescura ao lugar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo da sua história, a Casa de Santa Maria passou por três proprietários. Dificuldades financeiras obrigaram Jorge O’Neill a vender o imóvel, o mesmo tendo sucedido com a Torre de S. Sebastião, comprada pelos Condes de Castro Guimarães apenas alguns anos antes. Neste caso, coube a sorte a José Lino, coleccionador e apreciador de arte, que acedeu em ficar com Santa Maria na condição de o irmão resgatar do abandono os azulejos e o tecto da capela da Quinta da Ramada, em Frielas. Raul Lino concordou e, em 1918, iniciou a terceira fase de construção, cuja marca é a ampliação do primeiro piso: o oratório, a sacristia e o salão de jantar. Com o saber técnico do seu tempo, «importou» para aqui &lt;br /&gt;o rico património azulejar barroco e o tecto de madeira pintado a óleo de António de Oliveira Bernardes, salvando-os da morte anunciada. Muitos visitantes, especialistas ou não, chegam com a intenção expressa de conhecer os painéis de Oliveira Bernardes, visíveis também ao longo da escadaria principal que conduz ao primeiro piso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raul Lino quis ser um artista completo e o seu trabalho estende-se muito além do domínio da arquitectura. Imaginou cenários e figurinos para teatro, ópera e bailado; desenhou mobiliário, azulejos, pratas, louças, têxteis e molduras; ilustrou livros de Afonso Lopes Vieira; foi até responsável pela programação do «seu» Cinema Tivoli durante alguns meses, trazendo a Portugal filmes de Fritz Lang, Charles Chaplin, Ernst Lubitsch, Carl Dreyer, Murnau… Na Casa de Santa Maria, é dele a decoração do tecto do oratório, de inspiração tardo-barroca e neoclássica, assim como uma série de revestimentos em azulejo e pinturas murais. Revelando a prática da escola Arts &amp; Crafts, idealizou vários móveis, sem esquecer o pormenor das ferragens das portas. Um património que se manteve à vista mesmo depois da casa sair da posse da família Lino, em meados da década de 1920, quando foi vendida a Manuel do Espírito Santo Silva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o terceiro e último proprietário, Santa Maria viveu a sua fase mais mundana e cosmopolita. Figuras da sociedade portuguesa, personalidades das casas reais europeias em busca de exílio ou simples acolhimento, muitos nomes desfrutaram deste cenário privilegiado – entre eles, os Duques de Windsor, o Rei Humberto II de Itália, os Condes de Barcelona, os Condes de Paris e o Rei Juan Carlos de Espanha. A própria família Espírito Santo continuou a usufruir da casa até à construção da marina de Cascais, altura em que, desgostada com a inevitável invasão da privacidade, decidiu vendê-la. A oportunidade foi agarrada pela Câmara Municipal de Cascais e, a 18 de Maio de 2005, no Dia Internacional dos Museus, a Casa de Santa Maria inaugurou como espaço de vocação multifuncional, voltado para a cultura e para os munícipes. Acolhe regularmente conferências, apresentações de livros, cursos livres, exposições temporárias e outras iniciativas. Em 2009, o espaço deverá ser intervencionado, projectando-se uma ampliação das zonas abertas ao público e o restauro do acervo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa está tão próxima do farol que, à primeira vista, parece haver ligação pelo lado do mar. No entanto, é preciso cruzar a rua estreita que os separa para chegar àquele que é agora o Farol-‑Museu de Santa Marta, a primeira estrutura do género a ser musealizada em Portugal, com uma temática histórico-patrimonial. A ideia e as negociações já vinham de longe, mas foi em 2006 que se celebrou o protocolo definitivo entre a Marinha e a Câmara Municipal de Cascais, com o fim de requalificar o espaço e torná-lo disponível ao público. O acesso ao farol propriamente dito ainda é restrito, estando a ser equacionadas soluções para cor­responder ao interesse dos visitantes, certamente aquele que maior curiosidade e fascínio provoca. &lt;br /&gt;No século xix, o Farol de Santa Marta eleva-se por impulso de Francisco Pereira da Silva, um dos homens do seu tempo que procurou, literalmente, retirar a costa portuguesa da obscuridade, projectando a construção de uma série de faróis no continente e ilhas. Inaugurado em 1868, surge como reforço do Farol da Guia, funcionando em articulação com este no sentido de sinalizar e iluminar uma zona costeira de vital importância. Até hoje é assim. No início, quando o farol era mais pequeno, o sistema iluminante estava integrado na torre, saindo a luz por uma espécie de janelão. Em 1910, adaptou-se a parte cimeira para receber uma lanterna óptica; e, em 1936, para que as luzes da vila não se confundissem com a do farol, a torre foi acrescentada em oito metros, ganhando a aparência que agora se lhe reconhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes do farol, porém, havia já o Forte de Santa Marta, que se crê ter sido edificado entre 1642 e 1650. Desempenhou funções militares sobretudo nos séculos xvii e xviii, entrando em declínio durante a primeira metade do século xix. Foi justamente a construção do farol que o salvou da ruína total. Desde então e até à nossa época, o forte passou a ser morada dos faroleiros que o habitaram e lhe deram vida. Veio depois a automatização do sistema de luz, no princípio da década de 1980, e tudo esmoreceu de novo. O espaço caminhou naturalmente para a degradação, por certo irreversível se não fosse a ideia de criar ali um farol-museu (e não um museu dos faróis, como alguns podem pensar). O projecto arquitectónico pertence ao atelier dos irmãos Aires Mateus, autores de equipamentos culturais como a sede da Orquestra Metropolitana de Lisboa, o Centro Cultural de Sines ou o Grande Museu Egípcio, no Cairo. O plano museológico e o projecto museográfico é da responsabilidade de Joaquim Boiça, conhecedor profundo do tema das fortificações marítimas e dos faróis portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguindo a geometria do lugar e aproveitando as estruturas existentes, nomeadamente o antigo paiol e as casas dos faroleiros, o Farol-Museu de Santa Marta organiza-se em três zonas expositivas, complementadas com cafetaria, loja e outros serviços. Sempre em regime de visitas guiadas para grupos, o percurso começa com uma selecção de imagens que servem de aperitivo ao documentário «Faróis de Portugal: Cinco Séculos de História», cuja visualização está prevista para finais de Outubro. Para já, o visitante pode aceder aos dois núcleos temáticos principais, onde uma das características é o revestimento de cor cinzento-‑antracite do espaço interior, simbolizando a noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro núcleo exibe um conjunto representativo de ópticas, equipamentos e elementos que foram construindo a história dos faróis em Portugal, cuja evolução científica e tecnológica poderá ser mais facilmente entendida com o recurso aos dispositivos multimédia. Do geral para o particular, o segundo núcleo recupera a memória do Forte e Farol de Santa Marta e dos seus congéneres na barra do Tejo. Aqui, exibem-se peças e aparelhos que remetem para o ofício de faroleiro, incluindo um candeeiro primitivo de 1874, autêntica relíquia. Todas as peças são património da Direcção dos Faróis e foram recuperadas e reconstituídas pelos próprios faroleiros. Dão-se agora a conhecer aos olhares dos leigos, recortadas sob fundo quase negro, em contraste com a brancura ofuscante do exterior. Da luz para a noite, da noite para a luz, o visitante está apenas a um passo de distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa de Santa Maria&lt;br /&gt;De terça a domingo, das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h00&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Farol-Museu de Santa Marta&lt;br /&gt;De terça a domingo, das 10h00 às 19h00&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Cultura"&gt;A ESTRATÉGIA DE LISBOA 2020&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luís de Carvalho&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/livro.jpg" border="0" width="400" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;No passado dia 4 de Junho, teve lugar na FIL, no Parque das Nações, a apresentação pública do documento Lisboa 2020 – Uma Estratégia de Lisboa para a Região de Lisboa, que contou com a presença do ministro do Ambiente, Nunes Correia, do secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, Rui Baleiras, do secretario de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, João Ferrão, do presidente da CCDR-LVT, António Fonseca Ferreira, as vice-presidentes da CCDR-LVT Eurídice Pereira e Fernanda do Carmo e, ainda, de João Cravinho, ex-ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território do XIII Governo, entre outras individualidades e autarcas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante mais de dois anos centenas de entidades e especialistas trabalharam no documento onde estão vertidas as linhas de orientação e traçados os caminhos para transformar, num breve espaço de treze anos,  a região de Lisboa numa metrópole de dimensão europeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na opinião de João Cravinho, que o apresentou, este documento encerra «ideias extremamente ambiciosas», para além de representar uma visão «coerente e mobilizadora» do caminho a percorrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ministro do Ambiente, na sua intervenção, frisou o trabalho pioneiro da CCDR-LVT na liderança do processo de planeamento e gestão estratégicos, destacando ainda os recursos da região, nomeadamente em matéria ambiental, e anunciou um novo regime jurídico para os planos de ordenamento e a consequente redução dos prazos para aprovação dos Planos Directores Municipais, de Urbanização e de Pormenor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sua intervenção, Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, salientou que a região de Lisboa «dispõe de excelentes recursos para se tornar uma região europeia competitiva. Mas as nossas capacidades são sufocadas pelas nossas  atitudes e comportamentos», pelo que teremos de «afrontar, e vencer, arcaísmos e inércias que persistem ao nível das mentalidades e dos comportamentos.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para que a Estratégia se concretize, Fonseca Ferreira apontou três condições essenciais – rigor e responsabilidade, governabilidade e o compromisso da CCDR. No seu diagnóstico, a persistência dos problemas deve-se, também, às « insuficiências culturais e organizacionais dos responsáveis políticos, institucionais e empresariais – e dos cidadãos em geral». E esta questão entronca-se, necessariamente, na qualificação profissional e no baixo nível de exigência que se tem verificado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Fórum Metropolitano&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a apresentação da Estratégia, abre-se um novo ciclo, mais exigente e complexo, que é o da sua execução e avaliação. Para tal, foi proposta a criação do Fórum, que terá já a sua primeira reunião em Outubro de 2007.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Fórum é constituído pelas instituições mais representativas da comunidade regional, da Administração Central, entidades públicas e privadas, assim como de individualidades, e terá a função de «impulsionar e acompanhar a execução, a avaliação e dar conselho para a revisão estratégia ao longo do período da sua execução», segundo o presidente da CCDR. A esta participação dos actores da sociedade civil nas decisões  e acompanhamento da vida pública chama-se governança, processo que, contudo, « não substitui o comando hierárquico das instituições representativas», como sublinhou Fonseca Ferreira, mas que «impulsiona a concertação e a contratualização estratégicas de base territorial».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o efeito, serão constituídos seis grupos de trabalho em áreas como o planeamento e a mobilidade, a eficiência energética, a protecção ambiental, a logística, o turismo, o património e a cultura, a saúde e a educação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes programas estruturantes serão desenvolvidos em parceria entre várias entidades, como as autarquias, empresas, a Junta Metropolitana, instituições de ensino e associações empresariais, entre outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Fórum acompanhará também outros planos da responsabilidade da CCDR-LVT, como o PROT-AML, o PORL  e o PROT-OVT.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Compromisso da CCDR-LVT&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonseca Ferreira passou depois em revista as acções desenvolvidas anteriormente pela CCDR-LVT, nomeadamente o programa de desburocratização e modernização dos seus serviços, a apresentação do Manual de Gestão,  e os efeitos já visíveis pelas medidas de modernização postas em prática. Na ocasião referiu-se à agenda estratégica para a gestão da CCDR – gestão por objectivos, desconcentração, certificação da qualidade, inovação e desenvolvimento organizacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final da sua intervenção, declarou: «Queremos e podemos progredir, ser ambiciosos, ser campeões, pragmáticos, tornar a região mais competitiva e com melhor qualidade de vida. Estamos nessa rota. Com uma visão, projectos e determinados a obter resultados.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo a região relativamente desenvolvida, deseja-se que com a implementação da Estratégia 2020, se assegurem níveis de crescimento baseados numa economia mais coesa e inovadora, na criação de riqueza a partir do conhecimento, do desenvolvimento tecnológico, da ciência e da inovação, com particular atenção para as questões da sustentabilidade ambiental e energética, valorização territorial e coesão social.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Acontecimento"&gt;ABRANTES | UMA CIDADE PARA AS PESSOAS&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luciano Rocha&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/abrantes.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;SDI-CMA&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A cidade de Abrantes, com um vasto património histórico, tem vindo a desempenhar um importante papel no desenvolvimento económico da região, quer na área de serviços, quer, ainda, como pólo industrial, colocando-se em posição privilegiada como motor de modernização para a região do Médio Tejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a criação do Aquapolis, projecto que tem uma área de intervenção de 85 hectares, que se integra no programa Valtejo ( Eixo Prioritário 2 do PORLVT), e cujo investimento resulta de uma parceria activa entre o município de Abrantes, o Governo e a União Europeia-, essencialmente pensado como espaço de lazer das suas populações, e para os turistas que ali busquem momentos de desporto, cultura ou simples repouso, Abrantes fica apetrechada com um dos melhores complexos de lazer e cultura do país, com um enquadramento paisagístico ímpar e um cuidado ambiental que resulta de uma reabilitação e requalificação que não pode deixar de ser assinalada, nomeadamente no cuidado posto na preservação da memória histórica, com a preservação dos pilares de uma ponte de barcas do século xix e a Fonte dos Touros, antigo lavadouro público, também restaurado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O projecto tem uma área de implantação a norte, com 23 hectares, e a sul, com 13 hectares, compreendendo ainda os 50 hectares no rio Tejo. Na margem norte do Aquapolis estão uma série de infra-estruturas para a prática de várias modalidades desportivas como o futebol e o voleibol, uma ciclovia, zona para prática de skate, um parque infantil, um anfiteatro, o Terraço das Oliveiras, o Parque das Merendas, a praia fluvial para a prática de desportos de praia, o jardim do rio para passeios a pé, uma zona de restauração e bares e um espelho de água onde é possível praticar remo, pesca desportiva, canoagem, etc. Há, ainda uma zona disponível para o parqueamento de autocaravanas, com alguns serviços de manutenção e uma zona de parqueamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prevê-se, ainda, uma outra infra-estrutura a instalar nesta zona norte, que será o futuro Centro Náutico, que terá um restaurante, ginásio, sala polivalente para reuniões/exposições, arrecadação de embarcações e jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a margem sul, estão projectados uma Praça e Auditório com cobertura tensível, um Jardim Géiser, percursos pedonais, zona de estar, quiosques de apoio e zonas de estacionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a denominada Cidade Desportiva, localizada numa das áreas de expansão da cidade, é uma das apostas que  a Câmara Municipal da cidade tem vindo a desenvolver, e que congrega um Estádio Municipal de Futebol, com pista de atletismo, um campo com relva sintética, um campo de basebol e um Complexo de Piscinas, composto por tanques exteriores e tanques interiores, destinados ao ensino da natação, à competição e ao lazer. Neste espaço encontramos outras valências de apoio, como uma sala de prestação de primeiros socorros,  bar e balneários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Estádio Municipal podem ser praticadas várias modalidades, desde o salto à vara ao lançamento do dardo, lançamento de disco e martelo, para além de salas de squash, sauna e jacuzzi, bar, auditório e uma sala de conferências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conjunto de obras na Cidade Desportiva será completado com o Pavilhão Multiusos, que irá alargar a oferta já existente, permitindo outras utilizações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esta atenção ao meio ambiente e à qualidade de vida dos seus habitantes, Abrantes tem desenvolvido outras infra-estruturas para a captação de investimentos na área da ciência e da tecnologia, tendo assim nascido o Tecnopólo do Vale do Tejo, parque de Ciência e Tecnologia promovido em parceria entre a Câmara Municipal e o Núcleo Empresarial da Região de Santarém e Instituto Politécnico de Tomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este Parque, com 15 hectares, é composto por infra-estruturas que pretendem dinamizar a aposta na Inovação, na Tecnologia e na Investigação &amp; Desenvolvimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A título de exemplo, está a Associação para o Desenvolvimento de Assessoria e Ensaios Técnicos (A Logos), um projecto intermunicipal que desenvolve trabalhos no âmbito do controlo de qualidade de águas residuais, piscinas, géneros alimentícios e alimentos para animais, e que presta  apoio a autarquias, empresas e organismos do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também em funcionamento encontra-se o Pólo de Formação, que, com o IEFP, oferece cursos de referência a nível nacional em áreas como Técnicas administrativas e informáticas de apoio à gestão, logística e armazenamento, carpintaria, desenho de construções mecânicas, contabilidade e gestão ou mecatrónica automóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em fase de concurso encontra-se o CIIDE, Centro de Incubação de Empresas de Base Tecnológica, que tem por objectivo tornar ideias de  projectos tecnológicos em sucessos de mercado. Está previsto acolher 22 empresas em fase de incubação, cabendo a cada uma um espaço totalmente equipado – comunicações, mobiliário e meios informáticos-, partilhando outros equipamentos como salas de reunião, redes informáticas e de telecomunicações, serviços administrativos, repografia e assistência técnica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta unidade integrará um Gabinete de Apoio à Inovação, que prestará apoio aos empresários em várias vertentes, desde a elaboração de planos de negócio, à organização de contabilidade, consultoria jurídica, modernização tecnológica e higiene e segurança no trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refira-se ainda ao Centro Tecnológico Alimentar, que tem o apoio da CCDR-LVT, e que aguarda instalação de equipamento. Este Centro dedica-se à produção agro-alimentar, fiscalizando a qualidade dos produtos e garantindo a sua adaptação ao mercado, preservar os sabores regionais tradicionais e formar quadros e operadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Centro Tecnológico alimentar tem como promotores a Câmara Municipal, a NERSANT, a Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, o A.Logos e a empesa STI e empresas do sector agro-alimentar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;AÇUDE&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Foi inaugurado pelo Primeiro-Ministro no passado mês de Junho uma das infra-estruturas mais importantes da intervenção Aquapolis, o denominado Açude Insuflável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Localizado a cerca de 1 Km a jusante da ponte rodoviária de Abrantes, é a maior empreitada de sempre no concelho de Abrantes, e única no género na Península Ibérica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma obra de engenharia que envolveu várias especialidades, onde foi utilizada tecnologia de ponta importada do Japão, composta por uma estrutura de betão armado em que assentam quatro comportas insufláveis, que permitiram a criação do vasto espelho de água, vital para o desenvolvimento de espaços destinados à prática de desportos náuticos e actividades de lazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com cerca de 240 metros de comprimento, o açude insuflável cria  uma área inundada de cerca de 150 ha e um volume de água armazenada da ordem de 2,6 Mm3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Açude integra ainda uma escada para a passagem de peixes, que se localiza na margem esquerda, sobre uma plataforma rochosa, que permite a  circulação de diversas espécies piscícolas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Roteiro"&gt;COMER E BEBER ENTRE OS ENCANTOS DA SERRA E DO MAR&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;David Lopes Ramos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/roteiro.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Pedro Soares&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algumas regiões portuguesas, em lugar cimeiro das quais poderemos colocar Cascais/Sintra, a que nada falta para a alegria de quem lá vive ou as visita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O património natural e o património construído são dos mais ricos de Portugal: uma costa marítima que alterna os areais dourados com escarpas monumentais, um mar azul, batido, oxigenado e iodado, zonas florestadas, como a da serra de Sintra, panoramas fantásticos, como o que se avista das Azenhas do Mar, palácios e solares, grande parte deles em bom estado de conservação e visitáveis, hortas e pomares bem cultivados, que nos fornecem matérias-primas de frescura e qualidade por vezes excepcional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os peixes e mariscos, muitos deles capturados por pescadores artesanais, expostos na lota de Cascais e nos mostruários dos restaurantes da região? Quem, jornadeando por estas terras, nunca se deliciou com as rosadas gambas da costa, ou os percebes das rochas, as lagostas e os lavagantes? Com peixes como as pescadas, os chernes, os rodovalhos, pregados, linguados, sargos, robalos ou douradas? Mas os que se alegram de comer carne também não têm razões de queixa: há carnes de porco, de vaca e de gado caprino de qualidade, muitas vezes à disposição em pequenos talhos à beira da estrada. E, até, alguma caça, como perdizes, coelhos bravos, lebres, codornizes, rolas e tordos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinho também há, como se sabe, embora já tenha vivido melhores dias. Deve, no entanto, reconhecer-se que, nos últimos tempos, sobretudo em Colares, se está a trabalhar pela sobrevivência e renascimento dos seus brancos e tintos, com destaque para o mais famoso, o da casta Ramisco cultivada em chão de areia. Já a realidade do generoso de Carcavelos, que divide o que resta das vinhas que sobreviveram ao avanço do cimento entre terras de Oeiras e Cascais, é mais problemática, sendo este vinho, criação do marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Mello, na segunda metade do século xviii, cada vez mais uma referência histórica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora vamos para Sintra, belíssima terra sempre cheia de turistas. Do seu receituário, António Maria de Oliveira Bello - Olleboma, na sua obrigatória «Culinária Portuguesa» (Edição Assírio &amp; Alvim, Novembro de 1994), cita o bacalhau Alba Longa. José Quitério, no seu «Livro de Bem Comer — crónicas de gastronomia portuguesa» (Edição Assírio &amp; Alvim, Novembro de 1987), junta uma vitela à Manuel da Neta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na freguesia das Mercês, na feira anual, comeremos a carne de porco frita à moda da terra: carne aos pedaços pequenos, temperada com colorau, sal, alho, louro, um nada de picante e vinho branco, que se frita com banha numas pequenas frigideiras de barro vermelho, nas quais é servida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pode também ser esquecido o leitão de Negrais, um dos emblemas gastronómicos da região de Sintra, nos últimos anos tema de um festival promovido pela Câmara Municipal. Diferente do bairradino na forma (embora assado em forno, é aberto &lt;br /&gt;e espalmado) e também no tempero, o leitão de Negrais encontra a maioria dos seus adeptos no seu lugar de nascimento e na Grande Lisboa. Nas secções de pronto-a-comer das grandes superfícies encontra-se muito, em geral com mau aspecto. Característica comum ao à moda da Bairrada. Por isso, seria avisado que, quer em Negrais, quer na Bairrada, se tomassem as medidas necessárias à defesa da genuinidade e qualidade dos seus leitões assados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doçaria da região é abundante e conhecida, com destaque para as queijadas, mais os travesseiros de noiva, os biscoitos vários, bem como os fofos, as broas e os fartos de Belas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Cascais, a sempre vila e bela, voltamos ao chorume marítimo. Ao caldo de peixe, ao mexilhão de caldeirada à fragateira, à caldeirada de robalo grande, às sardinhas assadas no forno, à salada de lagosta e à lagosta à faroleiro, às sardas ou cavalas salgadas cozidas em leite. Adoçaremos a boca com areias, nozes, pratas, joaninhas e raivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Colares do século XIX aos nossos dias&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os admiradores de Eça de Queirós e dos seus romances sabem que os tintos de Colares são várias vezes referidos e elogiados. Estes vinhos, produzidos em terras situadas entre Sintra e o mar, na várzea de Colares e em terrenos de Azenhas do Mar, eram comparados, na elegância e aroma delicado, aos Bordéus, fama que transitou para o século XX. Ainda na década de 70, o conhecido especialista e crítico de vinhos britânico Hugh Johnson assim os tratava no seu influente «The World Atlas of Wine». Foi no final dessa época que bebi o único Colares Ramisco de chão de areia de que me recordo com saudades: um tinto de um produtor de Banzão da colheita de 1948. Foram duas garrafas e o vinho estava perfeito: cor casca de cebola seca, aroma delicado com notas salgadas de terra, bosque e cogumelos, aveludado e longo na boca, acompanhou na maravilha um rosbife, caramelizado por fora e rosadíssimo no interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vinhos tintos de Colares da casta Ramisco cultivada em chão de areia perto do mar, plantas protegidas dos ventos e da salsugem por paliçadas de canas, foram sempre muito difíceis de beber em novos, por serem muito taninosos, adstringentes, até acerbos, serem magros de corpo e de baixa graduação alcoólica. Tinha que se ter paciência para esperar por eles uma vintena de anos. Esta questão técnica, aliada à pressão urbanística, fez com que os Colares entrassem numa decadência, que quase os matou. A Adega Regional de Colares, que detinha o monopólio da concessão da denominação de origem, enredada numa teia burocrática difícil de deslindar, também não ajudou à modificação da situação, embora recentemente dê mostras de algum dinamismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste quadro, a compra pela Fundação Oriente, de Carlos Monjardino, a pedido da Câmara Municipal de Sintra, da única vinha contínua com uma dimensão razoável, plantada nos anos 80 do século passado pela antiga firma Carvalho, Ribeiro &lt;br /&gt;&amp; Ferreira nas Azenhas do Mar, deu algum alento a Colares, mas a Adega Regional de Colares defende posições de algum fundamentalismo, que não são bom augúrio. Da vinha original com a casta Ramisco plantada em chão de areia fez-se um tinto, em 2004, agora colocado à venda. O seu perfil, porém, ainda tem muito do Colares à antiga, sendo necessário esperar algum tempo pela evolução do vinho em garrafa para ver o que dá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, a Fundação Oriente, que contratou o enólogo Paulo Nigra para fazer os novos vinhos, decidiu arrancar a vinha velha, que tinha problemas sérios de ordem sanitária, e plantou, segundo as melhores regras, nova vinha com plantas sãs. Já há um tinto de 2005 engarrafado e outro de 2006 ainda em barricas. São vinhos em que os taninos se mostram mais civilizados e têm um grau alcoólico de 12º/12,5º, bem acima dos tradicionais 10º, e podem ser bebidos mais cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a grande novidade dos novos Colares é um branco da colheita de 2006, elaborado com uvas da casta Malvasia de Colares, que só na região existe, a dominar o conjunto, que deu origem a um vinho de perfil exótico, com fruta e frescura no aroma, uma acidez expressiva, corpo elegante e bem estruturado com notas minerais, que está mesmo a pedir uma dúzia de ostras de Setúbal ao natural ou um peixe grande daquela costa assado no forno. Quer dizer, nem tudo parece perdido em Colares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Carcavelos a agonizar&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao Carcavelos, citando um texto do especialista João Paulo Martins, «a vinificação segue de perto a técnica usada para a produção de generosos (interrupção da fermentação alcoólica por adição de aguardente vínica) mas, não poucas vezes, o mesmo era deixado a fermentar até o vinho ficar seco, sendo, então, &lt;br /&gt;o grau de doçura dado pela adição de um abafado (mosto ao qual foi adicionada aguardente). Os vinhos eram sempre mais secos do que o Vinho do Porto e assemelhavam-se a um Porto tawny, com  dominância dos aromas de frutos secos. Sempre foram, por isso, vinhos de sobremesa, especialmente apreciados pela elegância e frescura dos aromas, autênticos vinhos de cheiro.»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Actualmente, a produção concentra-se em três quintas: Quinta dos Pesos com um vinho marca Carcavelos (família Bulhosa), &lt;br /&gt;a Quinta da Ribeira (Patriarcado de Lisboa) e a Estação Agronómica de Oeiras, perfazendo um total de 15 hectares. No mercado apenas é possível encontrar o vinho da Quinta dos Pesos e da Estação Agronómica. Comparando-se estes dois vinhos, não é possível concluir sobre o novo estilo do Carcavelos. Os dois vinhos têm perfis completamente distintos, sendo mais os factores que os afastam do que aqueles que os juntam. O consumidor terá assim dificuldade em perceber qual é o vinho que melhor representa o Carcavelos. As poucas garrafas que ainda restam da antiga Quinta da Bela Vista atingem preços muito elevados mas podem servir como modelo para quem quiser saber o que era realmente o Carcavelos de antigamente. As garrafas existentes da Quinta do Barão nem sempre justificam o que por elas se pede. Perguntar-se-á: neste quadro, que escolha tem o consumidor? Por enquanto, a única resposta é a seguinte: ainda há vinho feito em Carcavelos, mas se será este “o” Carcavelos existem algumas dúvidas. A escolha é, por isso, complicada». &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da publicação deste texto, a situação já se alterou. Com a morte de Manoel Cordo Bullosa, a Quinta dos Pesos deixou  de produzir Carcavelos. A última paixão do milionário galaico-português terá, assim, morrido com ele. E o futuro do Carcavelos tornou-se ainda mais problemático.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2098131296795889010-86098508004810169?l=ddlx.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/86098508004810169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/86098508004810169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/2007/10/lvt-6.html' title='LVT 6'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010.post-4360477399605410949</id><published>2007-05-08T09:10:00.000-07:00</published><updated>2007-05-08T09:18:23.594-07:00</updated><title type='text'>FRANÇOISE SCHEIN</title><content type='html'>&lt;a name="Topo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#DosDias"&gt;A MULTIPLICAÇÃO DOS DIAS&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Catedral"&gt;A CATEDRAL SUBTERRÂNEA&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Escrever"&gt;A ARTE DE ESCREVER&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="DosDias"&gt;A MULTIPLICAÇÃO DOS DIAS&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ana Sousa Dias&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A primeira obra de Françoise Schein que Lisboa viu foi o revestimento da estação de Metropolitano do Parque, em Lisboa, um trabalho em que os Direitos Humanos e os Descobrimentos portugueses se interligam. Só uns anos mais tarde conheci esta artista que um dia me disse: “a minha vida é a minha melhor obra”. Assim mesmo, como quem já pensou muito no assunto e não tem qualquer hesitação.&lt;br /&gt;É um facto que a vida e a obra de Françoise se misturam no que diz respeito a Portugal. A demorada experiência do Parque abriu-lhe a vontade de trabalhar com os outros e deu-lhe uma nova língua, com a qual viajou para o Brasil e para a decisão de adoptar uma criança. “A partir do meu encontro com Portugal, tornei-me outra pessoa”, diz ela ao olhar para trás.&lt;br /&gt;Olhemos nós agora para o que aconteceu desse momento em diante mas regressemos à Europa, uma vez que da aventura brasileira falarão outros colaboradores deste livro. A convite de Margarida Cardoso, do Centro Jacques Delors, Françoise desenvolveu uma ideia nascida nas favelas do Brasil, o projecto que veio a inscrever a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia em painéis de azulejos, caligrafados e ilustrados por jovens de diferentes localidades de Portugal, Espanha e França.&lt;br /&gt;O atelier de Françoise tornou-se declaradamente itinerante e pôs os jovens das escolas de Tavira a Guimarães a aprender ao mesmo tempo a técnica da pintura de azulejos e a cidadania. Guilherme Peleja (19 aos), de Tavira, explica numa frase o que ganhou nos dois dias da revoada da Inscrire: “Para mim foi muito importante porque desconhecia muitos dos meus direitos como cidadão europeu”.&lt;br /&gt;Assisti à inauguração do painel erguido em Belém, com música tocada pelos alunos da Casa Pia a receber Jorge Sampaio, então Presidente da República. A solenidade institucional da cerimónia não impediu a emoção que a leitura dos desenhos oferece, num cenário em que o Mosteiro dos Jerónimos e a Casa dos Pastéis de Belém se encontram com as casas multinacionais de fast-food. Ilustrações como as do “direito de acesso aos ­documentos” ou do “direito de acesso aos serviços de emprego” – provavelmente alguns dos que Guilherme e outros jovens desconheciam – são de uma simplicidade tal que se tornam absolutamente directas. E porque a solidariedade é uma das palavras-chave da declaração, aqui foram chamados a participar também os mais velhos, aqueles que cresceram num ­Portugal desligado da Europa e onde os direitos eram uma outra história, a participar na criação do painel.&lt;br /&gt;É nestas alturas que ficam claras as razões que levaram ­Françoise a gostar de trabalhar com os outros, recolhendo-se à solidão quando a criação artística a isso a impele. São já 1900 os jovens que, em Portugal, na Espanha e na França, participaram directamente no projecto, de 2003 até 2006, o que quer dizer que há 19 painéis espalhados por esses três países. Mas suponho que isto ainda é o início de mais qualquer coisa que a artista belga vai inventar, trazendo de Kabul, do Rio de Janeiro ou da Dinamarca novas ideias para este trabalho de formigas com que pretende “contribuir para uma Europa saudável, ­aberta, diversa e feliz em toda a sua multiplicidade, bem anco-rada entre o passado e o futuro”.&lt;br /&gt;A vida dela mudou, e mudou mesmo dentro das paredes da sua casa de Paris com o nascimento da sua nova família ­cimentada pela língua portuguesa. E, mesmo sabendo que a criação dos painéis agitou apenas dois dias na vida de cada um dos 1900 jovens e dos seus professores, imagino que quando se apanha um pouco de sol alentejano num banco cujas ­costas falam de um lado saudável e diverso da Europa, talvez ­outras mudanças, ainda que pequeninas, tenham entrado na vida de muitas outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Catedral"&gt;A CATEDRAL SUBTERRÂNEA&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;José Gil&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Como construir uma catedral? Onde encontrar o povo que a irá habitar? «Falta-nos um povo» , dizia Paul Klee. E, aparentemente, falta-nos também tudo o resto para que uma catedral seja possível hoje em dia: a fé, os mitos e os lugares, a cidade para a acolher. &lt;br /&gt;Entretanto, será talvez suficiente uma pequena deslocação do olhar para tudo subverter. Fazer descer a transcendência do céu sobre toda a superfície do planeta; ver nas concentrações subterrâneas das massas urbanas, não exílios mas antes partidas para novas viagens; descobrir a ideia que pode unir, que une já mesmo sem o saberem todas estas gentes anónimas e dispersas na simples humanidade que as faz manter de pé. &lt;br /&gt;O lugar, Françoise Schein, foi procurá-lo sob a terra; o povo, na multidão atomizada do metro; a ideia, neste direito aos direitos que funde os direitos do homem. A catedral tornou-se possível.&lt;br /&gt;Uma catedral soterrada, tal como estes direitos que os próprios «passageiros» ignoram que os trazem no seu corpo. É aí, no centro da escuridão que eles surgem, como que para despertar em cada um o desejo do infinito. Pois a abóbada do metro Parque abre-se, do seio da terra para o infinito. O espaço está, também, delimitado: é o espaço no qual todos se encontram, já não sob o mundo baudelairiano do «choque», mas através do inconsciente dos olhares e dos corpos. Inconsciente de reconhecimento bruto quase selvagem: entre o passageiro e o outro, nada mais estabelece o contacto a não ser uma espécie de derradeiro instinto da espécie, o faro que busca a humanidade una: pois, neste espaço subterrâneo, longe de todos os espaços codificados, nenhum sinal distingue um estatuto ­social de um outro. O «passageiro» é não interessa quem. Françoise Schein transforma os «passageiros» despojados dos seus ouropéis, cansados, alheios, ausentes, em potenciais membros de uma comunidade de vida; despertos em singularidades que se escapam em múltiplas linhas de fuga do ­pensamento – Tales, Aristóteles, Pessoa, Deleuze . &lt;br /&gt;Espaço colectivo de encontros de inconscientes; espaço interior proliferante; abóbada subterrânea que encontra o cosmos; &lt;br /&gt;infinito aberto através dos muros que cada um transporta dentro de si a cada viagem de comboio. Mais dentro dos corpos do que fora do pensamento e da memória.&lt;br /&gt;Tudo converge e diverge ao mesmo tempo: se esta estação é simultaneamente  vertical e horizontal, enterrada e cósmica, interior e exterior, é graças ao movimento tão particular do metro. Françoise Schein compreendeu-o de forma maravilhosa. &lt;br /&gt;A catedral está lá, soterrada e sempre em expansão. Ela possui escadarias que conduzem o viajante a níveis cada vez mais profundos; mas, desde o início, desde as primeiras descidas, tudo se põe em movimento: são os pensamentos que sobem, frases que vos falam a partir das paredes e para lá delas. Ali começam os comboio-pensamentos e a dilatação do espaço. Depois, lá em baixo, chegados aos cais, os movimentos imbricam e estilhaçam-se em todas as direcções.&lt;br /&gt;Os traçados infinitos tal como as frases dos filósofos e dos ­poetas pendem do céu; desposam as rotas marítimas dos descobridores portugueses; confundem-se com a expansão do espaço mental que provoca a leitura arriscada e improvável dos direitos do homem inscritos no alto das paredes; abrem o caminho ao comboio que vem e que tornará a partir sobre as suas linhas.  &lt;br /&gt;O cais do metro é o espaço de uma espera. Mas não importa essa espera: de facto, não se espera nada, nenhuma substância, nenhum ser, mensagem ou emoção. Espera-se o fim da espera. Espera-se o puro movimento de uma máquina que altera o nosso próprio movimento. É um espaço distribuidor ou de engrenagem de movimentos. Nada está inscrito, sobretudo o nosso lugar de destino. Enquanto que circula, não se está em lugar algum, está-se sempre onde o nosso desejo nos leva. &lt;br /&gt;A máquina surge de um buraco para de seguida ser engolida por outro buraco negro; entre os dois, há tempo para todas as mutações. &lt;br /&gt;A Estação Parque engrena e faz passar mil dinamismos uns nos outros. Uma vez que é destes movimentos que se trata sempre nos três grandes níveis que moldam o espaço: movimentos de ideias, movimentos da história, movimentos dos comboios. Pode-se estar certo de que eles abrem caminhos &lt;br /&gt;insuspeitáveis no espaço dos corpos – os corpos daqueles que decifram os termos dos direitos do homem, recebem imagens do passado, coexistem com outros corpos, e esperam: como um transformador de velocidade, o comboio chega e leva o todo. E cada um leva em si mesmo e o comboio e o todo: conteúdo-contentor reversível que se desdobra até ao infinito.&lt;br /&gt;Este movimento não é, portanto, nem simples nem linear. Eis que o pensamento, a história, as viagens se multiplicam, por sua vez, em outros movimentos. Nos descobrimentos marítimos celebra-se, igualmente, a coragem e a ciência como o brotar  primeiro dos direitos do homem, ao contrário, através do seu esmagamento antecipado; se bem que Tordesilhas trace  uma fractura horizontal entre o Norte e o Sul, como se a verticalidade original anunciasse a partilha do mundo entre nações ricas e nações pobres. A saga dos navegadores traz também o colonialismo e a escravatura: a história distorce a geografia, os direitos do Homens já aí desenham uma carta em negativo antes mesmo de ser enunciada. Nova carta do céu que ecoa as cartas marítimas que se estendem sobre as paredes laterais até perder de vista. &lt;br /&gt;O segredo desta estação surpreendente é o da transformação do espaço, totalmente conseguida por Françoise Schein. Ela não se limita a decorar um lugar antecipadamente escolhido para ser preenchido, mas, na realidade, constrói um novo espaço arquitectural. Ela não o adapta às suas funções, não o concebe, também, num quadro mítico ou simbólico, mas na imanência de um movimento estranho que faz surgir possibilidades por toda a parte – será necessário afirmar: estranho movimento de amor que anima este metro e desperta as gentes para a sua humanidade simples, nua, transportando-as nas viagens ilimitadas do pensamento. Ali tudo se articula segundo uma escala móvel, não euclidiana, plástica e dinâmica como numa catedral que se estenderá até ao infinito sobre a superfície da terra. &lt;br /&gt;Uma catedral da imanência.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Escrever"&gt;A ARTE DE ESCREVER&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Paulo Henriques&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Quando em 1959 se inauguraram as primeiras estações da Rede de Metropolitano de Lisboa, cujo protótipo arquitectónico havia sido desenhado pelo arquitecto Francisco Keil do Amaral (1910-1975), todas as estações receberam decoração de azulejos.&lt;br /&gt;Foi excelente esta solução, por ser um material de revestimento arquitectónico de fácil aplicação e limpeza, capaz de grande durabilidade, e que em Portugal tinha tradição de uso secular no interior e no exterior dos espaços construídos, como protecção física mas sobretudo como suporte de qualificação estética e de registo artístico.&lt;br /&gt;A ideia dos azulejos nas estações do Metropolitano de Lisboa coube à pintora Maria Keil (n. 1914) que viria a desenhar 19 revestimentos diferentes de azulejos para as estações abertas entre 1959 e 1972, contrariando a opinião de artistas modernos seus contemporâneos que a desaconselhavam a fazer azulejo por não ser “trabalho de artista”. No entanto, a pintora não desanimou e pensou as suas composições como imensos envol-vimentos abstractos que aludiam à linguagem vernacular dos motivos repetitivos de padrão, aplicados nas fachadas de azulejo de Lisboa, entendendo que estes revestimentos eram também um mecanismo para tornar acessível a um imenso &lt;br /&gt;e diversificado público, o dos passageiros do Metropolitano, linguagens artísticas modernas. Poderíamos dizer que utilizou os azulejos como um modo de democratizar o usufruto da arte, através das suas composições, cada uma delas desenhada individualmente para cada um dos espaços, numa articu-&lt;br /&gt;lação perfeita entre arquitectura e decoração, entre expressão &lt;br /&gt;artística moderna e tecnologias tradicionais, executados que foram os azulejos pelos sábios ­operários da Fábrica Cerâmica Viúva Lamego em Lisboa.&lt;br /&gt;Deste modo Maria Keil inaugurava um procedimento que se tornou imagem de marca do Metropolitano de Lisboa, o da ­atenção dada aos seus espaços públicos não só do ponto de vista da eficiência funcional como também da disponibilização aos passageiros de qualificados envolvimentos estéticos, tendo-se mantido o azulejo como o suporte preferencial desde então até à actualidade.&lt;br /&gt;Durante a década de 1980, o Metropolitano de Lisboa iniciou uma estratégia de alargamento e requalificação da sua rede, individualizando-se agora as estações não só nas morfologias arquitectónicas como também nas intervenções artísticas solicitadas então a diferentes autores, nacionais e estrangeiros, transformando-se cada estação numa criação personalizada &lt;br /&gt;e passando toda a rede de Metropolitano a ficar identificada por uma sucessão bem diversa de conceitos e apropriações destes espaços públicos.&lt;br /&gt;Françoise Schein foi uma das artistas chamadas a intervir na requalificação da estação Parque, a mais singular das inauguradas em 1959, desde logo por ter o átrio ao nível da rua, um edifício de proporção horizontal, volume recto com paredes exteriores em cantaria, coberto com uma tripla abóbada ­assente em vigas, e uma grande pala recta protegendo a escada exterior de acesso.&lt;br /&gt;O átrio, com um revestimento integral de azulejos ritmados por malhas triangulares abstractas de Maria Keil, articulava-se, através de imensos lanços de escadas rolantes, com as plataformas de embarque, vencendo-se o desnível profundíssimo entre a rua e o plano de circulação dos comboios.&lt;br /&gt;Todos os espaços de circulação e embarque estavam apenas reves-tidos a meia altura com ladrilho de vidro, sendo o resto rebocado e pintado, devendo o passageiro circular numa atmosfera definida por imensas superfícies desornamentadas e de cores frias.&lt;br /&gt;Em 21 de Junho de 1992 Françoise Schein escreve ao Presidente do Metropolitano de Lisboa, então o Engenheiro J. M. Consiglieri Pedroso, dando-lhe conta do seu projecto de Inscrever os Direitos do Homem em espaços públicos, nomeadamente nas estações de Metropolitano de todo o Mundo , ideia já concretizada em Bruxelas, e que era agora apresentada em Lisboa1.&lt;br /&gt;A proposta foi acolhida com grande interesse e aceite de imediato, tendo sido escrito a propósito da requalificação da estação Parque que “O Metropolitano de Lisboa (...) assume com especial orgulho a decisão de ter aceite, convictamente, a temática da Declaração Universal dos Direitos do Homem”. Concluindo “Trata-se, modestamente, de um gratificante tributo que prestamos à nossa jovem democracia.”2&lt;br /&gt;O projecto apresentado para a requalificação da grande nave do cais de embarque e dos longos corredores e escadarias que os articulam com o nível da rua, tinha subjacente um pensamento muito arquitectónico, o da modulação geométrica do espaço, procedimento que gerava ritmos bem claros e que se funcionalizaram na marcação seriada dos episódios de uma imensa narrativa.&lt;br /&gt;Grandes faixas longitudinais, orientadas na vertigem da entrada e saída das carruagens foram marcadas na abóbada, a central numa fiada de azulejos vermelhos, duas laterais a verde-claro, finalmente duas outras laterais a cinzento, funcionando como sancas, fronteira entre a cobertura e as paredes e onde se repete o nome da estação em grandes letras, PARQUE.&lt;br /&gt;Repetindo o perfil do vão outras fiadas de azulejos cruzam-se com as primeiras, gerando ritmos solenes de arcarias, espécie de andante que, ao romper a austeridade espacial do grande vão, o fragmenta e nos conduz a uma respiração regrada e envolvente.&lt;br /&gt;A unidade total deste envolvimento gera-se pela predominância de três tons de um azul denso, como o de um mar profundo ou o de um céu nocturno. Na abóbada foram inscritas, uma por azulejo, letras que formam frases diferentes mas ininterruptamente ligadas, gerando uma textura gráfica de infinita variedade, mas que nos dão a ler, afinal, os vários artigos da Declaração dos Direitos do Homem.&lt;br /&gt;O exercício de leitura exige que o espectador se detenha e des-codifique o monossílabo, a palavra, o texto e a essencialidade do seu conteúdo programático, num processo que, à primeira vista hermético, rapidamente se transforma em jogo de descoberta de palavras e significados profundos.&lt;br /&gt;Um dos textos fundamentais da Humanidade, logo universal, articula-se naturalmente com as imagens inscritas abaixo da sanca, na longa série de painéis figurados, cujo tema é o dos Descobrimentos Portugueses e a sua importância fundamental para o conhecimento de novas terras, gentes e culturas, em definitiva aprendizagem europeia do olhar para o Outro.&lt;br /&gt;A linguagem que Françoise Schein utiliza neste revestimento de azulejos, arquitectónica por um lado, ao gerar virtualmente poderosas estruturas e ritmos construtivos, por outro, assenta em formas elementares gráficas e esquemáticas de comunicar.&lt;br /&gt;É evidente, desde logo, a presença essencial da letra, tanto em repetição tipográfica como em variedade cursiva, depois dos mapas e das linhas de trajectória que sobre eles se marcam, finalmente da própria figuração que é sintetizada em simplificações lineares e ideogramas.&lt;br /&gt;Façamos o percurso do passageiro entre a rua e esta “catedral subterrânea”3, itinerário de aclimatação ou iniciação à atmosfera monumentalizada do cais, onde se concentram letras e ideogramas estruturando narrativas.&lt;br /&gt;Ao longo das escadarias e corredores, as superfícies curvas dos tectos são transformadas, através da densidade dos azulejos azuis, em céus pontuados por estrelas, letras e signos, com ins-crições abertas nas sancas metálicas de iluminação, como já foi descrito “espécie de pequeno manual de máximas para a organização da existência própria e da visão do Mundo, como, por exemplo: ‘Conhece-te a ti próprio’ (Sócrates), ‘A Ética é estarmos à altura do que nos acontece’ (Deleuze), ‘Se queres mel, suporta as abelhas’ (Erasmo), ‘O tempo passa mas eu espero por ti’ (Lao--Tse), ‘Primeiro de todos os deuses, Eros começou por ser sonho’ (Parménides) ou ‘Sê plural como o Universo’ (Fernando Pessoa).”4  &lt;br /&gt;Encontramos aqui grandes máximas orientadoras do indivíduo em relação a si, na sua relação com o outro – ética, amorosa e erótica – finalmente como consciência de si no universo, plural como o próprio indivíduo.&lt;br /&gt;Nos patamares imediatamente anteriores às plataformas de embarque, uma parede cega mostra-nos um grande planisfério com zonas isoladas por linhas rectas, delimitando territórios a que dizem respeito os quadros narrativos das paredes do cais, e com uma grandiosa frase de apresentação dos conteúdos, a fala de revelação de Tétis a Vasco da Gama, recolhida no texto de Os Lusíadas de Luís de Camões, “Vês aqui a grande máquina do Mundo...”  &lt;br /&gt;Numa lógica sistemática de explanação de conteúdos, Françoise Schein constrói esta imagem como um catálogo dos feitos portugueses dos Descobrimentos dos séculos XV e XVI, índice que remete para o cais, lugar que configura, de facto, a consagração do Homem como entidade Universal.&lt;br /&gt;À inscrição do texto fundamental dos Direitos do Homem na abóbada associam-se os sucessivos episódios dos Descobrimentos portugueses, conducentes não só ao conhecimento de outras partes do Mundo, até então ignoradas, mas propiciando o início da reavaliação do próprio universo no centro do qual, a par do Sol, está o Homem.&lt;br /&gt;A seriação é fácil de compreender, numerado que está cada painel com um algarismo inscrito num círculo, em tudo idêntico ao autocolante vermelho aplicado nas maquetas dos painéis, agora expostas.&lt;br /&gt;Contudo, mais do que cenas descritivas ou naturalistas, Françoise Schein constrói um léxico preciso de signos, com significado preciso e traduzido, em listagem compendiada, nas escadas de acesso ao cais. Para o efeito a autora fez uma investigação profunda não só sobre os factos da História mas também sobre as iconografias que lhes deram memória visual.&lt;br /&gt;O Infante D. Henrique, personagem inicial e mítica da saga dos Descobrimentos, surge na sua imagem convencional, os vice-reis da Índia também, a par de personagens de universos fantásticos e maravilhosos, os seres acéfalos que habitavam os Mundos Fechados, as sereias de cauda dupla, mediterrânicas, a par de surpreendentes monstros que personificam as forças do Mar, mas também os protagonistas anónimos de muitas raças, os negros de África e os índios do Brasil, forçados ao trabalho e à religião católica.&lt;br /&gt;Mostram-se os mecanismos da “grande máquina do Mundo”, não só a que estrutura o Cosmos mas também a que determina a relação entre os indivíduos, a economia dos comércios e a política dos poderes, os do valor das especiarias e dos escravos a par da divisão do Mundo em Tordesilhas, as diferentes naturezas e culturas do Mundo, simbolicamente presentes em plantas e animais exóticos, também nos instrumentos náuticos, nas figuras das diferentes religiões, nas caravelas e nos barcos negreiros que as transportavam entre os diferentes continentes.&lt;br /&gt;Esta concentração de narrativas maiores da Humanidade, a par da sua explanação esquemática e codificada como os frescos na Idade Média, leva-nos, de modo recorrente, à ideia de “catedral”, lugar supremo da Fé, veja-se do culto das mais profundas convicções do indivíduo na relação com o Outro e o Mundo, catequeticamente explanadas pela imagem.&lt;br /&gt;A figura da “catedral”, podendo funcionar como espaço de concentração de valores religiosos, constitui-se também como lugar que potencia e emana ideais e comportamentos, função que podemos também encontrar neste projecto de Françoise Schein.&lt;br /&gt;Obviamente que as ideias que se desejam transmitir aqui não são já as de qualquer religião, mas antes as que conduzem a uma Harmonia da Máquina do Mundo, através do respeito pelo Outro e pela Natureza, aprendido com as boas realizações e as vicissitudes inscritas na História.&lt;br /&gt;Inscrever é, de facto, a estratégia eleita por Françoise Schein para ir cumprindo a utopia de fazer respeitar os Direitos do Homem, dando a conhecer ou lembrando o seu texto fundamental, e fá-lo de modo literal: escrevendo com letras em azulejos nas paredes dos mais diferentes lugares do Mundo, entre espaços marcadamente urbanos, como os Metropolitanos de Nova Iorque, Bruxelas, Lisboa, Paris ou Berlim, e zonas socialmente periféricas das grandes cidades, como as favelas do Rio de Janeiro ou os bairros pobres de Lisboa.&lt;br /&gt;Mas então o seu projecto não se limita apenas a divulgar os artigos dos Direitos do Homem, mas sobretudo a executá-los, procurando mecanismos que envolvam as populações na realização da obra, interiorizando assim valores maiores da Huma-nidade e, deste modo, revendo a dignidade das suas próprias representações como indivíduos e sociedades.&lt;br /&gt;Poderíamos dizer, sem pretensão de metáfora, que o azulejo se transforma então num suporte democrático, pela verificação da sua eficácia prática, do gosto pelo seu uso, generalizado &lt;br /&gt;a todas as classes sociais, mas, sobretudo neste contexto, pela sua potencialidade como suporte simples de comunicação dos valores da Humanidade, sejam eles meramente decorativos ou carregados com conteúdos graves configurados por diferentes retóricas, entre infinitas liberdades poéticas e programáticas perspectivas políticas.&lt;br /&gt;Seja qual for o ponto de vista escolhido, o projecto de Françoise Schein, INSCREVER os direitos do Homem nas paredes e nas memórias dos indivíduos, é, por natureza, um trabalho sempre em aberto, concluído apenas em sucessivas secções, variadas &lt;br /&gt;e infinitas pelas desejáveis mudanças de lugares e protago-&lt;br /&gt;nistas das intervenções, numa lógica orgânica de criação e uso que encontra paralelo na tradição secular do Azulejo em Portugal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2098131296795889010-4360477399605410949?l=ddlx.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/4360477399605410949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/4360477399605410949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/2007/05/franoise-schein.html' title='FRANÇOISE SCHEIN'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010.post-2635790067436630416</id><published>2007-05-08T08:23:00.001-07:00</published><updated>2007-05-08T08:30:44.260-07:00</updated><title type='text'>OPCA</title><content type='html'>&lt;BR&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;VIAGEM PELO MUNDO À NOSSA VOLTA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;José Sarmento de Matos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Propósitos de uma abordagem &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No complexo mundo empresarial português, feito de ilusões e fusões, nomes efémeros que desapa­recem com a mesma rapidez com que preencheram momentaneamente as parangonas da celebri­dade, não é todos os dias que se celebram os 75 anos de vida de uma empresa, a OPCA no caso presente. Não foi só um nome que ao longo destes três quartéis de século se perpetuou na realidade portuguesa. Foi também um projecto e um objectivo que esse nome desde o início continha, carregado de um evidente carácter programático, bem adaptado à realidade de então.  &lt;br /&gt;Todos nós, ao percorrermos as estradas do país, frequentemente nos deparamos com o letreiro que anuncia a presença da OPCA no estaleiro de uma grande obra. Mas se o nome nos é familiar, quase parte integrante da paisagem que corre à velocidade do nosso meio de transporte, já menos comum é que qualquer interlocutor saiba com precisão o que essa sigla significa. Que mensagem transmitem essas quatro vogais maiúsculas gravadas na memória colectiva? Muito simplesmente: Obras Públicas e Cimento Armado. &lt;br /&gt;Ora se nos dias que correm esses dois conceitos se apresentam como relativamente banais, parte integrante do nosso quotidiano, se remontarmos aos anos trinta do século XX a realidade era bem outra. As magnas estruturas em betão davam os primeiros passos e as empresas não tinham como objectivo exclusivo a execução de grandes empreitadas de obras públicas, com a especificidade de exclusivamente materializadas em cimento armado. E o facto mais notável na evolução desta empresa ao longo dos anos é que, apesar de todos os acidentes históricos percorridos e das significativas mudanças sociais, técnicas e políticas que o país viveu, a OPCA se foi mantendo igual a si mesma, atenta sobretudo às estruturas técnicas que sustentam as grandes obras públicas. Da ponte da Trofa, logo em 32, à esbelta e recente ponte ferroviária de S. João, no Porto, (Edgar Cardoso); da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos (Pardal Monteiro) ao prodígio técnico da pala do Pavilhão de Portugal na EXPO (Siza Vieira); das estruturas subterrâneas do Metropolitano de Lisboa, entre 1958 e 2002, ao escondido caneiro de Alcântara, a OPCA foi meticulosamente cumprindo as coordenadas mestras programáticas contidas na escolha de um nome adoptado por três jovens engenheiros portuenses em 1932, cientes de que estavam a responder a um desafio que o seu tempo colocava. E, como se percebe, ainda hoje se coloca. &lt;br /&gt;O livro que agora se publica não é o primeiro que aborda a história da OPCA. Em 1992, ao completarem-se os sessenta anos de vida da empresa, Luís Lousada Soares, filho de um dos fundadores, deu à estampa o livro “OPCA – Artes e Letras na tradição das gentes da casa”. Escrito com a carga afectiva que a relação íntima justifica, o autor debruça-se sobretudo, como o subtítulo indica, com a relação “das gentes da casa”, engenheiros e técnicos, com o mundo paralelo das Artes e das Letras. No entanto, não deixa de fornecer um importante testemunho sobre a génese e crescimento da empresa, cuja descrição fluente e cúmplice nos surge hoje como uma memória próxima e, claro, carregada de saudade. Por isso, lá mais adiante, serão sempre as suas palavras que enriquecerão em citação directa as considerações mais distanciadas dos tempos de hoje. &lt;br /&gt;São outras as preocupações do presente volume. Procura-se fazer uma viagem retrospectiva pela obra realizada sob a responsabilidade directa da OPCA, ou alguma em colaboração com outras empresas, que nos proporcionará realçar a activi­dade empresarial, além de, evidentemente, permitir esboçar um estudo mais aprofundado sobre a história da construção civil destes últimos setenta e cinco anos em Portugal. Essa abordagem está a cargo da professora arquitecta Ana Tostões, especialista na história da arquitectura portuguesa do século XX, que pormenorizará em detalhe quer o contributo da empresa para o universo construí­do, quer a evo­lução em catadupa das inovações técnicas, criando uma relação nem sempre pacífica entre a engenharia e a arquitectura. No caso da OPCA, essa relação complexa atingiu momentos de perfeita sintonia, fosse nos casos atrás citados, fosse nalgumas obras em que o arquitecto Januário Godinho, irmão de Manuel Godinho, um dos fundadores da OPCA, se inseriu perfeitamente no espírito das encomendas, como no caso da espectacular Lota de Massarelos (1933), obra de referência inicial do modernismo entre nós. &lt;br /&gt;De parceria com a Dra. Sandra Vaz Costa, foram seleccionadas algumas das obras mais emblemáticas do historial da OPCA, nas diversas especialidades, tratadas autonomamente e com o merecido relevo, seguindo-se um inven­tário global de todas as intervenções da empresa nas mais diversas especialidades, inventário que se procurou fosse tão exaustivo quanto possível. &lt;br /&gt;Especial destaque mereceu na orgânica deste volume o acompanhamento a par e passo, em registo fotográfico, da construção do Cristo-Rei, em Almada. Trata-se de uma espécie de banda fotográfica do desenrolar da obra, um verdadeiro “work in progress”, desde as terraplanagens à finalização da estátua, tudo meticulosamente captado pelos próprios construtores. A imagem do engenheiro acenando do topo da cabeça da estátua é bem representativa do orgulho de alguém que vê finalmente materializado um desafio de monta.&lt;br /&gt;Fornece-se, assim, não só um historial completo da actividade da empresa, como também se dota a biblioteca especializada com uma obra útil, que se julga de indispensável referência para um conhecimento mais aprofundado da história da arquitectura, da engenharia e do urbanismo em Portugal. &lt;br /&gt;Nas páginas que se seguem, convida-se o leitor a entrar connosco à boleia no Chevrolet do enge­nheiro Álvaro de Campos. Não já simplesmente para uma viagem corriqueira pela Estrada de Sintra mas, sim, para seguirmos pelos caminhos nem sempre nítidos que desembocam no nosso presente. Uma viagem naturalmente animada ao longo das páginas pelos esboços da sinalética que a OPCA desenhou para as estradas do país, bem como pela evolução da própria sigla gráfica da empresa, que foi acompanhando as alterações do gosto domi­nante. &lt;br /&gt;Como iremos entender, não foi com certeza por acaso que Fernando Pessoa, tão atento ao mundo em seu redor, consagrou um engenheiro num dos seus heterónimos, realidade emergente no mundo do seu tempo, em que o betão se começava a impor na paisagem envolvente. Álvaro de Campos, o engenheiro cosmopolita e moderno, deambulava de Chevrolet pela velha Estrada de Sintra bem ciente da resposta à pergunta que coloca: “ (…) e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?” &lt;br /&gt;O automóvel e o betão. Imagens indissociáveis na ideia generalizada que o século XX nos projecta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achegas para uma história &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O evento mais saliente e palpitante dos anais de 1896 é o aprisionamento do chefe vátua Gungunhana, derrotado em Chaimite pela audácia guerreira de Mouzinho de Albuquerque. Exibido em Lisboa como presa de guerra, já nos primeiros meses do ano seguinte, o atordoado chefe africano servia como estímulo a uma sociedade em crise profunda, que procurava assim sarar as feridas abertas pelo choque do recente Ultimatum britânico. A África tornava-se a nova obsessão nacional, e todos em uníssono louvavam a acção destemida do reduzido exército português. Consolidava-se a posição no continente por desbravar, e a opção africana, centrada sobretudo em Angola e Moçambique, espécie de novos brasis, iria, como se sabe, dominar em fundo a história portuguesa ao longo do século XX, mais precisamente até 1974. &lt;br /&gt;Este folclore mediático em torno da problemática africana ofusca na verdade a restante realidade do país, mas muitas outras coisas se passaram nesse ano de 96, em que já se preparavam as comemorações do 4.º Centenário da Viagem de Vasco da Gama, dois anos mais tarde. Será preciso quase uma lupa, e lançada sobre obras restritas e altamente especializadas, para descortinarmos um outro acontecimento que, apesar de praticamente esquecido, não deixaria de constituir um marco de relevo para os tempos futuros, além de parecer revelar uma contra­dição com a imagem mastigada de um país alheado da modernidade, que ia despontando com estrondo nos centros mais avançados da Europa e Estados Unidos. &lt;br /&gt;Depois de um incêndio lhe ter destruído a sua fábrica do Caramujo, junto a Almada, António José Gomes, indus­trial de moagens, não se deu por vencido. Informado que em França se ensaiava já, desde 1892, uma nova fórmula resistente ao fogo, baseada na mistura de cimento, areia, brita e estru­tura de ferro, o industrial da outra banda encomen­dou à firma francesa de engenharia Hennebique, que desenvolvia o novo sistema, o projecto para refazer de base a sua unidade fabril do Caramujo. Trabalho facilitado pelo facto de o indispensável “cimento Portland” já se produzir em Portugal desde 1894, mais precisamente na fábrica de Alhandra. &lt;br /&gt;Portanto, nesse ano de 1896, com o país distraído com os fervores patrióticos das façanhas africanas, um esque­cido industrial, atento às novidades que pululavam por um mundo em mudança, erguia em Portugal o primeiro edifício significativo em cimento armado. Ou seja, davam-se os primeiros passos na construção em betão. &lt;br /&gt;Não deixa de dar que pensar esta coabitação de histórias paralelas, cada uma centrada numa visão parcial e fechada da realidade vivida. Às vezes, postas umas perante as outras, permitem um olhar diferente e, com certeza, mais abrangente daquilo que faz a complexidade de uma sociedade plural. O gesto audaz e arriscado do industrial de Almada joga como contraponto do país atrasado e periférico, triste e ensimesmado que nos é transmitido pelo olhar crítico da célebre geração de 70, tão dominada pelo conceito da decadência. Pelos vistos, havia também por cá quem, pelo contrário, não se deixasse dominar por esse pessimismo doentio e olhasse para a frente com a vontade de contrariar os azares da fortuna: “(…) e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?”, diria em síntese uns anos mais tarde o engenheiro pessoano. &lt;br /&gt;A fábrica do Caramujo ainda lá está, resistindo estoicamente ao desleixo e ao abandono, merecendo sem dúvida uma especial atenção não só por materializar um novo método construtivo que iria mudar a imagem construída do país, mas também a determinação e o arrojo de um industrial de moagem, de quem hoje ninguém se lembra. &lt;br /&gt;Foi, pois, desta forma discreta que o cimento armado chegou para ficar. A agitação política e revo­lucio­nária das primeiras décadas do século não foi propícia à sua difusão generalizada, mas foi permitindo a formação de um escol de engenheiros, em Lisboa e no Porto, que, quando o momento chegou, estavam preparados para enfrentar todos os desafios técnicos que se iriam colocar. Será sobretudo na década de vinte que os novos métodos constru­tivos se generalizariam, impondo-se um nome pela sua visão e iniciativa: Duarte Pacheco. Director do Instituto Superior Técnico, a escola lisboeta de engenharia, o então jovem engenheiro decidiu ­erguer um novo edifício-sede da sua escola, que se tornasse também um marco da perfeita conju­gação entre engenharia, arquitectura e urbanismo. Se bem pensou melhor o fez. E, sem outras responsabilidades que as de simples director de uma escola superior, concebeu, com a ajuda de muitos outros, entre os quais o arquitecto Pardal Monteiro, não só o novo edifício do Técnico, mas também a sua implantação dinâmica na cidade. Talhou a fronteira Alameda Afonso Henriques e a urbanização envolvente, abrindo deste modo novas perspectivas de crescimento à capital do país, que se multiplicariam quando se tornou presidente da Câmara de Lisboa e, depois, ministro das Obras Públicas. O Técnico, iniciado em 1927, verdadeiro monumento de betão, tornou-se, pelas suas dimensões e envolvimento urbano, um marco fundamental na evolução da história da construção civil em Portugal. Como Fernando Pessoa parecia pressagiar, entrava-se, de facto, em tempo de engenheiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempos de mudança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É neste contexto em ebulição que, em 1932, depois de alguns anos de maturação e percalços, vai nascer no Porto uma nova empresa que bem sintetizava no seu nome todo um projecto que estava na ordem do dia: Obras Públi­cas e Cimento Armado. Não se tratava, de facto, de mais uma empresa de construção civil, abrangente na multiplicidade funcional, mas sim de uma instituição destinada primordialmente à Obra Pública, que envolvesse alguma complexidade de construção, e ao desenvolvimento paralelo das tecnologias de estruturas em betão armado que a permitissem concretizar. Os seus fundadores percebiam os ventos do tempo, e apresentavam-se como partici­pantes de corpo inteiro do novo élan modernista que o país iria viver, sob a tutela de um Estado Novo que, nos anos trinta, soube chamar a si a dinâmica das novidades que Duarte Pacheco e demais engenheiros vinham apregoando.&lt;br /&gt;Se já acompanhámos em traços gerais a entrada discreta do betão na paisagem portuguesa, convirá laçarmos um olhar retrospectivo sobre o conceito de Obra Pública e, também, tentar perceber em traços largos o aparecimento das empresas de construção. Apesar de, desde sempre, cada período de afirmação histórica procurar deixar a sua marca através de um monumento perene, marco de uma memória e padrão de um gosto – caso da Batalha, dos Jerónimos ou de Mafra –, a verdade é que seria com o liberalismo oitocentista que o Estado central se arrogaria a iniciativa de ser o motor de uma política de obras públicas, materialização da ideia do Progresso que norteava os seus corifeus. &lt;br /&gt;A partir de Regeneração, a criação do Ministério das Obras Públicas constitui a definição de um programa, protagonizado pelo seu primeiro titular, António Maria Fontes Pereira de Melo, engenheiro pela célebre Escola de Pontes e Calçadas de Paris. O chamado “Fontismo” representa um período largo em que a fé inabalável na Obra Pública como motor central do desenvolvimento económico e social se vai impor de forma dominante na sociedade portuguesa. As redes de caminhos-de-ferro, novas artérias para a seiva vital do endeusado Progresso, rasgam o território e galgam os rios, decorando o país atrasado com novos arquétipos estéticos, como as estruturas esbeltas das pontes em arquitectura de ferro, caso da de D. Maria Pia, no Porto, obra notável de Gustave Eiffel. &lt;br /&gt;Este bulício construtivo fez desencadear em paralelo o aparecimento de empresas de construção, marcando lugar singular alguns empresários estrangeiros, sobretudo no desenvolvimento dos caminhos-de-ferro. Mas, em boa verdade, se lançarmos um olhar mais atento sobre a realidade portuguesa, podemos encontrar no processo de reconstrução de Lisboa pós-terramoto o embrião daquilo que poderemos já chamar empresários de construção civil. &lt;br /&gt;Dois casos pontuais merecem perder-se algum tempo na sua apreciação. O primeiro é relatado por Gustavo de Matos Sequeira, na sua obra “Depois do Terramoto”, sinalizando a presença na urbanização da Quinta da Cotovia, hoje a encosta entre a Rua São Bento e a Rua da Escola Politécnica, em que um grupo de mestres-de-obras se constitui em embrião empresarial, compra lotes, urbaniza e vende, numa prática hoje corriqueira mas que, naqueles tempos, constituía uma novidade, anunciando caminhos futuros para a actividade imobiliária.&lt;br /&gt;O outro caso é mais complexo, ainda por cima por se desenrolar no cerne da Baixa Pombalina, mais propriamente na Rua Augusta, esquinando para a então Rua Nova de El-Rei, hoje do Comércio. E o interesse deste contrato que iremos conhecer traz uma nova luz ao próprio processo construtivo da Baixa, pondo em causa algu­mas ideias feitas e tornando-o bem mais próximo do retrato de uma sociedade em mudança. Sendo proprie­tário de um lote para construção no local citado, Manuel Curvo Semedo, fidalgo da Casa de Sua Majestade, faz em 1762 um contrato com o mestre Joaquim Madeira. Segundo os termos desse contrato, guardado na Torre do Tombo (C-11, cx 140, liv. 640, fls. 39v-40), o proprietário cede ao mestre Madeira o direito de construir no terreno, devendo erguer desde logo o rés-do-chão de lojas e o primeiro andar, segundo, claro, as rígidas normas emanadas da Casa do Risco. Depois, uma vez construídos esses dois pisos, o mestre empreiteiro tinha o direito de os alugar, até que os valores das rendas atingissem a soma por ele dispendida na construção prévia. Só então o proprietário, o tal Curvo Semedo, entrava na posse plena da sua propriedade, podendo, caso lhe interessasse, renovar o contrato e proceder da mesma forma em relação aos restantes andares. Quer dizer que o mestre emprei­teiro não era um simples mandatário da encomenda. Era ele que investia, construía e arrendava, numa atitude que ultrapassa em muito a simples condição de mestre­‑de‑obras. Quanto ao senhorio bastava-lhe espe­rar até que as rendas pagassem o investimento que outrem fizera no seu terreno. &lt;br /&gt;Neste caso sabemos que o prédio foi continuado, pois lá se encontra ainda. Mas tudo leva a crer que este não seja caso único, pois outros prédios existem na Baixa que nunca passaram originariamente do primeiro andar. Enfim um detalhe curioso que tem a especial particularidade de nos tornar mais próximo o mais gigantesco processo de reconstrução de uma cidade inteira, boa oportunidade para se irem definindo novas modalidades da relação nem sempre fácil entre o interesse público e o dos privados. &lt;br /&gt;Completado este pequeno desvio no nosso passeio no Chevrolet do engenheiro Álvaro de Campos, é tempo de fazer a agulha e determo-nos mais em pormenor sobre a evolução do projecto empresarial quer iria nascer definitivamente no Porto, em 1932, sob um nome carregado de sentido: Sociedade de Engenharia de Obras Públicas e Cimento Armado Limitada, ou seja, a OPCA. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do sonho à realidade &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como conta Luís Lousada Soares na obra atrás referida: “Se o ano de 1926 ficou assinalado na história do País pela instauração da ditadura Militar que substituiu o regime republicano em vigor desde a queda da monarquia, para a OPCA ele significa o começo da sua Pré-história, o início de um trabalho conjunto levado a cabo por dois engenheiros civis – José Praça e Manuel Godinho – e dois electrotécnicos – Luís Soares e Henrique Peres.” &lt;br /&gt;Formados pela Escola do Porto, os jovens engenheiros percebiam os sinais dos tempos e, tacteando oportunidades decidem pôr em marcha um processo conjunto, destinado a responder aos desafios que as novas realidades técnicas e construtivas colocavam. Reunidos habitualmente em tertúlias nos cafés do Porto, aí trocavam conheci­mentos e experiências, até que: “Um dia decidiram fazer trabalhos em conjunto. E reza a tradição que se abalan­çaram a uma obra de vulto para as circunstâncias – a nova capela do Santuário de La Sallette, em Oliveira de Azeméis”, obra neogótica desenhada pelo arquitecto Correia da Silva. &lt;br /&gt;Instalado o primeiro escritório na Rua Cimo da Vila, depressa se mudam para a Avenida dos Aliados, bem no coração do Porto, em 1929, destinando parte do piso para a instalação da Escola Nacional do Desenho. Os traba­lhos foram-se sucedendo, destacando-se a intervenção no Liceu Rodrigues de Freitas, hoje D. Manuel II, obra dese­nhada por Marques da Silva, onde premonitoriamente se encarregaram dos elementos em betão. Sobretudo platibandas e cornijas. &lt;br /&gt;Finalmente, em 1932, no ano em que Salazar assume funções de Presidente do Conselho, três dos sócios originais, José Praça, Manuel Godinho e Luís Soares, “fazem lavrar a escritura da Sociedade de Engenharia de Obras Públicas e Cimento Armado Limitada, com sede no Porto, na Avenida das Nações Aliadas, 54-4º andar, sociedade que poderia para efeitos de mero expediente e publicidade adaptar a expressão abreviada OPCA”. E os objectivos da nova sociedade ficam bem expressos no texto dessa escritura, onde se lê como projecto: “ execução de obras públicas e de cimento armado, cálculos, projectos e demais ramos de actividade concernentes ao exercício profissional da engenharia e o comércio de representação de máquinas ou materiais de construção, bem como quaisquer outros ramos de indústria ou comércio, excepto o bancário.”&lt;br /&gt;Como o referido autor bem sintetiza: “Assim, e desde o primeiro dia, é clara a vontade de organizar e desenvolver uma empresa de engenharia e não apenas um construtor. Foi esta aliás uma faceta fundamental que caracterizou a OPCA nas primeiras três décadas da sua existência num mercado onde a polivalência era incomum. Sobrevivem ainda testemunhas desses anos já distantes que atestam o pres­tígio que a Empresa desfrutava e a escola de enge­nharia que representou para quem nela teve oportunidade de trabalhar.”&lt;br /&gt;Os trabalhos e as encomendas começaram a chegar em ritmo certo, materializados em inúmeras intervenções cujo inventário se pode consultar nas páginas seguintes. Luís Lousada Soares chamou a este período “os gloriosos anos trinta” em que a OPCA participa de parte inteira, como bem realça no seu texto a arquitecta Ana Tostões. É o tempo em que o Estado Novo chama a si a tarefa de difundir o novo “modernismo”, quer em edifícios civis, quer religiosos, como a Igreja de Fátima, de Pardal Monteiro, que tanta resistência conheceu da parte dos sectores mais conservadores da sociedade portuguesa. Antes de inflectir nos anos quarenta para uma arquitectura onde dominavam discutíveis critérios nacionalistas, nos anos trinta dá-se, de facto, uma aceitação pelos poderes públicos das soluções mais arrojadas. O cinema Éden, em Lisboa, obra de Cassiano Branco, constitui sem dúvida um bom exemplo e, voltando ao labor da OPCA, julgo de realçar o notável edifício da Lota de Massarelos, onde tão bem se interligam o arrojo do jovem arquitecto Januário Godinho com a mestria técnica da empresa de que o irmão, Manuel Godinho, era um dos fundadores e responsáveis. &lt;br /&gt;Continuemos a seguir o relato vivo de Luís Lousada Soares. “Os três fundadores da Empresa eram assíduos frequentadores das famosas tertúlias dos cafés portuenses, onde conviviam com a nata da cultura da época. Médicos, advogados, pintores, arquitectos, escultores, engenheiros, poetas e escritores agrupavam-se um pouco por todo o lado e entregavam-se a vivas e por vezes apaixonadas discussões sobre filosofia, artes e letras, desco­bertas científicas e técnicas modernas, e, inevitavelmente, as políticas do País e da Europa. Neste último tema a tónica dominante era claramente contra a situação portuguesa. José Praça, espírito brilhante e exímio orador, polarizava claramente a sua tertúlia, no que era bem secundado por Manuel Godinho. Luís Soares não tinha o dom da palavra, talvez porque gostava de falar pouco. Como consequência de ideias repetidamente expla­nadas, José Praça e Manuel Godinho foram presos pela polícia política em fins de Outubro ou princípios de Novembro de 1933 e remetidos para o forte de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, nos Açores. Luís Soares, muito menos falador, não foi incomodado.&lt;br /&gt;Eis como a OPCA se viu, em pleno esforço de arranque da empresa e de lançamento das primeiras obras importantes, privada dos dois engenheiros civis. Os dez meses que se seguiram foram duros. Luís Soares lançou-se no estudo de métodos e cálculos de estruturas e orçamentos e teve a sorte de poder contar com o esforço, trabalho e dedicação de Manuel Monteiro, gerente da casa desde 1933. Aos dois deve a OPCA ter sobrevivido nesse período crítico.”&lt;br /&gt;Depois dos “gloriosos anos trinta” a eclosão da II Guerra Mundial e o fechamento progressivo do Estado Novo veio colocar novos problemas, não só em termos estéticos e de engenharia, mas também nas dificuldades de obtenção de materiais, cuja circulação livre se via profundamente afectada pelos condicionalismos que a guerra colocava. As encomendas, no entanto, vão prosseguindo, mantendo um activo labor dos estaleiros da OPCA e os seus serviços técnicos. Neste período ressalta a construção do complexo caneiro de Alcântara, e o lançamento da Avenida de Ceuta, via essencial para o desenvolvimento urbano de Lisboa. &lt;br /&gt;Continua Luís Lousada Soares, no capítulo a que chama Apogeu e crise – 1947-1966: “Em 1947 é fundada a NOVOPCA, onde para além da OPCA (com 37,5%) eram sócios três dos seus engenheiros, António Maia, Brito Pereira e Hermínio Basto, e ainda Manuel Monteiro. Como empresa participada, a NOVOPCA passou a ampliar a capacidade de intervenção da própria OPCA. A pouco e pouco foi-se especializando em pontes, fábri­cas e, mais tarde, silos verticais construídos com cofragens deslizantes. A primeira obra da NOVOPCA em Lisboa é um dos novos quarteirões de blocos residenciais, em Alvalade.” &lt;br /&gt;Ambas as empresas juntaram esforços para uma das mais importantes tarefas do seu historial: a construção, a partir de 1958, dos vários escalões da rede de Metropolitano de Lisboa. Obra complexa e difícil, dada a variabilidade de terrenos e, sobretudo, por pressupor a intervenção numa zona muito sensível da capital: a Baixa Pombalina. &lt;br /&gt;Depressa, no entanto, as limitadas fronteiras portuguesas se apresentavam como limitadoras da actividade da empresa. Era preciso abrir horizontes, buscar novas parcerias internacionais, não só para diversificar as encomendas, mas também para se familiarizar com outras tecnologias. Escreve Lousada Soares: “Logo no ano seguinte à fundação da NOVOPCA e sob o patrocínio de Guimarães Lobato, estabeleceu-se negociação com a EMPORT (empresa portuguesa controlada pela SILM, italiana) e a Edmund Nutall, de Londres, com as quais a OPCA constitui uma associação temporária para a realização de diversos trabalhos marítimos. A ENO (EMPORT, NUTALL, OPCA) leva então a cabo obras como a Doca do Poço do Bispo, a Doca de Pedrouços e a protecção da margem norte do Tejo entre Beirolas e Cabo Ruivo. E ainda a mais conhecida de todas – a reconstrução da praia de ­Copacabana, no Rio de Janeiro, por hidrobombagem de milhões de metros cúbicos de areia.”&lt;br /&gt;O excesso de obras e empreitadas em curso por todo o país, sinal natural de vitalidade, tiveram no entanto seu lado negativo. A escassez de mão-de-obra especializada e uma inflação em crescimento levaram a uma situação insustentável, dado que o regimento em vigor não previa alteração dos preços inicialmente contratados. Ora quando as obras se arrastavam no tempo, essa situação levava as empresas a situação de verdadeiro estrangulamento económico. Norberto Lopes, director do Diário de Lisboa, amigo do Praça e Godinho, alertou para a situa­ção em artigos sucessivos no seu jornal. Mas tudo demorou. E a verdade é que a OPCA se viu obrigada a cancelar o andamento de alguns projectos, como o plano da barragem do Mira. Era a crise a bater à porta, vendo-se a OPCA na mão dos seus credores, sobretudo a banca. Foi um choque, agravado pela morte de Luís Soares, em 1966, tendo Manuel Godinho acompanhado já sozinho, pois José Praça também já falecera, a entrega da empresa à nova administração, nomeada pelos novos donos. &lt;br /&gt;Continuando a acompanhar o relato próximo de Lousada Soares, entramos na fase a que ele chama Metamorfoses 1967-85: “Sob o comando de um Conselho de Administração nomeado pelos bancos, os principais accionistas, a OPCA empreendeu um novo capítulo da sua história. A crise que a atingira durante o ano de 1966 destroçou a estrutura humana e organizativa da Empresa. A maior parte dos colaboradores válidos saíram um após outro, e a nova direcção viu-se a braços com a tarefa de procurar ‘varrer, arrumar e reequipar a casa’. O abalo da imagem da OPCA perante o mercado foi terrível, e mais de um ano se passou antes de ser ganha uma obra nova.” Mais adiante prossegue: “A capacidade da Empresa, em termos humanos e técnicos custava recuperar. Por isso foi decidida uma política de associações temporais para concorrer a obras de maior vulto e especificidade.”&lt;br /&gt;A partir destas associações, que proporcionaram obras de vulto, como o parque de estacionamento dos ­Restauradores, foram permitindo um reequilibrar da carteiras de encomendas e um renovamento de confiança por parte dos agentes externos. &lt;br /&gt;“Abril conduziu à nacionalização da Banca e, indirectamente, à da própria OPCA.” Assim sintetiza o autor que vimos seguindo as consequências da revolução dos cravos em 1974 na vida acidentada da empresa, então em fase de franca recuperação, com os projectos da Refinaria de Sines, entre outros, ou a bela ponte da Figueira da Foz, de Edgar Cardoso, esta iniciada já em 1978. &lt;br /&gt;Por fim, no derradeiro capítulo, Lousada Soares coloca-o sob o signo do Renascimento – 1985-1992. E acentua essa ideia ao escrever a abrir: “A reprivatização representou, sem dúvida, um voltar de página decisivo na ­História da OPCA. De novo se trata de ‘varrer a casa’, reorganizar a estrutura, eliminar hábitos e ritmos adquiridos, tarefa que leva alguns anos a concre­tizar. Procede-se ao saneamento financeiro, ao relançar da economia da Empresa agora com ânimo renovado e outra capacidade de decisão. Novas obras são obtidas.” &lt;br /&gt;Apesar do entusiasmo de Lousada Soares sobre o período de “Renascimento”, após a privatização em 1985, a verdade é que a OPCA, nos anos noventa voltou a viver um período de alguma turbulência. Essa situação viria a ser ultrapassada  positivamente após a entrada  da nova administração presidida por Filipe Soares Franco, a partir do ano 2000. A empresa encontrava-se com um forte passivo e uma imagem ­pouco atractiva para o recrutamento de novos quadros e parcerias, com uma fraca carteira de encomendas e apenas uma valência passiva; a integração num forte agrupamento que concorrera a um conjunto de concessões rodoviárias. &lt;br /&gt;Assim, foi necessário encetar um “tratamento de choque”, como lhe chamou o próprio novo presidente, que passou por um diálogo interno e pela galvanização dos trabalhadores  de forma a racionalizar a organização e a conter os custos. Com pequenos acertos no quadro de pessoal foi possível estancar a hemorragia e iniciar a recuperação. Logo no primeiro ano os prejuízos foram fortemente reduzidos, começaram a ganhar-se algumas obras e, também muito importante, conquistaram-se as concessões rodoviárias que se encontravam em concurso: Aenor, Lusoscut Costa de Prata, Lusoscut Beiras Litoral e Alta e Lusoscut Grande Porto. &lt;br /&gt;Dava-se o impulso decisivo para a opção pela diversificação, passando a marcar presença em praticamente  todas as áreas de actividade do sector da construção; e a aposta na internacionalização. Exemplos desta estratégia são as presenças em novas actividades, casos da geotecnia e engenharia de fundações, ou em novas áreas de negócio, como o imobiliário, o ambiente (gestão de resíduos  industriais) e telecomunicações (infra-estruturas), bem como a entrada nos mercados de Macau, Angola e Moçambique. &lt;br /&gt;Hoje, a OPCA continua a orgulhar-se do seu passado mas trilha com reforçado entusiasmo os caminhos do futuro. Um percurso que passa não só por um importante crescimento orgânico – entre 2002 e 2004 o volume de negó­cios aumentou 124%,– mas, também, por fortes investimentos, a partir de 2005, no aproveitamento de oportu­nidades para realizar novas aquisições, caso da Pavicentro (pré-fabricados), das Cerâmicas Aleluia e Viúva ­Lamego, ou, ainda, através do reforço do processo de internacionalização, como aconteceu com a recente aquisição da construtora espanhola Sarrion.&lt;br /&gt;As obras continuaram a ritmo certo desde 1985, permitindo-me realçar entre todas elas – e algumas são notáveis, caso do prolongamento do Aeroporto de Santa Catarina, no Funchal – pelo seu simbolismo e elegância formal a ponte ferroviária de São João, no Porto, bela peça saída do desenho de Edgar Cardoso. Mas será sobretudo o seu confronto com a vizinha velha Ponte Maria Pia, estrutura de ferro desenhada pela ousadia de Gustave Eiffel, que lhe atribuiu uma dimensão simbólica, tornando-se sensível a impressionante evolução tecnológica desenvolvida nos poucos mais de cem anos que as separam. Evolução para a qual a OPCA, com a sua vida rica e atribulada, como aliás o próprio país, tanto contribui. Quer com o idealismo dos primeiros tempos, quer com um pragmatismo mais racional das eras que correm, em que a globalização à escala mundial vem colocando novas metas e novos desafios. Mas, para voltarmos ao engenheiro Álvaro de Campos, o caminho é em frente, já “que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?”. &lt;br /&gt;Olhando da margem estas duas belas formas que decoram o Douro e enriquecem sobremaneira o património portuense e português, é altura de nos despedirmos do Chevrolet onde passeámos à boleia, agradecer a colaboração sensível de Luís Lousada Soares, bom companheiro de viagem, terminando assim este andar às voltas com uma história que, ao fim e ao cabo, é de todos nós. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2098131296795889010-2635790067436630416?l=ddlx.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/2635790067436630416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/2635790067436630416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/2007/05/opca_08.html' title='OPCA'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010.post-526910450850553046</id><published>2007-05-08T08:17:00.000-07:00</published><updated>2007-05-08T08:20:08.287-07:00</updated><title type='text'>ARPAD SZENES</title><content type='html'>&lt;b&gt;Marina Bairrão Ruivo&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Em Novembro de 2004, a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva comemorou o 10º aniversário da abertura ao público do Museu, com uma importante exposição de Vieira da Silva, Vieira da Silva nas colecções internacionais, que deveria ter sido -seguida de idêntica homenagem a Arpad Szenes. Projecto sempre adiado por razões várias, ficou esta “dívida moral” para com Arpad Szenes cuja obra merece uma revisão e um destaque que se impõem. A ideia inicial de uma rigorosa selecção de obras pertencentes a instituições internacionais e colecções particulares foi posta de lado, também pela proxi--midade das exposições comemorativas do cente-nário do seu nascimento (1997) na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – desenho e na Fundação -Calouste Gulbenkian – pintura. &lt;br /&gt;Ao contrário do que acontece com a obra de Vieira da Silva, a Fundação tem um sólido núcleo de obras de Arpad Szenes. Nestas cerca de 2000 peças em diferentes técnicas e suportes que cobrem toda a sua produção, encontramos os seus vários temas recorrentes, os estudos e as obras finais que ilustram o seu poder criativo, numa evolução sempre aliada à qualidade. &lt;br /&gt;A ideia base desta exposição é mostrar um percurso possível, o processo criativo do artista, agrupando por temas obras de diferentes técnicas mas de correspondências -óbvias, independentemente das datas – muito variáveis – em que -foram rea-lizadas, já que Arpad Szenes reto-mou e reformulou temá-ticas em vários momentos temporais. É um olhar diferente da clássica retrospectiva, que revela a sensível qualidade da obra de Arpad Szenes, a riqueza e varie-dade da colecção da Fundação e a apresentação de várias obras inéditas.&lt;br /&gt;Inseparáveis no nosso pensamento como o foram na vida e na pintura, as obras de Arpad Szenes e de Vieira da Silva, ainda que muito independentes e diferentes, são indissociáveis, alimentadas nas mesmas fontes, num convívio diário – durante 55 anos – estimulante e enriquecedor. Arpad Szenes foi o mestre erudito e atento de Vieira da Silva e por ela, voluntariamente, se retirou para segundo plano. Apesar deste retiro, este exemplo de união, marcada pela duração e intensidade, terá o seu desfecho no destino pictórico notável de cada um. A corres-pondência entre pinturas situa-se talvez para lá do ponto de vista formal, residindo num entendimento partilhado da arte, na atitude exigente e nas interrogações plásticas que cada um resolveu à sua maneira. Foi talvez nos anos 30 que as obras de ambos apresentaram mais em comum como a economia de meios ou a mesma gama cromática. Os retratos que um fez do outro são outro importante elo de ligação. &lt;br /&gt;Desde 1930 que Arpad Szenes desenhou e pintou exaustivamente a sua mulher, mas os melhores retratos datam seguramente do período de exílio no Brasil (1940-1947). Calma e silenciosa, concentrada no seu trabalho, Maria Helena foi o modelo ideal, o tema perfeito, conjugando o amor pela arte e o amor pelo objecto. Vieira não posa, é surpreendida, absorta no seu trabalho, envolvida no mistério que seduz -Arpad. Dessa época datam também os desenhos e óleos retratando o casal (Le Couple) que é talvez o primeiro de uma série de temas de eleição que servem de pretexto para investigações plásticas e variações estéticas posteriores (Conversations, a partir de 1945 e Banquets, a partir de 1948). A influência do surrealismo é evidente nas séries temáticas que se seguiram como Cerfs-volants (papagaios de papel), Caparica ou Hommes-Trompettes. A este surrealismo inquieto associa-se a apre--ensão provocada pela sombra da II Grande Guerra que Arpad tenta exorcizar através da ironia.&lt;br /&gt;A estadia no Brasil, de 1940 a 1947, marcou de forma clara a pintura de Arpad Szenes, que se tornou mais íntima e familiar. Para além do retorno à figuração, Arpad alimenta a sua investigação plástica em ilustrações de obras literárias, actividade que lhe garantiu o sustento e que se revelou particularmente adaptada à sua sensibilidade. &lt;br /&gt;Após o regresso a Paris, Arpad Szenes executa inúmeras variações em torno das séries Conversations e Banquets. Depois de uma geometrização e da tendência para a abstração, as formas tendem a aligeirar, a cor a desvanecer. A composição vai dar lugar a uma evocação, numa espécie de suspensão temporal. Num contexto mais abstracto, Arpad Szenes concentra-se nas paisagens imaginadas, metafóricas, nas sensações de luz e na exploração da atmosfera. &lt;br /&gt;Os anos 60-80 são de intensa produção em que a organização lumínica e rítmica rege a sua pintura, lentamente elaborada em longos formatos horizontais ou verticais que revelam uma delicadeza espacial sugerida pela arte japonesa. Os guaches e as temperas tornam-se importantes, sendo as técnicas que melhor traduzem a pesquisa da luminosidade e da sugestão. Estas paisagens imagi-nadas evocam um espaço infinito, estratificado, um espaço sem limites. A cor contribui para a sensação de espaço espiritual, explorando a lumi-nosidade que a pintura evoca: o branco e as suas variações de cinzentos, azuis, ocres ou amarelos. &lt;br /&gt;A obra de Arpad Szenes foi várias vezes referida como silenciosa, evo-cativa, obedecendo a um ritmo interior. Alusivos a sítios ou espaços, os títulos têm um valor sugestivo e reme-tem para sensações de lugares visitados num tempo indeterminado. A pesquisa paciente e solitária deste pintor notável, que cresceu em depuramento e despojamento, revela uma visão do mundo extremamente subtil. Apesar do percurso marginal, da modéstia e discrição que o carac-terizaram, Arpad Szenes não ignorou as vias contemporâneas do seu tempo. Foi por opção e temperamento que se centrou numa via silen-ciosa e interiorizada. Vieira da Silva alcançou maior protagonismo, sem rivalidades – porque Arpad foi também autor de uma obra notável. A relação destas duas pinturas é fundamentada na unidade, numa extrema espiritualidade, cada uma iluminando a outra.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2098131296795889010-526910450850553046?l=ddlx.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/526910450850553046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/526910450850553046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/2007/05/arpad-szenes.html' title='ARPAD SZENES'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2098131296795889010.post-4448375839285004173</id><published>2007-05-02T03:19:00.000-07:00</published><updated>2007-05-04T02:09:10.021-07:00</updated><title type='text'>LVT 5</title><content type='html'>&lt;a name="Topo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Horizonte"&gt;HORIZONTE DE OPORTUNIDADES&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#NovaLisboa"&gt;NOVA LISBOA&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#PauloCaldas"&gt;PAULO CALDAS&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#25Abril"&gt;25 DE ABRIL - FOI COISA BOA PARA A GENTE DO CAMPO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#NaHora"&gt;NA HORA DA MUDANÇA PARA UMA NOVA REALIDADE&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#RioAcima"&gt;POR ESTES RIOS ACIMA&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Castelo"&gt;O CASTELO NO SEU TRONO&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Italiano"&gt;UM ITALIANO EM LISBOA&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#ZecaAfonso"&gt;JOSÉ AFONSO - A GEOGRAFIA DE UMA VIDA&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Santarem"&gt;SANTARÉM&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Horizonte"&gt;HORIZONTE DE OPORTUNIDADES&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;António Fonseca Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;No QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional – estão consignados desígnios estratégicos que visam a superação dos constran­gi­mentos que nos têm impedido de alcançar um patamar de desenvolvimento e de competências que nos coloquem a par das áreas europeias mais desenvolvidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Região de Lisboa e Vale do Tejo, com o apoio dos Fundos Estru­turais e do Fundo de Coesão, queremos que no período 2007-2013 se promovam estratégias e projectos que consubstanciem melhorias evidentes em três domínios de intervenção – o potencial humano, os factores de competitividade e a valorização territorial. A promoção das qualificações profissionais, a promoção do emprego, apoio ao empreendedorismo, inclusão e desenvolvimento social, são algumas das vertentes a que a Agenda&lt;br /&gt;Opera­cional para o Potencial Humano irá dar relevância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estimular a qualificação do tecido produtivo, apoiar a inovação tecno­lógica, apoiar a &lt;br /&gt;renovação do modelo empresarial são rumos traçados na Agenda para os Factores de Competitividade que, para conhecer sucesso na sua implementação, terá de ter em conta um terceiro vector de actuação, e que se prende com a Agenda para a Valorização do Território, que prevê a criação de melhores condições de atractividade para o investimento produtivo, melhores condições de vida para as populações, dotação de equipamentos e infra-estruturas essenciais à qualificação do território.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São estes os instrumentos que nos vão permitir criar condições para que a Região de Lisboa e Vale do Tejo veja reforçada a sua noto­rie­dade e atractividade, por forma a atingir a sua plena integração na economia global e na sociedade do conhecimento. Daí a nossa firme aposta para que em 2013 a Região se encontre mais coesa, e tenha a relevância que merece no contexto europeu, nomeadamente como destino turístico de negócios e de lazer cultural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A qualificação das orlas costeiras, dos estuários do Tejo e do Sado, do Arco Ribeirinho Sul e os novos projectos ribeirinhos de Lisboa – Pedrouços – Dafundo; a zona de Belém e, por fim, Cais do Sodré – Sta Apolónia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ciclo de desenvolvimento terá uma outra “frente” de grandes mudanças previstas para a Região Oeste e Vale do Tejo, com a cons­trução do novo aeroporto da Ota e dos trabalhos para o TGV. O aeroporto vai criar condições para que na sua envolvente se instalem novas actividades produtivas e plataformas de logística essenciais como suporte ao impulso de novos pólos de inovação e a consequente requalificação dos recursos humanos. A título de exemplo podemos falar na instalação, em Abrantes, do Tagus Valley e de unidades de ID, em Santarém, na área de agropecuária e em Alcobaça, na área da hortifruticultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também esta região irá acolher unidades de produção de energias limpas, tais como a energia eólica, a biomassa e biocombustíveis, enquadradas numa visão de preservação dos recursos naturais, de correcção dos erros que criaram situações inacei­táveis para um desenvolvimento sustentado e para a vida das populações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também terão de ser postas em execução novas regras para ­o desenvolvimento urbanístico desta região, preservando não só a agricultura e a produção dos seus produtos de qualidade, mas apostando também na qualidade dos empreendimentos a construir e nas actividades de lazer, adequados à exigência do mercado turístico que se pretende captar e fidelizar numa perspectiva de desenvolvimento sustentável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estas mudanças inadiáveis para o nosso território exigem profun­das alterações nos hábitos culturais, de comportamentos e menta­lidades que até hoje têm impedido maiores progressos na nossa sociedade e regiões. Mudanças que têm de abranger as responsabi­lidades cívicas, institucionais, associativas e empresariais. No sen­tido da “disseminação” de uma cultura e ética da meritocracia e da eficiência organizacional e gestionária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criação de melhores condições de governabilidade para o território e as cidades, e o desenvolvimento de modernas modalidades de governança, envolvendo os cidadãos e as instituições são, também, requisitos fundamentais para o desempenho e o sucesso dos desígnios estratégicos definidos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="NovaLisboa"&gt;NOVA LISBOA&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Fernanda Câncio&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/lisboetas.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;António Sacchetti&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ideia de que a capital está deserta e que não atrai novos habitantes, conti­nuando a perdê-los para as periferias, é, de tão repetida, uma “verdade indiscutível”. E o que sucede com as verdades indiscutíveis é, precisamente, que ninguém as discute. O que tem várias consequências. Uma é que ninguém parece atentar aos sinais que a podem contraditar. Outra é o tardar no arranque de políticas públicas que acompanhem esses sinais. É tempo de fazer reset: as notícias da morte desta cidade podem ter sido muito exageradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Há de cada vez que se fala de Lisboa um estribilho repetido como um mantra, em tom de lamento. Que Lisboa “perdeu muita gente”, que Lisboa sofreu uma ­sangria de centenas de milhar de habitantes nas últimas décadas. Que o centro de Lisboa é um deserto, que a cidade caminha para a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As estatísticas, supostamente, não mentem. Lisboa perdeu, em vinte anos, centenas de milhar de habitantes. Foram, dizem os estudos, para a periferia, para os círculos concêntricos de urbanizações em cadeia que nas últimas décadas cercaram a cidade e fizeram a “Grande Lisboa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há mesmo projecções que garantem que dentro de escassos quatro anos a capital será substituída por Sintra como o concelho mais populoso de Portugal. Destino que, de resto, o Porto já conheceu em relação a Vila Nova de Gaia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém diria tal, é certo, apenas por circular por Lisboa, usar os seus trans­portes públicos ou calcorrear os seus passeios – para qualquer lisboeta ou visitante, a cidade parece cada vez mais cheia de automóveis e gente, cada vez menos pródiga em “lugares para os carros” e em zonas de tranquilidade para os peões, cada vez mais plena nos seus restaurantes, bares e áreas de lazer. Por outro lado, há, indesmentível, a lenta requalificação do centro – o tal sempre tão lamentosamente desértico centro –, os prédios que reganham cor nas fachadas e luz nas janelas à noite, os andaimes aqui, depois ali, depois acolá, as novas lojas, os novos restaurantes, os novos cafés, os “condomínios privados” que enchem as secções de imobiliário dos jornais e vão surgindo em antigos armazéns, conventos, quartéis, ex-“villas populares”, e cuja oferta sucessiva parece corresponder a uma sólida procura de habitação “com requisitos” (leia-se: segurança, piscina, áreas verdes, cachet) na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se sabe, ou pelo menos não é conhecido publicamente, quem são os com­pradores desses empreendimentos. Se eram já habitantes da cidade ou se vêm “de fora”. Se são jovens proprietários da primeira habitação ou gente “de meia idade” que largou a sua morada anterior por outra considerada melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se sabe quantas novas habitações se ofereceram assim, nos tais novos condomínios, e se requalificaram nas chamadas “zonas nobres”, e se ergueram em novos empreendimentos, nos últimos anos, e quantos novos habitantes as ocuparam. Não se sabe se estremecem os números, se acrescentam na contagem. Talvez sejam poucos, demasiado poucos para fazer diferença na sangria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou talvez seja cedo para aferir o virar da tendência que em Lisboa, como em muitas outras cidades da Europa onde a saída para as periferias foi recentemente contrariada por um repovoar dos centros, deverá começar a ser sensível. Afinal, a contagem faz-se pelo recenseamento, e muitos habitantes das cidades mantêm-se recenseados em antigas moradas, não raro nas localidades onde nasceram ou cresceram, muitas vezes a bastos quilómetros de distância. Razão pela qual é difícil certificar o número exacto de habitantes de metrópoles como Lisboa e Porto, onde muitos lisboetas e portuenses eram há cinco, dez, vinte anos bracarenses, escalabitanos, covilhanenses, ou mesmo suburbanos de Alverca, Vila Franca de Xira, Maia. Porque o caminho inverso da sangria também se faz. Também há quem procure a cidade-cidade para morar, vindo das suas franjas. Para não falar dos que vindos de São Tomé, Angola, Moldávia ou Ucrânia, Xangai ou Caxemira, ocupam pensões, quartos alugados, camaratas ou chãos de loja um pouco por todo o lado – mas esses, sabe-se, nunca são contabilizados como “habitantes” nem acolhidos como indício de repovoamento, mesmo se asseguram, com a sua presença, o cosmopolitismo de uma cidade cuja memória convoca os sete mares e a largueza do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os inquéritos de opinião são unânimes em certificar que o gosto de viver nos centros, em zonas com história, com personalidade e alma, é assumido por uma crescente quantidade de pessoas, nomeadamente entre as camadas mais jovens e com mais recursos. Que, para além de apreciarem a arquitectura da cidade consolidada, secular, também rejeitam os longos movimentos pendulares que fazem da existência dos que vivendo fora da cidade nela trabalham um martírio de idas e vindas, de horas e horas no trânsito, de gastos exorbitantes em combustíveis, com a decorrente sobrecarga ambiental e empobrecimento pessoal e relacional. Viver no centro é ter mais tempo para viver, para estar. É ter acesso permanente a todas as ofertas de lazer de uma grande cidade – uma oferta sentida como uma vantagem, mesmo que pouco ou nada desfrutada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;E pur si muove&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe, pois, a apetência para o “regresso” à cidade. E existe também, à vista, uma requalificação e uma repopulação do centro de Lisboa que tem partido sobretudo da inicitativa privada, individual ou empresarial. Em dez anos, prédios, ruas e bairros semidesertos do coração da capital, onde viviam quase só idosos, foram ocupados por jovens. A Baixa, repetidamente apontada como o exemplo mais simbólico da morte do centro, tem sido alvo de um movimento, lento mas assinalável, de recuperação do edificado e de repopulação, com novos habitantes entre os 20 e os 45 anos, um nível cultu­ral e económico médio alto e uma clara paixão pela cidade “velha”. O Chiado é, neste momento, a zona mais cara de Lisboa, disputada pelas imobiliárias. O Bairro Alto anuncia um condomínio privado – mais um – num antigo convento, o dos Inglesinhos (projecto que de resto suscitou celeuma). A zona de São Paulo, de Santos e de Alcântara são objecto de projectos urbanísticos de vários tipos e valências, um dos quais assinado por Norman Foster, todos com uma percentagem importante de habitação. O tempo dos projectos imobiliários exclusivamente terciários para o centro acabou. Os grandes conglomerados de escritórios, as empresas maiores, têm vindo a procurar as zonas de periferia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pouco, dir-se-á. Ainda não se assiste à desejável onda inversa. A Lisboa velha ainda não se transformou numa nova Lisboa, que, encenando no nome o eco das velhas migrações e descobrimentos, ressuscite a imagem de uma cidade dada como morta. Será? Da zona design de Santos aos bares da Bica, da repopulação da Sé e da Madragoa à requalificação da Baixa, prédio a prédio, quarteirão a quarteirão, das lojas e hotéis up-scale da Avenida da Liberdade aos quatro mil euros do metro quadrado de habitação no Chiado, Lisboa antiga mexe, renasce, revive. Está decerto por fazer a contagem e carac­terização dos lisboetas que adormecem e acordam nessa nova velha Lisboa, mas o sentido da escolha, como a escolha do sentido, são claros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que falta, então, não é a vontade de ser lisboeta, de viver em Lisboa, mas a certeza de que Lisboa, a estrutura autárquica, a governação, acolhe e encoraja essa vontade. Que os habitantes do centro não vão continuar a ouvir que não existem e a ser tratados como se não existissem. Que os problemas específicos de um centro sem garagens serão rapidamente tidos em conta no desenho de soluções de estacionamento que não passem por expulsar os peões dos passeios. Que fazer obras num prédio antigo ou construir uma casa de banho num apartamento do século XVIII não seja um massacre de anos em vistorias, papeladas e projectos sobre projectos. Que os cinemas não sobreviverão só nos centros comerciais das avenidas novas, que as escolas não ficarão todas a milhas do centro, que haverá equipamentos para crianças e mercados de frescos no miolo da capital. Que passear um carrinho de bebé na Lisboa velha não seja uma tão grande impossibilidade que Lisboa perca a chance de ser nova a sério, como só uma cidade com bebés pode ser.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="PauloCaldas"&gt;PAULO CALDAS&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Ana Sousa Dias&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/paulocaldas.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Luísa Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O gabinete é formal, com a decoração típica – a fotografia do Presidente da República, a secretária com móveis clássicos, uma mesa de reuniões, muitos papéis, muitos livros, a maqueta de um grande projecto. Quando se sai para a varanda, o amplo panorama explica o entusiasmo do economista que preside à Câmara Municipal do Cartaxo desde 2001, depois de dois anos na vice-presidência. Paulo Caldas, 34 anos, nascido em Moçambique e radicado na lezíria ribatejana desde os três, com uma interrupção para os estudos universitários em Lisboa, diz “esta é a minha terra” com a mesma segurança que terá para falar – muito e muito depressa – ao longo de toda a entrevista. E a “terra” de Paulo Caldas é um município com 25 mil habitantes que se encontra hoje entre os 36 do país com mais receitas do que cobrança fiscal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo Caldas, 34 anos, economista&lt;br /&gt;“Gosto do que faço. Gosto das equipas, gosto do mundo autárquico. Ser autarca é ser um político diferente, muito próximo das pessoas. Temos um contacto directo com os problemas, com as necessidades, com as ambições, com as críticas. Não dá para ir ao café sem ouvir as pessoas e isso é bom, não é? Apanhamos o bom e também aquilo que não gostamos de ouvir. É uma forma nobre de estar na política. Costumo dizer que gosto mais de ser autarca do que político. Neste momento, acho que é uma aprendizagem interessante.&lt;br /&gt;Isto permite-nos idealizar, projectar, conceber, fazer, há aqui um encontro das diferentes realidades, não estamos num só plano. É uma máquina pesada, sendo uma máquina do Estado. A Câmara do Cartaxo conta com 360 colaboradores, é uma grande empresa que tem de corresponder aos seus clientes, aos 25 mil munícipes. Tem de haver um encontro entre a capacidade destes trabalhadores gerirem o melhor possível a empresa, para responderem às necessidades, às ambições e até dar mais aos munícipes, dar-lhes qualidade de vida, puxá-los para aí, esse é o grande objectivo. É interessante ser gestor desta empresa. É ser ao mesmo tempo um gestor social, um gestor político, atento aos pequenos porme­nores porque as pessoas, felizmente, estão cada vez mais exigentes.&lt;br /&gt;Nós temos de dar respostas muito concretas, no arranjo dos jardins, na limpeza das ruas, na mobilidade, na acessibilidade aos sítios públicos e privados, e também para que as pessoas tenham emprego o mais próximo possível. Há aqui um conjunto de realidades que interagem, e é neste todo que o mundo autárquico vive e convive.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Quando, em 1998, chegou à Câmara Municipal do Cartaxo, as infra-estruturas básicas já estavam resolvidas ou ainda era preciso a Câmara iniciar algumas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sessenta por cento das infra-estruturas básicas estavam conso­lidadas. Desde o 25 de Abril até aos dias de hoje, temos dois planos de intervenção na vida autárquica, globalmente. O primeiro é o do “hardware”, o período da consolidação e da estabilidade democrá­tica, dos finais da década de setenta até 1986, ao primeiro Quadro Comunitário de Apoio. Nesse período, as pessoas aprenderam a conviver com uma política e um político próximos de si, de uma forma democrática. De então até 2000, deu-se a consolidação das infra-estruturas fundamentais – ainda estamos a falar do tal “hardware” – o saneamento básico, a água, os caminhos, a electricidade, as estradas arranjadas, os caminhos beneficiados. Era essa a expectativa das pessoas.&lt;br /&gt;Por volta de 2002, entrou-se num plano em que já não importava somente a construção infra-estrutural. As pessoas começaram a pretender e a exigir o seu bem-estar – os parques infantis, os parques municipais, as zonas verdes, instalações para o desporto, o pavilhão desportivo, um centro cultural, escolas modernas, dotadas de novas tecnologias, equipamentos para os mais idosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta Câmara estava preparada para reagir a essas novas exigências?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Batalhámos bastante, houve um quadro preparatório que permitiu que o Cartaxo agarrasse esses desafios. No meu primeiro mandato, conseguimos fazer o Centro Cultural [projecto do arquitecto Diogo Burnay], o estádio municipal, os acessos à auto­‑estrada, começar a projectar as áreas empresariais. Quando vêm para cá morar, as pessoas pretendem ter essa panóplia de serviços.&lt;br /&gt;Em grande parte do país o mundo autárquico foi-se adaptando a esta realidade. Ao contrário do que por vezes as pessoas pensam, ser autarca não é ser simplesmente um fazedor de rotundas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fez alguma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz muitas rotundas, incluindo as dos acessos da auto-estrada, e estamos a tematizá-las: numa delas pusemos uma oliveira, noutra plantámos uma videira – o Cartaxo é a Capital do Vinho. Com cinco mil euros, conseguimos fazer rotundas bonitas e baratas, que têm que ver com a terra, ligam as pessoas à terra, fortalecem e valorizam a sua identidade.&lt;br /&gt;Nós não podemos vender qualidade de vida só com equipamentos sociais. Há uma ligação afectiva que se estabelece, a pessoa sente­‑se integrada e por isso sente-se bem, assim como se sente bem quando vê as ruas limpas, os jardins arranjados, os loteamentos ordenados. E é daqui para a frente que temos de começar a construir as nossas terras.&lt;br /&gt;As estações de tratamento têm de existir, as linhas de água têm de estar valorizadas, tem de haver os equipamentos sociais. O que nos resta fazer? O autarca tem de ser um fazedor de ambições, de concretizações de bem-estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As orientações do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) vêm nesse sentido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vêm. Desde o FEDER tradicional [1986], as necessidades de financiamento para a construção das infra-estruturas básicas e, depois, dos equipamentos sociais, chega agora aquilo a que eu chamo o “software”. Os quadros comunitários de apoio e, agora, o QREN, têm vindo a ser uma adaptação inteligente das necessidades para cada um dos tempos.&lt;br /&gt;Uma autarquia que não tenha apostado nas infra-estruturas básicas vai ter muita dificuldade em financiar-se pelo QREN. Esta será a última oportunidade, porque hoje o que importa é criar centros escolares de “know-how”, de valor acrescentado, apostar na formação, na empregabilidade, e ainda bem. É aí que temos de nos situar. Hoje o que importa é dotar as terras de eixos de inovação e de competitividade, de áreas empresariais modernas. Não são as antigas áreas industriais, hoje isso não faz sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque nos deslocam para as indústrias pesadas, para as logísticas. Precisamos de ter mais: áreas da inovação, parques de ciência e tecnologia, empresas modernas de mão-de-obra qualificada e tecnologia avançada.&lt;br /&gt;Hoje em dia, tal como o próprio QREN configura, um município não pode funcionar sozinho, funciona em intermunicipal. ­A região é um todo. As acessibilidades colocam-nos hoje a 30 minutos de Lisboa. Daqui a cerca de dez anos, estaremos a 15 minutos do aeroporto internacional da Ota.&lt;br /&gt;Temos de pugnar por essa especialização, essa capacidade de os municípios se entenderem entre si para criarem esses vectores de valor acrescentado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que municípios tem esse entendimento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós temos um entendimento básico, nuclear, com os onze municípios da Lezíria do Tejo, esse é o nosso eixo de entendimento funda­mental. O município do Cartaxo – tenho de puxar a brasa à minha sardinha… – está situado no centro de um mundo de três milhões de habitantes, englobando a Grande Lisboa, a península de Setúbal, o pinhal litoral, o Oeste, o Médio Tejo e a Lezíria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual é a vantagem que as pessoas têm em viver aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualidade de vida. E vão ter cada vez mais vantagem porque vamos pugnar por um conjunto de dinâmicas sociais, pela valorização ambiental, pela qualificação territorial, por um ordenamento. Vamos lutar por um aproveitamento da lezíria, reforçar a identidade por exemplo através do turismo rural das casas agrícolas, de actividades ligadas à Rota do Vinho. Há aqui uma panóplia de actividades a reforçar, umas ligadas ao turismo activo, outras ligadas à cultura. No centro cultural temos espectáculos de tanta qualidade como se vê em Lisboa, ligados à Artemrede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos lugares tem o auditório do Centro Cultural?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São 345 lugares, com uma média de 220 por espectáculo, todos os fins-de-semana. Temos uma grande diversidade de públicos porque apostámos uma oferta cultural variada: desde o jazz à ópera, à dança, à música, à cultura popular, às crianças, aos ateliers de formação de jovens, exposições, ao cinema alternativo.&lt;br /&gt;Cada vez mais os autarcas têm de apostar seriamente em afirmar as suas terras como centros de bem-estar, de qualidade de vida. É por aí o caminho. Felizmente, estas apostas vão existindo pelo país fora, independentemente dos partidos: valorização patri­monial como em Óbidos, qualificação e ordenamento territorial e ambiental, como no Médio Tejo, em Abrantes, valorização das margens ribeirinhas, como em Salvaterra, Constância, Vila Nova da Barquinha. Aqui no Cartaxo, com Santarém e a Azambuja estamos a apostar nisso, com a criação do ciclodique – 30 quilómetros de circuito de bicicleta por cima do dique, a ver de um lado o rio e do outro lado o campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E estas opções podem ser financiadas através do QREN?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As autarquias convivem com a opção de aproveitar o QREN para fazer o que os três eixos temáticos configuram, e têm de fazê-lo em rede. Os planos estratégicos das NUTS III [Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos] estão todos a adaptar-se a isso. Os projectos têm de ser exigentes, porque vai haver uma grande selectividade e vão ter de encaixar-se ou na coesão territorial/valorização ambiental, ou na inovação e competitividade, ou na qualificação e empregabilidade.&lt;br /&gt;Na minha opinião, para se prepararem para a existência do aeroporto da Ota e para se adaptarem à influência de uma Lisboa tão próxima, o Oeste, a Lezíria, o Médio Tejo e toda a zona da península de Setúbal e o pinhal litoral, têm de apostar num aspecto fundamental: diferenciação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferenciação em relação a quê? Entre elas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em relação a Lisboa. E entre elas pela diversidade, por aquilo que de complemento podem oferecer – turismo, lazer, qualidade de vida, golfe, cavalos, vinho, gastronomia, hotelaria, património, mobilidade, aquilo que cada uma delas puder oferecer de melhor. Com a Ota, vai existir uma cidade aeroportuária que envolve três milhões de habitantes, um terço da população do país.&lt;br /&gt;A Ota vai permitir puxar o desenvolvimento para norte. Lisboa vai ter dias melhores do que vive hoje, em termos de estabilidade, e tem potencialidades para se configurar como uma boa cidade europeia. Mas pode viver e conviver com toda uma estrutura que a rodeia e que permite complementaridades. Que italiano, que francês, que espanhol não gosta de passear por Lisboa e dar um salto ao Algarve, mas também de ir a Óbidos ou ao Cartaxo visitar a margem ribeirinha do Tejo, ou ir a Scalabis e visitar o património gótico? Há que favorecer este eixo de complementaridades. É assim que uma grande cidade aeroportuária se consubstancia e se valoriza.&lt;br /&gt;O QREN é a base do financiamento de uma estratégia mobilizadora desta natureza, se apostarmos num puzzle feito de diversidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse sentido, as questões que dizem respeito à educação e à formação profissional que importância assumem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os municípios da Lezíria têm a carta educativa devidamente homologada e consolidada. Cada um dos autarcas tem uma noção muito responsável e muito concreta do que vai ser o desafio a 15 anos neste campo, envolvendo creche, pré-escolar, ensino básico e alguns com ensino superior ou profissional.&lt;br /&gt;O Cartaxo tem, em parceria com a NERSANT [Associação Empresa­rial da Região de Santarém], um projecto para lançar o empreen­de­do­rismo no concelho, com a criação de uma escola de pós­‑graduação, em parceria também com o Instituto Superior de Economia e Gestão.&lt;br /&gt;Temos também parcerias com a Escola Profissional de Salvaterra de Magos e com a Escola Superior de Gestão de Santarém. Não descuramos a hipótese, de vir a ter um núcleo de um instituto de ensino superior, no futuro parque de ciência e tecnologia.&lt;br /&gt;Estamos a trabalhar nesta área em ligação com as empresas. Por exemplo a Tagusgás vai localizar-se junto ao nó directo de acesso à A1 e estamos a trabalhar para que, conjuntamente com a EDP e com o ISEG, se faça uma parceria para a criação de formação na área das energias, das fontes energéticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso corresponde a grandes investimentos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos uma pequena grande ambição: até 2020, concretizamos 165 milhões de euros de investimento público, neste concelho. E este valor é multiplicado por cinco se considerarmos o investimento privado. São números que parecem exorbitantes mas que são con­cretizáveis quando tivermos duas áreas empresariais, uma junto ao nó de acesso directo à A1 e outra junto à outra acessibilidade a sul. Há grupos económicos que estão a procurar-nos, graças à nossa centralidade geográfica. Mas esta filosofia exige sustenta­bilidade. Não queremos empresa poluentes, queremos empresas que apostem nas novas tecnologias, na educação e na qualificação, e temos também o factor educativo a ser potenciado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, as linhas do QREN adaptam-se às vossas próprias linhas de orientação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho que as autarquias têm de tomar é esse. E lanço um apelo ao Governo para que aposte numa estratégia de diferenciação da nossa zona, não exaurindo recursos daqui para potenciar ­o desenvolvimento de Lisboa.&lt;br /&gt;Abraçar um desenvolvimento complementar é uma atitude inteli­gente. A capital ganha muito com esta diferenciação e o país também. Porque são três milhões de habitantes servidos com qualidade de vida, e temos condições para isso. Lisboa é uma cidade muito bonita, precisa aliás de ser mais acarinhada, e tem um património notável, a nível europeu. Com a Ota, há a possibilidade de concretizarmos, como poucas cidades na Europa têm, uma cidade aeroportuária, estruturada, com um bom ordenamento das actividades, com coesão territorial, com qualificação, com inovação. E isto é o QREN. Se o QREN, até 2013, nos levar e conduzir esta nossa região grande a este objectivo, devemos congratular-nos. Se não conseguirmos complementar os nossos projectos e criar esta rede regional forte e coesa, aí temos de admitir que não aproveitámos esta oportunidade. O QREN vai por aí. Agora há que decidir, há que trabalhar em conjunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a Ota não se concretizasse, isso seria negativo para a região, do seu ponto de vista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito. Não acredito que houvesse sustentabilidade numa cidade europeia apenas com o Aeroporto da Portela. A prazo, tinha de ser feita uma estrutura com peso internacional, na área dos aeroportos. E coloco a questão ao contrário: a Ota vai ser muito positiva, se for bem aproveitada, para criar uma nova realidade de ordenamento de actividades e de factores de competitividade que têm de ser explorados e potenciados com o que já existe. A massa críti­ca pode transformar em oportunidade aquilo que podia ser uma ameaça.&lt;br /&gt;Seria muito negativo não fazer a Ota, a região tinha a perder com isso. Nós temos exemplos – França, Espanha, Alemanha, Suíça – em que a existência de uma obra pública notável desta natureza, que neste caso até aparece conjugada com o TGV, cria um impacto de desenvolvimento de décadas, com um enorme efeito catalizador.&lt;br /&gt;Infelizmente, os portugueses têm um grande mal que é a inveja, a mediocridade. Mas têm um segundo grande mal, a forma de pensar. Antes de tomarmos uma decisão, temos dúvidas. Com a decisão tomada, temos dúvidas. E depois, quando a decisão está assumida, quando já se investiram centenas ou milhares de contos, infelizmente nós continuamos a pôr em dúvida. Esta mentalidade tem de deixar de existir. Chegou a altura de começarmos a fazer apostas sérias, responsáveis e avançar, fazer.&lt;br /&gt;Neste caso em concreto, não percebo como é que altas figuras da nação, dirigentes partidários e pessoas com grande nível de responsabilidade no nosso país continuam a duvidar da Ota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma alteração substancial da composição social do Cartaxo? Nos últimos 20 anos, tornou-se menos rural e mais terciário. Isso pode ser uma preocupação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está a acontecer. Naturalmente que se for mal trabalhado é uma ameaça e pode ser grave, do ponto de vista do tecido social e dos impactos que isso tem. Mas o Cartaxo está a conseguir, pelo menos por enquanto e espero que também no futuro, conviver bem nesse misto rural urbano.&lt;br /&gt;O Cartaxo hoje tem uma urbanidade maior, há um rejuvenes­cimento claro, temos mais de 30 por cento de população jovem. Isso nota-se na comunidade, nas freguesias, é visível a atracção de casais jovens que não são de cá mas que vêm para cá morar atraídos por vários factores.&lt;br /&gt;Quero que o meu concelho seja um centro de qualidade de vida e que tenha duas coisas: áreas empresariais modernas junto aos acessos, e um desenvolvimento urbanístico de qualidade, em que cada loteamento tenha parque infantil, zona verde, zona de ser­viços com aquilo que a pessoa gosta de ter quando acorda de manhã, beber o café, ir buscar o pão. E ao mesmo tempo garantir uma cércea dominante baixa. Nós temos condições para não estragar isto, porque estivemos até agora fechados, não tínhamos os acessos à auto-estrada, e agora temos de potenciar a qualidade urbanística, para atrair empresas modernas e capazes, com sustentabilidade. Se conseguirmos fazer isto, estamos no bom caminho e isso significa que também aproveitámos o QREN.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consegue equilibrar isso com a parte rural? Apesar de tudo, esta é, como lhe chama, a Capital do Vinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso vai acontecendo naturalmente. Não tocamos na lezíria. Da EN3 para lá, o nosso concelho é verde. Não vou desafectar uma única zona de REN [Reserva Ecológica Nacional]. Ninguém tem autorização para fazer no concelho do Cartaxo um loteamento numa zona que não seja servida por água, luz, rede viária, saneamento e recolha de lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma maior escolaridade, com acesso a mais meios de cultura, com modernidade, as pessoas continuam a querer trabalhar no campo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma forma muito objectiva, 40 por cento dessa ruralidade desaparece. E os outros 60 por cento vão qualificar-se, uma vez que , felizmente, vamos tendo essa capacidade e há massa crítica na nossa terra para isso. São exemplos o aparecimento de casas agrícolas com turismo rural, de quintas que exploram o turismo activo para as crianças, os campos de férias. E também a qualificação da vinha: hoje temos menos vinho mas de muito melhor qualidade. Hoje já se bebe um excelente tinto do Cartaxo. Costu­mo dizer que o vinho do Cartaxo é sexy, porque é um vinho que tem um corpo fantástico, tem 14 graus a 14,5 graus e no entanto é um vinho suave, de qualidade, as senhoras gostam de beber, não sentem que tem 14 graus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maqueta que tem aqui em exposição representa o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o Plano de Requalificação do Parque Central, feito pelo arquitecto Manuel Salgado [Atelier Risco] que está a trabalhar connosco no sentido de converter isto num centro cívico. Temos aqui serviços institucionais – a Câmara, as Finanças, a Polícia, os Correios, o Tribunal – e no mesmo espaço uma área comercial, incluindo o mercado e uma rua de grande comércio que vai ser encerrada ao trânsito, e ainda lugares de lazer como o Centro Cultural, a Praça de Touros e o Ateneu, centro de associativismo. Temos uma panóplia de serviços que é verdadeiramente um centro cívico. Corta-se a estrada nacional, fica uma grande alameda que, tal como todo o centro, fica apenas pedonal, à volta haverá estacionamento à superfície que não conflitua com a via, um parque de estacionamento subterrâneo. Um lugar para andar de bicicleta, com esplanadas na zona central. Este projecto, avaliado em 10 milhões de euros, vai ser concretizado até 2009, no quadro do QREN, se Deus quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acha que a sua gestão mudou alguma coisa no Cartaxo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, acho que trouxe uma visão nova. Um conjunto de factores contribuiu para que o projecto do Cartaxo moderno fosse possível de gerir no meu tempo e da minha equipa. Os quadros comunitários ajudaram, o QREN também. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="25Abril"&gt;25 DE ABRIL - FOI COISA BOA PARA A GENTE DO CAMPO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Amaro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/25abril.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;António Sacchetti&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da conquista de direitos fundamentais, um dos mais importantes impactos da Revolução de Abril de 1974 verificou-se no Poder Local e na sua capacidade de organização para melhorar as condições de vida das pessoas. Foi graças a um Poder Local Democrático que infra-estruturas básicas como a água canalizada, a electricidade e o saneamento chegaram às habitações; que as localidades com menos de 200 crianças puderam ter creches e jardins de infância e outros equipamentos socais. E porque não há “bela sem senão”, ao mesmo tempo acentuava-se nas periferias de Lisboa um fenómeno nascido nos anos 40, 50: a construção clandestina. O poder vivia na rua, não havia casas para todos, o Estado foi incapaz de reprimir um movimento tão alargado. E foi fechando os olhos. Trinta e três anos depois, os habitantes dos bairros que cresceram à margem da lei ainda estão à espera da licença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Aidade não sabe, mas da revolução que lhe mudou a vida lembra-se como se tivesse sido ontem. “Isso que fizeram lá em Lisboa foi coisa boa para a gente do campo. Foi coisa boa para as mulheres. Foi coisa boa sim.” Maria Luísa Mendes tem 61 anos, se à irmã não falham as contas, e sem registo na memória parece que só mesmo o ano em que nasceu. Como poderia esquecer que o trabalho era o que calhava numa região condenada às opor­tunidades sazonais? Consoante a época do ano, o pão era ganho a plantar arroz, a apanhar tomate, a desmoitar... No que calhava, mas sempre no campo. Como poderia esquecer que tinha de andar com os filhos atrás e os vigiava à distância, com as costas vergadas e os joelhos enterrados na água lamacenta e debaixo do olhar ameaçador do capataz? “Se alguém ficava para trás um metro, no dia seguinte já não tinha trabalho.” Como poderia esquecer que muitas vezes saía para trabalhar com o coração estrangulado porque não tinha a quem deixar os filhos, e já eram cinco, senão ao cuidado da filha mais velha, quase tão criança como os irmãos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creches e jardins de infância só em localidades com 200 ou mais crianças. Uma terra como esta, a única que Maria Luísa conhece, tão bem como a palma das suas mãos, não preenchia os critérios exigidos em tempo de Estado Novo. De resto, não era mal exclusivo de Casebres; todo o país vivia carente destes e de outros equipamentos sociais, em especial nos espaços rurais onde a concentração da população era menor que nas cidades. Em 1973, havia em Portugal apenas 16 creches oficiais, sendo que a totalidade, incluindo as particulares, abrangia somente 0,8% das crianças até aos três anos de idade. Não existiam escolas pré-primárias públicas e as privadas cobriam apenas 35% das crianças dos três aos seis anos. Era este o Portugal do Estado Novo, um país que além de “conservador” e “paternalista” era, como o próprio Salazar o caracterizava, “atrasado”, termo que o ditador considerava “mais lisonjeiro que pejorativo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Luísa usufruiu das vantagens de um jardim de infância apenas com o mais novo dos seus filhos. “Já é um homem. Quando ele começou a vir para aqui foi quando eu comecei a ir descan­sada para a jorna.” De repente, vozes de crianças enchem o salão onde todos os dias da semana, a esta hora, Maria Luísa e outros sessenta homens e mulheres se distribuem pelas mesas para almoçar. No grupo de crianças que em fila indiana atravessa o salão e segue em direcção a uma sala ao fundo encontra-se a neta. “Agora é ela que anda aqui. Está nos tempos livres.” Onde há 30 anos se podia ver dezenas de crianças a brincar e a correr de um lado para o outro, agora são os avós de muitas dessas crianças que enchem este espaço, transformado em centro de dia, creche e jardim de infância, e também ATL para os do ensino básico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criação de equipamentos sociais teve repercussões imediatas. Por isso e muito mais é que Maria Luísa não se cansa de dizer que a Revolução dos Cravos “só trouxe coisas boas”. Além de liberdade, e não apenas de expressão, da formação de partidos políticos, da realização de eleições livres, de uma nova Constituição, do direito das mulheres ao voto e da conquista de outros direitos fundamentais, pode-se dizer que um dos mais importantes impactos do 25 de Abril de 1974 verificou-se ao nível do poder local. Foi graças a um poder local democrático – as autarquias foram constitucional­mente consagradas em 1976 e a democracia local foi inaugurada no ano seguinte, com a realização das primeiras eleições autárquicas – que se dotou o país não só de equipamentos sociais, como também de infra-estruturas básicas: rede de água, saneamento, trata­mento de lixo, electricidade. Naquela altura quase 50% das casas não tinha água canalizada e em mais de metade não havia electricidade; em 1970, apenas 58% dispunha de esgotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca o país em regime democrático terá vivido num “estado de graça” como o que se verificava então. Nenhuma outra questão gerou tanto consenso como esta. Todos os partidos entretanto formados estavam de acordo que fazer chegar a água às torneiras das casas era uma necessidade. A melhoria das condições de vida das pessoas, acabadas de sair de um regime repressivo que durou 48 anos, não era susceptível de conflitos. Já a instalação de equipamentos sociais, por exemplo, embora igualmente necessária, não reuniu tanta concordância como as infra-estruturas básicas. Inclusive, entre a própria população. Nas zonas onde era mais ­gritante a ignorância e o analfabetismo – quatro anos antes da mudança de regime, 33,6% da população era analfabeta –, a resistência era mais acentuada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salete Moura é a educadora de infância que na altura seguiu este processo em Casebres e nas localidades de Alcácer do Sal e Sesimbra e lembra-se das dificuldades que encontrou, por exemplo, em Santa Susana, onde as pessoas foram levadas a Lisboa, à C. Miranda, para escolherem os materiais de alguns equipamentos escolares. “Queriam materiais de gente rica, que pobres já eles eram e estavam fartos. Escolheram tudo em plástico: baloiços, escorregas, mesas, cadeiras. Havia coisas tão bonitas e adequadas para as crianças em madeira e em verga, mas isso era coisa de pobre, diziam, isso já eles tinham.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Casebres, o processo foi mais pacífico. Maria Luísa, antes de se render aos evidentes benefícios, também desconfiou. “A gente na altura tinha outro pensar. Não estava acostumada a deixar os meus filhos com raparigas novas. Levava-os comigo, ou ficavam com a minha mais velha... Também calhava deixá-los numa vizinha mais velhota... ”. Era habitual as crianças ficarem à guarda de mulheres mais velhas ou doentes, mesmo que do ponto de vista pedagógico e à luz dos conhecimentos já de então não fosse o mais adequado. Só que a ignorância reinava em muitas localidades, tornando fértil a ideia de que as crianças “não precisavam de educação, precisavam era de quem mandasse nelas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terra, todos queriam creche e jardim de infância para colocar as suas crianças, mas não foi com facilidade que aceitaram as “modernices” pedagógicas das “doutoras” que aqui se deslocavam ao serviço da Segurança Social. Como não havia educadoras de infância suficientes, as “doutoras” davam formação às raparigas. Augusta e Odete ainda hoje são auxiliares de educação nesta ­creche e jardim de infância, que na altura em que aqui começaram a trabalhar tinha 80 crianças e hoje esse número está reduzido a apenas 13, das quais três até aos três anos e dez dos três aos cinco anos. Augusta tinha a seu cargo as da creche e não consegue falar dos seus bebés sem saudade. Muitos abalaram de Casebres, “estudaram, foram para Lisboa, para Setúbal, tiraram cursos, ficaram por lá. A vida do campo não interessa aos jovens”. Ao seu filho, o que tem o nome numa folha de papel amarelada e dobrada em quatro que Augusta tira de uma gaveta e de que não consegue desfazer-se por ser o único registo com os nomes dos primeiros bebés que teve a seu cargo, pelos vistos interessa. Ainda não tem 30 anos e escolheu viver do que a terra cria. “Está com o pai na agricultura.” Antes de guardar o papel escrito à mão a tinta de lapiseira, aponta: “Este é o do meu filho.” Pedro Miguel, o último de uma lista de 20.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem vê hoje Augusta e Odete em actividade – é hora de almoço também para as crianças; comem o mesmo que os idosos: carne de porco assada com puré ou arroz e salada de alface – custa visua­lizar como era há 30 anos. As crianças hoje estão confinadas a duas pequenas salas, uma para os miúdos da creche, outra para as do jardim de infância e aqui fazem tudo, actividades, refeições, sesta... “São os tempos, menina. Já não há muitas crianças por aqui porque também não há muitos casais jovens que tenham cá ficado. Partiram. Mas isso não é coisa de agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Odete refere-se ao movimento migratório “por volta dos anos oitenta”, quando as terras “voltaram para as mãos dos patrões e foram aban­donadas e deixou de haver trabalho na agricultura”. “Antes não, continua Odete, “a seguir ao 25 de Abril e até ao princípio dos anos oitenta, o povo agarrou-se mais à terra, cultivava os campos... As pessoas estavam animadas, era como se trabalhassem para elas.” A Reforma Agrária e a Lei de António Barreto tiveram expressão apenas no Alentejo, mas quem vivia nas localidades vizinhas “ou nasceu lá ou descende de alentejanos” e por isso não é estranho que as implicações da Reforma Agrária estejam presentes na memória de quem habita em Casebres ou em outras zonas rurais um pouco mais acima. O investigador em sociologia rural, Joaquim Gil Naves, do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa), confirma que “houve de facto uma intensificação do trabalho da terra por parte dos assalariados rurais, que passaram a trabalhar num sistema de cooperativas organizadas. Com a modernização tecno­lógica e a substituição da mão-de-obra por máquinas, que se acentua na década de oitenta, deixa de haver salários na agricultura e torna-se impossível viver com pequenas parcelas agrícolas”. Isto no Alentejo. No resto do país eram outras as mudanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A construção clandestina não foi consequência directa da Revo­lução de 25 de Abril de 1974 – “o loteamento ilegal constituiu uma das principais formas de crescimento urbano em Portugal a partir dos anos sessenta” -, mas ganhou maior expressão na década de setenta. Num artigo publicado em 1985 no 3.º número da Sociedade e Território, revista de estudos urbanos e regionais, os investigadores Luis Bruno Soares, António Fonseca Ferreira e Isabel Guerra apontam como factores principais na origem do fenómeno a “cen­tralização do planeamento urbanístico e a rigidez do processo de licenciamento, a escassez e elevado custo da promoção legal o desfasamento, em termos de modelo de habitat, relativamente às necessidades e aspirações da população”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre a lei e a moral, prevalecia a moral. A moral era mais forte e não tão susceptível de contornar como a lei. José vive há 34 anos em Fernão Ferro, um dos maiores bairros clandestinos da Área Metropolitana de Lisboa (AML), numa rua ainda por alcatroar e numa casa ainda sem licença. Sabe que não vive situação única em Fernão Ferro, mas porque não esqueceu o dia em que “a GNR veio cá e me deitou tudo abaixo”, o medo da retaliação continua presente e por isso não quer ser fotografado. No entanto, como Josés há muitos, o nome não se importa de dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lei não o deixava construir, mas a sua moral estava acima de tudo. Proteger os filhos do frio, dar-lhes um tecto para dormir era mais forte do que qualquer documento legal. Se preciso fosse comprar uns tijolos e um bocado de madeira para acrescentar um quarto, nada o impediria, mesmo que depois a obra fosse derru­bada pelos homens de farda e a cavalo. Era jovem quando se instalou com mulher e três filhos, o mais novo com cinco meses, no bairro. Fernão Ferro porque sim, “podia ser outro lugar qualquer”. É dos que fugiram da falta de trabalho no campo e da clausura das grandes herdades alentejanas, pouco antes da Revolução dos Capitães, para procurar um emprego na construção civil e um salário fixo no fim do mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa “levou” acrescentos. Da construção inicial, térrea, com uma sala pequena, cozinha, dois quartos e casa de banho exterior – onde hoje guarda algumas ferramentas que utiliza na horta –, resta quase tudo, menos o “WC”, que quando a poupança chegou tratou de a gastar numa casa de banho dentro de casa. “Abri paredes, roubei terra ao quintal e fiz esta. Está completa, tem banheira e bidé.” Para os lados não podia crescer para além do tamanho de uma casa de banho, por isso foi aumentando os metros quadrados em altura. O piso de cima ainda é da cor do cimento e destoa da do rés-do-chão, branca, a precisar de segunda demão. Atrás, uma horta com um limoeiro carregado de frutos, uma laranjeira, uma parte de terra onde daqui a 20 dias rebentarão plantas e daqui a três meses se tirarão batatas. A um canto, salsa e coentros, que alentejano que se preze gosta da comida bem aromática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José é exemplo dos casos retatrados pela socióloga e professora do ISCTE, Isabel Guerra, nos seus estudos sobre o fenómeno da cons­trução clandestina. Para a investigadora, “o modelo clandestino adequa-se ao perfil da população rural”, apontando como principal indicador “o desejo de ter uma casa térrea com jardim à frente e horta atrás”. É o “modelo de ruralização” expresso pela posse da propriedade, por um lado, e pelo investimento de património para os filhos, por outro, o que “permite uma segurança que o arren­damento não dá”. “Há um perfil rural na construção clandestina, que é aquilo a que chamo ruralização da cidade, pelo menos em algumas zonas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Habitações ilegais ou “formas marginais de implantação urbana” (bairros de barracas e construções precárias, sobretudo) já existiam nos anos 40 e 50, e na década de sessenta já eram pagas à multa, o que “significa que era possível subornar um GNR ou o fiscal da câmara”, mas foi no pós-25 de Abril que começaram a surgir como cogumelos os edifícios e as moradias sem licença, por razões que Isabel Guerra identifica como circunstanciais: “O poder estava na rua e o Estado não teve capacidade de desencadear acções repressivas contra um movimento tão alargado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Estado Novo, a repressão era real: “Sei de imensos casos em que os bulldozers da câmara chegavam lá e sem dó nem piedade demoliam as casas. Entre a população havia a ideia de que se se pusessem lá dentro com os filhos ninguém se atreveria a mexer num tijolo, mas não era verdade, eles tiravam as pessoas e destruiam.” Acresce que a repressão tinha sustentado um regime de 48 anos e talvez por isso as câmaras municipais não tenham tido “coragem” de reprimir a “anarquia” que se instalava no parque habitacional. “As autarquias acabaram por fechar os olhos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros bairros clandestinos surgiram “não só na periferia de Lisboa mas também na de áreas industriais como Barreiro e Setúbal, ou de cidades do interior, como Évora”, predominantemente como habitações de aluguer (lê-se no artigo “Urbanização Clandestina na Área Metropolitana de Lisboa”, publicado na revista Sociedade e Território, de Julho de 1985). De 1974 a 1976, houve uma forte intervenção estatal e promoção cooperativa (nas áreas urbanas, através do Programa SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local). Acresce que o problema da falta de habitação e o crescimento dos bairros de barracas agravou-se na AML a partir de 1975, e Oeiras é exemplo disso, com o aumento do fluxo migratório prove­niente da descolonização das ex-colónias. Durou anos a instalação em condições precárias de novas famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de 1978, a construção clandestina ganha um novo impulso. No mesmo artigo da Sociedade e Território, os autores apontam esti­mativas: “No período de 1970/81 terão sido construídos, em Portugal, cerca de 270 mil fogos não licenciados, a um ritmo médio anual de 25 mil habitações, representando 42% do total da construção habitacional.” No caso da AML, nos concelhos de maior pressão urbanística, “estima-se que nos últimos anos” – refira-se que o artigo é de 1985 – “a construção marginal represente mais de 50% da construção total”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernão Ferro é um desses bairros. José construiu aqui casa para “fugir do fim de mundo” alentejano. Outros habitantes do bairro, curiosamente, vieram para Fernão Ferro para fugir da “confusão de Lisboa”. Foi o caso de Alfacinha, Etelvino, Jorge e Raposo. Encontrei­‑os na sede da Associação de Reformados Pensionistas Idosos de Fernão Ferro, em animada conversa acompanhada de um guloso atum com salsa e pão. O lanche acabou primeiro que a conversa, prolongada quase ate à “janta”. O primeiro do grupo a levantar moradia no bairro foi o mais velho, Alfacinha, hoje com 84 anos e uma agilidade “de fazer inveja à malta nova”. Tinha 40 anos quando se mudou com a mulher e a filha para cá e nessa altura, lembra, “não havia casas ao redor”; estava afastado do centro e parecia ter encontrado o sossego que procurava quando se foi embora de Lisboa. “Só ouvia os passarinhos e o vento que abanava o pinhal”. A vizinhança começou a surgir, e com ela outros sons, depois da Revolução de Abril de 1974, que deu nome a uma das ruas com que a casa faz esquina. Está alcatroada mas a outra, a Rua da Liberdade, é de terra e cascalho, como muitas em Fernão Ferro. A população acusa a anterior direcção da Associação de Moradores, que “recebeu o dinheiro” e não fez a obra. De Alfacinha “meteu ao bolso quatro mil contos na moeda antiga e, oh, onde está o alcatrão?” Nos dias de muita chuva “é para aí uma enchurrada de lama. Dinheiro meu não tornam eles a ver”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para este ex-mestre dos barcos da Transtejo, onde esteve “42 anos ao serviço”, o 25 de Abril não foi uma Caixa de Pandora. “Há gente que se queixa mas é de barriga cheia. Não tenha dúvidas de que a vida melhorou. Dantes era uma desgraça, não se podia dizer nada porque não se sabia se a pessoa do lado era bufo. Tinhamos que ter muito cuidado. E mesmo em relação ao dinheiro, há mais do que naquele tempo. Era uma miséria, menina, nem queira saber.” O amigo Raposo reconhece benefícios, mas gosta é de falar dos “pontos fracos”, que para ele foi a “facilidade com que os patrões passaram a despedir os funcionários”. Alfacinha interrompe o vizinho: “Este bairro só começou a crescer a partir daí. Quando se deu o 25 de Abril, isto era só mato e pinheiros.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alfacinha tem hoje duas casas no bairro e nenhuma está licenciada. A burocracia talvez seja o único “senão” que não compreende que exista depois de “um acontecimento tão importante como o 25 de Abril”. “É só papelada. Mandei os papéis todos para a Câmara, tenho tudo pago, tudo em ordem e nada... a minha situação conti­nua na mesma.” Da Câmara Municipal do Seixal, o vereador respon­­sável pelo Urbanismo, Jorge Silva, tenta justificar: “Muitos dos munícipes, por dificuldades económicas, mantêm as suas constru­ções por licenciar, usufruindo do Estatuto de Manutenção Tem­po­rária e Usufruto das Infra-estruturas.” A atribuição deste estatuto pela autarquia tem como principal objectivo “dar oportunidade aos munícipes de reunirem condições para procederem à regularização da sua habitação”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, afinal, quantas habitações tem Fernão Ferro? E quantas por licenciar? A resposta, o vereador não tem onde a ir buscar. A razão está na “complexidade de uma zona de reconversão urbanística” como esta. “É uma freguesia caracterizada por uma multiplicidade de situações em constante mutação, que implicariam uma actua­lização diária e controlo minucioso da tramitação de milhares de processos para se ter conhecimento de qual o número de habitações existentes e o número de habitações que se encontram por licenciar, situação que tecnicamente é impossível de sustentar.” Com 84 anos, Alfacinha ainda não perdeu a esperança de morrer numa casa legalizada, “com tudo conforme a lei”. E no seu caso, garante, não se pode apontar como motivo as “dificuldades económicas”.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="NaHora"&gt;NA HORA DA MUDANÇA PARA UMA NOVA REALIDADE&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Pedro Almeida Vieira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/agricultura.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Maurício Abreu&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A região do Oeste e Vale do Tejo é uma das principais regiões agrícolas de Portugal, mas a maior competitividade e liberalização deste sector a nível internacional colocam agora a necessidade de reconversões e maior aposta na inovação. Se isso não acontecer quase cem mil hectares de solos agrícolas estão em risco de abandono, provocando o desemprego de cerca de vinte mil pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;As estatísticas teimam em mostrar um cenário sombrio para a agricultura nacional. O embate no sector agrícola português decorrente da entrada do nosso país na União Europeia tem sido particularmente danoso, e isso mesmo se constata na quase generalizada regressão da área agrícola e das produções nas principais culturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, entre 1990 e 2005 apenas se registaram, a nível nacional, aumentos nas produções de azeite, tomate e beterraba. De resto, o cenário é de diminuição generalizada – por vezes superiores a 50% –, designadamente na superfície cultivada e das produções no trigo, milho, centeio, arroz, aveia, cevada, feijão, grão-de-bico, batata e tabaco. Eis uma consequência das políticas agrícolas comunitárias que “obrigaram” o país a abandonar muitas zonas agrícolas, por via da perda de competitividade sobretudo das pequenas explorações. O país, que até aos anos 70 do século passado ainda era maioritariamente rural – quer a nível populacional quer de mão­‑de-obra –, está agora a alimentar-se sobretudo de produtos vindos do estrangeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As regiões do Oeste, da Lezíria do Tejo e do Médio Tejo não fogem a este quadro, embora em muitos casos estejam a sofrer em menor grau os efeitos da regressão da agricultura em Portugal. Em todo o caso, em alguns indicadores é evidente a sangria, sobretudo nas regiões do Oeste e Médio Tejo. No primeiro caso, durante os anos 90, verificou-se uma redução de 42% e 23% no número de explorações agrícolas e na área cultivada, respectivamente. No segundo caso, as diminuições cifraram-se nos 41% e 23%. Em relação à Lezíria do Tejo, a evolução foi mista: a área agrícola aumentou quase 20%, mas verificou-se, em simultâneo, uma redução de cerca de nove mil explorações, indicando assim que foram os pequenos e médios agricultores que acabaram por ser os mais afectados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As consequências deste fenómeno de regressão também se fizeram sentir, obviamente, no emprego agrícola. No Médio Tejo apenas cerca de 2,5% da população activa vive agora do trabalho da terra. Na Lezíria do Tejo – uma das regiões mais tradicionalmente agrícolas do país – já pouco ultrapassa os 10%, pouco superior àquela que se dedica à construção civil. Na região do Oeste, a redução nas culturas vegetais tem sido compensada por uma maior aposta na pecuária, sobretudo ao nível da suinicultura e da avicultura, bem como em toda a pujante indústria de rações. Nesta pequena zona do país existem, actualmente, 36% das aves e 33% dos suínos do país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, o reverso da medalha faz-se sentir a nível ambiental. Por exemplo, nos municípios do Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Sobral de Monte Agraço e Alcobaça existem mais porcos do que pessoas. E face à grande carga orgânica dos esgotos das suiniculturas, só os porquinhos de Alcobaça representam uma poluição equivalente à população humana de Lisboa! A degradação de algu­mas das linhas de água da região Oeste é, aliás, uma evidência que, a ser resolvida, implicará necessariamente o encerramento de algumas destas suiniculturas, sobretudo as de menores dimensões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Avillez, professor do Instituto Superior de Agronomia e coordenador da componente agrícola do Plano de Ordenamento do Oeste e Vale do Tejo (PROT-OVT), refere que a nova realidade desta vasta região não mostra necessariamente uma estagnação. “Existe, em certa medida, uma redução das culturas de carácter mais extensivo, que se transformaram em prados, mas as produtividades melhoraram e intensificaram-se algumas culturas”, salienta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste aspecto, Francisco Avillez salienta como factos positivos, no Oeste, a componente pecuária, a par dos pomares de pêra­‑rocha, dos produtos hortícolas em estufas e do vinho. No caso da Lezíria, com culturas de carácter mais extensivo – por via também da maior dimensão das propriedades – de milho, beterraba, hortícolas, vinha e também a produção de gado, neste último caso em complemento com o montado, sobretudo na zona de Coruche e Chamusca. Já em relação à zona do Médio Tejo, o cenário parece ser menos atractivo, salientando-se sobretudo a pequena policultura e a floresta, se bem que os fogos dos últimos anos tenham retirado importância económica neste sector.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na opinião de Francisco Avillez, o grande desafio para os próximos anos na agricultura desta região é encontrar estratégias para acompanhar as necessidades de um mercado cada vez mais liberalizado. Por isso mesmo, o principal objectivo da sua colaboração no PROT-OVT tem sido traçar cenários possíveis para o futuro. Mas tendo sempre em consideração as especificidades de cada zona agrária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, face à conjugação de vários critérios, foram já criadas sete zonas homogéneas, a saber: concelhos agrícolas do Oeste Litoral (Bombarral, Caldas da Rainha, Lourinhã, Óbidos, Peniche e Torres Vedras); e do Oeste Interior (Alenquer, Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço); concelhos florestais do Oeste (Alcobaça, Cadaval, Nazaré e Rio Maior); concelhos agrícolas da Lezíria (Almeirim, Alpiarça, Azambuja, Cartaxo, Golegã e Salvaterra de Magos); concelhos agrícolas do Bairro (Alcanena, Entroncamento, Torres Novas e Santarém); e concelhos agro-florestais da Charneca (Benavente, Chamusca e Coruche). Em cada uma destas sub-regiões serão definidas estratégias articuladas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para este responsável, nestas sub-regiões, a evolução futura da agricultura, e o seu sucesso, vai depender fortemente da dimensão económica das explorações e da dependência que cada um dos sistemas agrícolas em relação às políticas agrícolas em vigor, quer ao nível da União Europeia quer ao nível da Organização Mundial do Comércio. E a palavra de ordem será adaptar para sobreviver e aumentar a competitividade. Com efeito, o progressivo desmantelamento das medidas de suporte de preços de mercado, implicou que a nível comunitário os preços – que até há pouco tempo eram “protegidos”, através de subsídios à produção – passassem progressivamente a aproximar-se dos preços mundiais. Ou seja, a competitividade tornou-se mais feroz. Em suma, deixou de ser rentável produzir apenas para receber o subsídio. De acordo com os estudos no âmbito do PROT-OVT estima-se mesmo que cerca de 22 mil explorações ocupando quase 100 mil hectares – e que empregam um pouco mais de 20 mil pessoas – têm a sua sustentabilidade económica ameaçada por via destas novas políticas agrícolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste novo cenário, a única escapatória para as unidades de explo­ração com menores produtividades, por via de condicionalismos da própria fertilidade dos solos, passa a ser aproveitar os apoios ambientais. “Muitas zonas, sobretudo na charneca, têm uma valia importante ao nível da conservação, com a componente agrícola, pelo que será interessante apostar nesse sector”, salienta, acrescentando que “isso não significa um abandono agrícola, pelo contrário”. Outra solução será a agricultura biológica, um nicho que se torna cada vez mais atractivo, se bem que com regras muito exigentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto às culturas tradicionais, aquele responsável considera que existem boas condições de sobreviver num mercado internacional competitivo para as culturas hortícolas, frutos, vinho, azeite e a pecuária agregada à componente ambiental. Porém, em alguns casos, haverá necessidade de reformular processos. “Por exemplo, o vinho da zona do Oeste tem dificuldades de se livrar de um ‘rótulo’ de má qualidade, porque até agora a sua qualidade tem-se genericamente vindo a degradar e a sua produção é sobretudo para exportação em mercados pouco atractivos, como Angola.” Por isso, poderá haver necessidade de reconversões de castas ou, simplesmente, a alteração de culturas em zonas actualmente ocupadas pela vinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo o caso, os estudos do PROT-OVT estimam que, no futuro, a viabilidade está assegurada em 257 mil hectares distribuídos por 27 mil explorações, que empregam cerca de 39 mil pessoas. Porém, num mercado bastante instável – ou melhor, em que as leis da oferta e da procura se modificam rapidamente –, uma cultura desfavorável economicamente pode passar a ser favorável nos anos seguintes. Exemplo disso passa-se com o milho. “Estava a atravessar uma fase complicada, com os preços baixos que impli­cavam uma paulatina redução da área de cultivo, mas isso modificou-se com a possibilidade que se abriu com a produção de bioetanol”, salienta Francisco Avillez. Esta nova forma de combustível automóvel – que será obrigatório introduzir em 10% na gasolina e gasó­leo dentro de poucos anos – acabará por ser a tábua de salvação para esta cultura. “Não só mantém, em princípio, os preços mais elevados do que anteriormente, como pode garantir um abastecimento de matéria-prima nacional no caso de se optar por criar unidades de produção de bioetanol em Portugal”, advoga Francisco Avillez, referindo que, nessa situação, se poderia destinar 25 mil hectares de cultura de milho por ano nesta região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro sector agrícola que também atravessa agora um melhor momento é o arroz, sobretudo cultivado no vale do Sorraia, que tem estado a beneficiar de um aumento dos preços da ordem dos 50% em relação aos anos anteriores. “Esta foi uma agradável ­surpresa, derivada da redução da oferta a nível internacional, caso contrário estar-se-ia a atravessar problemas”, diz Francisco Avillez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, nem tudo serão rosas, pois existem culturas que poderão, com a recente liberalização do sector agrícola e a redução dos subsídios comunitários, atravessar por problemas de sustentabilidade económica. O caso mais evidente passa-se com o tomate, cuja indústria de processamento de concentrado está sobretudo situado na zona do Ribatejo. Como oito das 11 fábricas nacionais de tomate se situam na região do Ribatejo, Francisco Avillez teme que, perante as actuais condições impostas pela União Europeia, apenas duas possam ser competitivas. Com efeito, se é certo que agora existe terreno disponível para aumentar a produção de tomate – o que antes não era possível aproveitar, por via das quotas impostas pela União Europeia –, o fim dos subsídios implicará um agravamento dos custos de produção. E as indústrias não terão possibilidades de receber o tomate de zonas com menor rentabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paralelamente a estas questões, um dos aspectos que o PROT-OVT também terá de equacionar relativamente à componente agrícola é a forma como se fará a gestão das zonas actualmente classificadas como Reserva Agrícola Nacional (RAN). Ou seja, saber se haverá “flexibilidade” para desanexar algumas destas áreas alocando-as a usos não agrícolas – como, por exemplo, turismo ou mesmo construção de habitações em espaço rural – ou se se man­terão inalteradas independentemente de possuírem, actualmente, uso agrícola. Esta é, aliás, porventura a questão mais polémica a ser dirimida na fase de aprovação deste plano.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="RioAcima"&gt;POR ESTES RIOS ACIMA&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Maia de Almeida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/constancia.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Maurício Abreu&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Região de Turismo do Ribatejo é atravessada por essa grande artéria fluvial chamada “Tejo”, ponto nevrálgico de um território pulsante de água. Barragens, rios, ribeiras, valas e açudes dão vida a uma paisagem que concilia o verde do Norte com a planura do Sul, onde a elegância das grandes casas agrícolas ainda impressiona. O Tejo já não é estrada para varinos e fragatas, mas faz crescer a oferta de propostas de turismo de lazer e de aventura. São alguns dos novos interesses da Região de Turismo do Ribatejo, assim os entende o seu presidente, Carlos Abreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Há 22 anos que está à frente da Região de Turismo do Ribatejo. Que peso tem hoje aqui o turismo, em relação aos outros sectores económicos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turismo é extremamente importante e poderá vir a ter um papel preponderante no desenvolvimento integrado da região. O que acontecia, dantes, é que havia um potencial estagnado ao nível das infra-estruturas e do aproveitamento dos recursos existentes. Não nos podemos esquecer de que o Ribatejo é uma região predominantemente agrícola e vinícola, e era nestas áreas que se apostava. Ora, o turismo tem que abrir portas, é uma actividade global e interactiva com outros sectores… Aqui, isso não acontecia muito. Quando nós quisemos avançar com as Rotas da Vinha e do Vinho tivemos alguns problemas. As pessoas consideravam que iam abrir a sua quinta a estranhos, e essa mentalidade caracterizava todo o Ribatejo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda é assim. O programa das Rotas do Vinho é um caso claro de uma boa ideia subaproveitada, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não funciona. Pelo menos, não funciona na totalidade. Funciona bem em meia dúzia das vinte e tal ou trinta casas. Há uma falta de associativismo muito grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as pessoas não sabem disso. Só sabem que vêem as indicações na estrada, chegam aos sítios e estão fechados, têm que fazer meia volta para trás…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isso mesmo que acontece. Nós, no início, demos as condições todas, tivemos até cursos de guias para acompanharem as visitas, mas realmente não serviu de nada. Há uma falta de associativis­mo e de interesse dos próprios produtores, de uma forma geral. É uma pena, porque era um projecto válido e que podia ser muito abrangente, chamando à volta do vinho toda a vertente cultural, paisagística, arquitectónica, gastronómica… Infelizmente, não funciona assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando atrás. Estava a falar desse “potencial estagnado” que encontrou no Ribatejo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. E aqui também é preciso entender que as autarquias, cujo papel é fundamental no desenvolvimento da actividade turística, estiveram essencialmente preocupadas com a satisfação das suas necessidades primárias. Até ao 25 de Abril, estávamos carenciados das estruturas básicas – a água, a luz, os arruamentos, os esgotos… – e as câmaras gastavam todos os seus parcos orçamentos aí. A partir da década de 1980, com a admissão à CEE e os vários projectos que daí resultaram, as câmaras começaram a sentir que a actividade turística era extremamente importante. Apesar de ainda hoje quererem tudo para a sua terrinha, houve uma vontade muito grande e um espaço mais amplo, com uma massa crítica maior, e apareceram as regiões de turismo. Hoje, no Ribatejo, o turismo já não é um parente pobre dos outros sectores económicos. Há todo um potencial para o mercado interno. Não nos podemos esquecer de que estamos às portas de Lisboa, o maior mercado emissor de turistas. Eu sempre defendi esta tese: temos que ser alternativa às zonas de Cascais, do Estoril, de Sintra, que já estão bastante saturadas. Como? Através das actividades de lazer, do património, da gastronomia, dos vinhos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Justamente. Gostava que sintetizasse os pontos fortes da Região de Turismo do Ribatejo. O que é que define e diferencia a sua identidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para já, é uma região que peca por não ter o grande produto nacional, que é o mar e a praia… Depois, associa-se muito o Ribatejo à lezíria, ao campino, ao cavalo e ao touro. Isso faz parte da nossa identidade, mas não é só o que nos interessa. Temos todo um património muito rico, e cito apenas dois centros históricos que foram muito bem recuperados: Abrantes e Santarém. Mas temos outros pontos muito importantes, desde a Igreja da Golegã ao Museu dos Patudos, em Alpiarça. Outro produto que nos diferencia é o cavalo lusitano, um grande atractivo para uma classe média­‑alta. Toda a experiência da Golegã, com as infra-estruturas que criou para o turista, ou a da Companhia das Lezírias, só para falar nos dois pólos mais forte, são fundamentais. Temos a gastro­nomia ribatejana, sobretudo a gastronomia ligada ao rio. Começamos a ter muito o turismo de lazer: os desportos radicais e de aventura, que começam a aparecer em focos muito importantes. No turismo religioso, apesar de sermos esmagados por Fátima, não podemos esquecer o Santuário do Santíssimo Milagre, que traz milhares de turistas a Santarém: italianos, polacos, irlandeses, americanos… Se conseguíssemos trabalhar o turismo religioso em ligação com Fátima seria bom, mas, por enquanto, ainda não acontece isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece-lhe que a recente criação do PROT – OVT (Plano Regional de Ordenamento do Território do Oeste e Vale do Tejo) vai ser favorável para o Ribatejo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desculpe começar por aqui, mas, realmente, todos os governos que entram dizem que há regiões a mais. Eu nunca disse que havia a mais ou a menos, acho é que temos que saber entender­‑nos e falarmos uns com os outros. Infelizmente, isso às vezes não acontece, por questões político-partidárias, o que é uma estupidez. Neste momento, o governo está a encetar todo um conjunto de reformas ao nível da Administração Pública. Falando do PROT: nós estamos neste momento à beira da saída da lei-quadro das regiões de turismo e de uma nova reformulação do mapa. Se me perguntarem se concordo que haja a fusão, ao nível do PROT, perfeitamente de acordo. Mas julgo que, se vamos dar um passo em frente, temos que pensar nesse passo em função de uma futura regionalização, a nível nacional. Mais tarde ou mais cedo, teremos de ir por aí. E, se vamos fazer reformas, porque não fazemos já tudo? Na agricultura, no turismo, na saúde… Porque o que não se admite é que ao nível do PROT fiquemos nesta região e ao nível de outro serviço fiquemos noutra região qualquer. Mas não quero ir muito por aí…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é uma região também muito sensível à pressão demográfica e económica: há agricultura intensiva, há poluição dos rios, há especulação imobiliária… Todo um conjunto de interesses que por vezes colide com a ideia de preservação do património, natural ou construído. Essa questão preocupa-o?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preocupa-me, claro, tanto mais que temos aqui uma série de reser­vas naturais: o estuário do Tejo, a serra de Aire e Candeeiros, o Paul do Boquilobo, os açudes de Coruche… Mas a preocupação e a preservação não podem ser só sobre essas áreas, tem que ser como um todo. Para haver um turismo de qualidade tem de haver um bom ambiente. Qualquer promoção de qualquer cidade ou de qualquer área tem de ter como suporte uma boa promoção da questão ambiental. Temos aqui o exemplo de Constância, que fez um trabalho excepcional junto às margens do rio. Tal como Vila Nova da Barquinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode dizer-se que o ano de 2006 foi bom para a actividade turística no Ribatejo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um bocadinho superior a 2005, mas, para o crescimento que pretendemos, continua a haver a necessidade de fortes investimentos na região. Um dos nossos produtos novos foi o golfe. Temos três campos de golfe, mas houve problemas com as autorizações do corte dos pinheiros e as infra-estruturas de apoio ainda estão paradas. Estamos a fazer promoção do golfe em conjunto com a Costa Azul – Região de Turismo porque não temos nenhum hotel na zona para os nossos três campos de golfe. Esse é um factor que inviabiliza bastante o aumento do turismo aqui na região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A procura turística é mais ou menos constante ou gira em torno de acontecimentos pontuais, como a Feira do Cavalo da Golegã ou o Festival de Gastronomia de Santarém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os eventos são extremamente importantes, são os picos de afluência nos concelhos. Mas não temos assim grandes quebras, ao longo do ano. Talvez o mês de Dezembro seja o mais fraco, já que é aquele que tem o menor número de acções, de eventos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses acontecimentos são o cartão­‑de­‑visita da região há muito tempo. E quanto a novos produtos turísticos, além do golfe, quais têm sido os últimos investimentos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um outro evento pontual que não mencionou: a Feira do Touro, em Santarém. É muito importante, atrai muita gente aqui, quase se fala mais espanhol do que português… Depois, há o cavalo. Já era um produto natural, mas tem tido uma aposta muito forte, em termos de organização de concursos hípicos, de criação de zonas de lazer específicas… O turismo de aventura e o turismo náutico também têm tido um grande incremento. Ainda são focos pequenos, mas têm vindo a ajudar a diversificar a oferta na região.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Festival de Gastronomia, uma ideia que lançou quando era ainda vereador na Câmara de Santarém, tem chamado milhares de pessoas, mas nos últimos anos trouxe também alguma polémica. A ideia de juntar a gastronomia tradicional com a contemporânea parece que desagradou a muita gente…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro que tudo, muito rapidamente: quando se avançou com o Festival de Gastronomia, em 1980, a minha grande preocupação era a preservação do receituário tradicional português, que então se estava a perder para os bitoques, os bifes, os hambúrgueres, etc. Ao fim de 25 anos, muito já se tinha contribuído para a preservação da cozinha tradicional. Por isso, entendi que havia novos rumos. E, porque se estava a criar um movimento mundial ­ao nível de grandes profissionais de cozinha – e aqui em Santarém já havia um rastilho – lembrei-me de fazer a mudança nesse congresso. Vamos dizer que somos defensores da cozinha tradicional, mas que também estamos abertos à modernidade, à cozinha de autor, contemporânea. A receptividade foi “de tareia”, no início, mas a adesão e as conclusões mostraram-me que podia continuar. O ano passado foi pior, porque quisemos também trazer os profissionais dessa cozinha de autor. Convidámos um grande chef catalão, Santi Santamaria. E aí já tive mais entraves do que há dois anos. Houve boicotes por todos os lados…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fiz uma comparação: se eu quero um excelente quadro de pintura, eu tenho primeiro que ter o artista, depois é que tenho o quadro. Se eu quero uma boa gastronomia, primeiro tenho que ter o cozinheiro. Mas não gostaram que eu chamasse artista ao cozinheiro e a contestação partiu daí… De qualquer modo, eu penso que tanto a cozinha tradicional como a de autor têm o seu campo. Podem juntar-se uma à outra e não é preciso haver brigas. Até porque, pela experiência que temos em Portugal, os grandes cozinheiros estão a trabalhar produtos tradicionais portugueses, só as técnicas é que são outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insiste nesse rumo para a 27.ª edição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, vai continuar. E como este ano o país convidado vai ser o Brasil, vamos ter como cozinheiro o chef brasileiro Alex Atala, que tem um restaurante excepcional em São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse foi o ponto de viragem mais importante na história do festival ou já tinha havido outros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizemos algumas viragens, porque foi necessário criar parcerias. A área da formação, por exemplo, foi extremamente importante, logo no segundo ano. Temos um acordo com o Instituto Nacional de Formação Turística, que se responsabiliza pela formação: primeiro, para jovens de Santarém, em cursos de mês e meio, e agora através das escolas de hotelaria. O ano passado, todo o serviço aqui do festival foi feito pelas escolas de hotelaria do país. Outra parceria importante é com as confrarias, que têm consigo a grande bandeira da cozinha regional e tradicional. Mas sem dúvida que, ao fim de 25 anos, a inclusão do tradicional/contemporâneo foi o grande choque… que eu penso estar ganho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque não um festival nacional que casasse a gastronomia com uma montra de vinhos de igual expressão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos tentado isso, mas só com os vinhos da nossa região. Depois, cada região traz uma amostra dos seus melhores vinhos. Não há uma exposição mais organizada. Penso que, mais cedo ou mais tarde, o festival terá tendência para ir por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que ponto estão novas propostas como o Museu Nacional de Gastronomia, em Santarém, ou o Museu Rural, na Golegã?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunte às câmaras… Eu só quero dizer que a ideia para o Museu de Gastronomia saiu do congresso que assinalou os 25 anos do festival. A Câmara Municipal de Santarém assumiu essa ideia. Agora, quanto ao resto, não me quero pronunciar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quais são então os principais investimentos e orientações para 2007, em termos de iniciativas privada e pública?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As nossas linhas de orientação estratégica passam por desencadear uma ampla intervenção dos agentes económicos da região, sobre a marca “Ribatejo”. Em termos de promoção externa, vamos prosseguir a política de parcerias com a Agência Regional de Promoção Turística. Vamos investir na produção de novos folhetos promocio­nais e de outros suportes informativos que permitam a divulgação de produtos como o turismo de natureza, a gastronomia, os percursos fluviais, o turismo equestre, a caça turística e a pesca despor­tiva. E vamos contribuir para a implementação de um Observatório Turístico para a Região, ou inter-regional, para que o sector possa detectar tendências, oportunidades de negócio e efectuar avaliações de performances internas e externas. Das principais intenções de investimento, dou como exemplos a aposta em cinco campos de golfe, em cinco concelhos diferentes, e a ampliação de várias unidades hoteleiras, assim como a construção de vários hotéis rurais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;A Região de Turismo do Ribatejo&lt;/span&gt; é constituída por 14 concelhos: Abrantes, Constância, Vila Nova da Barquinha, Golegã, Chamusca, Alcanena, Alpiarça, Almeirim, Santarém, Cartaxo, Azambuja, Salvaterra de Magos, Benavente e Coruche. Em todos se descobrem facilmente exemplos de uma história ascendente a tempos muitos antigos, deixados quer pela mão humana, quer pelas marcas da própria natureza. Estas são apenas algumas pistas para um possível itinerário de surpresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABRANTES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidade desde 1916, Abrantes foi fundada em meados do século XII e recebeu foral de D. Afonso Henriques em 1173. Da sua importância estratégica na defesa da linha do Tejo ficaram o castelo e a torre de menagem, talvez o melhor local para se ter uma vista panorâmica da região, já na confluência entre o Ribatejo, o Alentejo e a Beira Baixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Detentora de um património construído de grande valor, especial­mente representativo da arte sacra, a cidade guarda vários monumentos nacionais: a Igreja de Santa Maria do Castelo, a Igreja de São Vicente e a Igreja de S. João Baptista. Todo o centro histórico foi objecto de recuperação cuidadosa e merece, por isso, um passeio atento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O concelho também é rico no que toca a património natural, com destaque para a paisagem da albufeira de Castelo de Bode, em pleno rio Zêzere, abastecedora da região de Lisboa. O Parque Náutico de Recreio e Lazer e o Ecomuseu, em Martinchel, são duas das atracções da zona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, uma última referência para o lado mais doce da gastronomia local: tigeladas, broas de mel, limas, mulatos, castanhas, rebuçados de ovos, lampreia de ovos e, claro, a palha de Abrantes. De 1 a 4 de Novembro, a Feira Nacional de Doçaria Tradicional promove a maior concentração destas e de outras delícias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONSTÂNCIA/VILA NOVA DA BARQUINHA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Vila Nova da Barquinha a Constância, passando por Tancos, Praia do Ribatejo e o Arripiado, esta extensão ribeirinha do Tejo e Zêzere tem sido alvo de um grande esforço de recuperação, com óptimos resultados. A ideia é criar aqui o maior espaço de lazer e aventura do país, tirando partido das condições naturais para a prática de desportos náuticos e outros, já organizados por bastantes empresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revalorização destes dois concelhos fez-se também nos respectivos núcleos urbanos. Os amplos relvados e equipamentos lúdicos do Barquinha Parque, em Vila Nova da Barquinha, transformaram-no rapidamente numa concorrida área de recreio. Constância é, actualmente, uma das terras mais turísticas do Ribatejo, graças à sua pitoresca localização – no encontro entre os dois rios – e ao aprimoramento das ruas e do casario, sendo conhecida por “vila­‑poema”. Crê-se que aqui terá vivido Luís de Camões, uma referência evocada em vários lugares, embora não haja certezas rigorosas sobre o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O turismo de lazer e a gastronomia são o remanescente desta região que viveu praticamente dos rios e dos seus recursos, desde a pesca ao transporte de mercadorias e pessoas, passando pela construção e reparação de barcos. Em Constância, o Museu dos Rios e das Artes Marítimas guarda a memória dessa herança não tão longínqua assim. A poucos quilómetros de distância da vila encontra-se um dos mais cénicos monumentos nacionais: o Castelo de Almourol, de vigia ao Tejo desde o século XII.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GOLEGÃ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por todo o Ribatejo, a existência de coudelarias e ganadarias provam a importância dada à criação do cavalo lusitano. Porém, em nenhuma outra terra este culto atinge maiores proporções. Ponto de charneira entre o norte e o sul do Tejo, em plena lezíria, tornou­‑se um local privilegiado para a troca de cavalos e reabastecimento dos viajantes de outros tempos. Em Novembro, a Feira Nacional do Cavalo é o ponto alto de uma tradição de séculos que explica a própria história da Golegã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do património da vila, que ganhou foral de D. Manuel I no século XV, destaca-se a Igreja Matriz, dotada de um belo pórtico manuelino e de um interior rico numa das mais expressivas artes decorativas em todo o Ribatejo: a azulejaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontra-se nos limites do concelho a Reserva Natural do Paul do Boquilobo, uma vasta zona húmida atravessada pelo rio Almonda, fértil em vegetação e adequada a percursos pedestres. Entre os exemplares da avifauna, ali encontra refúgio uma colónia numerosa de garças, entre outras espécies raramente avistáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALPIARÇA/ALMEIRIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vizinhos da margem esquerda do Tejo, ambos com povoamento remontante à Pré-História, são concelhos essencialmente agrí­colas, núcleos de elevada produção de vinho, melão e tomate. De Almeirim vem a tradicional Sopa da Pedra, um chamariz quase sempre presente nas dezenas de restaurantes do município.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almeirim distinguiu-se nos séculos XV e XVI como estância de vera­neio da corte, desde o momento em que D. João I ali fez erguer um palácio, em 1411. Gil Vicente, Garcia de Resende e a Marquesa de Alorna contaram-se entre os notáveis que acorriam à região, gozando a pro­di­galidade da natureza e o clima ameno, o que lhe valeu o epíteto de “Sintra de Inverno”. Desse passado distinto pouco ou nada sobra, uma vez que o que restava do palácio foi demolido em 1890.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inaugurado em 2003, o Parque Zona Norte de Almeirim é o prin­cipal espaço de recreio da população, que desfruta ainda da paisagem natural da Barragem dos Gagos. Já no concelho de Alpiarça, é a Barragem dos Patudos e a Reserva Natural do Cavalo Sorraia (considerado o “cavalo primitivo” da Península Ibérica, hoje criado sob especial protecção) o que mais sobressai das benesses da natureza.&lt;br /&gt;No que toca ao património construído, é imprescindível mencionar a Casa-Museu dos Patudos, projecto do início do século XX, da autoria do arquitecto Raul Lino. Guarda um espólio magnífico que abarca todas as artes, desde a pintura à escultura, da tape­çaria ao mobiliário, da azulejaria à cerâmica, sendo local de visita obrigatória para quem passe por Alpiarça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SANTARÉM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Scalabis romana foi tomada pelos mouros no século VIII e reconquistada em 1147, tendo recebido novo foral de D. Afonso Henriques em 1179. Palco de reunião das cortes por 17 vezes, Santarém notabilizou-se como residência real, sobretudo nos séculos XIV e XV. As Invasões Francesas saquearam-na e destruíram parte de um património de valor incalculável, que já tinha sido severamente arruinado com o terramoto de 1755.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sede de concelho e capital de distrito, Santarém é conhecida como “capital do gótico”, tendência que se desenvolve em Portugal entre os séculos XIII e XV, sensivelmente. A sua influência detecta-se, sobretudo, na arquitectura religiosa, de que são exemplos a Igreja de Santa Clara, a Igreja de Santa Cruz e a Igreja da Graça, onde está o túmulo de Pedro Álvares Cabral. No entanto, o mais estimulante deste legado histórico verifica-se no cruzamento de estilos – mourisco, românico, manuelino, renascentista, barroco e neoclássico –, muitas vezes identificáveis na mesma obra, civil ou religiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros locais de interesse em Santarém incluem o Mercado Municipal, com os seus belíssimos painéis de azulejos, e o Jardim das Portas do Sol, sem dúvida o melhor miradouro para a paisagem tipicamente ribatejana. Se quiser combinar uma visita à cidade com algum dos eventos que esta acolhe, tome nota da Feira Nacional de Agricultura e do Festival Nacional do Vinho (Junho), do Festival do Tomate, Azeite e Alho (Agosto) e do Festival Nacional de Gastronomia (Outubro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais informações em www.rtribatejo.org&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Castelo"&gt;O CASTELO NO SEU TRONO&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carla Maia de Almeida&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/almourol.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Guto Ferreira&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meio caminho entre Constância e Vila Nova da Barquinha, uma pequena ilha sustenta o Castelo de Almourol desde o século XII. Doado por D. Afonso Henriques aos Templários, serviu mais para a vigilância do Tejo do que como estrutura defensiva, o que o preservou de maiores assaltos e delapidações. Classificado como monumento nacional em 1910, concorre ao título das 7 Maravilhas de Portugal. São as vagas de turistas que agora o dominam, para o melhor e para o pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Entre os anos de 1853-1854, Alexandre Herculano andou em périplo de reconhecimento pelo país, como comissário da Academia Real das Ciências. No início do percurso que o levou até às Beiras e ao Minho, fez-se à grande estrada que era então o rio Tejo, num dos barcos a vapor abastecidos a carvão que se arrastavam, pachorrentos, até à vila da Barquinha. A meio da viagem, parou para ver o Castelo de Almourol, cuja aparência lhe deixou a impressão da “proa d’um navio”. Mais de perto, notou “a inscripção da porta da cerca interior”, a “cruz do Templo sobre uma janela da torre de menagem”, “os cactos gigantes” e “as pelles de cobra supostas”, pormenores que não devem escapar a qualquer visitante actual e razoavelmente atento… Excepção feita às “pelles de cobra”, das quais não há vestígios. Em compensação, é frequente encontrar cascas de banana, pacotes de batatas fritas, caixas de pastilhas elásticas, garrafas vazias e outros sinais da incontornável presença humana, qual deles o mais indigesto aos sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um século e meio depois da passagem do autor de Eurico, o Presbítero não foi só o estilo arrevesado da linguagem que mudou. Ao castelo que ainda se eleva “n’um breve horisonte do seio de um cesto de verdura” chegam agora dezenas, centenas, milhares de pessoas. Está por fazer uma contabilidade rigorosa: podem ser 60 ou 70 mil por ano, podem ser mais de 100 mil. Aos pares, em família ou aos magotes, desembarcando de autocarros de dois pisos e ar condicionado, equipados com bonés ou t-shirts que promovem o que nem supúnhamos existir, aqui se exibe a democracia turística em todo o seu esplendor... O lixo não é o único reverso da popularidade de Almourol. No alto da torre de menagem sobram testemunhos escritos do apego dos portugueses ao património nacional. Num relance, ficamos a saber que “os fofinhos e os tchutchukinhos estiveram cá”, assim como a Catarina de Braga, a Joana de Leiria e o Manuel de São Teotónio. “Quando estive aqui pensei em ti”, escreveu a Carla Marisa; enquanto a Cris, mais dotada de poder de síntese, gravou a tinta branca “tadoro e tamo”, assinando por baixo. Pérolas epigráficas para os arqueólogos do futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A afluência de visitantes aumentou consideravelmente desde que o Castelo de Almourol entrou no rol dos 21 finalistas para a corrida às 7 Maravilhas de Portugal. É o pretexto para excursões temáticas promovidas por câmaras, juntas de freguesia, associações, grupos desportivos, empresas privadas de turismo ou quem quer que se lembre de tirar partido da ideia. Aos fins-de-semana, há filas compactas de gente a aguardar lugar nos pequenos barcos a motor que efectuam a travessia mais barata para a ilha, e que nem com boa vontade levam mais do que 12 ou 13 pessoas. Outras embarcações com maior capacidade fazem o passeio a partir do cais de Tancos, situado poucos quilómetros a jusante. Apesar do ritmo imparável dos barqueiros, os aglomerados são inevitáveis e o compasso de espera consegue transformar uma viagem de ida e volta num desespero. Estamos na Primavera e é o que se vê. Se Almourol tiver a felicidade (ou infelicidade) de ficar eleito entre “os sete magníficos”, a época alta que se avizinha promete entusiasmo de fazer inveja às invasões bárbaras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de Alexandre Herculano ter usufruído de um sossego incom­parável, hoje limitado aos dias de semana, e não em qualquer altura do ano, também terá encontrado o castelo bem mais maltratado pelo tempo. Não tanto pelas guerras, como sucedeu a outras fortificações medievais, mas pelo abandono e desgaste resultantes de quase setecentos anos de história, com os efeitos de um violento terramoto pelo meio. A invulgar situação geográfica – um ilhéu granítico em pleno Tejo – dificultou o acesso e salvou-o da ruína anunciada, como aconteceu com os seus vizinhos mais próximos, os castelos da Cardiga e de Ozêzere (Zêzere ou Santa Maria do Zêzere), também edificados pelos Templários. Comandados por Gualdim Pais, os monges-cavaleiros assumiram a reconstrução de Almourol depois da conquista por D. Afonso Henriques aos ­árabes. Sobre a porta que dá acesso ao recinto interior encontra-se o testemunho, inscrito em latim: “Na era de 1209 [correspondente ao ano de 1171], o mestre Gualdim, de Braga, que é cabeça da Galiza, edificou o Castelo de Almourol com os freires seus irmãos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achados arqueológicos certificaram a prévia ocupação romana; e é possível que outros povos habitantes da Península tenham ali feito o seu castro, aproveitando as condições naturais do terreno. Mas as origens recuadas de Almourol não obscurecem o essencial da obra dos Templários, incrustada na parte mais elevada do aflora­mento granítico. No total, a ilha mede pouco mais de 300 metros de comprimento e 75 de largura máxima. Além dos “cactos gigantes” já mencionados por Herculano, cresceram oliveiras, zambujeiros, aroeiras, freixos, choupos e salgueiros, além de vegetação rasteira e um canavial que serve de barreira de protecção contra as enchentes do Tejo. Entre as margens, nadam dezenas de patos bravos e alguns gansos, alimentados por um barqueiro dedicado aos animais que chegou a ter ali cabras-anãs e porcos do Vietname, até ser submetido a leis mais impositivas do que as da natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Visto de cima, o castelo tem a forma irregular de um diamante, com dois panos de muralhas exteriores dotados de ameias e adarves, os caminhos de ronda por onde agora os mais afoitos circulam. Adossados às muralhas, dez torreões redondos, diferentes entre si, compõem um jogo de volumetrias que a ligação aos materiais rochosos torna ainda mais interessante. Outro elemento curioso é uma terceira muralha que divide o recinto em dois, ligando-se à torre de menagem. Sobem-se os três pisos por escadas de madeira, alcançando o terraço sem grande dificuldade. Só a descida do primeiro lance, que deve ser feita “às arrecuas”, tende a baralhar os visitantes sensíveis a vertigens. Lá em cima, abarca­‑se a paisagem do rio entre as duas margens, com a linha do comboio da Beira Baixa e as povoações de Praia do Ribatejo e Tancos, a montante e a jusante. Compensa o esforço? Sem dúvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alexandre Herculano, para quem Almourol só rivalizava com o seu congénere de Santa Maria da Feira, não conheceu o castelo nos seus melhores dias. Tão pouco viveu o suficiente para ver o restauro executado no fim do século XIX, à luz de um romantismo tardio em que a exaltação dos valores da nacionalidade não escapou a alguns efeitos de cosmética espúria. No Inventário Artístico de Portugal, Gustavo de Matos Sequeira acusou as obras de afectarem “a seriedade arquitectural” do castelo, alegando: “O abuso dos chistos, material apenas empregue antigamente nas enchelharias, a preocupação de completar que não satisfaz o arqueó­logo e perturba a poesia, alteraram em muitos pontos a fisionomia do monu­mento.” Não seria a primeira nem a última das alterações. Nos anos 40 e 50 do século XX “outros reparos se lhe fizeram”, dessa vez, e ainda segundo Matos Sequeira, “com um plano melhor estudado e concebido”. Foi a época em que Salazar o exibiu como sala de visitas da Nação, jogando, num só trunfo, os pergaminhos e o pitoresco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidir os limites da intervenção no património edificado é uma questão que tende a gerar polémica, sendo o atraso e o adiamento alguns dos efeitos colaterais. Recentemente, o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) chumbou o projecto de musealização elaborado pelo Museu Militar de Lisboa, em colaboração com a Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e a Escola Prática de Engenharia, entidade que tutela o castelo, também conhecido por Prédio Militar n.º6. O segundo projecto, revisto, aguarda resposta do IPPAR há mais de um ano. Essencialmente, visa “melhorar o monumento sem interferir muito na sua estrutura, isto é, sem derrubar paredes ou fazer qualquer tipo de construção”, explica Pérsio Basso, do Gabinete de Informação e Rela­ções Públicas da Câmara da Barquinha. Significa melhorar os acessos, dotar o espaço de sinaléctica e instalações sanitárias, por um lado; e, por outro, criar condições no interior para a interpretação histórica. Por exemplo, construindo “uma estrutura em madeira, removível, para a recriação de ambientes medievais”, e “colocando figuras em fibra de vidro representativas da época: o taberneiro, o padeiro, o cavaleiro templário…”. Mais informação ao dispor do público, não só em texto, mas através de valências multimédia interactivas, é outro dos aspectos constantes no novo projecto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falta de informação in loco é acusada pelos visitantes mais atentos. À parte um painel metálico mal posicionado na margem direita, onde se lê uma breve resenha histórica, nada contribui para ­o conhe­cimento do Castelo de Almourol e das suas circunstâncias. Sem folhetos explicativos, sem visitas guiadas, a maior parte das pessoas dedica-se a uma espécie de pára-quedismo interpretativo, especulando sobre se “ali eram os quartos e ali eram as piscinas”, entre outras ilações imaginativas. Enquanto não chega a resposta do IPPAR, esta questão poderá ser minimizada a curto prazo, com a colocação de painéis informativos junto ao castelo. “Estamos a trabalhar nisso agora”, garante Pérsio Basso, sem querer adiantar datas concretas. A ideia faz parte do Parque Almourol, um projecto de valorização ambiental e cultural das zonas ribei­rinhas, em parte já concretizado, que envolve as câmaras da Barquinha, Constância e Chamusca. “O projecto de musealização do castelo está também integrado no programa do Parque Almourol”, conclui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As lendas e fantasias preenchem o que falta apurar de uma história fragmentada e cheia de hiatos no tempo. O Castelo de Almourol e o espírito do amor cortês figuram nas narrativas do Palmeirim de Inglaterra, um dos mais importantes romances de cavalaria do século XVI, escrito por Francisco de Morais, ele próprio cavaleiro e comendador da Ordem de Cristo (“herdeira” da Ordem do Templo, quando esta foi extinta). Outras tradições inscritas no imaginário popular reportam à época da Reconquista, e falam de amores proibidos entre mouros e cristãos, formosíssimas donzelas e alcaides cruéis, terminando quase sempre em tragédia. Como é natural, sobraram relatos de visões assombradas, incluindo a de um certo pescador que, à noite, se disfarçava com um lençol branco para afastar a concorrência. Não dos fantasmas, mas da pescaria… Isso, claro, foi noutra época mais ingénua. Quando nem todos os autocarros tinham ar condicionado e se passava uma vida inteira sem conhecer as Maravilhas de Portugal, e logo todas de uma vez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Italiano"&gt;UM ITALIANO EM LISBOA&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luís de Carvalho&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/pinamonti.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;On Shot Estúdio&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após seis anos à frente dos destinos do Teatro de São Carlos, &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Paolo Pinamonti&lt;/span&gt; faz um balanço da sua direcção. Das dificuldades que encontrou à obra realizada, Pinamonti conseguiu, apesar dos constrangimentos, colocar de novo o São Carlos na rede dos principais teatros europeus de ópera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Quando chegou ao São Carlos, que casa é que encontrou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui convidado no Verão de 2000, quase há sete anos, pelo então ministro da Cultura José Sasportes. Senti-me muito honrado com o convite porque o Teatro de São Carlos era, e é, no panorama lírico europeu uma das grandes casas de ópera, pela sua história, pela regular troca que teve ao longo de dois séculos com a Itália. Foi o primeiro teatro lírico da Península Ibérica. Vim cá visitá-lo em Outubro de 2000 e vi um teatro vivo, e com uma equipa de trabalho de altíssima qualidade. Percebi, depois da visita, que era um teatro onde se podia construir um projecto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que projecto é que trazia, ou foi moldando ao longo do tempo, para o Teatro de São Carlos ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creio que o meu projecto, no qual eu acredito, foi sendo desen­volvido desde os tempos em que fui director artístico do Teatro La Fenice, de Veneza, que terminou em Dezembro de 2000. Eu considero que o teatro lírico, apesar da concorrência dos DVD, do cinema, etc., está mais vivo que nunca. O espectáculo operático continua a ter uma procura grande por parte do público porque tem uma força comunicativa notável. Mas para que este se realize, considero que é importante que o teatro lírico ofereça ao público momentos de emoção e reflexão verdadeiros. E acho que só se pode chegar aí com trabalho relativamente àquilo a que eu chamo o “teatro de encenação”. Não é verdade que na história do século XX a ópera esteja morta, apesar de na literatura musicológica se tenha falado muito da morte e da crise da ópera. Há obras­‑primas que foram criadas no século XX fundamentais. E como é que este produto cultural se manteve vivo ao longo destes anos? Inicialmente, pelos cantores, ou seja, um cantor queria interpretar um determinado papel, e pela qualidade da sua interpretação vocal conseguia alargar o repertório. Depois apareceram os directores de orquestra. Os cantores e os directores de orquestra justificavam a permanência de um certo tipo de repertório. &lt;br /&gt;Nos finais dos anos 50, princípios dos 60, houve um fenómeno em que a encenação começou a ter a devida importância. Em Itália, isso aconteceu com pessoas como Luchino Visconti, por exemplo. Se no início do século passado a ópera foi considerada bafienta, hoje, pelo contrário, a ópera sabe que tem de falar para o público de hoje.&lt;br /&gt;Eu então tentei alargar o repertório, introduzindo obras que tinham sido injustamente esquecidas. Quando se diz que os séculos XVIII e XIX foram momentos de grande fôlego operático, esquece-se que noventa por cento dessas obras desapareceram – estiveram em cena apenas três, cinco, ou seis dias.... – é uma ignorância histó­rica pensar os velhos tempos como os melhores de sempre e que agora não é assim.&lt;br /&gt;Por isso apostei nessa ideia de “teatro de encenação”, no verdadeiro sentido da palavra, convidando encenadores como Herbert Wernicke, com o qual colaborei desde que cheguei cá, Graham Vick, Paul Curran, Luís Miguel Cintra, entre outros, para realizar espectáculos nos quais o aspecto visual e cénico soubessem “falar” ao público de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo que apostava na renovação do repertório, estabeleceu uma rede com outros teatros, nomeadamente da Europa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, esse foi um aspecto muito importante, pois achei que o teatro tinha que se abrir à cidade. Quando cheguei, para além da história desta casa, achei que a implantação urbanística do São Carlos era muito particular – estava um pouco escondido, parecia que tinha sido posto num canto, apesar da sua grande história. Tive a sorte de a anterior direcção ter solicitado a qualificação do largo e a minha chegada coincidiu com a abertura deste espaço, possibilitando a abertura do teatro à vida da cidade. Eu considero que um teatro lírico não é só o lugar onde se mantém viva uma tradição, que tem agora mais de 400 anos de existência, mas também um lugar de convívio, um lugar onde nos sentimos bem. Com a colaboração de várias instituições da cidade, como a Gulbenkian, a Culturgest, o CCB, o Teatro São Luiz, com quem fizemos muitas coisas ao longo destes anos. Mas também, e isso era essencial, repor o teatro na rede dos grandes teatros europeus. Construímos uma rede de co-produções e colaborações significativa. Ou seja, quando propomos algo a outros teatros, estamos num patamar de igualdade, pelo menos artística. Estivemos agora em Paris, nos dias 16, 17 e 18 de Fevereiro, dedicados aos Dias Europeus da Ópera, e a apresentação do nosso Rheingold marcou este encontro entre as grandes casas de ópera da Europa e Estados Unidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As co-produções que tem realizado garantem a circulação das obras pelos outros teatros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma premissa que é importante perceber. Na Europa há dois grandes modelos de teatro – há o teatro de repertório, como o alemão, que oferece ao público cerca de 200 noites de ópera por ano, com uma mudança constante das obras em cena, e que se caracteriza por ter um tipo “industrial” de produção. Há um sistema bem rodado com as orquestras, não é sempre a mesma a tocar. Mas isto precisa de uma estrutura sólida: sala de ensaio, palco tecnologicamente bem apetrechado, que permita a mudança de cenários de um dia para o outro. Depois, há um outro modelo, sobretudo nos teatros italianos, da Península Ibérica e em França, que são teatros de temporada – concentram-se as atenções na montagem de um dado espectáculo que estará em cena por um período de tempo. Neste sistema as co-produções permitem parti­lhar os custos de produção. O custo dos cenários, adereços, guarda­‑roupas é partilhado pelas entidades envolvidas, que depois acolhem a produção, mas que a realizam de maneira autónoma.&lt;br /&gt;São diferentes os modos de produção entre os teatros de temporada e os de repertório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual tem sido a receptividade do público? E acha que o São Carlos conquistou novos públicos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós triplicámos os assinantes.Desde que cheguei e até hoje, os assinantes triplicaram. Isso significa que fidelizamos público de modo muito significativo. Claro, há sempre qualquer coisa que fica para trás, nomeadamente na captação de público mais novo. Mas esse é um problema europeu. Em toda a Europa o público estabilizou na faixa etária 45-50 anos. Eu gostaria de baixar essa faixa etária. Seria necessário apostar mais nos serviços educativos, mas para isso seria necessário mais financiamento e outras estruturas que o teatro não tem. Não temos espaço físico, o teatro pouco se alterou desde a sua fundação. Repare, a única orquestra sinfónica da capital não tem um espaço de ensaio. Em seis anos não se encontrou uma sala de ensaio. O que faço aqui com os meus colaboradores, porque sem eles não faria nada, são milagres!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então que pode o teatro fazer para conquistar ainda mais público? Em que áreas deve investir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O teatro tem uma estrutura arquitectónica frágil, com uma sala de 850 lugares. Não se pode pedir a uma estrutura assim que seja tudo e mais alguma coisa. Eu quando cheguei tinha vários projectos. Percebi que tinha que investir num patamar – dado o passado deste teatro lírico. Ficam muitas coisas por fazer. Por estes dias (Dias Europeus da Ópera) abrimos as portas do teatro e o público acorreu. Encheu os concertos, a exposição. Significa que se nós pudéssemos fazer mais, o público acorreria às nossas iniciativas. Mas para isso precisaríamos de três condições. A primeira, um orçamento adequado a uma casa de ópera – o orçamento desta casa está muito longe da maioria das óperas da Europa. Se quisermos comparar o São Carlos, em dimensão e número de técnicos, coralistas, etc., podemos fazê-lo com o Teatro Comunalle de Bolonha, ao Teatro de Toulouse, a esse tipo de teatros. Mas em termos orçamentais, estamos muito longe deles, embora estejamos a produzir, em termos qualitativos, quase ao mesmo nível, se não mesmo superior, dado o reconhecimento do público e da imprensa internacional.&lt;br /&gt;Segunda condição (e isto teria de ser assumido por qualquer Ministério da Cultura), fazer obras a sério no teatro. Não é preciso um novo teatro. Precisa de uma intervenção para criar uma sala de ensaio, sala para concertos de câmara, equipamentos de apoio à estrutura que já existe. Apresentámos ao longo destes anos várias hipóteses reais, concretas. Seria restaurar uma das jóias arquitectónicas do país. Sei que cá não se podia fazer o que se fez com o La Scala de Milão, que foi fechado para obras de restauro e foi construído um novo teatro. Mas há maneira de contornar esses problemas. Apresentámos alternativas reais, exequíveis, para criar as tais condições de apoio ao teatro.&lt;br /&gt;Um teatro lírico não pode acolher tudo e todos. Daí eu ter privilegiado a apresentação de espectáculos líricos ao público e não desvirtuar o nome e a história desta casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui chegados, uma última pergunta. Qual é o sonho que tem para o Teatro de São Carlos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o São Carlos tenho um sonho, isso sim! É ter condições de trabalho para todas as pessoas que cá estão. Após estes seis anos, quero tornar público os meus agradecimentos a todos os que trabalharam comigo. Eu, enquanto director do teatro, não fui capaz de dar aos meus colaboradores condições dignas de trabalho. Têm todos um alto nível de profissionalismo. A orquestra conseguiu realizar concertos e produções líricas de altíssima qualidade, sem ter uma sala de ensaio. O coro trabalha numa sala pouco maior que o meu gabinete! Os técnicos estão sempre disponíveis para trabalhar em condições difíceis, num palco sem renovação tecnológica, que os teatros que estão a ser construídos em Portugal já possuem. Como o Teatro de Almada, por exemplo, que tem condições magníficas. A rede de cine-teatros, também. Aqui, eu não consegui oferecer aos meus colaboradores condições dignas. Por isso, quero deixar um agradecimento público que é profundo. Apesar de tudo isso, conseguimos realizar grandes projectos como A Valquíria, O Anel (que está a caminho) ou a Charodeika, que foi um momento alto, em co-produção com o Teatro Marinsky de São Petersburgo. Ou os ciclos de música contemporânea, que colocou o São Carlos no centro do interesse do público de Lisboa mas também da imprensa internacional. O sonho é poder continuar a trabalhar com esta equipa, mas conseguindo criar as condi­ções práticas num modelo de grande teatro aberto à colectividade. Criar as condições estruturais para continuar a trabalhar, como até aqui foi demonstrado que se é capaz. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="ZecaAfonso"&gt;JOSÉ AFONSO - A GEOGRAFIA DE UMA VIDA&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luciano Rocha&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/zecaafonso.jpg" border="0" width="400" /&gt;Ilustração &lt;b&gt;José Teófilo Duarte&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Título nenhum das obras que assinou – singles, álbuns, CD – reflecte como Cantares do Andarilho a vida de José Afonso, tantos os sítios por onde andou, desde, praticamente, a nascença, em Aveiro, até quase à morte, em Setúbal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este andarilhar, cadinho de experiências acumuladas, moldou­‑lhe a forma de estar no mundo, olhar os outros, escolher barri­cadas, recusando, sempre, bandeiras partidárias, optando, acima de tudo, por ser homem de causas, atitude, não raro, reflectida nas cantigas que fez e cantou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O deambular na vida de Zeca Afonso começou cedo. Com apenas um ano foi viver, ainda em Aveiro, com um tio – “republicano anticlerical e anti-sidonista” – por o pai, juiz, ter sido colocado em Angola. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem três anos passados, saudades de mãe fizeram-no ir ter com os pais. Viajou, de navio, entregue a um primo, em lua-de-mel, mais interessado nos prazeres nupciais do que na guarda do puto. Sozinho no navio grande, Zeca “adoptou” um padre – “esse homem era quase para mim um absoluto” – que transformou em “espécie de parente vitalício”, a quem chamava o “homem das barbas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais esqueceu a experiência, considerando-a a fase “mais marcante da infância”. Mas outra, que se lhe gravou, também, na memória, esperava-o, a mostrar-lhe um mundo novo, que ia além de Aveiro e do “homem das barbas”. No Bié, onde os pais viviam, conheceu África – “coisa imensa, uma natureza inaces­sível, que não tinha fim” – com as “grandes trovoadas, gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças”. O fascínio dessa liber­dade foi, porém, cortado ao fim de três anos. Voltou a Aveiro, embora por pouco tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A etapa seguinte do andarilho que começava a nascer tornou a ser em África, mas dessa feita Moçambique – de “novo o paraíso” – onde estavam os pais e os dois irmãos. Zeca tinha 8 anos e “sonhava nunca mais abandonar aquela terra”. Afinal, o pesadelo não demo­rou a chegar, abrindo-lhe as portas do inferno. No ano seguinte, 1938, regressou a Portugal. Destino: Belmonte – uma “terra horrível” – onde sentiu pela primeira vez os costumes da ditadura. Ficou em casa de um tio, presidente da Câmara, comandante da Legião, que o proibia de dar-se com outros meninos e lhe vestia a farda da Mocidade Portuguesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ambiente – “o ano mais desgraçado da minha vida” – tão diferente do que vivera em África, fez a 4.ª classe, o que lhe valeu escapar-se da “terra horrível”, do tio legionário, da farda da Mocidade e ir para Coimbra, para o liceu. Instalou-se em casa de uma tia. O cenário familiar era conservador, mas a cidade, apesar de tudo, dava-lhe liberdade. Foi por essa altura que começou a cantar em serenatas. Ainda era “bicho”– nome dado aos estudantes liceais – mas a voz livrou-o de praxes académicas. Mais ocupado com cantigas e boémia do que com deveres de estudante, perdeu dois anos lectivos. Resultado: entrou para a universidade só em 1949, já casado. Matriculou-se na Faculdade de Letras, em Histó­rico-Filosóficas. Concluiu o curso – feito de forma faseada, como aluno voluntário – 14 anos depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo meio, fez a tropa em Mafra, gravou discos, voltou a África integrado no Orfeão e na Tuna Académica, encantou-se e desencantou-se, nasceram-lhe dois filhos. Este último facto fez com que a boémia minguasse proporcionalmente ao dinheiro no bolso. Para se sustentar e à família, deu explicações, fez revisões no Diário de Coimbra e foi professor, ainda de capa e batina, num colégio em Mangualde, outra terra e vivência que o marcaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente no colégio – onde a “repressão era feita a pedido dos pais” (“José Afonso – o Rosto da Utopia”, de José Salvador, Ed. Terramar) – oposto à forma como via o ensino, não o fez desistir de ser professor. Essa paixão, que disso se tratava, levou-o a Aljustrel, Alcobaça, Algarve, Moçambique, Setúbal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A experiência algarvia, a par da moçambicana, foi, porventura, a mais proveitosa. Como professor, músico e homem. Em Faro deu aulas a adultos, muitos deles de Olhão – que “vieram a constituir a guarda avançada da LUAR”, organização armada anti-salaza­rista – de quem se tornou amigo e companheiro na luta contra a ditadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Algarve, disse, ficou-lhe o “convívio com os alunos da noite”, o “antídoto ao que tinha vivido em Coimbra”, e a “frescura das aulas” com crianças dos primeiros anos – os “seus improvisos, os seus desenhos animistas” – “altamente estimulante” para o trabalho musical. Em simultâneo, a constatação de dois mundos opostos: Faro, da pequena-burguesia; Olhão, dos trabalhadores. O primeiro, dizia, dos engravatados, o segundo, dos pescadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Algarve marcou-o, ainda, por outro motivo: na Fuzeta conheceu Zélia, companheira para o resto da vida. Viveu, então, uma “fase de euforia extremamente gratificante” e das “coisas mais felizes” da vida, com reflexos na criação musical. São desse tempo, entre outras canções, “Ó Vila de Olhão”, “Tenho Barcos, Tenho Remos”, “Ronda dos Paisanos” e “Grândola, Vila Morena”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, os filhos – mandados, anos antes, por razões económicas, para junto dos avós – estavam longe. Por eles partiu, em 1964, para Moçambique, mesmo sabendo que o esperava um meio que não lhe “dizia nada, o do branco colonizador”. Não se enganou: “se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial”. Ao fim de três anos, “por razões morais e polí­ticas”, voltou para Portugal. “Apostado em ser professor”, disse, à chegada, a Adelino Gomes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova experiência africana amadureceu-o – “o meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido” – mas abalou-lhe a saúde. Colocado em Setúbal, no liceu, quase não deu aulas. Um esgotamento levou-o a uma cura de sono. Ao ter alta, vinte dias depois, soube que fora expulso do ensino oficial. Para sobreviver voltou às explicações. O reverso da medalha deu­‑lhe mais tempo para compor e agitar consciências, numa altura em que a PIDE, polícia política, lhe proibia e interrompia espectáculos e a censura lhe cortava o nome. Os jornais que o queriam mencionar, escreviam José Afonso às avessas: Esoj Osnofa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O baladeiro de Coimbra dera já lugar ao cantor politicamente empenhado. Os palcos foram os mais diversos: Igreja do Rato, colectividades, fábricas. Muitas das actuações – “Nunca recusei convites e nunca perguntei que organização política estava por trás” – eram clandestinas. Como companheiros em algumas dessas andanças, entre outros, o galego Benedito, Camilo Mortágua – “um marco na minha vida política” – que conhecera em França, e José Jorge Letria, que nesta edição assina um texto a recordá-lo. Pelo meio, distribuiu “largamente o manual de guerrilha urbana”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cantor militante não se confinou às fronteiras portuguesas. Na companhia de Benedito estendeu, em pleno franquismo, a agi­tação à Galiza e às Astúrias, onde fez a música do “Venham Mais Cinco”. França e Inglaterra, além de Espanha, países onde gravou, são, também, pontos de referência na geografia de Zeca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do 25 de Abril, enquanto a saúde permitiu, continuou a cantar e a agitar consciências, alargando o mapa geográfico do andarilho. A Angola, que o fascinara em criança, voltou uma vez mais para cantar num país em guerra. Como sempre, escolheu a barricada. A José Salvador (“José Afonso – O Rosto da Utopia”, já citado), revelou: “Não estou em condições de analisar as contradições no MPLA, mas sou inequivocamente pró-MPLA.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao deixar-nos há vinte anos – 23 de Fevereiro de 1987 –, José Afonso legou­‑nos, mais do que a geografia de um andarilho, o exemplo de uma Vida. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;ZECA AFONSO NO ‘AI-PODE’&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Jacinto Lucas Pires*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos no tempo em que os números falam e, desta vez, o que eles dizem é que o disco José Afonso chegou ao número um da tabela nacional de vendas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sabido que os “números um”, como a tradição, já não são o que eram – ainda assim, não deixa de ser uma boa surpresa que ­o álbum mais vendido em Portugal seja uma antologia do autor de Grândola Vila Morena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nasci em 1974 e talvez por isso esteja mais à vontade para dizer o óbvio sobre a obra de Zeca Afonso: é indispensável retornar uma e outra vez a esta música e a esta voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música e a voz de Canção de Embalar, Cantigas do Maio, A Morte Saiu à Rua, Senhor Arcanjo. Retornar sempre ou, no caso das novas gerações e dos mais-que- -distraídos, escutar pela primeira vez, pela primeira vez arriscar o espanto destas palavras-melodias tão solitárias e tão populares, tão modernas e tão tradicionais, tão revolucionárias e tão de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste canto acha-se a qualidade do que é para lá do tempo sem ser pesadão de “intemporal”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio, a certeza, a ousadia simples e despida destas composições/interpretações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É difícil dizer ao certo o que é. Um mistério não matemático, que reage à análise. Uma coisa no centro que segura a emoção, e prende­‑a, prende-a até ao ponto óptimo. Uma voz que, sempre que acontece, “caem os anjos no alguidar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que parece ser a opinião dominante sobre o “legado do Zeca”, não vejo vantagem em separar o “génio musical” do “cantor militante”. Antes o oposto, talvez. Nesta época de tantos “jogos criativos” sem espessura nem pensamento, a seriedade do seu caminho – num contexto completamente diferente, já se sabe – deve servir como excelente aviso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São canções tão portuguesas, que ouvi--las é como nos ouvirmos ao espelho. Canções em que a “poética” do todo (palavra, música, voz) se organiza com tal justeza e generosidade que cada termo - mesmo os que, fora dali, surgiriam como tristemente “datados” - traz consigo uma hipótese de reinvenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com Zeca Afonso no “ai-pode”, vê-se melhor a cidade, garanto. Os outros, a diferença, o lado de lá deste mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;*Originalmente publicado no Diário de Notícias, de 09/03/2007&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;ZECA, MAIOR QUE O PENSAMENTO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;José Jorge Letria&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O Zeca foi-se embora há vinte anos, no mês de Fevereiro. Era um dia chuvoso e triste e a cidade de Setúbal veio à rua para lhe dizer adeus. Ele era da casa, de certa maneira era da terra, pois vivera ali uma parte dos anos mais criativos e também dos mais árduos da sua vida, magoado por proibições humilhantes, mas animado pelo fulgor da utopia que lhe punha nos olhos a alegria cintilante das grandes certezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zeca era um de nós, mas era, de longe, o melhor de todos nós, por ser o mais inventivo, o mais original, o mais rebelde, o mais apto para as grandes sínteses da memória que lhe permitiram fundir a dolência da música coimbrã com a vivacidade dos ritmos ouvidos e aprendidos em África, desde os anos longínquos da infância com um pai juiz em terras angolanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca o Zeca, contrariando uma tendência portuguesa e ancestral, se gabou do que quer que fosse, muito menos do talento que sabia ter, mas de que não queria nem sabia fazer alarde. Tal como Carlos Paredes, seu contemporâneo e, como ele, grande inovador estético e ético, Zeca Afonso achava que havia sempre alguém que tocava melhor que ele, que compunha melhor que ele, que cantava melhor que ele. E essa humildade chegava a ser comovente, por ser única e rara, e porque correspondia à grandeza moral e intelectual de alguém que acreditava estar ao serviço de uma causa, de uma ideia, de um povo e da sua memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, o Zeca não aceitava que dissessem que fazia espectáculos. Preferia chamar-lhes sessões populares, porque, com uma generosidade romântica, acreditava estar a servir o povo, ajudando-o a trilhar os caminhos da liberdade, que são sempre os mais agrestes e exaltantes. E que ninguém lhe dissesse que estava errado e que era preciso corrigir o rumo da bússola das suas convicções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque fui seu amigo e companheiro de cantigas, antes e depois do 25 de Abril, nas precárias condições em que nos pediam que cantássemos, testemunhei a sua capacidade de dádiva e de entrega plena, sem nada pedir em troca, nem dinheiro, nem honras ou pedestais. Ele era assim e assim foi até ao derradeiro instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a sua orgulhosa condição de cantautor não leve ninguém a es­quecer, a esta distância no tempo, que foi também poeta e grande leitor de poetas, desde os clássicos portugueses até aos surrealistas franceses, e também homem de muitas leituras e múl­tiplas medi­tações. Também disso nunca se gabou, que não era esse o seu estilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte anos volvidos sobre a hora do adeus, recordo, saudoso, o seu fino humor, o seu desprezo pelos acomodados e pelos resignados, a sua imensa criatividade, a sua paixão pela liberdade, e, relendo um poema que me dedicou na prisão de Caxias, em 1973, dou-me conta de como ficámos mais pobres e abandonados quando ele se foi embora, porque, com ele vivo e a cantar, todos nos sentíamos mais fortes para seguir em frente, fosse para onde fosse, ao som da sua voz andarilha e límpida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo a vê-lo à proa de um refrão cantado em coro, boina descaída sobre a nuca, avesso a elogios e consagrações, homem de palavra e de palavras, campeão dos valores que não têm preço, amigo maior que o pensamento. E por isso me apetece perguntar: acaso não estará doente um país que ainda não aprendeu de cor a liberdade do seu canto? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;a name="Santarem"&gt;SANTARÉM - Terra-mãe do festival nacional de gastronomia&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;David Lopes Ramos&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;img src="http://www.ddlx.pt/blog/santarem.jpg" border="0" width="400" /&gt;Fotografia &lt;b&gt;Maurício Abreu&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Começou, em 1981, o Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, que colocou a capital do Ribatejo no centro de um movimento que, passados 27 anos, se estendeu a todo o país. É curioso verificar que, ao fim destes anos todos, o Festival Nacional de Gas­tro­nomia de Santarém não só não perdeu a sua importância, como a viu crescer: as Regiões de Turismo esperam pela sua realização para concretizar a sua acção promocional mais significativa dirigida ao mercado interno; não há, actualmente, em Portugal, aldeia, vila ou cidade que não organize certames inspirados no que, todos os Outonos, faz da cidade escalabitana um lugar de peregrinação dos apreciadores da “santa trincadeira”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora sejamos um país em que se acredita muito em milagres, no caso do êxito do Festival Nacional de Gastronomia, ele é devido ao trabalho sério e persistente de um conjunto de pessoas que per­cebeu que tinha chegado o momento da cozinha tradicional portu­guesa. Certamente não por acaso, é de Janeiro de 1982, na Editorial Verbo, a primeira edição do livro de Maria de Lourdes Modesto denominado Cozinha Tradiconal Portuguesa, uma recolha de muitos dos mais significativos pratos, sopas, petiscos e doces das nossas cozinhas regionais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este movimento com matriz em Santarém teve também influência decisiva na proclamação, pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 94/2000, de 26/07, da gastronomia portuguesa como “bem imaterial integrante do património cultural de Portugal”. Mesmo que tenha havido alguma precipitação, como penso que houve, na decisão, uma vez que não estava feito um levantamento e fixação escrita do nosso património gastronómico regional, percebe-se a pressa do Governo da altura, do Partido Socialista, e do respectivo secretário de Estado do Turismo, Víctor Neto, na concretização da medida. Eles queriam deixar uma decisão para a história. Na mesma época, em França, o ministro da Cultura Jack Lang preparava os dossiers para candidatar a gastronomia francesa a património da Humanidade. E, deve dizer-se, que, atendendo à riqueza e requinte das cozinhas francesas, com destaque para as do “terroir” e da “alta culinária”, Jack Lang não exagerava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Os três mosqueteiros, que são quatro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada se faz sem o contributo de pessoas concretas e o Festival Nacional de Gastronomia de Santarém é um bom exemplo disso. Há um trio ligado à fundação do certame, constituído por Ladislau Botas, então presidente da Câmara Municipal de Santarém, Carlos Abreu, vereador, e Nuno Domingos, funcionário da autarquia, que criou as bases para a realização ter alcançado a dimensão e impor­tância que tem hoje. Há uma quarta personagem, Eduardo Leonardo, um ribatejano de todos os costados, uma espécie de relações públicas informal, de que muitos se lembrarão na RT como comentador de touradas, outros como colaborador de jornais da região ou do Jornal de Notícias e do Correio da Manhã, que foi fundamental para a popularização da iniciativa &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos Abreu mantém-se, após estes anos todos, à frente do Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, e deve dizer-se que não adormeceu à sombra dos louros conquistados. Embora perante a incompreensão de muitos, que têm uma visão pouco dinâmica e evolutiva quer do certame, quer da cozinha tradicional portuguesa, Carlos Abreu tenta, de há dois anos para cá, levar a Santarém, durante os dias do festival, alguns dos nomes mais conhecidos da cozinha contemporânea portuguesa ou que trabalham entre nós, como Vitor Sobral, Fausto Airoldi, José Avilez, Luís Baena, Vítor Claro, Henrique Sá Pessoa, Ljubomir Stanisic, Joaquim de Sousa, Dieter Koschina, Augusto Gemelli, João Paulo Vieira e Luís Suspiro, por exemplo, e também chefes de cozinha de fama mundial, como foi o caso, em 2006, do catalão três estrelas Michelin no seu restaurante Racó de Can Fabes, em Saint Celoni, Santi Santamaria, estando anunciada para este ano a presença do brasileiro Alex Atala do conhecidíssimo restaurante D.O.M., de São Paulo. Todos estes chefes de cozinha, que têm a particularidade de, muitas vezes a partir de receitas das respectivas cozinhas tradicionais, partirem para a criação de novos pratos, são grandes defensores de uma culinária que sublinhe as melhores qualidades dos melhores produtos. E também chamou à participação duas cientistas, Paulina Mata e Margarida Guerreiro, ligadas ao projecto Ciência Viva, e que têm feito um trabalho meritório designadamente na divulgação dos princípios da chamada cozinha molecular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carlos Abreu que também já teve, há uns anos, de ouvir José Quitério, o nosso mais influente crítico gastronómico, acusar o festival de ser um mero “encontro de comilões e beberrões”, está atento aos sinais dos tempos e, embora mantendo a matriz original da realiza­ção, em que se destacam os almoços regionais e pantagrué­licos no Salão da Casa do Campino, patrocinados pelas regiões de turismo, abre novas veredas, criando condições para a evolução sensata do Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, dando­‑lhe uma dimensão internacional que, até agora, não alcançou. Há uma enti­dade cujo papel se tornou, ao longo dos anos, cada vez mais impor­tante na dinamização do festival. Trata-se da Região de Turismo do Ribatejo, que tem uma boa ligação às autarquias regionais. Neste âmbito, destacou-se a acção desenvolvida em Coruche por José Labaredas, que, infelizmente, nos deixou cedo demais, que, desde sempre, associou aos concursos gastronómicos anuais da sua autar­quia, a realização de colóquios sobre temas da especialidade. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="#Topo"&gt;topo&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2098131296795889010-4448375839285004173?l=ddlx.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/4448375839285004173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2098131296795889010/posts/default/4448375839285004173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ddlx.blogspot.com/2007/05/nova-lisboa.html' title='LVT 5'/><author><name>DDLX DESIGN</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
